corso


Como posso competir com o guincho das gaivotas? Elas antecipam o sal dos meus olhos, ainda que eu tente escondê-lo. Grasnam, disputando um pedaço bolorento de pão no lixo doméstico que os gatos espalharam. Estão em terra, augurando tempestade no mar; e eu faço da sua premonição o argumento para o absurdo de tudo o que me arrelia, remói e dói. Faço delas a prova de quem me desilude. Conto as vezes, numa patética estatística, em que fui equívoco. Vida vezes fora nada: tudo. E, por isso, desejaria não querer mais. Dói. Não quero que doa, mas sei que vou insistir. Vou acreditar que ainda resta uma probabilidade e desejar o regresso, enlaçando-me, fraco, em tentações fora de contexto. Faço promessas vãs: não voltará a doer. Mas eu sei o que não devo mais abrir. Não localizo a ferida, nem identifico o centro de onde parte a dor, mas sinto que não devia deixar que ela voltasse.

Na praça, ouço-os: bebem, riem, sambam. O carnaval desfila sob uma chuva que se ri dos foliões. Eles carregam bonecos de papelão empapado; elas, as mulheres semi-nuas, vão-se constipando enquanto rolam ancas e nádegas. Não me dês tarefas domésticas agora. Deixa-me antes à boca de uma praça com pombos, onde os rostos de quem passa no desfile não passam de miragens. Deixa-me ser como o velho sem-abrigo que não se resigna. Aquele que acorda entupido de tosse no colchão húmido de cartão e assume o dia, erguido, engolindo o café amargo requentado num bico de gás moribundo. Ele junta as côdeas e as migalhas e, no centro da praça, solta os fragmentos como se abrisse a gabardine para exibir a migalha do corpo que o tempo lhe deu. Os pombos erguem-lhe estátuas invisíveis. Não me importaria de ser como ele. Que lhe importa o corso? Que lhe interessa o algoritmo do acaso ou a coincidência escarninha que se ri do insucesso alheio? Essa velha altiva, essa filha de uma chuva!

Fosse eu árvore, ou um simples acorde de cavaquinho, e deixaria o vento insistir até me tombar. Como quem samba e se rende à fadiga, extenuado. Peço misericórdia num dó solitário, um ronco profundo de moribundo, como o som da cuíca quando desistem de a roçar. Quando as ancas param e as nádegas deixam de rolar, molhadas não de suor, mas dessa chuvinha que marca o compasso do silêncio. Tudo implora: basta. As gaivotas continuam o seu guincho constante. Devo horas ao sono, mas como competir? Não faço amor, nem samba, nem amor até mais tarde. Queria apenas que o meu sono durasse até de manhã. Nenhum grito meu tem força ou efeito. Em vez de uma pandeireta, são as gaivotas que me calculam o sono.

Se eu te disser que sonho, não acredites. Tu vês os meus olhos sempre abertos. Ninguém dorme com dores, nem ao som deste triste corso carnavalesco. Venham as cinzas para que eu seja, finalmente, entregue ao vento. Sem que te dês conta, enquanto a quaresma durar. Só mais tarde, quando novamente houver apetite de carne, talvez me procures.

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