o teu poema
dedicado inversamente Compões o teu poema enquanto a janela dita que só cá dentro terás conforto. A gata ao teu lado começa a ronronar, com corpo e membros estendidos a agradecer a tua decisão. As notas graves e agudas da música que ouves sobem e descem perpendiculares ao papel onde rabiscas – imagino, que pouco percebo desse engenho de escrevinhador – acompanhando o movimento da sombra entre o teu cabelo e o teu olhar. Olhos pestanudos e grandes tens, com o tom da terra que amas desde infante. Marcado o ritmo, já não sei sair daqui, e ficas distraído a dizeres que é apenas um rascunho, e eu respondo, citando-te, que a poesia não se urde assim, não é como quem fecha os olhos e estende os dedos na escuridão, supondo que as palavras hão-de guiar a mão delicada que as saiba tocar. A música que ouves tem o mesmo acorde da chuva lá fora. Um acorde que, embora não te impeça de sair, pede-te sempre para que aqui fiques. E sabes que sou eu a gata, com o olhar felino implorando o nicho dos teus...