15 de outubro de 2018

segundo e quarto andamentos

Kültür Tava

Cresce, pelo interior de mim, o inominável. Dilato o peito por me encher de comiseração, muito de hesitar, um prego invisível sobre as pálpebras a evitar que os olhos se desmanchem de inconfidência. Porventura saberás, não por to dizer ou do uso de qualquer signo extraordinário à simplicidade de haver compreensão de tudo se desmoronar num suplício chorado, embora a seco e em silêncio. Digo antes: detenho a minha finitude em mim mesmo, a roer, corroendo, como um cancro que consome. Visível nas minhas feições brancas, de pálida angústia, e sem esgares, a flagrante apatia que dita o estender do corpo sem alma ou fito de haver existência. A irreversível morte. Por mais palavras que possas ter, e dizer. Arruína-se tudo, no fundo de tão cá dentro, poço consumido, e eu, de corpo erguido e ambulante, a passear essas ruínas como cavalo de madeira a inflamar a curiosidade que veio sempre a matar o gato: os teus olhos claros, marejados de consequentes ondas de desilusão.


7 de outubro de 2018

epifania do nada



Assim, de repente, aquele silêncio. Esse que te diz 

- Estás só, irremediavelmente só. 

que te faz pensar 

- Porquê? Onde foi que isto aconteceu? 

e vês os teus pés sem chão, certo de já não existir qualquer caminho a percorrer, por mais bifurcações que te apresentem. Ou, de outra forma, tomas-te como aquele tão famoso tolo, a meio de uma ponte 

- Para que margem? 

e a única solução mais viável é a que te aparece no fundo do abismo, no escuro negro de um rio em maré de inverno, o cego chão inclinado do precipício das noites sem lua. 

Argumentas: 

- O meu mundo interior foi sendo construído com a tua ausência, sabendo perfeitamente que existias, mas ainda sem te ter encontrado. Quando te encontrei e te percebi real sem qualquer razão onírica, pude, finamente, entender e dar sentido a esse mundo que vinha construindo: o teu nome e dele o que te define. Sem ti, agora, só resta ao meu mundo erguido a irreversível ruína. 

Não temas, então, se a vida deixou de fazer sentido: arruína-te.

6 de outubro de 2018

impreciso silêncio



A morte chega num impreciso e imprevisível silêncio do crepúsculo. Faz-se de membros, de uma difusa sombra onde pudessem estar olhos e boca, talvez uma brisa, muito fria, e movimento a simular uma aparente normalidade. Uma pequena faísca (fosse a morte brilhante para tal), que num instante aconteceu para ficar esquecida, sem se saber o fundamento de ter acontecido. E diz-se, numa resignação ao lugar-comum das palavras vazias: «é a vida!», quando não é vida alguma, é antes toda a sua negação.

E esse instante cobre-se e faz-se de total e absoluto silêncio, um singular momento que nenhum relógio ousará contar. Talvez por isso seja, afinal, a eternidade, essa coisa imensurável. Falsa, tão efémera, no entanto, pois essa partícula de tempo significa o que foi e deixa imediatamente de ser.  Não pode, sequer, conter-se em qualquer tempo verbal, nem ser falada, nem ser ouvida, nunca grafada. Não tem palavras. Não há espaço dentro ou fora ou a delinear. Não possui, não é possuída, não pertence. Impossível medir. Não cabe na existência.

E, ainda assim, assustadora: damos pela sua presença para então assistirmos a um nada que nos escapa. Fica assim, um nada que nos coloca de cabeça à banda, corpo e alma inertes, um nada varrido a silêncio sem recuo ou avanço.

Se a noite cair e o crepúsculo der lugar ao negro cego, nem nós mesmos estaremos cá para dizer que a testemunhamos.


26 de agosto de 2018

acorde



Houvesse eu na mais indecisa circunstância e teria no despertar a dureza das cascas velhas dos pinheiros. Fiz-me, porém, em ilha, e lancei-me aguçado em preliminares fotografias, entre vapores e suspiros. Veio a alvorada num pequeno incêndio sem fogo ou fumo, só a temperatura ágil da xícara, o aroma do trigo e aveia cozidos, o lento roer de um damasco. Circundar a ternura pela curva mais apertada do último sono. A manhã no hálito delicado da caruma onde vestígios solenes dos primeiros orvalhos, depois das quentes jornadas de um verão estalejante. Dispersasse a água por chamar o olhar e o esforço libidinoso dos lábios, mais um gesto pungente que o corpo não sabe disfarçar: tangentes os dedos na perpétua manhã de domingo.

18 de agosto de 2018

sábado



Espontaneamente, o teu rosto. Com um claro e evidente 

(clarividente?) 

estrondo. O amor incondicional. Esse éter que se materializa no sangue, carne e sentidos que definem a Mulher que sou. A que sempre fui e se atrasou no tempo. Viu os tempestivos humores da alma como barreiras intransponíveis, rastejou na lama como verme imundo, ascendeu no ar como pluma para variadas vezes ser assassinada por caçadores furtivos. 

Durante décadas foi logro, alternando sem nada entre a ilusão e a mentira. Sempre na espera que um ombro, que um colo, que uns dedos meigos entre os cabelos amenizassem o vazio. Sempre sem ninguém. Não havia ninguém. 

Na madrugada foi assim: fotografia instantânea, com o teu rosto dentro a fazer-se de sol redentor. A tua voz garantindo entre o fogo e os tormentos que, afinal, sempre valeu a pena. E soube assim, ali, da importância do teu sorriso resiliente. 

Se não foi isto um sonho, então entra, e sê o Homem.

12 de agosto de 2018

negação ou dissertação sobre o nada




Fiquei encalhada na lima da aresta, com suspiros de peixe a sobreviver fora de água. Coloco o chão acautelado de qualquer vibração que possa alterar este estado e me aborreça. Não quero aborrecer-me, pleonástica, uma e outra vez, como quem insiste exigindo a um cego que veja com os olhos mortos. Fui desprovida dos beijos e abraços que outrora soube colher em teu colo. Digo o teu nome e já nem o eco assoma. Estas nuvens passeiam-se a dar-me misericórdia ao corpo estendido, a metros do mar que se enrola pateticamente em métrica e sílabas dissonantes. Sobe um vento devagar, a tentar o conforto dos meus ombros e dos braços inertes. 

Não sei onde estás, e como havia de saber, para que fortuna minha contribuiria se o soubesse? O que é de incerto em ti já não se compadece com a minha sede de te saber. Não há por que te encontrar. Caule pisado, aninhado em sofrimento por tentativas vãs e repetidas de suster a flor. Há um comboio a zunir mais longe, acorde partilhado com os gritos das gaivotas. Lá no alto, e no centro, dará para ver o caminho que escolheste? 

A tarde sobe já, a moldar os ângulos da periferia, a tarde espreguiça-se toda de domingo. De areia sem deserto. De betão sem sol. De sombras sem jardins. Não consigo olhar as pessoas, doem-me punhais. Não sei nem quero (não sei se quero) dizer alguma coisa, se todas as palavras se afunilam desde que nascem, hiperbólicas, no pensamento, até à abertura poluída da língua. 

Sonho que quero sair. Divago. Divirjo. 

Entorpeceste os movimentos de que ainda era capaz, a projectar rectas ou, no mínimo, círculos mais alargados, dos que se perdem da vista do raio. Queria ver os miúdos saltando na água. Sentada em lótus, talvez beberricando cerveja. Tornar-me ciclope. Não sei se vou, se faz sentido ou se há vontade proporcional para me erguer desta aresta. Sei de mim porque o corpo pesa. Pesando mais a alma, porém. 

Fecho os olhos para contemplar a memória sobre as ervas daninhas, moribundas entre as fendas da calçada, e no horizonte perceber que a terra justifica o seu cansaço com os calores de agosto. Já se nota – sabias disto? – que a luz se recolhe antes dos relógios ainda ufanos da condição estival, a encurtar os dias devagarinho como se propaga uma doença maldita. Quando se der por ela, e as brisas cortarem mais frias, estará a sorrir-me o outono, indicando que é altura de regressar. E eu possa assim voltar a mim, a ser eu própria como são as folhas morrendo das árvores concentradas no chão. 

E agora pasma-te: por não saber mais onde estás, não quer isso significar que não saiba eu para onde vou. Sei, claro que sei, somos o destino que construímos. Não te cresçam aflições, meu amor. Sei o que me reserva, o que reservei para estar e ser. Acontece é que neste momento não quero. Só me interessa o nada inclinado numa aresta, a alimentar o domingo de bocejos enquanto não acaba.


28 de julho de 2018

em pé

Kültür Tava

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-me sair como quem se despede para destino incerto, a saber que o fogo também unge e salva, que nada espera. Censura-me se encosto o ouvido à lamúria, advertindo-me sobre as auroras prenhes de luz. Pois que estou com esse medo de todo que me quebre o corpo, e de um assombro perca os membros, e me resigne a uma inutilidade de réptil por em oco deixar-se o osso definhar onde rémiges haviam de crescer para me tornar alada e dessa forma a divina que viste em mim.

Já só dói o teu sorriso aquecendo a líbido das mulheres alheias ao teu anseio. Não sei imaginar a tamanha saudade que vou ter de ti. Hei-de procurar-te na orla do mar. Não por acreditar na redenção do pôr-do-sol idílico preliminar dos amantes em estampas românticas. Hei-de ir na madrugada mais escura, fria, se possível na porcelana branca do nevoeiro. Procurar-te e ser invisível, ou apenas vapor sem forma ou claridade. Não terás a necessidade das lágrimas então, certo que o teu regresso seria erro de feitio, insistir no fôlego quando o ar é tão rarefeito.

Fico bem. Sabes que a mim não me bastou nunca o sofrimento. Satisfaz-me sentir o cheiro do sangue, afirmando a certeza que as feridas cumprem e são concretas na dor. E fujo da morte como castigo. Se morresse, certa estou que seria para um nosso reencontro. Lá não há nada, não queiras ser nada entre os meus braços. Não venhas. Pretere o vazio, que em mim mais fundo e tenebroso é o abismo.

Sustém a fadiga a beijar o corpo e deixa-te sair como quem rende os dias, a saber que a terra é sacrilégio para quem fica. E pesa. Como pesa, ainda que as brisas e os ventos. E as árvores testemunhando, irmãs, que é em pé que se ganha a eternidade. E a solidão.

22 de julho de 2018

as algibeiras de virgínia



Trouxe qualquer coisa na algibeira que se abeirava

(disse para consigo)

a uma oportunidade de

– finalmente!

(repetiu)

ser feliz.

Estudou, viajou, sentiu cheiros e sabores, observou. Afinal, não: impossível a felicidade conjugada com o verbo ser. Pôde perceber na poluição dos rios, nos caminhos percorridos sem calçada ou macadame.

Triste porque inacabado enquanto homem

(concluiu),

dirigiu-se ao cume de um relevo sem perceber o abismo. Por simples curiosidade, deu conta apenas do escuro fatal das águas correndo declive abaixo, ao fim de tudo.

Tudo tão no fim, tudo tão declinado e em baixo

(lembrou de dizer para si próprio)

a vida toda feita num abissal baixo, como se o céu desmesuradamente distante das ambições  humanas. Tomar a lua foi falsa promessa e conquista?, indagou ainda.

Recolheu-se num gesto de resignação a baixar os braços, e percebeu na algibeira o volume e o peso do que o levou a chegar ali: a oportunidade de se abeirar de algo que teria levado anos a concretizar. Do que foi em tempos. Foi sem tempo que concluiu:são afinal pedras, pesadas, em todas as algibeiras que vem carregando a humanidade.

Súbito, um impulso subiu corpo acima, tremesse embora das pernas e a aflição no peito: era como um sussurro – encosto do espírito da Virgínia!, suspirou, em cautela supersticiosa – a dizer-lhe que o abismo é apenas ar.

Agora, podemos anunciar, já não existe: pairamos sobre ele, como abutres que somos, a observar-lhe os escombros da queda quando soçobrou, como homem que foi, lá em baixo, a julgar os abismos.

13 de julho de 2018

teatro anatómico



Bom dia. Entra e fecha a porta. Vem verificar as nódoas visíveis sobre a pele. Finge-te erudita do asseio, e que zelas pelo corpo como bibliotecária em Alexandria. Não receies, que fogo algum poderá destruir o legado que herdaste e vens cuidar com precisão de luva. Aguenta-te no acidente, que os objectos frágeis são susceptíveis à perda eterna, ao cabo da extinção, ao fino fio tenso entre os picos, a tremelicar sobre o abismo da existência. Se sentires que o corpo vacila dá-lhe quarentena e deixa-o em repouso como se fosses jejuar no deserto. Ao regressares move-te com atitude felina ou cautela de pluma. Abre muito devagar cada poro e liberta o mofo, soprar para que se respire, observando se as sombras se espantam. Leva o corpo em troféu derradeiro para o teatro anatómico e faz suspender a luz. Sai e fecha a porta. Boa noite.


21 de junho de 2018

manifestação



Ontem toquei-me no banho
por me lembrar do teu lascivo apelo
à paz:

foi tudo certo, ergui o mastro
para desfraldar a imensa e alva
bandeira,

o punho cerrado e pulsante
por essa tão nobre causa,
mantras

para o equilíbrio dos interesses,
e a essa vontade de um cessar fogo
da carne,

lembrei o teu os nossos gritos de ordem
roucamente libertadores da tua nossa
aflita voz,

e achei-me, no final, tão realizado, ou mesmo
feliz por desta luta saber-me eu e tu cansados
vencedores.

19 de junho de 2018

justaposição



antes da lógica, mandam que o coração
seja palco geocêntrico, enquanto a silva voz,
num grito,
repudia as leis da física;
e falam-nos, com ar de incorruptível alegria,
de uma praça verde, planície até ao solstício,
como se os mares fossem declives
onde só o inferno possa ser chão,
enquanto o firmamento pétalas
de flores sem fim.

vamos lá a ver:
nada fulge como parece, e acidente
é o terreno, se vos
enganam os sentidos,
pois que no crepúsculo do dia ou na efémera estação
estais lá vós e, no firmamento,
afinal,
reina heliocentricamente a
razão.


10 de junho de 2018

escrever liberta



para a Fátima Matos

- Escrever liberta.
- Liberta o quê?
- O que te vem da alma, minha querida, tudo o que te vem da alma.
- Então muita coisa, e do coração ainda mais…
- Do coração, da alma, até do corpo – somos disso feitos.

Planta o teu sorriso, e escreve: de que é feita a terra e a sua cor. Quando é lama e pó, e as criaturas que a habitam. Das tuas unhas nela entranhadas. 

Solta o teu cabelo, e escreve: sobre o que faz soprar o vento, medonho no inverno e como uma carícia quando uma brisa no verão. Da forma como agita o mundo e ainda te faz secar as lágrimas que te lavam o rosto de amarguras ou solenes alegrias.

Esmera-te a regar as raízes, e escreve: como foi que o teu sorriso afinal medrou. Por que são tão importantes as chuvas conciliadoras ainda que seja o sol que desejes, a lamber-te a pele. Escreve sobre a planície do trigo, a forjar o pão. Por que há noite e dia, e aquela hora pequena entre a madrugada e a aurora a incentivar as flores e as copas das árvores altas, murmurando.

Abre as tuas mãos para receberes o fruto, e escreve: o que faz a carne, por que se desfaz a polpa. O que faz pulsar o sangue, e a cor leitosa do sémen. Se foram em vão ou não todos os teus sacrifícios, bem como as dores que o mundo tem. Escreve sobre o doce e também sobre o salgado. A textura da língua, e a saliva alheia que lhe sacia a sede.

Assiste da forma como se rende a tarde como virgem em furor, e escreve: de que é feita a luz e qual a razão de ser assim eterna. Como é que, sendo nós dessa condição da terra que é lama e pó, nos transformamos num brilho permanente aspirando com a morte o seguro firmamento do céu quando desce a noite.

Nessa altura, minha querida, ao repousares sentada e encostada ao tronco da árvore, a abraçar brisas de verão sob a sua sombra, lembra-te de escrever, a essa mesma árvore que te acolherá, sobre a razão de ser ela tão livre para que a natureza lhe conceda esse milagre de nos dar o seu fruto.


1 de junho de 2018

acto final

foto por Milos Korecek, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.


Temei mais nada, ó cães danados e feros, se a caravana já vai tão longe e tolhida de susto que do seu rastro não há-de formar-se qualquer memória! A soma dos equívocos é um pretérito de assombro, e a periferia apenas um esboço para quem tem fé num destino arquitectado. Se, ainda assim, vos atrai o abismo, saltai precipício abaixo como a vara a que o secular mestre condenou. Não tenho vocação para santuário dos infelizes e atormentados – não fosse eu, de maxilar espumoso e brilho nos caninos, esta besta inquieta entre as trevas! Sossegai, veias dilatadas, que o monstro foi solto em parte incerta e amaldiçoado; não terá mais regresso! Sustém-te, ó músculo vicioso das paixões, dos embustes, das profecias, das tragédias! O teu lugar é agora uma cadeira onde poderás assistir ao desfile perecível de toda a efemeridade – tem-te e não caias, resigna-te a bombear a vida e sê profano de toda a esperança! Também vós, ó vistosas e impacientes fêmeas, recolhei o facho entre as pernas, deixai que o vosso corpo recupere da ofegante e arfada jornada, ide deitar as tardes a dormir, num incêndio apaziguador que vos reconcilie a noite com o cio adiado! 

Uiva agora, ó sublime alma, que as valquírias sonegam Odin já senil e desprezam Freia, essa cadela perdida da sua demanda! Esquece o cálice por onde bebeste o vinho inquinado na esperança de promissoras auroras e horizontes de esplendor. Alimenta-te agora das sobras caprinas vagantes entre as pedras estéreis, nas sobranceiras colinas, nos angulares declives e precipícios. Tem força nas patas traseiras, ó alma que cursiva teimas; eleva o grito, sobrevive! 

Eu quedo-me de cócoras, sobre o limo, tão sujeito ao apelo da cobrição da terra por derradeira fecundação! Sirvo o ventre aos vermes, os olhos à secura do vento suão, as mãos à raiz do pó. De nariz apontado e triangular sob o céu que parece descer em trovões de riso e escarninho, devolvo o peito às rapinas ociosas e sem vocação de predação. No final, a morte será apenas signo de insolência. Pequena árvore de sujeição, onde futuros traidores terminarão sob os seus ramos a desejar piamente que as negras nuvens os levem para delírios azuis.