descompasso
Pensas que, apesar da esmola sentimental dos que te rodeiam, tenha chegado o tempo de deixar de mendigar atenção. Os espelhos estão numa atitude de recuo: aproximas-te do reflexo e a imagem de ti distancia-se. Acontece muito devagar, mas já deste conta. O mesmo vagar com que cresce a folha imberbe do rebento para dar lugar àquele recorte magnífico da ramagem. Já deste conta: são uns milímetros cada dia em que a imagem que tens de ti se distancia daquela que vês, cada manhã, no espelho. E, contudo, à tua volta parece-te que ninguém mudou em meses, em anos. Pareces ser o único em constante transformação, quem mais declina perante a aparente uniformidade alheia. Psicologia barata: não vês os anos passando neles, mas quanto a ti, mesmo que lentamente, dás conta da tua velhice, que aborrece o cliché do sempre eterno jovem de espírito. Então, rejeitas os lamentos e as penas, muito mais a misericórdia – dos outros e da auto-infligida. Soubeste que os lobos se isolam da matilha para ir morrer ...