dezanove
Atormentas-me com isso de escrever para alguém como se fossem palavras tuas, apesar de usar as minhas, e insistes tanto que quase me sinto na mesma obrigação de
– Tiras-me o relatório diário das vendas, por favor?
e sabes muito bem que não é assim, nunca foi. Não sou escritor, sou apenas um administrativo, examinando ou executando relatórios de contas como tu. Continuo escrevendo apenas nas horas vagas, e o que posso. Soubeste, porque te disse, que alguns colegas de escola me pediam poemas dedicados a alguém, e eu os escrevia.
Naquela escola secundária perto de uma biblioteca municipal, mesmo ao lado, ambos os edifícios eram separados por um pequeno jardim, com um lago ainda mais pequeno, onde à beira se sentavam casais a mordiscar-se no pescoço, as gangas roçando… e esses colegas encomendavam-me poemas para oferecer às namoradas. Eu, sem saber dizer que não, pegava numa folha e escrevia a maior tolice lamechas que me viesse à cabeça.
Escrevia no papel que me sobrava, que era o quadriculado que não usava para a disciplina de matemática, de que perdi as bases, porque a matemática, nessa altura, nada significava para mim, pelo que, era o papel quadriculado apenas semelhante à calçada do jardim onde casais roçavam as gangas e mordiscavam-se no pescoço… ou então outros solitários, como tu, velando a água parada e suja do lago em frente do edifício da empresa onde trabalhamos, observando o crescimento das árvores.
De modo que, os colegas apaixonados, esperando um dia deixar o lago parado e sujo e esse mesmo crescimento das árvores, suspirando por um pescoço que pudesse ser mordiscado, e ganga roçando, pediam-me
– Tiras-me o relatório diário das vendas, por favor?
ou seja,
– Escreves-me um poema como se fosse para fulana?
Eu sem saber quem era fulana, entendes? Ou seja, como escrever algo para alguém, um poema, uma quadra, um simples verso que fosse, se pouco ou nada sabia dela? Se parco sempre foi o meu engenho para escrever, menos jeito tinha para escritos de encomenda, tal como não me é possível escrever o quer que seja, no blog de medíocre escrevinhador onde me descobriste por acaso… não sou capaz, já to disse, tenho sempre as palavras atropeladas, engarrafadas. E não sei decifrá-las.
Se nem sei bem o que escrevo para mostrar a meia-dúzia de internautas que, por amabilidade, me vão lendo naquele blog, que coisa poderei escrever por pedido teu? O que ainda escrevo tem de me sair dos olhos, das mãos, e do suor – acredita, do suor – sobre o que observo, sinto. E isto que me pedes parece-me a quantas vendas em relatórios no quadriculado do Excel eu e tu resolvemos apresentar… eu, que nunca gostei de papeis quadriculados. Sim, era muito jovem quando me pediam
– Escreves-me um poema como se fosse para fulana?
e eu, já a engendrar qualquer patetice, apenas rasgava uma folha do papel quadriculado, já que a matemática não o gastava. Naquela altura, pura e simplesmente ignorava os números. Os professores faziam a chamada pelo número do aluno e não pelo nome, e quando questionavam 19, o 19 ausente, o 19 sem resposta, sem voz, 19 repetiam e eu sem saber, ou fingindo não saber que o 19 me era destinado.
(anos mais tarde chamaram-me para uma cirurgia, e a enfermeira, indicando-me o fundo de um corredor branco,
– A sua cama é a dezanove.
mas eu não respondi, não sabia que o dezanove, que a cama era para mim, eu sem responder à chamada da enfermeira, enrolada em papeis quadriculados de exames ao coração que não eram os meus, nos gráficos das análises, e eu que nem sequer tinha sido visto pelo médico, a enfermeira como se tivesse um livro de ponto, apontando o fundo do corredor,
– A sua cama é a dezanove)
De modo que, bem vês, o 19 nunca foi o meu nome, apesar das coincidências.
Os poemas que me pediam saíam-me sem qualidade, sem sentimento, desencontrados, pareciam escritos para uma parede branca – uma fulana? – um nada mais invisível que o próprio nada. No entanto, alegravam-se os que me encomendavam esses escritos
– Está bom, perfeito, obrigado, vou entregar-lhe!
da mesma forma que tu também gostas do que escrevo. Porém, garanto-te que, quando o faço porque mo pedes, é como se fosse a chamada ao
– 19
ou o chefe pedisse
– Tiras-me o relatório diário das vendas, por favor?
Pelo que não sei bem responder à tua chamada ou ao teu pedido. Perco-me à procura do papel quadriculado de que nunca gostei, para escrever para um nada mais invisível que o próprio nada, e tu
(talvez pensando no pescoço mordiscado, a ganga roçada ou outra veste dessa a quem queres iludir)
- Mais 19.2% em margem de lucro, foram óptimas vendas!
É isso que queres? Dá a quem amas as palavras tuas, nada peças por intermédio. Olha, confesso-te: nada peças a quem já não acredita nisso do amor. Sequer pescoços mordiscados e rangas roçadas. Foram outros tempos. Deixa de me atormentar com isso, por favor.

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