baço
Então é o mundo que desaba, acabando. O telefone interrompe o silêncio súpeto da tarde. Más notícias, disseram, e outros ruídos vão inundando a tarde pendente, muito aflita. Lá fora, as cordas do estendal vibram um acorde baixo, tensas que estão pelo vento. Não saio daqui, vou a lado nenhum. O piano chora, comprometido pela exaustão das cordas sob os seus martelos. Tu estás muito longe, nesta ameaça. Não vieste para socorrer-me das lágrimas com o teu ombro posto. Declaraste-te independente de mim, e agora vais viver por ti mesma, mesmo que sofrendo sob a outrora atitude de outros. Imensa de raiva no teu baço olhar, procuras apenas prazer, nenhum equívoco de amores. Serão apenas outros homens, que te satisfazem do que eu não soube ou não pude – outras vezes, não quis, sequer.
Razão por que choro de mansinho, se é que realmente choro. Pode ser o piano, pode ser o vento vociferado, podem ser as cordas que me estrangulam a garganta, com tanto isto de ti que aconteceu, de que só vejo penumbra, um crescente escuro tão ameaçador como martelos troando. A visão começa a processar lentamente, lente de uma antiga câmera de luz cansada. Borratões no texto como os borbotos de um tecido de lã agastado. Nas beiras de uma pedra, duas ovelhas focinham, lamentando o chão pisado e estéril. Que há para comer? O pão roído, bolorento, numa teimosia de reflectir o enovelamento das nuvens. Céu largo e horizonte cortado.
Quero sair daqui, embora me quede a vislumbrar os últimos momentos da luz. O dia que se esvai. Quero sair daqui. Mas, onde está a tua mão? Onde está esse teu fruto silvestre, agridoce como o sangue? Para quem agora defines o pasto de feno dos teus seios? Outras mãos que não as minhas… e que outra língua em vez da minha? As minhas unhas continuam com o apetite do mosto do teu corpo. Para onde foste? Acaso estarás também tu grafando o predicado caído desta tarde? Pesa-te o tampo da mesa num outro vale perdido, nublando com o vento? Para dizer as razões de um simples poema?
Enquanto me sucedo na vontade de correr e nenhuma perna mexer; é só a ânsia de te rever sem nenhum crepúsculo colorido para te saudar, apenas a cinza das nuvens, mostruário do meu cinzeiro sublimado. É tarde para o lamento feito lama que, com a chuva caindo, produz sobre o que sobrou do pasto das ovelhas, erva como pão esfarelado, o texto poluído sem que o piano consiga pelo menos contrariar o violoncelo do vento entre os fios do estendal lá fora. Lá fora, longe do meu quarto de onde eu não quero sair se tudo contraria a vontade de te ter. Para as lágrimas e para o sufoco.
Os teus ombros servem agora para outros soluços, ou grunhidos de bestas que cuidam do teu corpo apenas como carne. Que, pudessem eles, o desmanchariam, como a suculento porco em festa de braseiro entre cerveja. Portanto, o meu soluço só serve para mim, é surdo. Todo o teu corpo vibra sob essoutros corpos diferentes do meu. Ter-te agora seria sentir o equívoco da morte, embora quisesse por última vez os nossos corpos juntos, esquecendo telefonemas com más notícias. Resta ao meu corpo e ao meu espírito lamentar por este desperdício, os anos vividos e de repente finados, sem significado. Por te ficares onde estás, ignorando-me, acolhida pelos instintos básicos de machos.
E eu baço, enquanto tu resignada a devolveres valsas a esses teus amantes avulsos, convicta de que o mundo desaba, acabando. Más notícias, disseram, mas acabei por destruir o telefone. O teu pensamento já não discerne. A tua voz gutural sob a virilidade sem poesia cobre tudo de ti, o teu corpo contrário para projecções de amor. As que eu tinha, as que preferiste ignorar, por poluto momento nosso. Que valia tem um coração pulsante perante palavras e actos impulsos? Tu o dirás, se preferes o teu ventre violado por quem te quer apenas como objecto circular, macio. Porém baço, vazio do amor que conheceste em mim. Baço me fazes, baço é o teu destino.
texto sujeito a edição
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(foto de autor desconhecido)

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