tão perto


Deixaste-me tão perto do éden. E, agora, com um horizonte feito de arame farpado, quando julgava esse jardim a tão breves passos. Que pecados tenho para não passar esses portões celestiais? O que me sucede depois disto, de ter estado tão perto e nunca poder ter entrado? Tornar-me caído em terra sem haver alcançado qualquer estatuto parecido ao de um anjo – o que é um mero homem caído?

Ficar em emersão sob águas que regem o ar que ainda há, ou imergindo sobre águas que me sorvem para o abismo? Uma natural depressão do calcário entre a erosão e a mais antiga proposta da rocha que se achava dura e sólida?

O silêncio de ti bate em mim como um chicote bravo, de unhas férreas vindas sei eu lá de que mãos carrascas, e que hediondo crime terei eu cometido. O teu silêncio dói-me com séculos de sangue, medonho cárcere, com o cheiro da terra dos mortos sob auroras boreais feitas do mal-cheiroso, borbulhante, chocalhado, e escaldante enxofre.

Preferia ser um verme, uma simples larva, inocente e ingénua, à espera da altura certa do casulo

(quem perto esteve do paraíso e logrou a sua entrada, bem pode considerar-se larva cujo casulo não lhe deu oportunidade de ser borboleta farejando as flores)

uma larva que é muda, surda e cega. Que, no caminho da sua sobrevivência, sorvendo algo de uma raiz minúscula ou das folhas mais tenras das plantas surgidas na terra, seja surpreendida pela necessidade de um rouxinol

(sem perversão)

um rouxinol que em mim

que na larva

que em mim enquanto larva

vê alimento para aguentar os dias que faltam ainda para o eclodir dos ovos que vem chocando, à guarda da primavera que há-de vir, mesmo que os arames farpados dos homens possam fazer duvidar se

(anteontem, ontem, hoje, e também amanhã)

pode a primavera ter o mesmo significado de outrora

(atrás, bem atrás do anteontem).

Nesse propósito, como larva a alimentar o choco de um rouxinol cujo canto os homens gostam tanto de ouvir nas suas deambulações bucólicas, seria eu mais útil no ciclo natural do que o simples homem caído de um céu que não sabe o que é, nem o que representa cair de tão próximo desse céu, na aterragem sem nada que o receba: nenhuma bela humana fêmea e, também, motivo de indiferença por parte dos demónios mais temíveis, esses outrora secularmente caídos.

Aqui, com esta insuspeita ambição de ainda ser possível ganhar asas para voltar ao ponto antes da queda, e na esperança de que nenhum arame farpado me impeça, preciso outra vez da tua voz como incentivo. Tentar ou insistindo, entre as nuvens, apenas por recordar o azulado do teu olhar como um céu que me espera, amparado pelo estribo dos teus dedos para deixar de me sentir menos que o nada, resignado e afundado no torreão estéril entre o escarninho das ervas daninhas.

Podes vir neste auxílio? Pelo menos, dar-me as coordenadas para saber onde estás. Por mim, não há caminho difícil desde que seja o caminho certo para alcançar o chão onde acredito que pertenço. Ou onde mais seguro cair, enfim.


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foto de Vyacheslav Vanifatyev

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