cancro, um espinho


Fungos nas paredes como mal-curadas feridas, entre jovens cicatrizes. Quantas dessas feridas ainda abertas com sangue abreviado, e de quantas semanas, ou meses, foram necessárias até que um espinho tivesse surgido em relatórios oficiais passados por estenografia? Coisas do pensamento a efabular, que ninguém virá a responder. Da adenda nos hospitais, foi declarado o óbito, em certidão contraditória sobre todas as expectativas e esperanças de que tudo se cura. As equipas médicas, toda uma enfermagem consternada: as análises já diagnosticavam, confirmavam tudo, disseram. Uns com ar de piedade. Lembrando as palavras que prenunciavam o que era inadiável. Depois? Nada mais que música alta, fazendo por esquecer, com o acorde do baixo numa lamúria ensurdecedora. Pancadas mais sonoras do que a aflição dentro do peito. Como o rugido que vem de longe, do mar fero. Ondas que chegam à praia tudo inundando com a mesma força com que são feitas as homenagens vãs, familiares de tão longe a dar pareceres com meneios da cabeça. Mais o tormento da insistência de dias plúmbeos, toda a semana. Amanhã será um outro jejum de luto. Voltar depois ao quotidiano que entedia. E ficar semanas e meses a fio vendo contos, ditos, e filmes de hollywood. Os piores são os que mais distraem, estando ainda a ferida aberta, bem aberta. Depois, o tempo, esse que urde o esquecimento, entre afogos na embriaguez, a sustentar a mágoa para uma sarjeta qualquer. Como se nada fosse, mas toda a vida sem descanso algum.

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