ardam as mãos em lágrimas (testamento)
Se eu me acabar hoje, diz-lhes que parti satisfeito com o que me foi dado realizar, o quanto pude. E que o meu último desejo foi – é – que o meu féretro, antes da incineração, seja coberto por pano de seda vermelha, sem qualquer insígnia. Em vez de uma missa – a não ser que possa ser parcialmente celebrada sem padre nem sacristão ao som de kyrie eleison e agnus dei em coro angelical – tenha a minha voz declamando o poema ruínas , sob o fundo sonoro das ruínas de leão rodrigo. Se possível, que não façam pranto ou se contratem carpideiras. Rostos fechados bastariam para assinalar a tristeza; porém, do lado onde me encontrar, ficarei mais feliz se em cada rosto possa sorrir uma saudade pura. E que perante minha urna, nunca aberta, sejam apontados de crime aqueles que com esgares de sórdido e mesquinho escarninho ainda venham desdenhar do meu inválido corpo. Sim, quero que o ataúde que me levará à perdida saudade nunca seja aberto. Os mortos devem ser lembrados como foram em vida, na mem...