para Ofélia, glosando António Lobo Antunes
O mar não é tão fundo que me tire a vida
nem há tão larga rua que me leve a morte
sabe-me a boca ao sal da despedida
meu lenço de gaivota ao vento norte
meus lábios de água meu limão de amor
meu corpo de pinhal à ventania
meu cedro à lua minha acácia em flor
minha laranja a arder na noite fria.
António Lobo Antunes
fox-trot nº 3, Letrinhas de Cantigas
Arreda mistério entre nós, Ofélia. Exulto os beijos trocados com a paciência adolescente da delicadeza, sem qualquer trejeito de ansiedade. Cuidei que a ternura viesse para nos enlaçar nessa convulsão desmedida dos amantes, mas partiste do porto do mundo, soltando as amarras da jangada dos teus cabelos, numa deriva sem pressas, ignorando sinais de tormenta. Fui ao teu encalço. Feras marinhas não me assustam e adamastor um gato manso que se curva ao meu afago. Perdido de ti embarquei, mas perdido de ti me vi naufragando quando o frio do entardecer me revolveu, emancipando as lágrimas no rosto e devolvendo-me, aflito, à profundeza das sombras. Porém, meu amor, o mar não é tão fundo que me tire a vida.
Dias sem palavras que não me explicaram as lágrimas precipitadas. Noites divagando sobre qualquer gesto que tivesse desmoronado o que numa troca de afectos se ergueria como um império seguro. Os pardais vão recolhendo as plumas numa algazarra de chilreios entre as folhas com que a primavera se declara de mansinho, mas ainda engolindo no seu crepúsculo um sentimento de viuvez. Sou varrido por essa língua parda entre o grito vazio desta solidão e as buliçosas criaturas na árvore. O deserto da rua configura um cenário trágico, como se o teu silêncio me tivesse despedido do mundo, pendurado nos barrotes de um alpendre. Resisto. Entro na noite à boleia do vento e sigo de novo sem destino. Não te concebo ainda perdida, nem há tão larga rua que me leve a morte.
Encontro-te num acaso de becos, por esta Lisboa imperfeita e gulosa de almas como a tua. Vens de abraços casuais e sem vontade, com os olhos injectados de qualquer coisa que desconheço. Por que me escondes dos teus segredos, serão tão defeituosos para que me apartes das nódoas que a vida te marcou? Todos temos as fraquezas que nos envergonham, somos de carne fraca, mas sempre delicada. À mercê das vontades, da miséria, das conquistas, da vaidade, dos luxos. Quero um gesto teu, um aceno para voltar a pertencer-te. Não vou ver o caminho que percorreste, quero dar-te um prado para te soltares selvagem e sem pudor, entregar-te de mim a liberdade que procuras. Vem para poder sentir-te. Não aguento ver-te sempre fugindo, Ofélia, continuo sentindo nos pés o chão deferindo a tua lonjura, e sabe-me a boca ao sal da despedida.
Diz-me que não é verdade a tristeza entre nós. Confirma-me que somos capazes de afastar a efemeridade. Que teremos com certeza o nosso mato para desbravar, mas definido o nosso empenho para abrir o caminho. Não existe abismo no nosso mundo se a minha na tua pele é ambição de simbiose perfeita. Esquece o esconso, os desvios mais angulares que te envergonham. Deixa-me quebrar o frio com a lenta progressão de um dos meus dedos acariciando-te a fronte, descendo pela face à base do queixo, na esperança de um sorriso. Daqueles que dizem tudo, que substituem palavras. Sem o abandono da pressa. Deixa amarrar-me no teu corpo, ó meu lenço de gaivota ao vento norte.
Já não vou aceitar mais a despedida, Ofélia. Ainda que partas uma e outra e mais outra vez. Serei a tua sombra, mesmo que me inflijas com o desdém. Saberei que não virá do fundo de ti, será apenas superficial, signo da fraqueza que te opera a insegurança. Acredito que vamos nesta toada embalados. És a minha sede saciada, meus lábios de água meu limão de amor.
Contigo não definho, apartado de ti desapareço. É como dizer que me sirvo do mesmo sangue que te corre nas veias, que também percorre a rosa do meu peito. Que a tua saliva é o mar de onde pesco o alimento fresco, que os teus cabelos são o aroma da terra fertilizando primaveras permanentes, que os teus dedos são o tecelão de todas as civilizações vindouras, que o teu olhar é o vento, a brisa, o orvalho das madrugadas cristalinas, tu o meu corpo de pinhal à ventania.
És o ventre do meu fruto, és toda eu num mundo novo, e só tu me levarás para o eterno se a morte vier disfarçada. Não conto morrer, porém, porque és a minha sonata de juventude, sinfonia da minha vida, meu requiem para o adeus. Concebes outra realidade, Ofélia? Enlaça a tua mão na minha, e vamos preparar o futuro para a metamorfose dos corpos, meu cedro à lua minha acácia em flor.
Mesmo que o fado me tenha traído e sejas tu hoje ausência irreversível nesta tarde de Lisboa, sobrando apenas num sonho que miseravelmente desejo muito, serás ainda assim o meu farol de guia, minha torre de menagem, minha laranja a arder na noite fria.
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foto de Oleg Borishchenkov
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ouvir o poema de António Lobo Antunes cantado por Vitorino:

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