o teu poema


dedicado inversamente

Compões o teu poema enquanto a janela dita que só cá dentro terás conforto. A gata ao teu lado começa a ronronar, com corpo e membros estendidos a agradecer a tua decisão. As notas graves e agudas da música que ouves sobem e descem perpendiculares ao papel onde rabiscas – imagino, que pouco percebo desse engenho de escrevinhador – acompanhando o movimento da sombra entre o teu cabelo e o teu olhar. Olhos pestanudos e grandes tens, com o tom da terra que amas desde infante.

Marcado o ritmo, já não sei sair daqui, e ficas distraído a dizeres que é apenas um rascunho, e eu respondo, citando-te, que a poesia não se urde assim, não é como quem fecha os olhos e estende os dedos na escuridão, supondo que as palavras hão-de guiar a mão delicada que as saiba tocar. A música que ouves tem o mesmo acorde da chuva lá fora. Um acorde que, embora não te impeça de sair, pede-te sempre para que aqui fiques. E sabes que sou eu a gata, com o olhar felino implorando o nicho dos teus dedos sobre o meu pêlo.

Fico com uma fraqueza nos membros, um sono de morrinha nas pálpebras, longe da tua ansiedade, e sem orquestra. O que te aborrece – querias que eu me entusiasmasse mais com as tuas causas. E, por isso, sinto o coração quebrado por não saber em qual página da partitura soam os tambores que te suscitam. É tua a razão: que não é assim que se compõe um poema, eu apenas repito o que já sei o que pensas.

Porque os teus lábios finos, calados, dizem o que a tua voz desiste de dizer. Os mesmos lábios que me dás como a quem precisa de pão. São tenros e com a raiz nua, sempre compostos para uma renovada boda. Neles sempre há uma flor, senão o fruto já amadurecido, a ligar fome com sede, desejo com amor, o corpo com isso a que possam ou queiram chamar de alma, de amante. Um fogo que te impulsiona, aquece, acalora. E, se há imenso calor que te incomoda, livras-te dos lençóis com que sempre me cubro, esfriada depois do frémito. Como nos dias de calor: embrulhas-te das brisas paridas pelo rio que visitas nas tuas longas caminhadas madrugada fora.

Tudo isto sai de mim a agradecer por teres ficado. Continuares sempre presente, apesar dessas ausências que ainda não compreendi. Vejo-te como um gato saindo à chuva, sem ter onde se esconder, e que regressa depois, molhado e transido de verborreia, irado de frustração. Sempre foi assim contigo, e eu sei, eu sempre soube enxugar-te, livrar-te das frustrações com um “deixa lá, amanhã é outro dia”.

Fecha então os olhos e não creias no papel, nem na tinta. Finge que é para dentro que grafas as tuas palavras, a saberes onde sou e como me encontras, sem qualquer condição felina. Para isso, basta que o redondo dos teus dedos se amplie sobre o nicho da minha pele, tecida para ti, composta ao largo por poema teu, em jeito de porto agradado com o navio imenso das palavras com que tanto me tenho sentido seduzida. E realizada. Com o que tu és, e que só eu conheço.


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foto de Duane Michals

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