os domingos sem voz


A vizinha esteve à janela, demorando o domingo na tarde que vem caindo num tom languido. A molícia pelo chão, charco daquela cor do sol. Cortinas sem buliço. Ao longe os pardais, reclamando o poiso de mais uma jorna.

Passos na calçada, apressados. Xailes. Duas mulheres caminhando em silêncio, isto é: bocas mordidas, os olhos prontos em cada desengonçado poliedro da rua e o pensamento virado para dentro.

A curva. Um automóvel, monstro mecânico de ronco pianinho, como se movendo em modorra, acautelado pelas mulheres que se chegam à berma, em fila uma da outra. Os xailes aliviados. Afinal, murmúrios até sumirem com a curva.

Ainda na janela, a vizinha dimensiona a dioptria, indagando o automóvel que vem devagarinho e pára. Do banco traseiro, ligeiro, sai um homem de estatura baixa, barba encarquilhada. O automóvel segue depois, rua abaixo, só o som dos pneus arrastando areias.

O homem acende um cigarro, o corpo bamboleando. Cigarro aceso, cuspe um impropério como se murmurasse com os seus botões, convencido de enorme multidão que o ouvisse, e segue, em passo envieso e estugado e resmungando coisas sobre o futebol.

- Vem bêbedo, aquele

concluiu a vizinha. Aqui, junto à parede, com o sol já saindo de cena

(a vizinha ainda à janela sorriu)

decido encalhar a moleza

(ao ver-me, sorriu e saiu)

porque dias assim só para isto serve. Domingos sem voz, prometendo semana com as chuvas de março, esse madraço.

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