função


Dedos impacientes com todas as palavras no interior em tumulto de vozes várias em coro, enquanto a função hepática argumenta compromisso de repouso. Os dedos impacientes tornam-se cabeças febris corridas de cefaleia, cada dedo uma enxaqueca. Dez vezes doem as palavras que ficam retidas, a gritar muito, muito alto. O sangue permuta, ora fininho para esvair-se do corpo, ora engrossando até ao calcário. Dedos que, ainda assim, começam a mexer, primeiro como numa marcha fúnebre, para depois se esgotarem numa espécie de corcel desconcertado.

Não é assim que funciona.

Estou prostrado, destilo mal, é sabido. Mas, tu estás aqui. Com esse nariz pequeno e tão soberano. Fazes dos teus cabelos raios de sol como se uma manhã pudesse permanecer quando, como agora, o entardecer insiste chuvoso. Tu sempre duvidaste de qualquer crepúsculo. São apenas apontamentos caprichosos do tempo. Há luz diurna na tua melena, enquanto o teu olhar, esse, ensaia sempre o reflexo da lua sobre esta cama. Fecha os estores. Não se confunda essa luz com a claridade da iluminação urbana sobre a chuva.

Então, por estares aqui, e com esse preceito todo, há-de ser um desgosto tamanho ver-me assim, quase prescrevendo. Sou culpado da pena de mim por injusta situação, mas não toda a culpa, pois cada um dos dedos meus, latejando, não cumprem esta função de elos fortes na corrente com que me agarro a ti. Não vou despedir-me de ti com o que me dás. Dizem os morangos, ao despontar, que serão sangue um dia para que os corações se dilatem, primaveris, a respirar concertadamente. E um coração trinca-se, como o teu, pulsando à frente e atrás da língua o paladar agridoce. Pois é assim que funciona a vida.

E tu dizes com as tuas mãos que há muito futuro. Ou, melhor, nas palavras que preferes: são muitos os amanhãs. Este que veio muito cedo e de mansinho, por me ver

por me veres

aqui assim prostrado, é um hoje cinzento e molhado sem ontem nem amanhã. E queima como o cigarro. A língua, queimada, não toma o sabor a quase nada. Porém, estás aqui. E isso é única circunstância que importa, a que me aguenta. Deixo para lá as palavras em coro. A função hepática adequa-se. Vem, meu amor, não apenas com a luz dos teus cabelos como o sol, não só com o luar nos teus olhos a bendizer a noite. Vem com todo o teu corpo. Vem, que os teus mamilos e as bocas que tens também cumprem importante função. Para ambos.


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foto de Colin Pittman

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