verborreia


Não consigo escrever: tudo se amontoa à boca do pensamento, cheio de ruído, congestionado por preocupações e más vontades contra mim. Não encontro outra posição senão a cabeça amparada sobre a palma da mão, numa atitude de

(foda-se lá isto)

de indiferença, com os lábios tortos de cansaço. Os olhos deixam-se levar pelo peso das pálpebras e vou quase chegando aos sonhos da vigília onde a realidade se transforma em algo confuso e cada vez mais distante.

Desperto com o roncar furioso de um carro na rua, salto para a janela e fico a observá-lo: bicho preguiçoso de focos espetados a assomar na curva, a rua sobe e o bicho barafusta, com as suas ventas de pistões e escape perante o declive que lhe faz perder a velocidade; o condutor resigna-se à redução de segunda para primeira velocidade, e o carro lá vai, esforçado e lentamente, a subir o quanto lhe custa, até desaparecer da minha vista.

A janela retorna à paisagem da noite deserta e fria,

(todas a casas de estores corridos como se por dentro nunca tivessem sido habitadas)

e eu volto a encarar a alvura do papel, o deserto vasto branco do papel que me magoa, intriga e frustra. Cigarro e uísque são a derradeira tentação, a mão segurando uma esferográfica suspensa pelas palavras que teimam em não decifrar o pensamento atrapalhado por sentimentos que não sei exprimir.

Creio que o que digo – ou o que disser – é sobre o quanto já não sei o que foi. Tudo o que é transforma-se vagaroso num ontem sem significado, e sigo cego de mim mesmo, voltando a colocar a cabeça pousada na palma da mão, e os lábios tortos de cansaço, tudo outra vez se transformando, lentamente, numa irremediável irritação contra mim, e eu contra todos. Por isso

(foda-se lá isto)

esqueço o insignificante ontem, não tento nada a dizer sobre o hoje mudo, e muito menos quero pensar qualquer nada de um amanhã que menos significado tem.

Credes em mim? Estou como o carro, bicho preguiçoso a subir o declive de uma rua. Se engatasse a primeira, talvez viesse a produzir alguma coisa, mas temo que, no fim da subida, arfando das ventas

(de pistões e escape)

me venha a faltar o combustível. Então, sobra o papel amarrotado, o caixote do lixo como boca esfomeada da minha mediocridade como única realidade.

Será melhor procurar outro repouso para a cabeça que não as falanges da mão, uma almofada a aguardar o sono que venha para retemperar a energia para um despertar sem amuos nem resmungos. Não procurando o hoje, já transformado num ontem, e sem tentar um amanhã mais promissor. Só preciso que, pelo menos, possa escrever puro, sem esta verborreia que nada acrescenta, e apenas me, vos, nos ilude.

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