fantasia
Canta, canta uma esperança Canta, canta uma alegria Chico Buarque , Fantasia Erguiam-se as manhãs e o sino badalava para anunciar um mundo para lá deste quarto escuro, rejeitando a parição da aurora e o meio-dia esclarecedor. Badalava o sino vezes sem conta ou conta que nunca quis fazer, já que nada devia à manhã ou à tarde, que nada me interessava o tempo, fingindo-me de morto, sem dar conta das horas que sobravam para o render de outro dia. Não estava, não procurava saber de coisa alguma, e o quarto continuou poroso e sombrio. Hibernando cada ano, tolhido pelas geadas e ventos frios, entorpecido com a escuridão dos dias de chuva, introvertido na existência sem preocupações futuras, apenas remoendo os acasos que fizeram da minha vida um manto de retalhos. Então, surgiu o teu olhar a dar-me novas razões. Abri os olhos e vislumbrei um aceso findar do dia, feito Noé ao cabo de catastróficas tempestades. Entreabriste os lábios e sussurraste: Vê! Era o pôr do sol, ao fim dos anos, dos dias...