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latitude

auto-retrato

Quis do teu corpo que se movimentasse para dizer que vives. No teu auto-retrato, estás onde queres estar, não sais de lá, não olhas para mim, sequer te pretendes próxima seja de quem for. Fechas os olhos como se por um instante tivesses desistido da obrigação de ver, e deixaste que o mundo ficasse do lado de fora. A pedra por baixo da tua cabeça é áspera, antiga, muito mais antiga do que qualquer coisa que possamos dizer um ao outro. Tem a dureza das coisas que permaneceram quando tudo o resto mudou. E, no entanto, recebe-te, e nela és, tal como sempre foste. É estranho pensar que, entre uma uma pedra, possas retratar-te. Mas foi a tua verdade: não te abraça, porque as pedras não sabem abraçar; nada te promete como nada prometes; não se comove com o peso da tua cabeça nem com a curva tranquila do teu rosto, porque estás ali, simplesmente, deitada sobre uma pedra permanentemente rugosa, cheia de pequenas marcas, fossilizações, como se ao tempo lhe tivesse cabido a ocasião de te perceber...

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