flor de narciso
em memória de António Lobo Antunes Visito o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a água fresca da velha fonte; e acontece seguirem-me os instrumentos de escrita e de leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado, marcado, porém, por gerações de escribas e leitores dos serões em que a ainda não se conhecia a electricidade. Sento-me no banco tosco, procurando adaptar-lhe a fisionomia do corpo. Um carreiro de formigas atravessa sob os meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar. Estendo a vista para o pomar defronte. Reconheço o fruto de umas árvores; de outras não. A erva alta, rebelde. O papel ainda branco. A noite insinuando-se na queda do sol para lá da serra. Demoro-me a brincar com a caneta entre os dedos. Deixo o dia abater-se contra o muro ao meu lado, o sol quente, languidamente inclinado. O horizonte imaginado estilhaça-se em mil pedaços, como uma derrota...