diálogo à cabeceira do sonho
Quando as emoções se transformam em palavras,
milhões de palavras preenchem o coração
como milhões de estrelas preenchem o céu.
Sílvia Costa
– Contigo, o amor é simples. Nenhuma flecha que faça sangrar alma e corpo. Comungamos, tácitos, a nunca-cristalização daqueles que, à distância e em sonhos, se amam. Quando troveja, sinto que são as tuas mãos sobre o meu corpo, apelando. E, depois desse troar, as águas que caem são os meus dedos afagando o teu segredo, precipitado como a precipitação das nuvens sobre a terra. Também quero os teus outros segredos, confissão que só a tua boca pode revelar, enquanto a imagino tão cheia de mim, em êxtase. E quando sobre ti ocorre o meu humor de terra, é a minha saliva que inventa o rio que te sacia. Meu amor, que distância há?
– Nenhuma, meu querido. A minha dedicação não concede distância, nenhuma latitude ou longitude. Quero-te leve na pena, exorcizando livre essas polutas sombras, enquanto te imagino pesado no corpo como amante atento às delicodoces artimanhas desta que se faz tua almofada, e almofariz para as estreias que as tuas poções de amor me concedem. As palavras transformadas em actos que tanto desejei.
– Cada uma das tuas palavras, na tua paciente poesia despedida de propósitos, almejei-as eu, por tantas e diversas vezes desejar que nelas dissesses de mim, independente da fronteira que nos quer separar... tanto mar, tanto mar entre um toque.
– Contigo, amar significa não haver fronteira. Ainda que, por vezes, também irrompam sobre mim as mesmas dúvidas, como sombras a ocuparem o território dos sonhos contigo.
– Dúvidas que nos forçam a migrar entre lençóis que não são os nossos.
– Obrigações outras, o rumo da vida com esses insólitos. Mas, insisto, quero-te leve na pena. Que escrevas de mim contigo o que eu não pude, soube, ou simplesmente reprimi.
– Serei sempre leve na pena, alado que me fazes para visitar os céus dos meus ancestrais mestres. E não há má fortuna que me obrigue a estar só nessa viagem, pois que sempre te levarei comigo nos meus sonhos-dentro. Cortaremos qualquer ar que nos enfrente.
– Ar que me parece faltar quando te imagino adentrando-te em mim. E eu, logo depois, sentindo que, afinal, de nenhum ar necessito, se todo tu me fazes respirar de vida. Como qualquer deus que, da argila intemporal, ditou todas as epopeias humanas, todas as quiméricas histórias de amor. Sou aquieta das amarras e sinto-me agora livre, como sempre havia de ser. Vem!
– Vou!
– Assim agora te espero, rendida por convicção para, uma outra vez entre tantas, abrires o meu corpo e conceberes o verbo em mim por tanto tempo esperado. E que se soltem as barragens dos rios, abram as suas margens, pois farta será a água que, de ambos unidos, brotará!
– Que os céus nos perdoem a nossa concorrência, e nos afastem da ardência de infernos.
– Mesmo que não perdoem: que fogo há melhor do que este, quando tudo arde?
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(foto de autor desconhecido)

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