corso
Como posso competir com o guincho das gaivotas? Elas antecipam o sal dos meus olhos, ainda que eu tente escondê-lo. Grasnam, disputando um pedaço bolorento de pão no lixo doméstico que os gatos espalharam. Estão em terra, augurando tempestade no mar; e eu faço da sua premonição o argumento para o absurdo de tudo o que me arrelia, remói e dói. Faço delas a prova de quem me desilude. Conto as vezes, numa patética estatística, em que fui equívoco. Vida vezes fora nada: tudo. E, por isso, desejaria não querer mais. Dói. Não quero que doa, mas sei que vou insistir. Vou acreditar que ainda resta uma probabilidade e desejar o regresso, enlaçando-me, fraco, em tentações fora de contexto. Faço promessas vãs: não voltará a doer. Mas eu sei o que não devo mais abrir. Não localizo a ferida, nem identifico o centro de onde parte a dor, mas sinto que não devia deixar que ela voltasse. Na praça, ouço-os: bebem, riem, sambam. O carnaval desfila sob uma chuva que se ri dos foliões. Eles carregam boneco...