e agora, António?
E agora? Sei que há alguns anos te resolveste ao silêncio (esse silêncio com que escrevias, entendido e respeitado por uns, motivo de chacota para outros) vivendo o teu mundo sem o auxiliar que te devolvia ao som do mundo, e – sabes? – o mundo cada vez mais deixa de ter som que se queira mesmo ouvir. Ensurdece. Pelo que fizeste bem, para o teu bem, para o bem dos teus. Então, e agora? Partiste sem o último abraço, o último beijo. Sinto ainda na minha face o beijo que me deste, da última vez que vi, de robe e chinelos, chapéu cobrindo o pouco cabelo que tinhas - Vejo-me ao espelho da barba e não reconheço quem está ali o fumo do cigarro pendurado entre os teus dedos, a ocupar o espaço vazio entre o disseste e o que eu entendia. As tuas entrevistas para as quais fizeste um boneco e eu entendia. Entendo bem. Escrever é agarrar a solidão e fazer dela arte. Disseste - Não importa a ideia de escrever, o mais importante são as palavras e eu cheio de ideias para escrever e sem quaisquer palavr...