ardam as mãos em lágrimas (testamento)


Se eu me acabar hoje, diz-lhes que parti satisfeito com o que me foi dado realizar, o quanto pude. E que o meu último desejo foi – é – que o meu féretro, antes da incineração, seja coberto por pano de seda vermelha, sem qualquer insígnia. Em vez de uma missa – a não ser que possa ser parcialmente celebrada sem padre nem sacristão ao som de kyrie eleison e agnus dei em coro angelical – tenha a minha voz declamando o poema ruínas, sob o fundo sonoro das ruínas de leão rodrigo.

Se possível, que não façam pranto ou se contratem carpideiras. Rostos fechados bastariam para assinalar a tristeza; porém, do lado onde me encontrar, ficarei mais feliz se em cada rosto possa sorrir uma saudade pura. E que perante minha urna, nunca aberta, sejam apontados de crime aqueles que com esgares de sórdido e mesquinho escarninho ainda venham desdenhar do meu inválido corpo.

Sim, quero que o ataúde que me levará à perdida saudade nunca seja aberto. Os mortos devem ser lembrados como foram em vida, na memória que dele cada um tem. Nunca o boneco de cera como as aberrações, vivas ou mortas, em museu inglês.

A minha casa inglesa, essa, permanecerá no emaranhado da neblina que tanto quis a ligar londres ao porto cobrindo a disfarçada ferrugem das pontes centenárias sobre o douro e sobre o tamisa, em cujas águas se poderão depositar as cinzas que de mim sobrarem. De outra forma, a terra da casa onde nasci há-de ser, por última opção, o adubo que restou de mim.

Diz-lhes que os meus escritos não merecem qualquer livro, senão o que para dentro de si o folhearam e onde me tentaram descobrir – onde sempre, eviterno, me encontrarão, se a eles regressarem. Porque as grandes palavras foram há milénios semeadas por outros maiores – as minhas foram apenas o bagaço de milhares de frutos e caroços, e que as sementes só medram em terreno fértil. Que serão livres as palavras que escrevi para tentar o terreno onde realmente as esperam.

O mais importante é que garantas que eu, afinal tão céptico, sempre cri na humanidade. Diz-lhes, apesar disso, que finei afirmando, como sempre o fiz, sobre a perdida salvação. Porque, de cada vez que morre quem tanto amou a humanidade, ela, ou os que dela vão sobrando, resta o sentimento de uma orfandade, como órfão me senti quando cada um daqueles que eu vi partir antes de mim. E então, já no fim, para os tão poucos resilientes da humanidade, bastará que lhes ardam as mãos em lágrimas.

Diz-lhes, se eu me acabar hoje. Senão, que seja este testamento para memória futura.


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foto de Ando Fuchs

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