para sempre
Cerraram as tuas pálpebras, após o fogo dos nossos corpos, para um sono profundo e sereno. Os teus membros em posição díspar, a tua respiração regular. Eu fiquei a fumar longamente uma cigarrilha, sentado à janela e entendendo os sons que vêm dela, cortinas insufladas pela brisa desta tarde de fevereiro inusitada de sol, com o burburinho da cidade que aqueceu.
Penso que foi um acaso o nosso encontro, ou talvez me tenhas procurado, na demanda do desejo que nos fez arder há um par de horas. Estávamos de costas voltadas há meses, que cada um faria a caminhada sem que nenhum voltasse a ver o outro. Porém, na esplanada, ao dares de cara comigo, sozinho numa das entre outras mesas também ocupadas,
os pombos muito cansados da sua ligeireza no apanhar das migalhas
- Olá, por aqui!? Posso sentar-me?
pedido ao qual concordei por delicadeza, após mostrar grande surpresa com os meus olhos bem abertos, sobrancelhas erguidas. Mas acreditei que fosse só a circunstância de uma coincidência, e que tu apenas estavas a ser simpática, civilizada, sem querer dizer que apenas precisavas de uma mesa onde pudesses satisfazer a necessidade do café após o almoço. Disseste depois
- Estava em casa e almocei apenas os restos do jantar de ontem, vim apanhar ar
e eu outra vez concordando com um aceno, propondo mentalmente que os meus lábios exercessem um esgar de sorriso,
os pombos sempre com a cabecita mais adiante do que o passo como se
e sem sorriso algum, antes um incompleto revirar de olhos – em nada me interessava a tua refeição – e, mal acabado o último trago do café, já levantava a mão a chamar o empregado de mesa para juntar o digestivo que tinha pedido e de que ele terá esquecido, mais a conta, sugerindo que me levantaria e abandonaria a esplanada, para deixar a mesa livre só para ti
os pombos com a cabeça adiante como se pensassem antes de dar o próximo passo, em questão de menos de um segundo – que inveja dos proporcionais trejeitos dos pombos, resolvidos pelos seus instintos e reflexos.
Assim que o empregado de mesa entendeu o pedido, piscando-me olho, já era todo o teu gesto que me piscava, como se tudo estivesse bem entre nós
- Sabes, acabei por alugar um apartamento aqui perto, é mesmo ali
o teu dedo indicador auxiliado pelo teu olho esquerdo bem aberto a apontar a direcção: rua abaixo, e logo à direita, uma cadeia de prédios baixos, de cinco ou seis andares, erguendo-se cada bloco em escadinha
- Naquela rua que sobe?
perguntei, em tom de interesse, mas numa quase jura interior de quero-lá-saber-onde-moras-agora, esperando que o empregado de mesa não voltasse a esquecer-se do meu conhaque.
Não sei se terá esquecido. Como os pombos, acautelados por um instinto que os faria mudar a sua atenção, acabei por me atropelar a mim mesmo quando convidaste
- Queres ir lá para ver? Acho que é bastante acolhedor…
sem qualquer comentário ou pergunta sobre o tempo em que nos separamos
e eu sem conseguir fazer como os pombos; ou seja: cabeça adiante do próximo passo
do tipo: como vais, com têm sido estes meses desde a separação, algo assim que me fizesse reflectir melhor, entender esse convite. Do qual eu não esperava, tão inusitado como este sol de fevereiro, tão contrário ao que me fizeste crer com os argumentos da tua decisão de cada um seguir o seu caminho. Aturdido de confusão, atrapalhei-me todo, a minha cabeça tão mais longe do que o passo, e respondi, mais instinto do que razão
- Terei todo o gosto!
já sem esforçar o sorriso que, perante tal convite, se soltou espontaneamente, para meu próprio espanto.
Em verdade, fez-me falta aquele conhaque ou qualquer outra bebida mais forte. Beberricaste o teu café pingado, quase sofregamente – sempre o fizeste – e imediatamente te levantaste deixando uma nota maior do que a despesa para pagar os cafés
- Deixa, esta pago eu!
e, logo de seguida, pegando na tua malinha, como se tivesses muita pressa
- Vamos, então?
pelo que, se o empregado de mesa não se esqueceu do meu aperitivo, lá o levou de volta quando nós já tínhamos descido a rua, virando à direita.
Não pude logo avaliar se o teu novo apartamento era tão acolhedor quanto argumentavas. Aliás, outro argumento teu se revelou, com os teus dedos enovelando a minha barba crescida
ainda vi a revoada dos pombos, no azul alto do céu, através vidraça do elevador panorâmico
e subíamos para o quinto andar, a tua voz sussurrando-me as saudades que tinhas de mim. O meu pescoço ainda tentou um trejeito como os dos pombos, pelo menos a questionar como poderias dizer tal coisa, se acabamos por nos separar, meses antes, por insistência tua. Que eu já não correspondia à tua tão elencada lista de pressupostos de um companheiro ideal, que tinhas de arejar, conhecer pessoas novas.
A tarde fundiu-se connosco, corpos despidos. Tu, quiçá – sei lá eu bem – resolvendo a saudade que confessaste sentir, e eu, que para nada disto estava preparado e sequer imaginava, a ressabiar-me de todo o sofrimento que me causaste, estocando-te o corpo como se fossem golpes de vingança. Esquecida do passado, a cada estocada minha, gritavas o meu nome como se os meses em que estivemos separados não tivessem realmente passado.
Outra cigarrilha queimo, afinal, observando o teu sono que se demora, enquanto aqui estou, junto à janela escutando o burburinho que vem de fora, já sem brisa que lhe insufle a cortina. Percebo que os pombos ainda voam, saciados e esquecidos das migalhas junto à esplanada. E relembro da falta que me fez a bebida após o café. Algo forte, confirmo agora. Do quanto preciso ainda digerir, depois do que tivemos hoje.
Quando acordares, saberás que parti, sem despedida ou satisfação num breve bilhete. Vou ainda segurar um uísque num bar perto e, embora mais tarde do que pretendia, sempre a tempo de apanhar o voo que tinha programado para hoje. Longe de ti, longe desta cidade. Enquanto estiver na auto-estrada, vendo pombos ou outras aves fazendo o caminho que lhes convém, sei que vou lastimar o quanto não pude ter a cabeça à frente do passo. E, antes de embarcar, no wc do aeroporto poderei ainda lavar a minha boca do teu corpo e esfregar os olhos para, finalmente, deixar esta cegueira por ti e recomeçar a enxergar por mim.
Quiseste tudo de mim e tudo de mim descartaste, para depois um remorso ou uma fúria libidinosa, eu sei lá, me tentares – pior, seduzindo-me e eu deixando que isso fosse possível. Mas já tinha decidido: partiria e não voltaria, após estes meses carpindo a solidão de ti. Não estaria para outra vez ouvir o que me disseste, outra vez ouvir que eu não prestava para nada. Parece, porém, que ainda prestava para alguma coisa.
Portanto, quando acordares, estarei voando num céu no qual há muito fiz questão de ser a fronteira para te poder esquecer. E quero que isso seja para sempre.
(texto sujeito a revisão)
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foto de Dmitriy Plekhanov

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