lenda do misógino que procurava afecto
Contexto:Soube de uma história do princípio do séc. XX sobre um homem muito narcisista, que nunca casou e sempre viveu só, devido à sua misoginia. Porém, já na sua velhice, cansado da solidão, tentou procurar o afecto das mulheres que desprezava, pelo menos carinho e ternura, sabendo que só nelas existia. No entanto, sempre que alguma cedesse ao seu capricho, a maltratava, violentava com actos e palavras, o que fazia com que acabasse abandonado. Então, a sua única opção foi recorrer a prostitutas. Não pelo sexo - que já não tinha vigor masculino para tal - mas para ter esses momentos - no mínimo, de apego, que tanto procurava na sua velhice. E se decidiu por prostitutas, foi porque essas, sendo pagas, faziam o que ele queria, não reclamando do seu mau feitio. Porém, segundo diz essa história, a última prostituta que procurou só o era por uma razão de sobrevivência. Uma mulher que, fora a opção que tomou, escrevia quadras que cantava ao jeito do fado, muitas vezes num canto lamento por ter sido obrigada àquela vida e pela injustiça dos maus tratos daquele velho, apesar do seu esforço para dar a ternura que ele procurava. A história depois acabou em tragédia, em que o velho a matou a murro e depois se suicidou - não pela culpa do homicídio, mas por tão só não suportar a solidão. Relembrei esta história ao observar a foto de Henri Senders, daí o subtítulo para este poema.
poema para foto de Henri Senders

Não é por ti o poema que se levanta,
não é para ti que o verso ganha vida.
Do que és, que o rancor desencanta,
a matemática do amor não lida.
Enuncias o cálculo, preço e problema,
mas não és sequer a rima
com que ela pensou o poema.
Insidioso em cada gesto gasto,
buscas na carne fêmea teu sustento;
mas sendo ela o porto,
tu és o desastre,
velho e sôfrego,
num corpo lamento.
Desejas o afago, ternura e desejo.
Só trazes veneno
no teu bafo e beijo.
Perdeu ela a beleza
na tua mão pesada,
tu que lhe ralhas à cama
onde ela quis dar-te guarida.
Pedes depois comiseração,
sem nunca dares nada,
nada senão a desgraça
de uma alma ferida.
E se ela diz que te ama,
nua e serena, é a voz da fome que encena.
O fado ela canta num lamento
choro de quem se vende por um pão;
enquanto tu, gordo, de brio despido,
reclamas de tudo, já sem ter tesão.
Não haverá canto
que te faça nobre:
morrerás velho rico
que de amor sempre foi pobre.
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foto de Henri Senders
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