aquela força
Nenhuma pestana, as caídas são o moliço que o rio devolve para que a terra o revolva. Se ainda tens lágrimas, é como a chuva que as tornam húmidas. Qualquer dia, nenhuma janela, só a música dizendo o que pensas. Por vezes, nem é preciso falar alto o que o pensamento admite. Por vezes, basta-te escutar a canção, melancólica e assertiva. Sem janelas, nem bolor escurecendo o canto deste quarto que ainda não recebe o sol, a enrodilhada roupa tecendo o pó, brilhando no canto oposto em fundo de abajur. E vais querer discernimento, para o que sou, para o que entendes de mim. Lamenta só o impossível. Se eu for ver como há sol, cego. Se abrir uma torneira para a sede, afogo. Que tenho? Nada, é tosse. Apenas quiseste que eu fosse quem tu desejarias, o que nunca aconteceu, bem sabes.
Na despedida entre visitas, deixa que os lençóis cubram o que há de mais nu em mim. Nenhuma lágrima, dessas que deixas rolar face abaixo, depois de saíres. Tens de me dar aquela força. Ser uma manhã. Pelo menos uma claridade em abóbada que desobedeça o olhar mantido sobre a mancha escura do lenço de assoar e cuspir. Fazer com que não me dê conta da magnética hipnose que a sombra sempre conseguiu de mim, a dilatar os monstros cá dentro. Num rasgo de esforço, consolidando a vontade artística de destruição em curto-circuito. Sofrer mais não posso – quanto ainda consigo?
Que esperavas? Nem todos os moribundos conseguem o dia claro para aguentar o fim. Alguns dessoutros, assombrados pelo abismo no negro cego, resistem, e continuam de algibeiras cheias, jogando a sua hora por cara-ou-coroa consoante a moeda que lhes sai entre o cotão. De algibeiras rotas – modo de dizer que sempre vazias, ou até mesmo de quem não tem nada na manga – imagino-me seguindo para o rio. Esta atitude quase dramática, o passo estugado, a mão que segura o caderno e a caneta humedecendo à medida que o corpo aquece na caminhada, o olhar sem poisar em nada em concreto, mas absorvendo tudo. Escrevendo, como sempre escrevi, sobre tudo.
Então, ainda de longe, depois mais de perto escapando entre os pingos de chuva dos turistas, e finalmente ali defronte com os pés sedentos em tocar-lhe, eis o rio. Ondulação de água crispada como se cuspisse ao vento, reflexo de azul porque o céu também é o meu rio. Não fui feito para a terra, nem para o fogo. Se acabo, é golfando o sangue sem guelra nesta ondulação, no último desespero nunca esperando que braços alheios me resgatem para a margem. Virá depois a resignação, com tanta água inchando-me os pulmões, ainda dando conta que as tainhas, no seu cardume surpreendido, ora se chegam curiosas, ora se afastam receando. É que corpo deste tamanho, bracejando inerme, antes de ser alimento, há-de primeiro sossegar inerte sobre o limo.
Todavia, é uma canção que ainda gatafunho no caderno. Talvez por não ter o engenho para cartas de despedida, ajeitando o que poderá ser um epitáfio premeditado. E, porém, canção nenhuma, apenas a tosse de umas palavras concorrendo entre si. Nunca as domei. Que esperavas, se vieste tão tarde perdendo a vez da manhã? Porque hesitaste em sacudir o pó? Pudesses talvez lavar as vidraças da janela, colocando um cortinado alegre e limpo, impedindo que o pólen se atracasse ao junco dos meus pulmões, enquanto e ainda conseguissem respirar. Sempre uma brisa, talvez, pudesse dar-me outro fôlego.
Assim, resta-me quedo e vendo a água que tosse chocando contra as rochas do cinzeiro que daqui afastaste. E todo o verdete na margem descansando nos lenços de papel que mancho, imitando a cor das outrora outonais folhas caindo. Será que levo agora a primavera na algibeira? Poderei jogar cara-ou-coroa, entretido com a programação da tv que nada entretém?
Se não me queres ver rendido ao princípio do meu fim, se ainda te devo palavras ou canções por escrever; se ainda consideras que o rio não há-de chegar cá como nos meus sonhos recorrentes, encharcado de suor e tosse nas noites frias, com o sono sacudido pelo medo de que o rio tudo há-de inundar, e os teus joelhos frios como as ondas crispando, golfando sobre as tuas coxas; se achas que, com a tarde já acontecendo tão rápida, é ainda muito cedo para a resignação da derradeira noite… então, tens de me dar aquela força.

O texto constrói uma atmosfera densa e profundamente melancólica, onde o rio surge como símbolo central de dissolução, destino e possível morte, mas também de espelho e pertença. O sujeito poético dirige-se a um “tu” ambíguo — que pode ser simultaneamente amante, salvação tardia ou projecção interior — revelando uma tensão constante entre o que se é e o que o outro desejaria que se fosse. “Apenas quiseste que eu fosse quem tu desejarias” expõe o núcleo do conflito: o sujeito sente-se confrontado com uma imagem ideal que não consegue encarnar.
ResponderEliminarNuma perspetiva psicanalítica, essa dinâmica aproxima-se da noção de ideal do "Eu": o “tu” funciona como instância que sustenta uma expectativa elevada, quase normativa, diante da qual o “eu” se sente falhado. A frustração que atravessa o texto nasce dessa discrepância entre identidade vivida e identidade desejada. O “tu” torna-se, assim, simultaneamente objeto amado e juiz silencioso.
A doença, sugerida pela tosse recorrente, pelo pó, pelo bolor e pelo pólen nos pulmões, ultrapassa a dimensão física. A tosse transforma-se em metáfora da falha da linguagem: “canção nenhuma, apenas a tosse de umas palavras”. O que não consegue ser simbolizado regressa ao corpo. A dificuldade em respirar corresponde à dificuldade em dizer — como se o aparelho psíquico estivesse saturado, incapaz de converter dor em discurso organizado. Ainda assim, o sujeito escreve. E esse gesto de escrita é já uma forma de resistência e sublimação: transforma a pulsão destrutiva em criação.
As janelas fechadas e o quarto sem sol espelham o enclausuramento psíquico. A ausência de luz traduz a ausência de mediação do outro. O “tu” poderia ter aberto as janelas, lavado as vidraças, deixado entrar a manhã — mas chegou tarde. Essa chegada tardia adquire contornos quase traumáticos: o objeto salvador não esteve disponível no momento crucial. Surge então uma ambivalência típica das relações intensas: o “tu” é desejado como força vital (“tens de me dar aquela força. Ser uma manhã”), mas é também responsabilizado, de modo implícito, pela asfixia prolongada.
O rio concentra a dimensão mais extrema do texto. Ele pode ser lido como figura da pulsão de morte: lugar de regressão, dissolução e cessação da tensão entre o eu real e o eu ideal. O sujeito afirma não ter sido feito para a terra nem para o fogo, sugerindo que a água — fluida, envolvente, indiferenciada — seria o seu elemento final. A descrição do afogamento é concreta e minuciosa, intensificando a fantasia de entrega absoluta. Contudo, o rio é também espelho: “o céu também é o meu rio”. Nele, o sujeito vê-se. A morte imaginada é igualmente uma forma de autocontemplação extrema.
Mesmo na fantasia de afogamento, há vestígios do outro: “nunca esperando que braços alheios me resgatem”. A negação do resgate contém, paradoxalmente, o desejo de que ele existisse. A relação analítica — fundada na necessidade de apoio — torna-se evidente. O eu parece incapaz de sustentar-se autonomamente; depende do investimento do “tu” para manter a ligação à vida. Ao mesmo tempo, revela ressentimento pela hesitação e pela demora, configurando uma ambivalência amor-ódio que intensifica o drama interior.
O texto, porém, não culmina no gesto fatal. Permanece suspenso num condicional aberto: “se ainda te devo palavras ou canções por escrever… então, tens de me dar aquela força”. A sobrevivência do sujeito fica dependente da persistência do laço. Enquanto houver algo por escrever — enquanto o outro ainda escutar — o fim não se consuma.
Assim, o texto equilibra-se entre impulso de dissolução e desejo de reconhecimento. A água não é apenas morte; é espelho. O “tu” não é apenas outro; é ideal, juiz e possível salvação. E o “eu”, mesmo ofegante, continua a escrever — permanecendo à margem do rio, onde a palavra é a última forma de respiração.