vapor de lume
Tijolo nu, betão no chão, era um lugar de virgens paredes pouco comum, janelas ainda só pensadas, aberturas por onde entrava a maresia. Tudo invulgar como se fosse muito cedo, e por isso ainda hesitaram: queres, perguntavam-se, queres mesmo, insistiam; e queriam, ambos queriam aquela primeira vez, entre sombras e intermitências de luz, o pó dilatado no chão como cama fértil. Mãos, braços, bocas, lábios. Línguas. Peito contra peito, ventre contra ventre.
Logo cresceu. O delicado músculo e a esponja cavernosa inflada de sangue. Sem frio algum, nem gota. Cresceu tanto que se fez maior do que o prometido, de tão rígido no limiar de uma dor. Parar a tarde, luz de janeiro feito de oportuna ocasião, rostos rubros. Mamilos delicadamente túrgidos, com o lábio mordido por desejo de sangue como quem trinca um morango fresco. Saciar sede e fome. Saciar o que sentiam, amparar a ansiedade daquele encontro a dois, numa casa em construção, cancela aberta para a tentação.
Outra humidade, muito quente, que oferecia total envolvência, era como um abraço maior dos corpos que se queriam unidos. Ele entrou nela, tolhido pelo convite do olhar que o apelava, e foi como tubérculo adentrando o brando mosto da terra. Criando raízes, as emocionais, estreitando os laços. Nasceram gemidos que desconheciam saber suspirar. Sem dar conta que o crepúsculo estava a acontecer, tudo amadureceu quando foi engolido o sémen com sabor a ternura, jáculo pelo calor e a vapor de lume, acre odor da terra pelas raízes. Aconteceu inconsequente, mas natural e com muita satisfação, poucos minutos antes das cinco da tarde daquele janeiro muito frio.
Saíram depois, com um misto de vergonha e enorme comoção dos seus jovens corações. Saíram com passos mais ligeiros, as faces ainda mais enrubescidas do que quando entraram, um fogo contra o frio que se adensava. Sabiam que teriam de separar-se, contrariando os dedos das mãos enlaçados. Porém, não se separaram sem antes terem sorrido juntos ao risco laranja no horizonte, como se ainda esperassem fruto prometido que, desde então, jamais seria proibido.
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foto de Alexander Savlukov

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