ansiedade sobre os dias que são
Senta-te seguro, não caias agora por entenderes mundo tão medonho. Há sempre quem te ampare. Há sempre quem se aguente. Que importa agora toda a viuvez, bocas de assombro, o esgar da terra, os homens caídos nas trincheiras da guerra, o lento sono das aves, e outros bichos ainda hibernando, o mar como boca fera de água em estrondo? Se tens segura a minha mão na tua, conjugamos o mesmo verbo, o dom de estarmos ainda tão perto. Colapsa um edifício, a bomba fez grande estrondo. Como se fosse a terra tremendo, como se fosse o vento em fúria sobre os telhados. Há sangue, é a tua perna ferida. O cão, além, perdeu uma das suas patas, lambe muito aflito o vazio dela, resistindo à morta certa. Estilhaçados outros corpos com partes em parte incerta. Incineraram automóveis, as ruas embrulhadas de escombros. Não é pó, repara: é tudo desfeito aos bocadinhos. Cada bomba faz de nós meros pedacinhos. Espera, senta-te seguro, não caias. A escadaria desistiu, olha os fios de electricidade faiscando como enguias colhidas dos mares longínquos. Descansa, aperta mais o garrote na tua perna. Vamos por aqui, tem cuidado. Vamos por entre os pedaços a que nos escapamos, e vamos. Imagina só que vamos entre as árvores, agitadas pelo vento suão. Um dia, ainda lhes medram ramos. Nenhuma ansiedade, hás-de ver. São só os dias que vão. Por menos pode morrer um coração, mas nunca deixarei morrer um meu irmão.
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(foto de autor desconhecido)

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