fantasia


Canta, canta uma esperança
Canta, canta uma alegria
Chico Buarque, Fantasia


Erguiam-se as manhãs e o sino badalava para anunciar um mundo para lá deste quarto escuro, rejeitando a parição da aurora e o meio-dia esclarecedor. Badalava o sino vezes sem conta ou conta que nunca quis fazer, já que nada devia à manhã ou à tarde, que nada me interessava o tempo, fingindo-me de morto, sem dar conta das horas que sobravam para o render de outro dia. Não estava, não procurava saber de coisa alguma, e o quarto continuou poroso e sombrio. Hibernando cada ano, tolhido pelas geadas e ventos frios, entorpecido com a escuridão dos dias de chuva, introvertido na existência sem preocupações futuras, apenas remoendo os acasos que fizeram da minha vida um manto de retalhos.

Então, surgiu o teu olhar a dar-me novas razões. Abri os olhos e vislumbrei um aceso findar do dia, feito Noé ao cabo de catastróficas tempestades. Entreabriste os lábios e sussurraste: Vê! Era o pôr do sol, ao fim dos anos, dos dias, das horas. Com o teu olhar. Deste-me o pôr do sol, eu procurarei dar-te o luar.

O teu beijo me fez renascido. Renascido finalmente para reaprender contigo o significado da cumplicidade e da partilha. Foste salvação nesse efeito de luz do pôr do sol que me ofereceste, ponto de partida para um anoitecer com esperança de amanhã, a primeira madrugada do mundo por me ver acolhido no teu regaço, quimera tão minha, meu afecto de sempre, meu amor. Enovelo-me no teu abraço e o mundo perde-se, extinguem-se as estações do ano, faz sol quando chove, ardo em calor se são de neve a chuva e o vento, abrem-se jardins entre o betão da cidade, todas as pessoas são felizes ainda que carreguem semblantes pesados.

No teu colo regresso à infância, sem conhecer vivalma de má-fé. És o meu escudo protector, o paredão contra o mar irado, a duna que me protege do vento norte. Em cada beijo teu há uma flor aberta, as tuas carícias são como as plumas das aves pequenas. Sou hoje em ti, perpetuado e sem idade, inaugurando o mundo a cada suspiro do teu peito. E quando mergulho no teu olhar não há penumbra, porque os teus olhos brilham como candeias, ou é todo o céu estrelado nas noites frias, a guiar-me a caminhada.

Sou pobre sem ti. Não tenho nome na tua ausência. Os teus cabelos abrindo brisas de maio sobre a almofada. Bebo do teu peito a claridade da manhã. Eu em ti. As minhas lágrimas por ti. O meu corpo por ti. O meu sangue por ti. Encontraste-me, quero-te. Não sei o que fazer se tu não estás. Quero ser a cor dos teus dias.

Entreabres os lábios, devagarinho, como uma primeira carícia. E o sol desponta, brilha com o teu sorriso, que enverdece os prados, que aquece a semente, que acalma as marés. Quando sorris o teu olhar enternece-me, comove-me no seu mistério, na cândida maneira de seduzir. Tens o amor dentro de ti como nascente de água, borbulhando de ansiedade por conhecer a terra e abrir sulcos profundos no solo.

Decidi ser o teu leito e tuas margens de rio. Deixa que sejam agora os meus dedos a conduzir-te. Vou estar aqui, sempre, a velar o teu silêncio. E quando enfim eu abrir a janela, a primeira brisa que sentirás no rosto será o beijo que os meus lábios, irrequietos, guardaram para te dar os bons dias e convidar-te

- Vens comigo?


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foto de Hamze Dashtrazmi

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