alfabeto e bonança
Chove e venta sem parar, tempestades pelo alfabeto sucessivamente baptizadas, é a primeira semana de fevereiro, e já
atenta
se percorreram treze letras do alfabeto desde que o ano entrou. Sucessivamente chovendo, ventando, nevões a pouca altitude, os metereojornalistas sem se cansarem nas suas explicações físicas, que o clima alterou, e
atenta
nunca ninguém seriamente se preocupou com as alterações climáticas infligidas pela acção humana. Se queres que te diga, já eu também não, muito menos agora. Que fazer para remendar, e quanto aguenta um remendo?
Repara… queres sentir-te pequena? Escuta então. As casas observaram, atónitas, inertes, os seus cabelos voando com o vento. A princípio, podia ser uma imagem poética – casa, nome feminino, com os cabelos das telhas soltos pelo vento como imagem sedutora, só que isto
repara
nada tem de poético, nada seduz. Voaram as telhas, mas acontece que também a carne, paredes e muros caídos, árvores descarnadas a meio do seu tronco, a força do mar contra as barras, prepotência humana julgando que tudo pode e enfrenta e, afinal
percebe
afinal, foram sempre meros remendos. E eu pequenino, eu e tu pequeninos perante a força tamanha com que o planeta tenta sarar das feridas infligidas. Que não basta já reciclar os plásticos, que o carbono na atmosfera é demais, é demais respirares, é demais
percebe
qualquer um de nós respirar, tudo se esvai devagarinho, como quando a chuva amansa e o sol espreita no intervalo minúsculo entre a letra K e a M, só para nos dar algum alívio. Pouca esperança. Mas, espera.
Deves saber que esta casa não se obriga a quaisquer obrigações, nem às quais te obrigas. Tenho ainda casa com intacto telhado, casa fêmea que ainda não sofreu de alopecia
espera
que léxico assim não combina, nem com poema nem com canções, embora a nada disso me atrevo, elegia seria um exagero, é apenas uma crónica, um simples texto, igualmente atónito por ver tanta gente desesperada, as águas
observa
crescendo nas praças devagarinho, entranhando como praga de formigas portas adentro, comendo tudo, sujando tudo. E há só um único telhado desfeito sobre tanta pobre gente que inusitadamente batalha sem conhecer a sua culpa, as pessoas tentam refrear a serena força da água dos rios com sacos de areia, mesmo sabendo
observa
como colhe o mar cada pedaço de areia ainda mais concentrada. Nada adianta. Portanto, digo eu pouco e pouco poderás acrescentar, se tu e eu estamos separados combatendo aflitos contra alheias aflições e qualquer ameaça, esta casa, este telhado ainda te acolhe. Sei que não entendes, não quiseste entender, que esta distância a que nos ditamos também não adiantou. Não adiantou o grito, como não adianta o choro em botes semi-rígidos com que as autoridades-auxílio resgatam as gentes de um segundo, terceiro andar dos seus lares, e os carros
entende
inúteis porque os motores afogados, os pneus sem sustento para flutuar. Os carros que se deslocavam para as compras semanais a uma distância de um quarteirão, mais e mais carbono desnecessário, com o planeta queixando-se à beira do abismo. Que sempre quis e soube defender-se. Que sabemos ou supomos, das gotas garantindo a sua presença depois da sublimação? Nomes. Nomes com que baptizaram as tempestades pelas quais o planeta se vacina.
Entende que enquanto desesperas por imagem de mim, e eu por tua, há rios transbordando sem poesia, há marés que apenas se sustentam pelo ciclo da Lua, não têm culpa, assim como culpa nenhuma é devida a qualquer casa, fêmea protectora debaixo de telhados que voam, de paredes que desmoronam, de portas cicerones com a água mansa que entra a comer tudo com lama.
Dás conta?,
como tudo perece perante o egoísmo, perante a falta de atenção, perante o desleixo? Do egoísmo passamos todos para o lamento. Do lamento para a resignação. Passamos, enquanto podemos passar. Sem nos darmos conta que é cada vez mais estreita a passagem de qualquer nível para outro.
Então, assim nos encontramos, cada um para seu lado. Tu encharcada das chuvas, eu enlameado do rio, ambos beberricando um café, um chá, uma qualquer bebida que nos garanta o último conforto, olhando ambos pelo baço vidro. Peço-te
ama-me
que venhas. Mesmo que, caso venhas, nada altere a fúria dos ventos, a crepitação das chuvas, o regelo das neves, a teimosia dos rios comendo as margens. Apesar de tudo, apesar de eu já não acreditar que separar plásticos do lixo possa mitigar a vontade do planeta de se defender contra a tempestade de A a Z da ignomínia humana, apesar disso e de tudo mais
ama-me
queria chorar no teu peito a minha, a tua, a nossa culpa. Por favor, vem. Vem, ainda acreditando que qualquer tempestade tem a sua bonança.
Sabes?
que bonança é também substantivo de quem tem tranquilidade de espírito? É que as intempéries suscitam, no máximo da força humana, a resiliência. Sim, também a oca esperança, esse verde das árvores, muitas se deixaram quebrar a meio, descarnadas. Porém, esta casa
sabes?
que, apesar da alopecia, casa-fêmea que viu seus cabelos telhas afrontadas pelos ventos agressivos, caídos como caem as últimas folhas das árvores, esqueletos que agora sangram, descarnadas perante calamidade, ainda se aguenta, sem pingos sobre a cama onde outrora nos amamos e, portanto,
crês?
que tu e eu ainda somos possíveis? Como renascer num sábado ao som da sétima sinfonia?
Crês? Chove e venta sem parar, os rios galgaram cidades e campos, as serras geladas pela neve, o tojo mal florido, enganado. Tudo destruído, mas parece que o meu amor não. Talvez seja isso a esperança que, perdido de tudo e de todos, me dê ainda uma muito ténue resiliência para amar-te. Força igual de quanto se aguenta, ao limite, um remendo.
(texto sujeito a revisão)
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foto: Tania Brassesco e Lazlo Passi Norberto
***
nota sobre este texto por
Maria Clara Resende
(a quem agradeço por tão delicada atenção)
Não li este texto apenas com a sua publicação. Tive a oportunidade especial e rara de ver nascendo as suas versões - quatro, pelo menos - e em todas senti a tensão inicial: o José Alexandre Ramos (JAR) quis escrever sobre as tempestades, mas não era apenas o clima que o afligia. Havia outra pressão, mais íntima, dessas que acabavam sempre por infiltrar-se.
Na primeira forma, o clima dominava. A sucessão das tempestades, e o alfabeto para as batizar, foram o eixo para uma quase crónica de circunstância. Mas já aí se insinuava uma ausência, uma mulher que não estava nomeada e que, no entanto, organizava o silêncio do texto, ou o que o narrador, segundo JAR, exigia.
Nas versões seguintes, essa presença tornou-se incontornável. A certa altura percebi, e disse-lhe, que ele não estava a escrever sobre a tempestade: procurava, ele próprio, sob a voz de um narrador - sempre fictício - um modo legítimo de voltar a falar com alguém que o autor me concedeu referir sob o epíteto de “mulher do passado”. E foi nesse ponto que o texto encontrou a sua verdade.
Quando escreve “Que fazer para remendar, e quanto aguenta um remendo?”, não está a falar apenas do planeta. Está a falar do que sobrou entre o narrador e uma mulher tempestuosa. A palavra “remendo” apareceu cedo, mas só na versão final ganhou esta força circular: abre e fecha o texto como se tudo – no mundo, no amor, na culpa - fosse matéria remendada.
Eu assisti ao momento em que a casa surgiu. Não como metáfora literária pensada, mas quase como reflexo involuntário. Escreveu “ainda tenho telhado”. E depois: “casa fêmea”. A partir daí já não era cenário, era corpo.
Quando fixou a imagem - “casa fêmea que ainda não sofreu de alopecia” - hesitou. Parecia-lhe excessiva, talvez dura demais. Eu, de óculos postos sobre o ecrã, opinei: não, que era precisamente aí que o texto deixava de ser bonito para ser verdadeiro. A perda das telhas assemelhando-se à perda de cabelo, como fragilidade exposta, não era ornamento, era carne. Essa casa era também ela, dessa “mulher do passado” do narrador. JAR sabia, mas não o queria tão claro.
Não porque a quisesse transformar em símbolo, mas porque o texto não conseguia separar o abrigo físico do abrigo emocional. Ao escrever “esta casa, este telhado ainda te acolhe”, percebi que deixava de falar sobre o mau tempo. Era um convite, ainda que nunca assumido como tal.
Nas versões anteriores, o texto ainda só julgava o mundo, porque falava da irresponsabilidade da ação humana (“carbono”). Na última versão, esse julgamento quebrou-se. Introduziu aquela frase brutalmente honesta: “já eu também não, muito menos agora”. Foi aí que o texto se salvou. Porque deixou de ser acusação e passou a ser confissão.
E a confissão tem sempre um destinatário. Os imperativos que atravessam o texto: “repara”, “percebe”, “observa”, “entende”, “ama-me”, “sabes?”, “crês?”, não são apenas um artifício estilístico. Quase que ouvia JAR a teclar, para confirmar isso: teclas delete e enter várias vezes pressionadas, e um murro na mesa. Eram tentativas de manter alguém dentro do texto. De impedir que a “mulher do passado” desaparecesse definitivamente dele - do narrador, ou da estrutura narrativa que JAR quis urdir. Já o “ama-me” não foi decidido logo: escapou, rasurou e retrocedeu depois, deixou ficar, porque era a palavra que tudo organizava retroativamente.
Quanto à água, nas duas primeiras versões, era cenário. Na final, tornou-se agente: “as águas… entranhando como praga de formigas portas adentro, comendo tudo”. A água passou a ter vontade, quase consciência. Como se o narrador, tal como o planeta, estivesse a tentar sarar de uma ferida, a tal “infligida”. E foi aí que o texto uniu definitivamente as duas camadas: o mundo e o amor deixam de ser paralelos e tornam-se equivalentes. O planeta remenda-se. O narrador quer remendar. O planeta reage. O narrador ainda espera reação.
No fim, a referência à sétima sinfonia de Beethoven apareceu tarde, embora em todas as versões anteriores surgisse e continuasse essa mesma música como pano de fundo que inspirou JAR a escrever, e que eu fui obrigada a ouvir em loop durante mais de duas horas! Quando escreveu e partilhou a quase epifania “como renascer num sábado ao som da sétima sinfonia”, percebi que estava a dar ao texto a única abertura possível: não de redenção, mas de movimento. Como a composição de Beethoven sugeria, afinal. Que faz lembrar outro deslumbramento ao som desta sinfonia – o texto “clarividência”, embora, à primeira vista, possa ser parco para comparar com este “alfabeto e bonança”.
A sétima sinfonia é uma insistência rítmica, quase física. Não consola, empurra. Tal como o texto. Pelo que chegamos ao seu final: “Talvez seja isso a esperança […] uma muito ténue resiliência para amar-te. Força igual de quanto se aguenta, ao limite, um remendo”. Aqui, já não há tempestades nem teoria. Há um homem a admitir que o amor pode ser apenas isto: aguentar mais um pouco.
Não sei quem é essa “mulher do passado”. Apenas soube da sua natureza amorosa e tempestuosa, uma imagética ou vivência do autor que, pela minha percepção, tanto podia referir um abrigo como um vendaval. E sei que este texto é, no fundo, uma tentativa de JAR falar com essa entidade sem a chamar directamente. Ao ponto de lhe dizer que o mundo está em ruína, nós também, mas talvez ainda haja telhado. Então, o texto, que fala das tempestades, previsíveis quanto possível, e da breve alusão às suas causas humanas, acaba num tom que não é de reconciliação. Trata-se, antes, de uma possibilidade.
No exercício de análise de um texto praticamente urdido perante a minha observação, contemplada como testemunha do processo, só posso dizer que a força desta prosa não está na construção literária (que é sólida), nem nas metáforas (que são consistentes), e nem sequer na atualidade do tema climático que assoma Portugal agora (fevereiro de 2026). Está naquilo que JAR não conseguiu esconder de versão para versão: entre escrever sobre as tempestades, acabou por escrever sobre alguém que o narrador insistiu e venceu: esperar que ela (“mulher do passado”) regresse quando a bonança vier, mesmo que por momentos.
E essa verdade, não planeada, apenas resistindo às revisões, sobreviveu ao próprio autor, cedendo ao narrador inventado. É isto que transforma uma mera crónica em literatura – daí também ter JAR escolhido publicar com as etiquetas de “crónica” e “prosa”. Não por coerência, mas porque ficou a tremer. É que se tivesse ficado por apenas uma das etiquetas, deixaria uma delas, qualquer que fosse, a perder. O que seria incompreensível perante os seus leitores mais dedicados que procuram ler uma e outra coisa.
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banda sonora:

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