hoje não


Queres a verdade? Não me entendes, talvez nem sequer me conheças. Não da forma como devias conhecer-me, condição que me faz duvidar sobre o quanto eu pude conhecer e saber de ti, como és – entender-te. Sabes como eu sou? Acaso entendes outra coisa quando observas o meu sobrolho torcido, as minhas parcas palavras se eu digo

- Hoje não

ou apenas dando aos ombros, sem proferir qualquer palavra, e deixando prevalecer a tua vontade?

Talvez digas que é mais do mesmo, que eu sempre fui assim. Mas, sabes dizer o motivo para tal, qual é a primeira razão para que afirme o quanto não me entendes? Diz-me: fizeste esse esforço? Para entender-me? Melhor me compreende a natureza do vento que corre. Ou a corrente de ar que vai desta janela defronte até à porta de trás, casa totalmente aberta, portas, janelas, nos dias quentes. O meu corpo também, imaginando a volúpia com que me abraçavas em tardes dessas.

Melhor me entende o restolhar das árvores frondosas, ali naquele terreno onde cresceram porque deus quis. Sacodem os seus ramos como eu sacudo o meu corpo, na tua ausência, com metade dos dedos da minha mão direita. Imaginando que tu sempre presente, mesmo na tua ausência. Sei que sou feita dos clichés que te consomem a paciência, ainda que o negues. Não me sinto culpada por tentar chegar tanto a ti e me deixar ficar a meio caminho, por ignorância.

Dirás que isso advém da minha fraca ambição, que me consolo com meros desejos. Que eu não vou mais além, que ignoro o quanto te satisfaz. E tu, que saciedade me dás, para além dos preliminares na cama, dedos teus e essa gulosa língua entre as minhas coxas segurando pequenos trejeitos sobre os teus ombros? Tu, duro depois, entranhado em mim perdoando o assombro crepuscular, e o meu suor sem êxtase. Será porque nem eu nem a tarde ardemos quão desejarias? Que esperavas, senão a brisa como vento entre as janelas e a porta das traseiras, mas sempre imolando o ar de tudo o que é de ti?

Imolando sim, porque nunca ardi tanto antes que fosses tu posto em mim. Enfim, nada disso – eu como pinhal ardendo ao sabor do vento, ou o vendaval em que se transformavam os teus movimentos em mim – nada disso me fez, ao que parece, discernir como és. Para além das partidas e ausências nunca anunciadas. Queres a verdade? Se não me entendes, tu dificilmente me deste a entender-te. Como és, como te moves, como vens para mim.

Dizem os momentos contigo mil-e-uma palavras. Dizes o que te dói e o que não te dói. Dizes dos ventos e do fogo, como argumentas do sal e do mar. Vens sempre com a fúria quando eu só pretendo ser um ribeiro para te saciar, e acalmar, uma chuva para nos entrelaçarmos, e apenas corpos juntos, por amor, sem outra coisa.

Por que me ateias fogos assim, no intervalo das largas estações, entre o fogo e o gelo? E partes depois, uma e outra vez, ora quando o tojo assume a flor ora quando as folhas das árvores amarelecem? Que me resta no tempo entretanto, quando das chuvas, do frio e da neve, dos ventos furiosos? Tu não queres a verdade. A que sempre ditei e tu nunca ouviste. Já de ti, meu amor, cheiro ao longe cada mentira tua.


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foto de Nataliia Trubitcyna

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