não exageres
Não exageres: o sol foi tragado pela sombra, corrente de oeste, negras nuvens ameaçando chuva, e as cortinas nas janelas ondeando. O teu gesto sobre a solidão. Esperas pelo trovão, após inusitada faísca aflitiva. Mas os cães farejam outra coisa. Os gatos na tua cama, enrodilhados, resumem a sua indiferença. Há ainda a loiça deixada após o almoço de peixe. Que comoção funda te consome o pensamento? Afinal, há ainda sol, mesmo que aligeirado. Colocas a cabeça fora da janela e conferes: apenas o poente, desnivelado daquela corrente. Não sossegam as cortinas. Nem os cães latindo por outra coisa. E ainda não despertam os gatos. Que esperas? Não exageres. Só porque é fria a solidão? Esquentas a tua sopa, um jantar descongelado de há dias. Sopras, dás a colher à língua, e dizes que bom que é uma sopa, indiferente ao calor, e a quem vai aos restaurantes para vespertino repasto. A tv anunciando o que já tão bem sabes do mundo. O mundo que não sabe de ti, nem cabe em ti. Só em ruas desertas por ...