a sebenta


Estavam quase sempre em sentido perante o rosto daquela ainda jovem professora. O ano era o de 1977. Ele, com oito anos, tinha admiração por aquele rosto, quase tão brando quanto o da mãe, e sentia-se confortável por estar obediente a alguém que lhe fazia lembrar a figura materna. Estavam quase sempre em sentido aqueles miúdos, não muito raro para a época em questão, mas nem sempre obedeciam a essa postura. Quando se abria algo na rotina, ou a professora deixava de falar para todos para se interessar por alguém em particular, o borburinho instalava-se, esse ruído mais audível que fazem garotos e garotas fazem quando juntos.

Naquele dia, entre semelhante burburinho, a professora tinha ordenado aos alunos que aprontassem a sebenta na primeira página em branco, e fosse, cada um, à sua secretária para receber o carimbo azulado de uma figura para colorir. A ordem era desde o primeiro à direita da fila do fundo até ao último à esquerda da fila à sua frente. Ele estava na penúltima fila, mais ao menos a meio, talvez o segundo ou o terceiro para a esquerda.

Numa sala com cerca de vinte alunos, e com a distracção característica, parecia-lhe demorado o tempo para chegar a sua vez. Porém, sempre observando os gestos da jovem professora, aquela que sempre elogiava as suas imberbes redacções, imaginações sobre crianças-heróis que salvavam os adultos dos maus feitores. Naquele borburinho, ele ia percebendo as mais graves chamadas de atenção que a professora dava a alguns colegas que lhe estendiam o caderno sem linhas

- Isto é sebenta que se apresente? Olha aqui, tudo borrado, parece mais o livro de fiados de um merceeiro!...

e comentava a educadora de então, em jeito de suspiro

- É como eu digo, outra coisa vocês não hão-de ser senão merceeiros de lápis na orelha entre sacos de arroz e feijão…

Ele ficava a lembrar-se da mercearia perto de casa – a do senhor Manuel – que, ora atendia as senhoras que entravam pela porta à direita, hesitantes entre as 100 e as 150 gramas de fiambre, ora enchia os copos dos homens de barba crispada, reclamando sobre um balcão de mármore que tanto cheirava a lixivia como a vinho, e esses entravam pela porta à esquerda, por onde permaneciam tardes inteiras.

Ele não percebia o desdém com que a professora se referia aos merceeiros, soava-lhe como se estar ao balcão de uma loja pudesse ser a coisa mais horrível… é que o senhor Manuel sorria sempre, à direita ou à esquerda, parecia feliz nisso… Nesta deambulação do seu pensamento, não deu ele conta do tempo passando e do quanto se aproximava a sua vez. Tanto que, por breves momentos, acabou distraído com a colega do lado que lhe falava da parvoíce do Mário, um rapaz que dizia não ter medo de nada, e ainda no outro dia…

A professora já tinha repetido «o próximo!» duas vezes, mas ele continuava interessado no que a colega lhe dizia sobre o Mário. Até que percebeu o seu nome na voz autoritária da professora e logo se pôs em sentido, muito sem pensar. Instantaneamente se levantou para dirigir-se à secretária da que o chamava. Porém, não tinha levado a sua sebenta, para que lhe fosse carimbada a imagem que toda a turma havia de colorir antes da sereia soar o fim do dia de aulas.

Quando entendeu que não tinha levado o material necessário, sorriu ligeiro e soltou um «oh!» inaudível. Depressa quis voltar ao seu lugar para resgatar a sebenta. Já se ouviam risadinhas dos outros, mas não se incomodou. Porque se sentava logo ali, remendaria imediatamente o seu impulso e a falta de não ter levado o caderno. Porém, a professora resolveu de outro modo: Disse ela, para sua surpresa:

- Não, anda cá, anda cá!

e ele lá foi, em gestos e voz gaguejando, que só ia buscar a sebenta de que se tinha esquecido.

- Não faz mal,

disse a professora, num sorriso estranho para ele, e adiantou:

- Podes levar o carimbo na mesma! Chega aqui.

Ele aproximou-se, então, confuso. Ela, num lanço que ele nunca conseguiria prever, pegou no carimbo molhado de tinta e estampou a figura no rosto dele, na face direita. Tão repentino aquele acto foi que ele não teve tempo sequer de ter feito qualquer gesto para desviar-se.

Estrondou uma risada geral dos colegas que assistiam ao acto da jovem professora. Marejaram os olhos dele, tamanha que foi a força da vergonha e da humilhação, juntando a raiva e a indignação, sensações que lhe percorreram todo o seu corpo, tremendo. Obrigou-se, contudo, a não chorar, porque sabia que, se o fizesse, a risada seria ainda pior.

Ele, ali, com a figura de um coelho entre cenouras e vegetação estampada no rosto. Ele que, até ali, tinha sido escutado em silêncio pelas suas histórias das redacções que lia em voz alta à turma, passava agora a ser tema de gargalhada e galhofa. Ele, ali, quando se voltou perplexo para a professora, por quem tinha afecto, a balbuciar um qualquer porquê?, vendo-a também em gargalhadas. Ela, uma adulta que lhe lembrava a mãe, optando pela atitude de meninos e meninas, que se riam por tudo e por nada.

Nos dias seguintes, ao acordar pela manhã, a saber que tinha de regressar ao colégio, chorava em silêncio. E seguia, amargurado, para aquele edifício que lhe parecia um cárcere. O seu pequeno coração palpitava de angústia mal colocava os pés na rua. Obviamente, tinha contado o sucedido aos pais, quando o viram de cara pintada. Porém, eles acharam que teria sido por razão merecida, e pouco caso fizeram. Apenas lhe disseram para ir lavar a cara, tarefa na qual ele demorou longos minutos até que ficasse limpo do carimbo. Mas não fora só o seu rosto a única vítima de tal estampa. Sentia-se violado por dentro também, e de um carimbo pior. Algo que ele não sabia como limpar, onde água e sabão não chegavam.

Passou a odiar o colégio e qualquer forma de autoridade. Já não ficava em sentido, desdenhava da professora, não fazia os trabalhos de casa de propósito e, pelas suas faltas, sentia com orgulho e raiva cada reguada com que era infligido nas suas pequenas mãos. Arrefecia-as da dor, agarrando com força os ferros frios que suportavam a mesa onde se sentava. Enquanto isso, olhava com ódio a professora, imaginando-se, como nas suas redacções (que recusou voltar a escrever), alguém que havia de castigar aquela infame criatura. Seguiram-se chumbos, repetição do quarto ano.

A custo e a pedido dos pais, por decisão de um renovado conselho directivo do colégio, conseguiu transitar para o ano seguinte. Entrando em novo colégio, aquiescido dos anos primários, perante novos professores, colegas, e outro ambiente, acabou por passar para o sétimo ano de escolaridade. Foi quando entrou na adolescência. Ele, embora tivesse experimentado outras abordagens – entre colegas e com vários professores – sentia-se mais zangado com o mundo, o que é de esperar de qualquer adolescente perante qualquer autoridade. Ainda que a sua predisposição fosse invulgar para compreender as matérias dadas em qualquer disciplina, não o fazia sem responder convictamente sobre o que não concordava. Isso resultava, variadas vezes e razões, por ser expulso das aulas. Sem dar a quem pudesse e ou quisesse ler, sempre foi escrevendo o que sentia em sebentas.

Nesse período, alguns dos professores que compreendiam e/ou admitiam a sua rebeldia, sabendo das suas competências, pressionaram outros para que lhe dessem notas consoante o seu intelecto. Então, nunca mais repetiu ano. Era respeitado, quer por esses professores, quer pela maioria dos colegas – estes bem diferentes dos miúdos que, naquele colégio e nas turmas da primária, se riam por tudo e por todos. Agora, ele era respeitado, e era exemplo por ser uma ajuda imprescindível (que ele não recusava) para os que estavam muito atrás dele. Alguns anos se passaram assim. Até que o seu irmão mais novo entrou no mesmo colégio.

Entre tantos professores quantas as novas disciplinas, ele nunca deixou que qualquer desses o seduzisse. Nunca mais acreditou nos professores. Começou a sentir nova inquietação logo que o seu irmão entrou naquele colégio, por imaginar que este pudesse vir a passar pelo mesmo, nos anos primários, em que ele, tantas vezes, acordado ou em sonhos, desejava ver tudo em escombros. Num dia de janeiro de 1981, chuvoso como aqueloutro malfadado de 1977, a que tinha apelidado de “o da sebenta”, teve conhecimento de duas coisas: que o nome da professora do irmão era o mesmo que o “da besta” que o marcou sempre; e o lugar onde o pai, antigo extremista de direita nos conturbados tempos pós-revolução, tinha escondido a pistola e respectivas munições.

Não quis pensar sequer em mais nada. Agiu como há muito tempo esperava, encarnando talvez alguma daquelas personagens-heróis das suas antigas redacções. O colégio esteve durante muito tempo fechado. As tiragens de certos jornais majoraram nos dias seguintes. A indignação era um sentimento que todo o país sentia. Todo, menos ele. Ele sentia-se aliviado, ainda que muita gente o apontasse como encarnação do pior mal. Como menor, esteve internado numa casa de correcção durante 4 anos. Decidindo por dizer que não se arrependia dos actos feitos, continuou por mais dois anos. Mudadas as leis, ainda teve julgamento, mal transitou para a idade adulta e, uma vez mais, confessando com regozijo o seu feito, teve por cárcere outros cinco anos. Ele jamais se sentiu incomodado com isso. Apenas pedia continuar escrevendo, desde que fosse nas, já consideradas, velhas sebentas.

Hoje, quarenta e cinco anos passados desde que disparou a velha pistola do pai, continua escrevendo, com a raiva apontada nos bicos de esferográfica, com que preenche inúmeras sebentas. Porém, nunca esqueceu o seu passado, sendo actualmente o que se diz ser um autor consensual e aceite. Disso, tem ele acumulando direitos e dinheiro. O que é muito, quando daquelas e actuais sebentas, muito rasuradas, resultam nos livros que tanta gente está sempre à espera de comprar e ler avidamente. Carimbado por uma falha uma vez, carimbado por ser consensual agora.



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(foto de autor desconhecido)

texto sujeito a revisão

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