ir por aí


Ir por aí. Com a sensação de que o chão pode ser charco para receber a urina que me lateja o baixo-ventre em jeito de retorno de um orgasmo não premeditado. Voltou o frio, provocando uma tensão nos músculos, o queixo já inválido para resistir. Querer curvar o corpo na posição fetal, aterrado de solidão, encharcado de chuva miudinha, contando o descer da temperatura até que o sangue se deixe vencer e nuble a paciência, o discernimento, o bulir para permanecer desperto. Os olhos já há muito tempo que se fecharam, pérolas em crisálida ao ponto da cegueira, sob as pálpebras como conchas. Os dedos dos pés correspondem, ainda que argumentem movimentos de contracção, a contradizer a fria humidade. E as costas, amparo de espasmos em tremuras como armaduras que não aguentarão por muito mais tempo, cindidas num corso de escoliose, dolorosamente dando embalo ao sono. E deixar arder os lábios como se ali outro corpo presente. Pode ser que, afinal, o pénis não apenas uma vírgula, mas outrossim corpo de mim, longa península que procura a saudação de um mar temperado. Envolver esta sensação estranha num mais estranho sonho e conceder, enfim, ir. Ir por aí.

Se for a morte com que me encontrares, diz que tudo aconteceu na orla do mar, sob a chuva miudinha a competir com a aspersão salgada das ondas contra as rochas. Algumas almas ingénuas, transformadas em carpideiras pseudo-eruditas, quererão coroar-me com um anel de divina santidade sobre a cabeleira, hão-de dizer que fui como deus quanto quis e como um poeta desejaria, morto sôfrego e mártir num deserto qualquer. Não te apoquentes: feitas as exéquias, poderás esclarecer que não pode um poeta morrer assim de frio e sob chuva de molha-tolos, porque o deus a quem oram é um deus da fome, da sede e do desespero. E um poeta que morre molhado (tentando engolir o seu vómito, mijado, sob a chuva e a torrente das ondas) morre de mediocridade, que não é como morrer por fome, sede ou desespero – nobre propósito. Encontrado morto, e assim encolhido, foram as palavras que regurgitou, e delas fez alimento. Portanto: deus nenhum. Sem erudição. Nem deserto de ancestrais profetas. O poeta morreu apenas porque lhe fez frio uma tamanha solidão. Pela qual o seu medo lhe fez sepultura. Sem querer, sem desejar. Apenas porque acontece, como num acidente. Nada era previsto, nada quis dizer ao morrer assim. Foi só a vontade de ir por aí.


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foto: Vezarez, Thalassophobia

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