terceira epístola dolorida para Eunice
O que disseste muito me magoou. Mas o que ainda mais me magoa é a tua ausência, crescendo o teu silêncio depois disso. Quando sinto que, fora de mim, és apenas uma aresta nessa outra vida que dizes defender: o marido, os filhos, a família, a tua posição – uma aresta, insisto – de esposa e de mãe. Eunice! Quantas vezes tudo tentaste ter sido diferente, mas outra não foste? Que não podias ser, senão aquela quando estava comigo? Acaso me engano? Ou és quem dizes ser, essa resignada aresta de nada, e comigo te esforçaste por seres diferente? Todavia, essa forma tão iludida (para que lado seja), só discirno que estiveste este tempo todo sendo uma terceira de duas: entre a que me deste a conhecer e a que outros insistem ter; e prescindes de ser a Eunice, esquecida naquela aresta. Então, por que não és, realmente, tu própria, sem – como dizes – depender de mais ninguém? O único dependente sou eu, que tenho esperado por ti e que só a ti tenho a perder. Sim, após tantos anos, estações e muitas luas, desfiz-me em tentativas para te esquecer. Com outras, como queiras, o que entenderes. Mas, poderia eu esperar quieto? Aliás, posso ainda eu esperar? Apesar dessoutras, quedo-me no final à tua espera, embora tu não saibas decidir. Filhos feitos, marido que já nem se importa com quem és. Soubesse ele, corajoso, discernir o vosso fim, para que eu e tu pudéssemos encarar um futuro, o que seria possível, nunca como outrora. Nunca como antes, para ti e para mim. Por agora, ainda acredito na tua jura de tudo. Quando regressas, Eunice? Se o ano se renova, por que não te renovas tu? A meu lado, assim prefiro, como nesta foto que não me canso de ver. Estavas tu, de costas, prometendo-me o impossível, jogando com o meu tesão por ti.
*
ler a primeira crónica - «escrito e dolorido para Eunice»
ler a segunda crónica - «ainda escrito e dolorido para Eunice»
ler a terceira crónica - «escreve a dolorida Eunice»
_
foto de Tracy Pote

Comentários
Enviar um comentário