balada para uma mulher
Havias de erguer um mundo novo para mim, mulher, que eu já vou morrendo neste por tudo, a alfinetar desgostos e frustrações nas frinchas que as paredes à minha volta vão abrindo, solícitas, pacientes e acolhedoras dos tremores com que vivo. Vem um vento, manso e quase morno, desarticulando-te o penteado em suavidade, e eu desperto ronronando como felino, num espreguiçar atento ao movimento perfumado da tua melena. Eu, que queria morar nos teus lábios como quem encolhe o rosto numa ternura infantil, amordaçado continuo sobrevivendo nos sonhos onde supostamente nos pertenceríamos, embora em redoma e inalcançável como os santos a quem se reza por mistério. Desvias o arrepio da tua pele sensível à primavera mal-nascida na polpa dos meus dedos, tão desnivelada quanto ao que sinto, que me questiono se é na mesma latitude que nos vemos, ou se serás espectral aparência de quem tanto deseja. Poderia simplesmente dizer-te o que quantos amantes dizem às suas amadas em afã epistolar. Mas, como vai...