demasiado belo
Demasiado belo para usar palavras quando só os olhos tocam, cheiram, ouvem e pensam, tão extraordinariamente gulosos, e egoístas. São assim os teus predicados, inaugurando e encerrando a luz dos dias, criando silhuetas perfeitas quando na noite procuram os gatos pardos do entendimento.
Eu esforço-me por chegar-te, com essa vaidade que tens em sorrir. Perco-me a regular o rubor do rosto quando calha, tão raro, esse sorriso ser dirigido a mim, como a abrir janela para os primeiros raios da manhã – sim, eu sei e confirmo: é uma pieguice, um cliché dos mais antigos.
O que se confirma então também é que nada há de extraordinário para ser simples e com que, ambiguamente, os sentidos façam tanto festejo, rendidos por rebuscada eloquência e esforço. E nisso há quem coloque químicas do cérebro sobre a corrente sanguina e afirme: são os sentimentos.
Não sei nada disso, não me interessa rotular seja o que for. Vou deixar a madrugada nascer enquanto aqueles ventos nos murmuram a urgência sem palavras. Sem palavras, claro. Que vendo e sentindo o belo, as palavras podem sair sem cuidado, em artifício. Porém, não equivocadas.
Estranho, não é? Comunicamos com as palavras livres e, por elas, calamos o quanto podia haver
(e há)
para dizer. É imperfeito o significado dos léxicos construídos na mente desalmados pela voz, língua e lábios. Concorre com o pensamento, sempre perdendo, sempre acabando a meio de uma maratona. Ou na fúria dos ventos.
E como queria dizer outras palavras que não estas que venho dizendo – pudessem talvez ser outras, impossíveis, talvez as que estão por inventar. Quedo-me com os ventos assombrando a majorar o que os meus olhos, vendo, cedem às mãos. Dos ouvidos ao olfacto de ti a entrar por cada vez que todo o meu sangue imagina.
Pois, por ver-te sorrindo com o esplendor com que acolhes um mundo já tão cego, apenas me sobram lugares-comuns. Tenho nada que consiga descrever esse rasgo de luz misericordioso que a tua boca em teu rosto dá à calamidade da existência humana do meu desejo.
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foto de Alex Darash

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