11 de novembro de 2018

entropia



A luz imprecisa e a doçura do sono, no embalo da chuva, o vento ululando com mestria dramática, a lonjura a chorar cristais com outros sons inquietos. As mãos à luz quente do abat-jour em gestos de difusas palavras. Se evocares o ar húmido, terás a encomenda do segredo, e tudo o resto é ferimento. 

Haja ainda quem venha morrer de amor. As manhãs de novembro terão sempre este céu plúmbeo, com o adocicado humor do outono no seu aroma de lenha e caruma a arder. E os livros no lugar da esfera. A música, sempre presente, vem na vez do sol, como quem nasce para todos.

10 de novembro de 2018

transtorno


I’m getting out of here.
Where are you going?
To the other side of morning.
Please don’t chase the clouds, pagodas.

James Douglas Morrison, The Movie


Definir a paisagem além da janela aqui defronte: fotograficamente, são ângulos acentuados por sombras de um quadro de Hopper quase sem cor, ou de cores soturnas – mesmo o branco é um cinza muito pouco definido e sem luz. Movimento praticamente nenhum, excepto ramos de um arbusto que baloiçam sob um vento delicado (não é brisa nem é ventania). Não há céu que se faça destacar do resto da composição. Vários sons, no entanto. Motores de automóvel e motoreta, os vidros da janela emitem alguma vibração quando qualquer veículo mais próximo. Uma ou outra voz, de adulto e criança, sem se ver de quem, adivinha-se que femininas, por agudas e delicadas. Um avião que passa, evocando os estrondos das nuvens em horas de trovoada. E quando tudo isto se suspende, por breves momentos, aquele borburinho de distância indefinida, da rotação do mundo e das coisas que nele estão. Atmosfericamente é um dia cinzento, húmido e frio, embora não caia chuva para já.

Um espectador do outro lado da janela, virado para o interior, não pode afirmar que há grande distinção entre os ambientes de fora e de dentro. Estore levantado e, depois da vidraça, o véu pálido como que sujo de uma cortina feita de renda. Na imediação da luz que transpõe a janela, o contorno de algum mobiliário. Mais no fundo, em contraste com uma parede clara, a silhueta de alguém sentado e debruçado sobre uma mesa, ocupado com um papel branco (ou de um cinza muito pouco definido), escrevendo ou desenhando. Pelo movimento parece que a escrever. Do lado de lá não se conseguirá ouvir o som do lado de cá, mas um sonoplasta poderá conceber: o tique taque de um relógio de parede, o zunir electrónico de qualquer aparelho ligado à corrente, a fricção de um lápis rombo sobre o papel. A respiração normal de quem escreve. Algum suspiro, ou bocejo. Música, talvez, ou um televisor onde diálogos de um filme. Poderá ainda estar mais alguém engolido pela sombra, que fale com quem escreve, ou que emita apenas ruídos domésticos – adulto ou criança.

Aquele que escreve faz um gesto largo para negar o sonoplasta. Não há música, televisor, nem está mais ninguém. Após essa pausa, retoma a escrita e é perceptível o movimento da mão que vai sendo empurrada pelo braço a firmar o lápis contra o papel. Aquele ou aqueles que o lêem (lerão?) decidem: o escritor vai zangado, pela força que faz a escrever. O sonoplasta amplia o som do lápis, cada vez mais rombo, riscando o papel que, pelo ruído, sofre de enorme pressão. E agora, com a energia de conseguir alterar a disposição quieta de outros objectos menos perto de si, o quase estrondo (será altura de o sonoplasta baixar o volume) da ponta de grafite do lápis a quebrar-se, um repentino restolhar sobre o tampo da mesa, o seco tilintar do lápis atirado com força, as mãos de quem escrevia muito nervosas, agitadas, tomando o papel. Percebe-se que é rasgado e amarrotado. Agita-se uma cadeira em gonzos e arrastada. Passos pequenos sobre soalho de madeira. Tosse ligeira e pigarreio. Uma porta a abrir-se e o ruído de fora entra no ambiente com mais presença. Os motores dos carros, e um que tanto faz estremecer a janela, veículo pesado, fazendo a curva ali mesmo. A porta fecha-se, sem estrondo. Alguém passará do lado oposto e a afastar-se, pelo som dos passos sobre o cimento, cada vez mais longe, e ainda se consegue ouvir uma voz grave vociferando por um momento e depois calando-se. Nada se altera na paisagem além da janela aqui defronte. Apenas do lado de dentro se testemunhou um abandono.

Já muito depois, quando a escuridão tiver engolido o que é paisagem diurna e todo o ruído, o estore cerrado e nada para se observar depois da janela, o tique taque do relógio da parede será a única companhia de quem irá regressar sentando-se à mesa, tirando do lixo o papel amarrotado na tentativa de alisá-lo e alinhar os seus pedaços como um puzzle. Embora com menor frequência, os motores na estrada continuarão a ser ouvidos, conseguindo ainda fazer vibrar a janela. A luz fraca de um candeeiro iluminará o que lhe está próximo, mas transformando as paredes em sombras disformes. Um isqueiro acenderá um cigarro. Outros papéis sobre a mesa farão a diferença. Não estão cá neste momento, serão trazidos no regresso. Não vamos precisar do sonoplasta, vamos assumir que nenhum outro ruído poderá ser escutado para além do relógio da parede, a brasa do cigarro consumindo o tabaco, o sopro do fumo, e o som dos papéis manuseados. Num deles, com a luz trémula da lâmpada quase a fundir, poder-se-á ler, grafado em caracteres oficiais de diagnóstico, «perturbação obsessiva compulsiva». Será insone a próxima noite.

5 de novembro de 2018

pouco ou tanto


«Hoje é de um beijo que preciso
Sem discursos, sem porquês»



Sem curta ou longa distância, só a contar com o olhar inquieto de tantos dias vazios, deixando subir o impulso de tudo ter e, sem hesitar, esmagando por sofreguidão nos nossos lábios o que há-de ser de nós. Um beijo de fogo e ternura, ignorando tempo e lugar, naufragar os corpos de afagos, sem acenos, escusando a efemeridade. Pertencer a um amor que de tudo se ausenta, suspenso nessa liquidez das bocas comungando. Ter o espírito infalível às agruras, aos temores, os braços contestando o desequilíbrio, a mente a impugnar a auto-comiseração. Ter o apetite livre do suicídio físico ou moral. 

Estar num beijo, sem entretanto nem porém, para tudo haver o que os corpos por longo tempo desejaram contra a imaterialidade de qualquer razão propensa ao mundo que os condene, que nenhuma má fé possa nunca superar. Mãos no rosto, dedos entre os cabelos, e os olhos frente a frente desistindo de segurar a convulsão de tanta saudade, e a matar, a matar, o pouco ou tanto que somos agora, a mitigar a tristeza de não sabermos, por desconhecer o nada, o que poderá haver afinal depois do amor.


4 de novembro de 2018

côdeas



Poroso como o calcário que se desgasta, de arestas rombas, tudo feito de resignações vulgares. O mundo esboroando o pedaço que falta, na agilidade do vento e das chuvas sem que para tal tenha de soprar sequer uma brisa ou farrapos de uma simples morrinha inconstante, o mundo só por si erode, alia-se ao tempo 

(o mundo e o tempo um só?) 

e numa lentidão de aborrecimento transformam a dureza sólida da pedra em sucessivos e cada vez mais longos mantos de areia, pó do que existiu, do que resistiu, mas, de resignação em resignação, se foi transformando no que era antes de se haver de si. 

A vida assim se transforma 

(alguns argumentam que evolui, ou será o contrário?) 

e, a dado momento, como o pedaço de carcaça de um pão de vésperas esquecidas, esboroado em côdea, essa que do todo é a que vai resistindo 

(ou não desistindo por completo), 

a vida feita e sentida como côdeas do pão em definitivo feito migalhas grotescas, restos ressequidos que os velhos atiram à água verde de um lago para os patos, gansos e cisnes preguiçosos entre o limo, entre as rémiges também esquecidas de vésperas que já lá vão, a boiar, orgulhoso lixo a boiar, e eu 

(a vida, a vida), 

a vida um corpo insólito a boiar à mercê do parco movimento da água nodosa de verde contra a lama das margens, uma angústia por tanta inércia, a vir cobrindo-se pelo colorido de morte das folhas do outono. 

De modo que esqueçam lá isso da idade signo de conquistas, e que as rugas tanta dignidade, como se fosse verdade essa vossa crença de que fica sempre tudo bem, o que interessa é o espírito manter-se jovem. E, afinal, onde esse espírito senão acomodado em sombras e em vãos de esquinas; que é do espírito na frente de um espelho a tomar consciência da decrepitude? Crença no fingimento, e no dizer de lugares-comuns politicamente correctos. O politicamente correcto é por si um côdea, dura e já bolorenta. 

Ponham-se de pé até tombarem definitivamente. Aí reside a dignidade, e também a resignação.

28 de outubro de 2018

confidente

Flor Garduño, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Consegues perdoar o teu amigo e confidente por este quase esquecimento em que 

não 

tenho de recomeçar: não é quase, não é esquecimento. A questão é que nunca te esqueci 

(e como seria isso possível?) 

uma vez que fazes parte de mim e do meu dia a dia, e estás sempre presente no vínculo de uma hesitação, ou quando deixo a mão suspensa de um gesto que fica por realizar, ou de um sonho do qual desperto a maldizer a vida e o mundo e… bem, tu sabes como é. 

O perdão que peço é pela saudade imensa que tenho de ti, pela falta que sinto do teu olhar que sempre que eu 

- Não sei o que se passa comigo 

o teu olhar respondendo 

- Tem juízo 

e saber que não me deixarias cair, por mais asneira eu fizesse, ou actos e palavras que fossem contrários aos conselhos que sempre me deste, a saber das minhas fraquezas, mas profundamente convencida do meu desígnio. 

De maneira que sinto culpa por julgar que me falhas nos meus dias mais sombrios quando desejo não ver ou estar com ninguém e, quando risonho de convencido que o mundo afinal é bom para viver e outras tretas, julgar-te ausente para partilhar contigo também as maravilhas. 

É desse sentimento de perda que me sinto culpado. Por ter decidido, a partir de certa altura, que terás partido num qualquer momento do passado que não sei explicar e de que nunca fui informado, conformando-me gradualmente com o teu desaparecimento. Fiz de conta que me deixaste, as outras mulheres que 

- Tem juízo 

ou seja, nas outras mulheres onde te procuro sem saber, e nenhuma delas à tua altura porque nenhuma capaz de dizer-me com o olhar 

- Tem juízo 

dizem apenas, e cheias de orgulho 

- Preciso tanto de ti 

e com quem poderei eu corresponder a esse sentimento, se é de ti que preciso? 

Fiz de conta que me deixaste e, no entanto, tu aí. Sempre aí estiveste, a mim é que me faltou a coragem para entender e aceitar. Eu é que estou ausente de ti, mesmo sabendo que fazes parte dos meus dias. 

Por estranho e paradoxal que possa parecer a quem nunca soube 

(nunca saberão) 

o quanto nos dávamos um ao outro, penso que me levaste a que eu valorizasse o meu egoísmo como ninho de defesa e arma letal para os que teimam em sorver e depender da minha energia. Sim, e esse egoísmo acabou também por te afectar, ainda que dissesses, insistisses 

- Deixa para lá, que eu cá me arranjo 

e a raiva que isso me dava, como podia eu conceber tal, salvar-me e não levar-te comigo? 

Perdoa-me por te olhar nos olhos e não ver qualquer brilho. Há agora um escuro denso, muito orgânico, pesado, que me impede de ir ao mais fundo, a entender essa coisa da alma. Não lhe chego assim a olhar-te nos olhos que colocas em parte nenhuma, a tua alma acaba por aflorar tão espontaneamente nas coisas mais pequenas, no que sinto e penso no devir com o mundo que me rodeia, e nesta casa, também a tua, onde rimos e chorámos e tanto falámos. Falámos tanto até roçar o indizível. Depois era ora eu no teu ombro ora tu no meu, até que qualquer outro assunto mais mundano nos desviasse da pieguice, para voltarmos a rir. 

Nunca te disse a alegria de ver-te sorrir, o conforto de ouvir a tua voz, a segurança de sentir a tua mão agarrando a minha. Nunca te disse. Seriam necessárias as palavras? A culpa diz que sim, que são necessárias agora, enquanto há tempo. Mas tu não, revejo-te a encolheres os ombros, a encenares uma gargalhada e 

- Tem juízo 

ou 

- Deixa para lá, que eu cá me arranjo 

a fazeres-te de forte, a dar tudo aos outros, como sempre, e ficares com as migalhas. Para quê? Por que não foi diferente; e talvez, se eu 

- Amo-te 

tu também 

- Amo-te 

para ficarmos com a certeza que mais nada era deixado por dizer? 

Perdoa este teu amigo e confidente, que soube das razões das tuas lágrimas, tendo sido eu motivo de muitas delas, que soube dos motivos das tuas maiores alegrias e orgulhos, que soube das opções que tiveste na vida e ainda assim o teu altruísmo falando mais alto para dares sempre aos outros sem nada receber; perdoa este teu amigo e confidente e 

- Mãe! 

perdoa este teu filho que te abandona por egoísmo de não querer sofrer por te ver a seres quem não és, mas jamais se esquece da mulher que foste e que essa demência levou para longe.

27 de outubro de 2018

alfena



Pouco me preocupa o render do equinócio e os dias que se adivinham mais frios. A evidente e rápida inclinação da tarde para noites mais longas tornando os corpos lassos e apelando ao apetite quase verbal do sono. Vou sem ti, nesta disposição, para parte incerta 

(para lado nenhum?) 

enquanto resistem os penúltimos e tardios movimentos estivais na cidade, procurando um copo que me afaste ainda da sombra da solidão que está aí não tarda no meu encalço, presente nos meus gestos inclinados, à laia de caçador furtivo, para finalmente me emboscar quando menos esperar 

(claro que espero, já sei de cor o) 

nessa hora de maior fraqueza que há-de vir, e tomar-me, por inteiro, enjaulado ou empalhado até que o inverno se cumpra e, quando cansado ou morto, começando a soltar-me então, acordando o meu corpo para os hormonais apetites primaveris 

(já sei de cor o ciclo de sombra e luz de que sou feito, como se eu calendário ambulante das estações, apontando a lua ideal das sementeiras e o humor propício às colheitas). 

Para já resisto no meio termo de tudo, longe da cor alfena dos teus olhos, aguardando o aconchego patético da minha hibernação para o que é a vida, sempre adiando decisivas resoluções e com os anos pesando em cima, convencido que o dia há-de chegar finalmente para que tudo se concretize, e eu rejuvenescido, sem encarar os espelhos, ignorando num sacudir de ombros os sinais cada vez mais inequívocos da idade que avança. 

Sigo por esta cidade, despreocupado com o rumo que tomo, sem ti, mas com a memória no manto negro e sedoso dos teus cabelos, a sugerir-me o quente aconchego do teu colo, contra o restolhar das folhas das árvores há muito caindo na sua madura condição, arrastadas sob o vento que se levanta, cada dia mais frio, a arranhar o chão. 

Tu ficarás quieta, sorrindo 

(tu quieta uma pessoa, tu sorrindo uma outra que não tu quando quieta) 

sorrindo ao que tens de anos pela frente, sem te preocupares que uma prega na pele, que uma articulação teimosa ao descer da cama, que um cabelo branco, que o sono rejeitando a vontade de adiar o fim dos dias, 

(tu duas pessoas, a que poderias ser se me esperasses e a que és e hás-de ser ignorando as expectativas de mim), 

tu quieta e impressionada com o que eu possa representar, que talvez a idade afinal nenhum limite, a conjecturares cenários, e os obstáculos sempre em evidência em qualquer e cada um deles, muito embora o amor 

(é o que se diz, o que se ouve falar muitas vezes) 

o amor razão principal e mais forte, e que acontece contra tudo e todos, o amor como o velho louco de la mancha aniquilando monstros de braços estendidos consoante a maré dos ventos. É verdade, o amor acontece, e parece tanto o título lamechas de um filme a que se assiste na tarde de um sábado invernoso, enquanto a chuva fustiga a paisagem para lá da janela tolhida de cinzento. 

Não me preocupa nada que os relógios venham encurtar os dias e que a escuridão avance. Bebo, por enquanto, neste copo balão algo que evite o esfriar das veias e das extremidades dos membros, sentado numa esplanada desarrumada, não totalmente deserta porque ainda o ruído da mesa no canto oposto e sei, sem fazer alarme, que a solidão me assaltou 

(afinal quando menos esperava) 

como demónio escarninho, cruz que vou carregando daqui por diante durante meses, ou 

(sendo a esperança essa que teima em ser a última a finar-se) 

que os bagos de alfena dos teus olhos, mais o misterioso manto negro dos teus longos cabelos me amenize os ombros com promessas de 

(a idade, as pregas da pele, as articulações em gritos, os cabelos esbranquiçando) 

com promessas de ter o sono velado pela tua voz jovem, rouca e quente, a assegurar-me 

- Vai passar. Tu sabes que vai passar.

20 de outubro de 2018

poema matinal

Eddie O'Bryen, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Deixei que caísse vagaroso no sono que não queria ter, sôfrego, feito de ombros resignados à completa falta de esperança que o cansaço consegue impor-me, amotinado com as tempestades mentais, a luta interior entre querer e não saber o quê. A vigília abrindo brechas para que o subconsciente se derrame, desfazendo-se como papel encharcado onde escrevi a frustração de mais não ser nem haver, amontoando todo o pensamento encurralado numa deriva que se torna lixo a entupir a alma. Fui como por uma ravina abaixo, sem galhos ou pedras que me detivessem, a entrar magoado no sono mais profundo, como abismo insondável. 

Madrugada cumprida, fui regressando deste lado de cá interior, a deslumbrar-me, já desperto, com a singular quietude do mundo na orla matutina, ainda de luz impoluta e o espreguiçar lento e demorado do ar no seu hálito líquido de caruma. Dos teus olhos colhi uma gota do orvalho purificador, signo do repouso revigorante, o pulsar da água em nascente, conduzida pelos teus lábios que começa a abrir o veio por onde há-de subir a maré dos meus beijos. Serei completo quando despertares a encarnar o dia, erguendo-se como plumas, fecundo de brisa e azul, revelando-me a ilha que desejo habitar no teu colo, a semear o amor entre o que há-de ser de mim. 

Diz-se que a esperança não morre, ou será a última a deixar-nos. E eu acrescento: regenera-se, matinal.

18 de outubro de 2018

tímpano



Endireitou a cabeça na consequência de a ter virado primeiro para a esquerda e depois para a direita, tendo observado cuidadosamente cada flanco. Com o olhar quieto no horizonte em frente, a perder a vista na ténue linha alaranjada que ainda separava o dia da noite, fez um movimento maquinal, entre ângulos, com o braço direito, levando a mão à altura da têmpora. Flectiu ao mesmo tempo os dedos mínimo, anelar e médio, esticando o polegar e o indicador em ângulo recto. Com o corpo hirto, encostou suavemente o indicador à cabeça. Numa pequena flexão da mão, a ensaiar um coice, e ajudado por um estalido palatal da boca, simulou o puxar de um gatilho. No instante, piscou instintivamente os olhos e a boca fez um ligeiro esgar. Roleta russa.

Agora deambula pela cidade sem se saber morto ou ter escapado à fatal fortuna. Desta incógnita dirá que acabou cansado quando tiver rendido todas as ironias e contradições da vida. Ou percebendo, no seu pensamento difuso, que afinal não existem coincidências, sendo estas apenas meras probabilidades matemáticas. Lembra-se, contudo, daquele estrondo: o tímpano a zunir como quem nasce vindo imediatamente a morrer sem tomar sentido do mundo que lhe havia sido prometido. 

15 de outubro de 2018

segundo e quarto andamentos

Kültür Tava

Cresce, pelo interior de mim, o inominável. Dilato o peito por me encher de comiseração, muito de hesitar, um prego invisível sobre as pálpebras a evitar que os olhos se desmanchem de inconfidência. Porventura saberás, não por to dizer ou do uso de qualquer signo extraordinário à simplicidade de haver compreensão de tudo se desmoronar num suplício chorado, embora a seco e em silêncio. Digo antes: detenho a minha finitude em mim mesmo, a roer, corroendo, como um cancro que consome. Visível nas minhas feições brancas, de pálida angústia, e sem esgares, a flagrante apatia que dita o estender do corpo sem alma ou fito de haver existência. A irreversível morte. Por mais palavras que possas ter, e dizer. Arruína-se tudo, no fundo de tão cá dentro, poço consumido, e eu, de corpo erguido e ambulante, a passear essas ruínas como cavalo de madeira a inflamar a curiosidade que veio sempre a matar o gato: os teus olhos claros, marejados de consequentes ondas de desilusão.


7 de outubro de 2018

epifania do nada



Assim, de repente, aquele silêncio. Esse que te diz 

- Estás só, irremediavelmente só. 

que te faz pensar 

- Porquê? Onde foi que isto aconteceu? 

e vês os teus pés sem chão, certo de já não existir qualquer caminho a percorrer, por mais bifurcações que te apresentem. Ou, de outra forma, tomas-te como aquele tão famoso tolo, a meio de uma ponte 

- Para que margem? 

e a única solução mais viável é a que te aparece no fundo do abismo, no escuro negro de um rio em maré de inverno, o cego chão inclinado do precipício das noites sem lua. 

Argumentas: 

- O meu mundo interior foi sendo construído com a tua ausência, sabendo perfeitamente que existias, mas ainda sem te ter encontrado. Quando te encontrei e te percebi real sem qualquer razão onírica, pude, finalmente, entender e dar sentido a esse mundo que vinha construindo: o teu nome e dele o que te define. Sem ti, agora, só resta ao meu mundo erguido a irreversível ruína. 

Não temas, então, se a vida deixou de fazer sentido: arruína-te.

6 de outubro de 2018

impreciso silêncio



A morte chega num impreciso e imprevisível silêncio do crepúsculo. Faz-se de membros, de uma difusa sombra onde pudessem estar olhos e boca, talvez uma brisa, muito fria, e movimento a simular uma aparente normalidade. Uma pequena faísca (fosse a morte brilhante para tal), que num instante aconteceu para ficar esquecida, sem se saber o fundamento de ter acontecido. E diz-se, numa resignação ao lugar-comum das palavras vazias: «é a vida!», quando não é vida alguma, é antes toda a sua negação.

E esse instante cobre-se e faz-se de total e absoluto silêncio, um singular momento que nenhum relógio ousará contar. Talvez por isso seja, afinal, a eternidade, essa coisa imensurável. Falsa, tão efémera, no entanto, pois essa partícula de tempo significa o que foi e deixa imediatamente de ser.  Não pode, sequer, conter-se em qualquer tempo verbal, nem ser falada, nem ser ouvida, nunca grafada. Não tem palavras. Não há espaço dentro ou fora ou a delinear. Não possui, não é possuída, não pertence. Impossível medir. Não cabe na existência.

E, ainda assim, assustadora: damos pela sua presença para então assistirmos a um nada que nos escapa. Fica assim, um nada que nos coloca de cabeça à banda, corpo e alma inertes, um nada varrido a silêncio sem recuo ou avanço.

Se a noite cair e o crepúsculo der lugar ao negro cego, nem nós mesmos estaremos cá para dizer que a testemunhamos.


26 de agosto de 2018

acorde



Houvesse eu na mais indecisa circunstância e teria no despertar a dureza das cascas velhas dos pinheiros. Fiz-me, porém, em ilha, e lancei-me aguçado em preliminares fotografias, entre vapores e suspiros. Veio a alvorada num pequeno incêndio sem fogo ou fumo, só a temperatura ágil da xícara, o aroma do trigo e aveia cozidos, o lento roer de um damasco. Circundar a ternura pela curva mais apertada do último sono. A manhã no hálito delicado da caruma onde vestígios solenes dos primeiros orvalhos, depois das quentes jornadas de um verão estalejante. Dispersasse a água por chamar o olhar e o esforço libidinoso dos lábios, mais um gesto pungente que o corpo não sabe disfarçar: tangentes os dedos na perpétua manhã de domingo.

18 de agosto de 2018

sábado



Espontaneamente, o teu rosto. Com um claro e evidente 

(clarividente?) 

estrondo. O amor incondicional. Esse éter que se materializa no sangue, carne e sentidos que definem a Mulher que sou. A que sempre fui e se atrasou no tempo. Viu os tempestivos humores da alma como barreiras intransponíveis, rastejou na lama como verme imundo, ascendeu no ar como pluma para variadas vezes ser assassinada por caçadores furtivos. 

Durante décadas foi logro, alternando sem nada entre a ilusão e a mentira. Sempre na espera que um ombro, que um colo, que uns dedos meigos entre os cabelos amenizassem o vazio. Sempre sem ninguém. Não havia ninguém. 

Na madrugada foi assim: fotografia instantânea, com o teu rosto dentro a fazer-se de sol redentor. A tua voz garantindo entre o fogo e os tormentos que, afinal, sempre valeu a pena. E soube assim, ali, da importância do teu sorriso resiliente. 

Se não foi isto um sonho, então entra, e sê o Homem.