18 de agosto de 2018

sábado



Espontaneamente, o teu rosto. Com um claro e evidente 

(clarividente?) 

estrondo. O amor incondicional. Esse éter que se materializa no sangue, carne e sentidos que definem a Mulher que sou. A que sempre fui e se atrasou no tempo. Viu os tempestivos humores da alma como barreiras intransponíveis, rastejou na lama como verme imundo, ascendeu no ar como pluma para variadas vezes ser assassinada por caçadores furtivos. 

Durante décadas foi logro, alternando sem nada entre a ilusão e a mentira. Sempre na espera que um ombro, que um colo, que uns dedos meigos entre os cabelos amenizassem o vazio. Sempre sem ninguém. Não havia ninguém. 

Na madrugada foi assim: fotografia instantânea, com o teu rosto dentro a fazer-se de sol redentor. A tua voz garantindo entre o fogo e os tormentos que, afinal, sempre valeu a pena. E soube assim, ali, da importância do teu sorriso resiliente. 

Se não foi isto um sonho, então entra, e sê o Homem.

12 de agosto de 2018

negação ou dissertação sobre o nada




Fiquei encalhada na lima da aresta, com suspiros de peixe a sobreviver fora de água. Coloco o chão acautelado de qualquer vibração que possa alterar este estado e me aborreça. Não quero aborrecer-me, pleonástica, uma e outra vez, como quem insiste exigindo a um cego que veja com os olhos mortos. Fui desprovida dos beijos e abraços que outrora soube colher em teu colo. Digo o teu nome e já nem o eco assoma. Estas nuvens passeiam-se a dar-me misericórdia ao corpo estendido, a metros do mar que se enrola pateticamente em métrica e sílabas dissonantes. Sobe um vento devagar, a tentar o conforto dos meus ombros e dos braços inertes. 

Não sei onde estás, e como havia de saber, para que fortuna minha contribuiria se o soubesse? O que é de incerto em ti já não se compadece com a minha sede de te saber. Não há por que te encontrar. Caule pisado, aninhado em sofrimento por tentativas vãs e repetidas de suster a flor. Há um comboio a zunir mais longe, acorde partilhado com os gritos das gaivotas. Lá no alto, e no centro, dará para ver o caminho que escolheste? 

A tarde sobe já, a moldar os ângulos da periferia, a tarde espreguiça-se toda de domingo. De areia sem deserto. De betão sem sol. De sombras sem jardins. Não consigo olhar as pessoas, doem-me punhais. Não sei nem quero (não sei se quero) dizer alguma coisa, se todas as palavras se afunilam desde que nascem, hiperbólicas, no pensamento, até à abertura poluída da língua. 

Sonho que quero sair. Divago. Divirjo. 

Entorpeceste os movimentos de que ainda era capaz, a projectar rectas ou, no mínimo, círculos mais alargados, dos que se perdem da vista do raio. Queria ver os miúdos saltando na água. Sentada em lótus, talvez beberricando cerveja. Tornar-me ciclope. Não sei se vou, se faz sentido ou se há vontade proporcional para me erguer desta aresta. Sei de mim porque o corpo pesa. Pesando mais a alma, porém. 

Fecho os olhos para contemplar a memória sobre as ervas daninhas, moribundas entre as fendas da calçada, e no horizonte perceber que a terra justifica o seu cansaço com os calores de agosto. Já se nota – sabias disto? – que a luz se recolhe antes dos relógios ainda ufanos da condição estival, a encurtar os dias devagarinho como se propaga uma doença maldita. Quando se der por ela, e as brisas cortarem mais frias, estará a sorrir-me o outono, indicando que é altura de regressar. E eu possa assim voltar a mim, a ser eu própria como são as folhas morrendo das árvores concentradas no chão. 

E agora pasma-te: por não saber mais onde estás, não quer isso significar que não saiba eu para onde vou. Sei, claro que sei, somos o destino que construímos. Não te cresçam aflições, meu amor. Sei o que me reserva, o que reservei para estar e ser. Acontece é que neste momento não quero. Só me interessa o nada inclinado numa aresta, a alimentar o domingo de bocejos enquanto não acaba.


28 de julho de 2018

em pé

Kültür Tava

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-me sair como quem se despede para destino incerto, a saber que o fogo também unge e salva, que nada espera. Censura-me se encosto o ouvido à lamúria, advertindo-me sobre as auroras prenhes de luz. Pois que estou com esse medo de todo que me quebre o corpo, e de um assombro perca os membros, e me resigne a uma inutilidade de réptil por em oco deixar-se o osso definhar onde rémiges haviam de crescer para me tornar alada e dessa forma a divina que viste em mim.

Já só dói o teu sorriso aquecendo a líbido das mulheres alheias ao teu anseio. Não sei imaginar a tamanha saudade que vou ter de ti. Hei-de procurar-te na orla do mar. Não por acreditar na redenção do pôr-do-sol idílico preliminar dos amantes em estampas românticas. Hei-de ir na madrugada mais escura, fria, se possível na porcelana branca do nevoeiro. Procurar-te e ser invisível, ou apenas vapor sem forma ou claridade. Não terás a necessidade das lágrimas então, certo que o teu regresso seria erro de feitio, insistir no fôlego quando o ar é tão rarefeito.

Fico bem. Sabes que a mim não me bastou nunca o sofrimento. Satisfaz-me sentir o cheiro do sangue, afirmando a certeza que as feridas cumprem e são concretas na dor. E fujo da morte como castigo. Se morresse, certa estou que seria para um nosso reencontro. Lá não há nada, não queiras ser nada entre os meus braços. Não venhas. Pretere o vazio, que em mim mais fundo e tenebroso é o abismo.

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-te sair como quem rende os dias, a saber que a terra é sacrilégio para quem fica. E pesa. Como pesa, ainda que as brisas e os ventos. E as árvores testemunhando, irmãs, que é em pé que se ganha a eternidade. E a solidão.

22 de julho de 2018

as algibeiras de virgínia



Trouxe qualquer coisa na algibeira que se abeirava

(disse para consigo)

a uma oportunidade de

– finalmente!

(repetiu)

ser feliz.

Estudou, viajou, sentiu cheiros e sabores, observou. Afinal, não: impossível a felicidade conjugada com o verbo ser. Pôde perceber na poluição dos rios, nos caminhos percorridos sem calçada ou macadame.

Triste porque inacabado enquanto homem

(concluiu),

dirigiu-se ao cume de um relevo sem perceber o abismo. Por simples curiosidade, deu conta apenas do escuro fatal das águas correndo declive abaixo, ao fim de tudo.

Tudo tão no fim, tudo tão declinado e em baixo

(lembrou de dizer para si próprio)

a vida toda feita num abissal baixo, como se o céu desmesuradamente distante das ambições  humanas. Tomar a lua foi falsa promessa e conquista?, indagou ainda.

Recolheu-se num gesto de resignação a baixar os braços, e percebeu na algibeira o volume e o peso do que o levou a chegar ali: a oportunidade de se abeirar de algo que teria levado anos a concretizar. Do que foi em tempos. Foi sem tempo que concluiu:são afinal pedras, pesadas, em todas as algibeiras que vem carregando a humanidade.

Súbito, um impulso subiu corpo acima, tremesse embora das pernas e a aflição no peito: era como um sussurro – encosto do espírito da Virgínia!, suspirou, em cautela supersticiosa – a dizer-lhe que o abismo é apenas ar.

Agora, podemos anunciar, já não existe: pairamos sobre ele, como abutres que somos, a observar-lhe os escombros da queda quando soçobrou, como homem que foi, lá em baixo, a julgar os abismos.

13 de julho de 2018

teatro anatómico



Bom dia. Entra e fecha a porta. Vem verificar as nódoas visíveis sobre a pele. Finge-te erudita do asseio, e que zelas pelo corpo como bibliotecária em Alexandria. Não receies, que fogo algum poderá destruir o legado que herdaste e vens cuidar com precisão de luva. Aguenta-te no acidente, que os objectos frágeis são susceptíveis à perda eterna, ao cabo da extinção, ao fino fio tenso entre os picos, a tremelicar sobre o abismo da existência. Se sentires que o corpo vacila dá-lhe quarentena e deixa-o em repouso como se fosses jejuar no deserto. Ao regressares move-te com atitude felina ou cautela de pluma. Abre muito devagar cada poro e liberta o mofo, soprar para que se respire, observando se as sombras se espantam. Leva o corpo em troféu derradeiro para o teatro anatómico e faz suspender a luz. Sai e fecha a porta. Boa noite.


21 de junho de 2018

manifestação



Ontem toquei-me no banho
por me lembrar do teu lascivo apelo
à paz:

foi tudo certo, ergui o mastro
para desfraldar a imensa e alva
bandeira,

o punho cerrado e pulsante
por essa tão nobre causa,
mantras

para o equilíbrio dos interesses,
e a essa vontade de um cessar fogo
da carne,

lembrei o teu os nossos gritos de ordem
roucamente libertadores da tua nossa
aflita voz,

e achei-me, no final, tão realizado, ou mesmo
feliz por desta luta saber-me eu e tu cansados
vencedores.

19 de junho de 2018

justaposição



antes da lógica, mandam que o coração
seja palco geocêntrico, enquanto a silva voz,
num grito,
repudia as leis da física;
e falam-nos, com ar de incorruptível alegria,
de uma praça verde, planície até ao solstício,
como se os mares fossem declives
onde só o inferno possa ser chão,
enquanto o firmamento pétalas
de flores sem fim.

vamos lá a ver:
nada fulge como parece, e acidente
é o terreno, se vos
enganam os sentidos,
pois que no crepúsculo do dia ou na efémera estação
estais lá vós e, no firmamento,
afinal,
reina heliocentricamente a
razão.


10 de junho de 2018

escrever liberta

Fátima Matos, por cortesia

para a Fátima Matos


- Escrever liberta.
- Liberta o quê?
- O que te vem da alma, minha querida, tudo o que te vem da alma.
- Então muita coisa, e do coração ainda mais…
- Do coração, da alma, até do corpo – somos disso feitos.

Planta o teu sorriso, e escreve: de que é feita a terra e a sua cor. Quando é lama e pó, e as criaturas que a habitam. Das tuas unhas nela entranhadas. 

Solta o teu cabelo, e escreve: sobre o que faz soprar o vento, medonho no inverno e como uma carícia quando uma brisa no verão. Da forma como agita o mundo e ainda te faz secar as lágrimas que te lavam o rosto de amarguras ou solenes alegrias.

Esmera-te a regar as raízes, e escreve: como foi que o teu sorriso afinal medrou. Por que são tão importantes as chuvas conciliadoras ainda que seja o sol que desejes, a lamber-te a pele. Escreve sobre a planície do trigo, a forjar o pão. Por que há noite e dia, e aquela hora pequena entre a madrugada e a aurora a incentivar as flores e as copas das árvores altas, murmurando.

Abre as tuas mãos para receberes o fruto, e escreve: o que faz a carne, por que se desfaz a polpa. O que faz pulsar o sangue, e a cor leitosa do sémen. Se foram em vão ou não todos os teus sacrifícios, bem como as dores que o mundo tem. Escreve sobre o doce e também sobre o salgado. A textura da língua, e a saliva alheia que lhe sacia a sede.

Assiste da forma como se rende a tarde como virgem em furor, e escreve: de que é feita a luz e qual a razão de ser assim eterna. Como é que, sendo nós dessa condição da terra que é lama e pó, nos transformamos num brilho permanente aspirando com a morte o seguro firmamento do céu quando desce a noite.

Nessa altura, minha querida, ao repousares sentada e encostada ao tronco da árvore, a abraçar brisas de verão sob a sua sombra, lembra-te de escrever, a essa mesma árvore que te acolherá, sobre a razão de ser ela tão livre para que a natureza lhe conceda esse milagre de nos dar o seu fruto.


1 de junho de 2018

acto final

foto por Milos Korecek, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.


Temei mais nada, ó cães danados e feros, se a caravana já vai tão longe e tolhida de susto que do seu rastro não há-de formar-se qualquer memória! A soma dos equívocos é um pretérito de assombro, e a periferia apenas um esboço para quem tem fé num destino arquitectado. Se, ainda assim, vos atrai o abismo, saltai precipício abaixo como a vara a que o secular mestre condenou. Não tenho vocação para santuário dos infelizes e atormentados – não fosse eu, de maxilar espumoso e brilho nos caninos, esta besta inquieta entre as trevas! Sossegai, veias dilatadas, que o monstro foi solto em parte incerta e amaldiçoado; não terá mais regresso! Sustém-te, ó músculo vicioso das paixões, dos embustes, das profecias, das tragédias! O teu lugar é agora uma cadeira onde poderás assistir ao desfile perecível de toda a efemeridade – tem-te e não caias, resigna-te a bombear a vida e sê profano de toda a esperança! Também vós, ó vistosas e impacientes fêmeas, recolhei o facho entre as pernas, deixai que o vosso corpo recupere da ofegante e arfada jornada, ide deitar as tardes a dormir, num incêndio apaziguador que vos reconcilie a noite com o cio adiado! 

Uiva agora, ó sublime alma, que as valquírias sonegam Odin já senil e desprezam Freia, essa cadela perdida da sua demanda! Esquece o cálice por onde bebeste o vinho inquinado na esperança de promissoras auroras e horizontes de esplendor. Alimenta-te agora das sobras caprinas vagantes entre as pedras estéreis, nas sobranceiras colinas, nos angulares declives e precipícios. Tem força nas patas traseiras, ó alma que cursiva teimas; eleva o grito, sobrevive! 

Eu quedo-me de cócoras, sobre o limo, tão sujeito ao apelo da cobrição da terra por derradeira fecundação! Sirvo o ventre aos vermes, os olhos à secura do vento suão, as mãos à raiz do pó. De nariz apontado e triangular sob o céu que parece descer em trovões de riso e escarninho, devolvo o peito às rapinas ociosas e sem vocação de predação. No final, a morte será apenas signo de insolência. Pequena árvore de sujeição, onde futuros traidores terminarão sob os seus ramos a desejar piamente que as negras nuvens os levem para delírios azuis.



19 de maio de 2018

do maio fecundo


Anybal Bastos photography | modelo: Ana Brito Silva


para a Fernanda



O rio dourado sempre meu confidente soube desse dia de maio em que as aves anunciaram que a cor do amor é azul. Maio criador, fecundo e maduro com as searas ainda jovens, jus à pele adocicada dos teus braços alvos com o sol predicado nos teus cabelos. Inaugurando as brisas de verão a lamber-me o rosto.

Conheci a pele de pêssego no teu peito, o perfume da giesta no teu pescoço, e o sabor da amêndoa no teu olhar.

Tudo tão inicial, como qualquer alvorada, em que pude perceber a geometria dos jardins, pegando na tua mão. Se tremias, eram os abalos em meu peito; se sorrias, era o fulgor do ouro sobre o meu corpo.

E o beijo, como cavalo selvagem à solta, faminto do feno.

Foi quando nasceram os poemas, tão puros e virgens, esse maio feliz. Nós ainda meninos, com a esperança de abarcar o mundo. A eterna juventude da qual afinal nunca parti e onde consigo sempre ouvir a tua voz.

Não será apenas memória ou cadente nostalgia. Estará no sangue de que sou, no entendimento que tenho do mundo e das mulheres.

Não foi, nem será: é a nossa sexta-feira azul.



13 de maio de 2018

queria escrever como faço amor

Robert Duval, via Photographize



Queria escrever um poema
como sei fazer amor, e eu
só sei fazer amor
– não digas
   não digas que não sabes
o que escrevo, ou que não entendes
o que escrevo
pois se
o que escrevo
é tudo e por amor, e é amor
tudo o quanto quero que sintas.


6 de maio de 2018

prelúdio


Kültür Tava


Suspiras como uma sinfonia e estas paredes confidentes do teu corpo. Por capricho, maldade ingénua, ou simples amuo momentâneo, o vidro da janela sustém o fulgor da claridade plena e desvia-te a luz da tarde para um ângulo isolado do quarto onde as partículas do pó se ferem por algum protagonismo. 

Dizes que escrevo inseguro, que é uma pueril falta de confiança, mas logo percebes a oscilação do tampo da mesa onde tenteio, só e incapaz de manter o rumo do navio na previsão de uma tempestade. Tudo se move contra vontade – não sentes? –, essa desconfortável vibração como se o mundo fosse ruir e já antes de nós o susto das aves na sua revoada de espanto, fugindo. 

Não temos cidade, escaparam-se-nos as copas das árvores, e quando sopra uma brisa é um hálito tão temeroso que acabamos duvidando do sentido desta existência. Dos suspiros vem-te a ideia de uma demanda, mas não sou anjo nem cavaleiro, não vim para dar salvação, e estarei sempre numa partida inglória. As minhas palavras não produzem, apenas espigam como o joio. Seguem de igual forma temerosas, num veículo que oscila, desmedido da força da corrente, inconsciente da velocidade. 

Hás-de reparar nos semblantes de quem viaja no regresso a casa com a fadiga nos dedos e um grito incerto no olhar. Não sabem porque gritam, ou porque lhes apetece gritar. Agitam os cabelos quem os tem, fumam seus cigarros os viciosos, deambulam todos, perdidos. Aquelas cabeças dançam, abandonam-se a incertezas – sem receios, podemos notar, mas ainda assim apreensivos com a escuridão certa e irrefutável. 

Nas palavras que ainda saem de mim há também mulheres bonitas, dessas que seduzem apenas pela forma e com o gesto singelo da sua feminilidade. Navegam no mesmo tampo. Viajam no mesmo corredor. Vão também sem ninguém dentro 

(as mulheres? as palavras?) 

a sentir que a alma lhes pesa tanto quanto um acessório inútil dentro um bolso. Sorrio-lhes, com certa comiseração, e observo-as a desperdiçar o ânimo para dentro desse escuro. Respondem ao sorriso como se mais nada, mas, mesmo assim, indiferentes a uma possível tábua de salvação. 

Já não se carrega a humanidade na carne. Teme-se o amor. Todos nós o tememos, pressentindo a aflição de o perder. Já não suspiras, ou é o acto final que te deixa a desmaiar. São as pálpebras na procura da vigília conciliadora. Se me vier o sono, será norte ou será morte. Porém, das janelas, ainda persiste a tal luz angular. Questiono sobre esta demência disfarçada de entorpecimento, se hoje foi um sol tão raro. 

Perdi a parábola, era suposto falar-te e nada soube dizer. O que pode ser dito do indizível? Soltam-se as palavras do alinhamento da escrita e perdem-se entre os cantos, na subida das paredes, amedrontadas se há vibração no chão. Como bichos que rastejam. Contemplam o bailado da poeira no vértice da luz desviada e aspiram, alucinadas, ao mesmo protagonismo, furiosas, desequilibradas, tão humanas. O teu corpo dorme. O meu insone. Levo os dedos aos meus lábios, recordando que tinhas vindo para os beijar. Houve faúlha, chama e hulha quente, agora apenas cinza. 

Os dias sempre foram muito bem contados, não podemos distrair-nos. As madrugadas serão sempre imensas, quando dormes. Mesmo que haja dia, mesmo que a noite dite o fogo. Teria graça poder contar-te como foi. Quando me vires, porém, já serão as papoilas sobre a minha campa.


22 de abril de 2018

em cama fria

Kültür Tava



Queria a calma manhã para escrever-te o chilreio das aves pequenas ou o recolher ainda ululante das rapinas nocturnas. Dar-te o acordar do céu envolvido no mesmo halo dos teus olhos. No prado, o balanço e o friso dos fetos que se espalham, e a fauce das flores na descoberta das suas corolas. 

Queria o teu sorriso e as tuas mãos brancas assegurando que o mundo é afinal e ainda o melhor sítio para tomar a vida. A ondulação de oiro do teu cabelo num abraço para lá do todo. 

Queria os nossos gestos na vez dos fonemas ou, se necessariamente com palavras, um andamento lexical sem indicar por quais caminhos seguir ou influir sobre a nossa condição futura – apenas as dos sons chegados à terra intercalados com os assobios matutinos dos melros. 

Queria a brisa amena sustentando o voo das borboletas brancas, o aroma denso do tojo por contemplação da magnificência das montanhas desmaiadas de amarelo no horizonte. 

E queria o brilho do sol e a sua macia temperatura primaveril em auxílio do sangue que me percorre as veias. 

Tudo tão rebuscado, uma tontaria tão adjectiva, dirás. Eu sei: ao despertar percebi, sob a pressão do peito e na subida angular das lágrimas, que o meu corpo se havia resignado em cama fria.


23 de março de 2018

dizer silêncio

Jordi, via Kültür Tava


Dizer silêncio é ouvir a distância chorar.

A noite é um corpo húmido e túrgido
afecto de distâncias e rubores,
quebranto dos meus lábios que entumecem
no calor dos afagos.

Chove numa lassidão queda
num murmúrio sereno de vegetação,
as sombras são vultos feitos de água,
fervem as minhas veias clamando o sono quieto do corpo;

e num torpor
a minha pele que sacode as gotículas da pequena chuva
sussurra sibilante na delícia do toque de veludo
da madrugada,

rendido que estou ao pranto da distância que se diz
silêncio.

20 de janeiro de 2018

primeira carícia


Elliott Erwitt / Magnum fotos via Fotograficamente

Quero ser a cor dos teus dias. Acredita que consigo resgatar o teu sorriso ainda que nesta tarde tolhida por nuvens pesadas tenhas receio de olhar para além do cinzento, da parda solidão.

Basta que entreabras os lábios. Devagarinho como uma primeira carícia. Aos poucos é como que o sol a despontar. O teu sorriso brilha, Anna, enverdece os prados, aquece a semente. Acalma as marés. Como se viesses desses países distantes e encantados a dar boas novas ao mundo.

Quando sorris o teu olhar enternece. Comove-me no seu mistério, na cândida maneira de seduzir. Tens o amor dentro de ti como nascente de água a borbulhar por conhecer a terra e abrir sulcos profundos no solo.

Deixa-me ser o teu leito. Deixa que os meus dedos te conduzam como vento.

Vou estar aqui, entretanto, a velar o teu silêncio. E quando enfim abrires a janela, a primeira brisa que sentires no rosto será o beijo que os meus lábios, irrequietos, guardaram para te dar os bons dias e convidar-te


- Vens comigo?


15 de janeiro de 2018

poema do encontro

via Borboleta Rubi


Enovelo-me no teu abraço e o mundo perde-se, extinguem-se as estações do ano, faz sol quando chove, ardo em calor se são de neve a chuva e o vento, abrem-se jardins entre o betão da cidade, todas as pessoas são felizes ainda que carreguem semblantes pesados.

No teu colo regresso à infância, sem conhecer viva alma de má fé, és o meu escudo protector, o paredão contra o mar irado, a duna que me protege do vento norte.

Cada beijo teu uma flor aberta, as tuas carícias as plumas das aves pequenas. Sou em ti, perpetuado sem idade, inaugurando o mundo a cada suspiro do teu peito.

E quando mergulho no azul do teu olhar não há penumbra, porque os teus olhos brilham como candeias, ou é todo o céu estrelado nas noites frias do norte, a guiar-me a caminhada.

Sou pobre sem ti. Não tenho nome na tua ausência. 

A fome. O teu segredo. Os teus cabelos como tempestade de ouro sobre a almofada.

A canção.

Beber do teu peito a claridade da manhã.

Eu em ti. As minhas lágrimas por ti. O meu corpo por ti. O meu sangue por ti. Encontro-te: quero-te. Não sei o que fazer se tu não estás.

30 de dezembro de 2017

ver morrer

Kültür Tava

Serve-me no rosto a gota de sal e esquece a taciturna nuvem enovelando a tarde. Cada segundo um tambor do tempo em meu peito como um cavalo galopando pradaria fora. A chuva serve de mortalha ao ano que se finda e nós sem um gesto comiserativo, ou qualquer ansiedade para lhe velar o corpo, preocupados com a ignomínia dos pagãos.

Ver morrer não é signo de passagem. Ficamos quedos no passado, a indagar as razões dos nossos fracassos, ofendidos com esta pressa que o tempo tem de se ultrapassar, sem hesitar sobre os actos, sobre as cruzes, sobre as lágrimas de quem está aquém e não sabe o norte do futuro.

Eu e tu não provaremos deste ou de outro amanhã. Temos vindo a tactear o mundo com os olhos muito abertos na alfena escuridão e não sabemos onde estão os nossos corpos para repousar. Temos as mãos unidas para mais rápido nos afastarmos com medo. Temos os lábios em comunhão para céleres se ferirem de sangue. Ouvimos o murmúrio de uma canção mais longe mas é o silêncio que entre nós cresce. Temos a voz rouca de tanto gritar no vazio.

Serve-me o sal numa gota do teu abraço. Entro profundamente no céu dos teus olhos e são as brisas de maio, o trigo de julho na cama dos teus cabelos, o humor da terra de outubro no teu baixo ventre. Motes de uma fábula por inventar que já não sei escrever. Nada se inaugura. Levamos os livros velhos, a tinta desbotada, toda a vida já contada e sem outros planos que o caminho sobre a argila vermelha de um sul estéril.

Vai descer a noite e o novelo da chuva não se precipitou. Está nos céus em anseios de virgem. E o tempo é um touro marrando com cio. Vai preparar-te. O esquisso do que quisemos que fôssemos será diluído quando a chuva chorar de espanto ao sentir-se possuída pela virilidade do tempo que lhe semeará no ventre o alicerce do ano que já não vamos poder ver nascer.

Serve-me dessa morte no sal de uma gota que deixaste por mim.

24 de dezembro de 2017

segunda-feira

Andrea Kiss - www.facebook.com/andreakissartist

Ninguém sabe. Só eu a sinto. E senti-la é não saber exactamente quem sou, como sou, e o porquê. Não o porquê da minha existência, mas o porquê do meu sofrimento. O porquê de me sentir assim, sem nada para que possa apontar

– Sinto-me doente

e no entanto é assim que me sinto, doente, mas do quê, não sei. Creio que tudo terá começado naquela nefasta segunda-feira, como todas as segundas-feiras são nefastas, as pessoas abrem a boca de tédio e suspiram

– Amanhã é segunda-feira

como se a segunda-feira fosse o dia do suplício. Mergulham nos seus sofás coçados pela tarde mole e sonolenta de domingo, perdidos no vazio dos ridículos programas de televisão, ou dos filmes de segunda categoria repetidos ciclicamente, intervalados por enxurradas de publicidade, fazendo-os sonhar com ideias fúteis. E esperam como répteis que as horas concretizem a segunda-feira, a nova semana de lavores e irritações que se inicia.

Não foi isso, ou não foi por isso, que em mim tudo começou, naquela nefasta segunda-feira de Outubro. Foi a dor que não senti, da perda do meu pai, expirando eram duas da tarde o seu último sopro de vida, preso aos lençóis da cama lavada de fresco, entubado pelo nariz e enfraldado como os bebés. Para ele não havia razões para afirmar

– Sinto-me doente

pois nele tudo era visível, o soro, as aberturas no abdómen para escoar os líquidos que não retinha, a algália… o peito magro revelando as costelas, e o batimento cardíaco cada vez mais acelerado à medida que as injecções de morfina iam sendo aumentadas, para que se não prolongasse o seu sofrimento. Foram os intestinos, rebeldes, que o mataram, desfaziam-se como o papel de um guardanapo humedecido, eram enfim bocados do intestino desfeito que lhe saíam pelos drenos feitos na barriga. Eu não sabia ou não queria compreender como uma doença pode acabar repentinamente com uma vida num espaço de meses. Julguei que apenas dizendo

– Sinto-me doente

se pudesse recorrer aos médicos, aos hospitais, aos cirurgiões que dizem esforçar-se para fazer terríveis milagres quando os doentes entram, terminais, divagando

– Só se lembram de santa bárbara quando troveja

como se a questão da vida fosse uma possibilidade climática qualquer acometida pelas forças sobrenaturais. Afinal não basta anunciar-nos doentes para que possamos ser salvos, quer pelas mezinhas da avó, quer pelas curas milagrosas e esforçadas da ciência médica…
Não chorei em qualquer altura do acto fúnebre, nem antes, nem depois, estivesse só ou acompanhada, ao passo que outros familiares, a maior parte deles nem sequer muito chegados, tias irmãs do meu pai que socorriam ao cadáver, histéricas aos berros,

– Eras o mais novo e foste o primeiro a partir

familiares que nem uma única visita lhe fizeram no hospital, ou em casa enquanto o meu pai aguardava que o seu último suspiro o levasse para lá da hipocrisia terrena.

Foi assim durante muito tempo, durante anos, sofria calada para mim mesma, não querendo aceitar que a morte me tivesse afectado, desprezava-a tanto que nunca acreditei nela, apenas sentia a dor da saudade física do meu pai, da sua voz, e tentava convencer-me que nunca mais o veria, como se tivesse empreendido uma viagem longa e interminável.

Outras coisas se foram passando comigo, agruras da vida, mas nada de especial, nenhuma desgraça, nenhuma dificuldade de maior, para uma rapariga que acabava de sair da adolescência órfã de pai e com uma mãe que se encolerizava com tudo e todos, como se tudo e todos tivessem culpa da morte que os intestinos do meu pai lhe deram.

Foram desilusões, que todas as pessoas normais têm, ao longo da sua vida, sem que por isso tivessem de alertar,

– Sinto-me doente

a vida empurra-nos para a frente, seja qual for a qualidade do caminho, é sempre em frente que caminhamos, sem termos tempo para olhar para trás e refazer alguma coisa que devia ter sido feita; o mundo corre e nós corremos com ele, e quando nos lembramos

– Só se lembram de santa bárbara quando troveja

o sangue pica-nos nos olhos e bate-nos nas têmporas, a alertar, devias ter feito isto, esqueceste-te daquilo. Nunca emendamos as coisas más que passam por nós e nos fazem desviar do caminho menos acidentado. Foi isso que me foi acontecendo, desde que o meu pai morreu, desde que o Luís me deixou para se dedicar aos estudos na Alemanha e ter aparecido cinco anos mais tarde, casado com um fulana alta, branca e esguia, segurando pela mão um rapazito franzino com a mesma tez e um cabelo branco que me lembro de ver nas gravuras dos contos infantis, com os traços latinos do meu ex-namorado, que, como vim a saber pouco tempo depois, nunca fora para a Alemanha estudar, mas sim trabalhar levando consigo a esguia mulher que já trazia no ventre a semente da sua então traição ao amor que me jurara.

Empreguei-me numa loja de pronto-a-vestir, certificada por uma marca multinacional, e que me fez perder lentamente o sonho de um dia me licenciar em gestão empresarial, pois o meu sonho era ter uma empresa minha, enriquecer, tomar o poder, e talvez a minha sede de começar a trabalhar fosse por isso, embora a razão principal tivesse sido esquecer o Luís e não ter que aturar todo o dia as tempestivas pragas da minha mãe contra o mundo, pendurada ela num domingo eterno, no sofá roçado lá de casa, sem razão para suspirar

– Amanhã é segunda-feira

porque para ela todos os dias eram fatídicos, todos os dias ela travava a sua luta feroz contra os seus moinhos, capaz de envergonhar qualquer dom Quixote…

Foi nesse emprego que conheci o Álvaro, gerente da loja, que engraçou comigo desde o primeiro dia, e me bajulava com almoços e jantares no shopping, entre fatias de pizza e hambúrgueres indigestos. Deixei-me levar pela conversa dele, como se o amor fosse um produto de venda, e lá me convenceu a levar-me para a cama, onde me atirou com todos os seus ossos, de tão magro que era, e tão desajeitado. Foi uma noite inesquecível, os ossos embrulhando-se no meu corpo que ele não parava de elogiar, e naquela confusão contundente em que o esqueleto dele me triturava o corpo de dores, e sem sentir algum prazer, creio ter chorado pela primeira vez desde que o meu pai partira da cama para debaixo da terra, desde que o Luís fugiu para a Alemanha com uma família nova na bagagem, desde que a minha mãe explodiu de vez e teve se ser internada num hospital psiquiátrico agravada com uma trombose que lhe tolheu a língua praguejadora.

O Álvaro convencidíssimo que eram lágrimas de alegria, lágrimas pelo amor e pelo prazer que se convencia encher-me, mas nem sequer o seu membro sumido, como se de um outro osso se tratasse, me enchia o espaço abandonado e dorido do meu colo, de modo que, talvez por pena, de mim ou dele, já nem sei bem, acabei por concordar com ele, que era o amor da minha vida e mais feliz eu não podia sentir-me.

Apenas um ano bastou para que eu deixasse de me preocupar com a canseira de todas as segundas-feiras fatídicas das gentes que trabalham, a loja não dava os lucros orçados pela empresa e fechou, ficando eu sem emprego, e o monte de ossos de malas aviadas para a capital, aceitando a gerência de uma loja que entretanto abrira, com promessas de cartas, telefonemas e de visitas… que nunca se concretizaram.

Seis meses passaram onde pelo meio aconteceu a morte da minha mãe que, para ser sincera, não me lembro como foi, porque foi e quando foi. Seria talvez motivo de me sentir desamparada de todo, mas não o senti, a minha vontade era fugir para longe, tentar ser eu outra vez num outro lugar qualquer, livrar-me da vergonha do que tinha sido até então.

Consegui novo emprego num escritório de advogados, e no meio da barafunda de processos, polícias e ladrões me tenho aguentado. No entanto, nada em mim mudou. Continuo a sentir a dor dos ossos do Álvaro, a ausência fria do Luís, atordoada com as tempestades levantadas pela minha mãe, mesmo depois de morta e enterrada há dois anos.

Sinto-me assim, e ninguém sabe. Alguém balbuciou certa vez a palavra depressão, mas quis rir-me, e não me convenci. É uma dor, que não sei de onde vem, talvez sejam os intestinos a invadir-me o cérebro, convencidos que se desfazem como papel húmido, talvez sinta a necessidade de visitar o frio da Alemanha e levar pela mão as feições latinas do Luís na tez branca e russa de um rapazito, ou ainda talvez seja algum osso do Álvaro que ele tenha deixado dentro de mim como recordação. Mas doença não é, não sei de onde vem, senão prostrava-me frente à televisão de domingo, no sofá já rasgado de tanta canseira, à espera que a segunda-feira nasça no relógio e eu esclareça a quem me possa ouvir

– Sinto-me doente.

*

[recuperado de um texto escrito em Outubro de 2004]

9 de dezembro de 2017

nós


Sandra Geinsweid

Por favor não te enfades por insistir desta forma. Tens que acreditar na possibilidade entre nós, e digo nós porque a palavra parece que se impõe, podia dizer eu e tu, mas não, é nós que aparece, eu a tentar corrigir e o teclado obstinado num tom meio amuado, não me deixa traçar as letras do eu e tu, quer apenas nós, quer-nos.

Olho pela janela e o crepúsculo volátil gira, atordoando-me, concede-me pausas de meros minutos, e recomeça, mansinho e cada vez mais denso, dando espaço a que as sombras se amontoem entre livros, papeis, revistas. Muitas canetas, esferográficas, lápis, e um bloco de folhas em branco onde exercito uma arte de que duvido possuir, todo aflito com maneirismos e floreados e, afinal, vê lá tu, as palavras encarreiram-se tão bem perfiladas num estilo tão próprio delas, como se dissessem

- Quem manda aqui somos nós

e depois já não há aflições nem medos, apenas deixar rolar a arquitectura da escrita que parece ganhar corpo próprio; ponho o selo do meu nome por baixo, quase como que por favor, e já está. As pessoas entusiasmadas lendo aquilo que não fui eu que quis assim, as pessoas

- Escreves tão bem

e eu encolhendo os ombros, aflito também por nada mais saber dizer do que um obrigado espantado e tímido.

Talvez por não mandar nestas insinuantes palavras que me assaltam das mãos ao teclado, desrespeitando vontades e contrariando que as conduza, talvez porque as palavras formam um corpo fora de mim, e insistem abrir a minha boca onde não há voz, ou querer enxugar as lágrimas que me assomam aos olhos

- Não sejas mariquinhas

talvez por tudo isso eu não tenha dado fé, ou melhor - (lá estão elas, lá estão elas!) -, não tivesse sequer qualquer noção do quanto as mesmas baralham e transformam a leitura numa outra coisa que afasta os outros do que eu queria realmente dizer

(tantas vezes!).

Não são desculpas, querida, são elas que assim se impõem, e nem calculas o quanto cruéis são comigo

- Quem manda aqui somos nós mariquinhas

Obrigam-me a escrever entre silêncios, para que haja espaço para as leituras tortuosas, entrelinhas traiçoeiras, e depois ficam - parvas de merda! - a olhar-me com a meiguice de um cachorro desamparado. Não lhes resisto, não sei resistir-lhes, acolho-as no meu colo e deito-me com elas, amantes todas, amantes lascivas que nem nos sonhos me deixam sossegado.

O céu embrulhou-se completamente, e este escritório é uma mancha parda na janela para quem gosta de espreitar intimidades alheias. A meio surge o meu semblante mergulhado na claridade do monitor, os lábios finos, quase austeros, e o olhar raiado de cansaço. Este sou eu, o eu vulnerável que eu e t…

… que nós andamos a debater durante este tempo todo. Este que não conheces e o mais fácil de entender. O mais simples. A olhar de soslaio, borrado de vergonha, o teu ombro tão apelativo.

Queria-te aqui, para contemplar o nó dos teus dedos e compreender por que diabo as palavras

- Cala-te para aí mariquinhas

insistem que tu e eu nada, nós é que deve ser, sem nódoas, sem pedras. Só nós. Podemos tentar outra vez, estava a ser bonito e a fazer-me bem.

9 de dezembro de 2016

não!



Quem és tu, que me assombras as noites e me inventas os sonhos

(por piedade, deixa que seja eu a comandar os sonhos que tenho)

tu que me atordoas o despertar e me fazes viver o dia como se já não existisse amanhã e quaisquer esperanças de mudar, e de tudo o que vivo me pareça sombras de parede, de muros intransponíveis? Esses muros que, ciclicamente, destruo e construo, consoante o humor do sol?

Porque me fazes isto? Ou que te fiz eu, quais foram os muros que te ergui, se declamavas a tua felicidade reinventada? Diz-me que muros foram esses onde te encurralei para que me persigas tanto como se os meus dias e as minhas noites fossem

(ou sejam)

diacrónicos labirintos onde não sei quando

(ou em que lugar)

colocar o verbo ser? Ser eu: porque não sei já ser eu?

Porque não te arrancas de mim, tubérculo que sugas de mim o húmus para cumprires a tua seiva? Por quantos demónios teimas em ser uma doença?

Porquê eu, ou porquê tu e eu? Se nem sequer para o engenho da escrita me serves, e me enjeitas os rios e as ninfas, o luar e a música? Porque me queres só para ti, para esse sofrimento cardíaco e míope, para uma fatal síncope?

Quero-te longe, como Abril deseja a distância inequívoca de Dezembro; como os morangos e os amores-perfeitos receiam as geadas fora de estação; como o nardo da giesta se insurge contra a intempérie das chuvas de Maio!

Da mesma autoridade com que os cabeções dos sacerdotes cristãos impugnam as culpas do mundo ao impuro Satanás e sua fétida legião de demónios, assim eu te esconjuro para longe, 

(ao mar coalhado!)

para que me salve e possa lavar corpo e alma de tamanha imundície…

Forçarei, ainda que com as já parcas e fracas vontades das minhas carnes

(ó condição humana!),

contra o teu agrilhoamento. És apenas uma noite de Inverno, adjectiva, de era uma vez. Sai-te, desconsolo, e deixa que abra o meu caminho.

1 de outubro de 2016

mistério da fé

ou: um poema para a Marlene



Deus é o útero. Conceição.
Ubiquidade da condição
humana.
Se fores a ver Deus,
dá-Lhe um abraço meu;
se Lhe falares,
diz-Lhe que existo.
Tudo o resto
 – que nos pregam –
são anseios.

(ou talvez o horizonte
detido
em cada um dos
 umbigos)

Não seremos ovelhas.
Antes propensos
aos erros humanos
que seguir a santa
procrastinação.
Se somos Suas criaturas
Deus é o útero
de onde viemos
a insinuar o coração.


28 de março de 2015

eu sou quando tu és


Janina Steiner, fotografia de Silvana Madamski


Tu és o meu despertar,
primavera feita em palavras
no bolhão pueril dos teus lábios
inconstantes de sono e repouso.
O primeiro e subtil acorde do dia
prometendo a semente germinada.
És tu a cor da papoila ainda tímida,
mas também o perfume do tojo
esquecido da ameaça dos seus espinhos.
O inocente abraço prometido
de sorrir sem razão, apenas
porque a presença, e o olhar.
Esse abraço aquecido, enquanto
os teus cabelos propõem brisas.
Tu és a tarde inaugurada,
chilreio das aves pequenas
anunciando um mundo simples
para viver.
És a minha sede saciada
em ribeiros também agora despertados
do parir da terra rebentada
em borbotões desmaiados.
O lavor de um beijo,
a minha lágrima rendida
às pétalas abertas pela ternura.
Tu és o crepúsculo paciente
quebrantando a manhã
feita em neblinas;
e no final da tarde
inquieto render apaixonado
de fruto e ardor.
És tu quem fez o mundo
onde me vejo Adão;
enquanto o resto,
feito de finitude e orfandade,
é um ligeiro devaneio do deus
que , por parceria contigo,
prolonga ser eu sem que
nada mais reste nem tão pouco

acresça significado.

21 de março de 2015

poema para a miúda com a chave

Janina Steiner, fotografiia de Laura Zalenga

dedicado a Ana Cristina Chaves

Onde está a graça?
Fecundada nos teus lábios murmurados
de mosto e álcool enquanto
a noite se avoluma rendida em corcel
alimentada à luz de ti

(por que a noite nascida em teus olhos
não conhece penumbra)

Dizem que é atitude de riso fácil,
que de tontarias vai sendo feito…
Dizem assim escarninhos

(os cegos – como eu e tantos )

aqueles que preferem
permanecer incrédulos dessa habilidade
de carpir uma alma tão limpa e clara
que faz tremer de inveja
os mais puros cristais
jazidos em profundezas de admirar

Onde é o humor?
Lascivo e cândido como quem leva
o próprio corpo
num altar celebrado por rebeldia
cuja sede e fome, sangue e carne
tão bem amplia
a força de quem sabe
como sobreviver

Ah!, e dizem conhecer-te o lema
para depois escarnecer
de tão embriagados que estão dessa outra
coisa qualquer que nem alimenta suspiros
nem espanta as sombras

Podia eu ser

(se não receasse a loucura 
e a inocência
e a espuma e o ar e todos
os raios que me partam)

o cavalo imponente que montarias
levando-te aos cumes do mundo
dando a conhecer-te em todas as
latitudes humanas

Podia ser eu sim
- se tivesse eu a mesma gana,
e essa graça,
e esse humor.

13 de dezembro de 2014

poema para a Rita, de um sábado de dezembro


Diz-me com que palavras fundamento a razão e digo amor,
tendo nos teus olhos qualquer hora da madrugada enquanto
o crepúsculo define agora as fronteiras com a jovem noite.
Eu seria acorde dedilhado pelos dedos lentos
que nas tuas mãos se havia de compor; e dos teus lábios uma melodia
havia de se ouvir, como que a instruir plateias.
Seria eu, serias tu, se fosse o mundo dos avessos, num de vez em quando
(ou num faz de conta)
que nos desligasse desta realidade que, por apartados estarmos, vivemos.
Bastava uma gota de sal, cumpridos os humores, a delicar-se entre o gin;
e uma meda dos teus cabelos
recebendo a paixão dos meus abraços.
A noite não seria sábado ou qualquer outro dia diagonal da semana,
nem madrugada de alfena escuridão.
Teria a voz tropical de Caetano, a dizer devagar a fervura do sangue.

Diz-me com que palavras, Rita, senão com que gestos
(mas em gestos lentos, isentos de qualquer tempo verbal),
poderei eu fundamentar a razão e dizer amor.
Pelo menos enquanto este mar de sábado não se finda

e tudo se esqueça, reafirmando a realidade que vivemos.

9 de agosto de 2014

uma palavra tua com flores

pintura de Zinaida Serebriakova

Apetece-me uma palavra tua com flores
aberta e convidativa sobre o teu peito;
não fales do coração, cedendo à lamúria dos amores
- o que venho a ti pedir é somente o leito

onde as carnes, por humanas, se cercam de afectos.
Apetece-me a saliva e outra húmida polpa dos dedos,
revezar a paciente sede dos lábios inquietos
que sangram como corpo de deus, de ausência e medos,

e de toda essa incerteza de que são feitos os amantes.
Apetece-me uma simples palavra tua com flores
que não te demore, que nunca seja como fora antes:

essa oração ingénua, beata, oferecendo as dores
dos insatisfeitos desejos apenas por serem eles flagrantes...
Sim!, o que quero é uma palavra tua, aberta, e com muitas flores!

14 de dezembro de 2013

embalo



Nas vésperas, a chuva ditou sombras sobre a cidade. Porém, o sábado nascido devolveu-lhe a claridade fria e azul das manhãs solarengas de dezembro.

O vento ergeu-se a esvanecer a humidade das roupas no estendal e declarou oficialmente o óbito e o luto entre as árvores.

Foste alimentar os animais, arredar o musgo da cancela esconsa, e subiste rente o muro da hera para me acordar. Eu já te esperava de café num púcaro e com a chaminé de um cigarro, feito ritual de quem espanta o entorpecimento dos resquícios do sono.

Apetecia-me o verão... – foram os teus bom dias. Eu sorri com um nevoeiro de tabaco a encobrir-me o olhar trocista. A mim agrada-me o sol de dezembro, e a luz do outono, mas também as colinas desmaiadas de chuva miudinha. 

Entramos em casa. Preparei-te torradas com mel que foste debicando devagar. Continuava a ouvir-se o vento do lado de fora, obstinado a transformar as árvores em esqueletos pintados na paisagem, embandeirado na roupa que, entretanto e já o almoço havia sido levantado, secara no estendal.

Abraça-me, que o sábado vai terminando, arranjado pelas mesma horas dos outros dias em que quase esgotamos a ansiedade pelo fim de semana. Ao final de cada dia somos santos de exaustão, convencidos que, virando a sexta-feira, o tempo cristaliza. E afinal, é como o ditado: a vida são realmente dois dias e um já se está acabando.

Passa ligeiramente das cinco e meia da tarde e o crepúsculo está tão tímido. Dezembro não engana, espelha-se inconstante no céu a anunciar a sua irreverência climatérica. E apetece-me este pequeno final de tarde para me deixar dormir, embrulhado na manta da tua ternura, ritual de quem, depois de acordar, deseja sossegar a madrugada de lentidão enquanto o amor acontece.

Não digas nada. Aquece-te junto a mim, que no verão não temos este embalo.

25 de outubro de 2013

síndrome de bartleby versão 3

desenho de Leandro Lopes

The end of laughter and soft lies
The end of everything that dies
James Douglas Morrison

Não estou capaz de evadir-me para escrever. Passo avesso ao riso, ao pranto, à emoção, à apatia. Como em mim nada é. Se engenho tive um dia, ou se as palavras alguma vez me foram parentes, é absoluta a minha inadequação actual e a orfandade de que possivelmente já sou vítima há muito tempo

(ou desde sempre).

Sou obrigado a concordar com quem eu lhe seja indiferente, ou, remotamente, por motivo sórdido e sem exemplo, com quem sofra a culpa de uma pequena inveja do que já fui capaz: que não vale a pena consumir palavras se não são os actos que lhes fazem jus. Ficarei ridículo a dissertar substantivos sobre não-questões. E assim me quedo a poupar os pormenores quando o que poderia dizer não seria por maior importância.

Vou daqui mudo, a engavetar o pensamento num murmúrio quase inaudível de efemeridade.

Quando – ou se! – outros tempos chegarem, talvez que já nem seja uma esferográfica a discorrer. Provavelmente apenas ver-me-ei a mim mesmo lutando por sobreviver numa areia movediça, de cuja matéria não posso pois agora prever de que será feita

(imagino mas prefiro continuar-me calando).

Fecundo mediocridade e, nesse estado, ainda que fecundado, nenhum ovo alguma vez eclodirá.

Não venham acenar-me: não quero ver nem ouvir vossas bocas postas em “O”. Vou partir de costas voltadas, como se o 

(este)

mundo em nada

(ou alguma vez)

tivesse sido importante para mim.

29 de setembro de 2013

de ti ou de um qualquer outono como este final de setembro


O outono terá começado e as chuvas primeiras que caíram terão acariciado os milheirais e fustigado as pedras

(as florestas ardidas com o hálito criminoso de agosto).

O crepúsculo tem o som assobiado do melro colorido de nostalgia, as palavras correm a menor velocidade, e os tapetes de folhas estalam sob os pés dos mendigos.

O descanso de uma gaivota no pilar da ponte é uma estátua de brisa espelhada nas águas do rio. As sombras quando anoitece são esses gatos pardos que se perdem vagabundos no colo do pensamento.

Finda setembro e não dei pelos dias que correram. Tudo é matinal em mim quando vindo de ti; e se gosto desta chuva é porque apenas me lavam do rosto as fadigas que teimariam em ficar.

Porém, partir do verão sem ti é negar todo o ano. Não quero que setembro se esgoste sem um beijo meu sobre a manhã de ti. 

De ti, que resolves os humores com o cardinal da primavera como se não houvesse ano para celebrar e passar.

Não é minha vontade contrariar-te.

13 de agosto de 2013

até logo

foto gentilmente cedida por Inês Borges

para a Inês Borges

Sirvo-me do teu silêncio em suaves goles de vinho, enquanto permito que o teu olhar me invada com carícias de sombra. A noite instalou-se morna rendendo-se ao predicado do teu rosto. Eu escuto o seu sibilar, canção murmurada nas ruas, nos vãos dos prédios, na margem poluta do rio.

Encorajas-me de ombro nu, onde um beijo ilustraria esta vontade tímida de te ter. É, porém, o recorte de mistério nos teus olhos que me faz transpirar, denúncia da minha falta de táctica para te envolver.

Aprendo nesse entreabrir dos lábios como uma carícia te fará sorrir e que palavras te possam provocar. Sorves a noite no mesmo vagar com que esvazio o copo de vinho, e eu de beber aflito contando que os meus movimentos não me traiam, ou que qualquer distração te liberte dessa hipnótica tensão de enganar o tempo.

Atreve-te, argumentas. De fome nos lábios, mordido, aguento-me. As tuas palavras urdem formigueiros em mim sem que a voz se comova. Os meus dedos empolgados, quentes.

Acrescentam-se verbos e substantivos. Todas as canções. As belas epopeias. O primeiro abraço e enfim o encontro.

Vibram as horas uma duas três e tantas vezes numa qualquer torre sineira. A janela aberta para a aragem, os lençóis testemunhando o quanto desta entrega, que afinal o vinho desinibindo. Sobe a pequena luz da alvorada. No teu rosto adormecido ainda o mistério: não sei ao que vieste e o que fui em ti.

Sei que entraste com a madrugada no olhar. E agora saio eu com o sol na alma.

Até logo.

31 de julho de 2013

esta paixão segundo isto

foto de Alexander Sikov

Escusa-me deste sufoco de me sentir perdido no tempo, como se, de tonto ou doente, colocasse cabeça e boca à banda a tactear o ar num desespero de náufrago. Porque me desvias agora o olhar 

(tu que quando te procurava sempre sorrias aliviando-me o peso das minhas existenciais crises depressivas) 

e me deixas à mercê desta agonia que me sobe no sangue até ao nó da garganta, revoltando o peito em taquicardias, dando aso a que a ansiedade se liberte esparvoada esbardalhando-me os sentidos, o equilíbrio, e então o pânico generalizado orgânica e emocionalmente em tudo o que é em mim, galgando os pensamentos, rosnando-me aos movimentos…? 

Pedi-te que assim não fosse, que aceitasses sem razão as palavras confidentes sem qualquer contrição ou juízo de moral; mas como poderia eu exigir assim da tua vontade? Como posso pedir-te indiferença ao perigo de te deixares também ir sem a expectativa do regresso, a animar ilusões, mesmo que te sintas, à partida, imune e contrariada de tais acidentes emotivos? 

Vou deitar as tardes a dormir para mitigar a cabeça destas incertezas, dos medos, das angústias. Nunca durmo, porém. Deitar as tardes a dormir é um queixume velho meu, arvorado nem sei já em que poema antigo da juventude, e que simplesmente dará o mesmo resultado que o enterrar a avestruz a sua cabeça na areia. Isto é: que fujo, que me aguento cobarde e inerme. 

Engole toda a luz a noite caindo, e essa escuridão que se junta à negritude da alma resume as insónias acumuladas. Sirvo-me do sono apenas quando já o dia rompe vigoroso a despertar os vivos. Que é quando, da fadiga, após a secura da boca e da luta contra a tensão dos músculos e dos nervos, o corpo se rende, como que apanhado numa doença viral, febril, acometido de tremuras e demais convulsões. 

Podes tu tanto poupar-me a estes acometimentos ridículos de que sou provocador e vítima. Salvar-me como heroína de romance oitocentista de tantos e tamanhos tormentos a que a alma apaixonada se dispõe. Que um abraço – vê lá tu, um simples abraço! – embora sem garantias promissoras nem a servir vãs esperanças, apenas apertado de ternura 

(podias mesmo justificá-lo como acto cristão de amor ao próximo… 

… mas salvo de misericórdia, por favor!) 

que um abraço assim talvez me fosse suficiente para que amparado pudesse transformar num suspiro 

(ainda que a insinuar o último exalar do corpo) 

a oportunidade concedida de respirar aliviado, desinfestando a negritude, a desilusão, os soluços da convulsão dos prantos, e voltar 

(sem pieguices) 

a sorrir interiormente. 

Diz-me, impiedosa: é esse abraço que vais continuar a recusar-me?

14 de junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…

18 de maio de 2013

em pleno

 

Deslocou-se o tempo no calendário, as tardes crescidas adiando a tristeza dos crepúsculos. Deslocaram-se os dias como se não os tivesse sentido e todos os fins-de-semana entre azáfamas desvaneceram. Veio o sol, choveu, houve mais sol e calor, ventou, já se fez praia, nas moitas o perfume amarelo da giesta, agora vento e outra vez chuva com frio entre as ressas do sol de maio.

Ficámos a ver o tempo passar sem que houvéssemos tido a feição de nos aproximarmos – pelo menos o quanto eu desejaria que nos aproximássemos – nos dias em que a brisa lambia de calor as colinas, e a ternura das nossas mãos dadas bastaria para o concretizar. 

Sou de regredir na memória, quase a diluir-me entre o que podia ser ou não das coisas do passado, sem vocação alguma, no entanto, para alimentar nostalgias. Porém, será a nossa causa coisa já de um passado? – não acredito e tu bem vejo que tal ideia a rejeitas também. 

É o quê, então? Quem somos, e o que adiamos, se fomos concebidos de um para o outro? 

Adoro-te. Encantas-me com o teu rosto recebendo esta maresia, os teus cabelos soltos como borboletas, o som do mar a fazer de chão ao meu desejo. Como quero chegar a ti, tocar-te, devolver-me em ti ao vinco da nossa terra da semente que somos. Como te desejo e não sei o caminho, os gestos. Só sei do medo. De me quebrares em estilhaços com uma rejeição. O que me parece é que ainda não amadureci os teus intentos, ou estarei pateticamente esgotando-os. Vou depreendendo do teu sorriso e da simpatia em me concederes ao teu lado que ainda há em ti a reserva de quereres continuar a guardar o teu espaço. 

Se finda a tarde, fazendo crescer o véu do crepúsculo, soluço de amargura por ver-te em maneiras de partir. É de areia ainda o sal nos meus olhos, a insistir na sede do teu corpo. Afastas-te e finjo descansar a cabeça sobre os braços apoiados nos joelhos. Creio que gritaria, se a vergonha de me veres em lágrimas não fosse tão cruelmente piegas, e a sair do contexto do que sou. 

É pela madrugada que solto o pranto, sempre em silêncio, cismado com os sonhos de vigília no rescaldo das insónias, porque é assim a paixão percorrida no corpo: veneno e mel. Sonho como serás tu toda, de pele e braços, pluma e feno, o teu peito e os teus lábios, marinados em primavera. Já não se vive agora de sonhos, pois não?, com o tempo a atravessar-se assim entre tudo e todos… 

Inseguro, apenas posso contar com a certeza de que ainda me falta a latitude certa para chegar a ti em pleno. Oxalá saiba contradizer o espaço e conter o tempo.