pesadelo doméstico
Pica ela a cebola, fingindo que o jantar é o único rito que sustenta a família. Ele ensaia a fuga no olhar, mas estaca, hipnotizado pelo ritmo da faca. Ela, pretensiosamente abstraída, golpeia o vegetal e o tempo. O ambiente é um cárcere de vapores; nenhum deles encontra o trinco. Ele inspira o silêncio; ela suspira o cansaço. A lâmina, cega de hábito, fere o dedo em duas fendas vivas. Ela quer a raiz do medo; ele quer o vácuo de uma frincha, a claridade de uma porta que não range. Atónita, entre o sangue e o sumo da cebola, ela balbucia o seu credo: «Sou capaz de tudo, ou talvez de quase nada: ler-te o silêncio mudo, nesta cozinha gelada. Levar os filhos ao leito, dar-lhes o sonho e a história, enquanto escondo no peito o que resta da memória. Fomos um dia contínuos, partilhámos livros e palcos, hoje somos apenas declínios, entre lençóis e sobressaltos. Sei que há pouco sexo e muita conta, um inventário de desamor por fazer; o que em ti se cala, em mim se monta, e há coisas que não ch...