17 de fevereiro de 2019

o trigo nas tuas mãos



Deixa-te inebriar pelo calor do toque das minhas mãos que em limpa manhã desejam procurar-te, perde as estribeiras do bom senso, cala a moralidade, contraria o estigma da boa conduta para que recebas o meu corpo em prado dourado pelo sol, trigo nas tuas mãos, o consolo de me teres a colocar a língua sobre os teus mamilos, comigo a afagar o sal da tua pele que vai explodindo de tremores, e te arrepiares na confusão dos dedos e os teus cabelos sobre os meus braços, pescoço, os ombros, tu a escaldar sob os sentidos que te avivo ateando fogo e chuva e depois mais fogo e sol, e toda a manhã numa sinfonia de toque com seda e sede e fome e apetite; as nossas bocas unas despertando e desmaiando na raiz das nossas línguas, um só músculo de desejo e frémito…

Oh meu amor, minha ninfa, minha gata de janeiro!... O que há em ti que toma posse do que sou e descontrola tudo o que o coração comanda e faz o meu corpo de tal condição refém? Eu hei-de em ti vir-me para que te venhas tu a resgatar o desejo em polpa de pêssego; deixa-me sentir o desmanchar da minha carne sobre a tua. O mundo vem, vem-te comigo e com o mundo, a sentir que é vida os corpos e duas almas numa comoção de tudo quanto quero e que me une a ti: vir-me na tua flor para deixarmos de ser apenas eu, apenas tu, e sermos plenitude de um nó de simbiose sempre eterno. Já não há existência sem ti, deixa que me venha e me renasça dentro do teu ventre, inebriante útero que há-de conseguir do vazio deixar-me limpo e, como com um vagido, recomeçar a viver.

16 de fevereiro de 2019

um adeus adiado

Kültür Tava

Adormeci com a tua ausência, ao que se seguiu um corrupio de fragmentos acumulados de tudo o que tenho arrastado como um fardo no par de horas em que 

(a julgar ser verdade )

sonhei durante o fugaz sono. Obviamente não saberei caracterizar os esgares do meu rosto nesse tormento, mas sei o quão vívidos e angustiantes foram os batimentos cardíacos e as sacudidelas do espírito enquanto eu presente nesse palco onírico. Escrevo palco para ser levada à letra. Havia uma espécie de assistência, plateia tão fragmentada quanto os pedaços que me lembro de ter vivido nesse par de horas em que 

(a julgar ser verdade)

dormi. 

Não é minha intenção discorrer sobre o sonho ou as suas camadas pois nem sempre são suficientes as palavras. Posso apenas afirmar que foi contigo com quem estava nessa quase luta emocional em cenário adverso, adensado por sombras mais escuras que o abismo. E essa plateia que nos observava entre os Ah! e os Oh! das bocas, consoante o escarninho e o gozo, o espanto e a dissimulação. O centro da acção era apenas em ti, na oscilação do teu comportamento, ora vilipendioso, ora cheio de charme e sedução, ora em derretida e delicodoce ternura. E eu, incapaz de articular discurso, sobressaltada pelo teu inconstante humor e pela reacção da assistência, apenas gesticulando os braços como naufrago e em convulsão desarticulada. E havia de estar assim o meu rosto 

(a julgar ser verdade)

num consecutivo esgar. 

Quando despertei, era o limbo entre o fim da abóboda da madrugada e o horizonte a leste prenhe de luz, enquanto a cidade nem sequer esboçava qualquer intenção de bocejo. Sacudi o torpor e as imagens do sonho esfregando o rosto e os olhos com as mãos e os dedos, e deixei o corpo aquietar-se na rouquidão do quarto e no ronronar da cama. Os olhos abertos para o tecto branco escuro. Sem pensamento que pudesse incomodar esse assossegar. Cobri de calma o peito, e a taquicardia abrandou, desaparecendo poucos minutos depois. 

Ergui-me da cama, pronta para o afã do dia. O fardo que tenho arrastado também, acompanhando-me à casa de banho, no café com torradas e manteiga, em cada perneira das calças que vesti, no frio da malha contra a pele do peito, fazendo-me arrepiar. E o teu nome, já só signo da tua ausência, a tentar com que sorria, nem que seja por única vez e matinal, tentando convencer-me que tu e eu 

(a julgar ser verdade)

somos ainda um adeus adiado.

10 de fevereiro de 2019

slow motion





Manhã de chuva, árvores gesticulando
no vento. Do lado de dentro,
tique
                \
                /
taque
sobre o silêncio.
Respira-se:

– Estás a adiar as palavras
– Não sei delas
– Desde que não adies as emoções
– Tenho medo.

Expressão desconcertada. Devolvo um poema:

teu olhar revela-me
suaves tentações
teu desejo é como o tímido esquilo
que se esconde do ruído

emoções:
nunca      fujas      delas.

Um abraço.
U m    b r e v e    o l h a r .  
Braços caídos,  porta  aberta:
a esperança recusa qualquer sinal de
a d e u s .

9 de fevereiro de 2019

poema simples para ti

Kültür Tava




oh!
Esses vindouros dias estivais e o apelo do feno
do teu sorriso tecendo a manhã limpa
no estuário do rio entre brisas, canaviais de onde se levantam
as asas e os gorjeios das aves pequenas,

plumas!
Não resistindo a acariciar o meu rosto
os teus cabelos que acordam da almofada
mais a polpa dos teus lábios sobre a minha
pele em solene

bom dia!
Sorriso de azul da janela ensaiando o mar,
e eu despertando sem bocejo, apenas a foz
espreguiçando sob a raiz do sorriso -
sendo tu o léxico e a terra

que mostra ao mundo o poema que és
e tanto desejo escrever.

13 de janeiro de 2019

escreve! ou: o poema do mau despertar



Disse-te dos meus rascunhos pueris. Das palavras encontradas ao acaso e plantadas em beco. Disse-te que o mundo andou de pernas para o ar no ano que passou e nada disto diverte, se diverge. Tenho no que anseio a sua contradição, ambiciono envolto de nulidade. Há pontos de mim a anos luz uns dos outros. Divirjo, eis: entre o que fui, acorrentado a outroras, e este que agora não sabe, se enche de medo. O medo é pura diversão. Divergente. Abstração? Demência. 

Não. 

Saber construir um poema é saber erguer pontes sobre o poente. 

Não sei escrever um poema. No rascunho, tento versejar como quem se dá a novos ares. Porém, esta mão canhota: é ela quem empurra as palavras corridas umas na frente das anteriores, projectando parágrafos complicados, sintaxes complexas, semânticas a roçar o surreal. Dedo podre para a simplificação. E depois 

os adjetivos sempre presentes, a anunciar o substantivo circunstancial 

depois não é assim que quero, não assim que queria, tudo desapontado: escreve! De tudo quanto eu poderia fazer, nada faço. Calo-me entendendo uma ordem. Se não segue livre em linha recta, coloca-lhe uma barreira, desníveis, qualquer desafio. Calo-me por indeterminado tempo, a repetir fórmulas muito antigas. Poderá surgir a oportunidade de… até que… 

Até que supere esse ano inteiro para viver.

5 de janeiro de 2019

poema da redenção


«I'm lost in your crystal mask»
The Gift, Laura
 Digital Atmosphere, 1998


O sino badala para anunciar o mundo a este quarto escuro, onde poros rejeitam a parição da aurora e o meio-dia esclarecedor. Badala vezes sem conta ou conta que não quero eu fazer, a sentir que me chama, me apela, e eu sem nada dever à manhã ou à tarde porque deixei de me interessar, finjo-me de morto, a concluir as horas que faltam para o render do dia. Não estou, não procuro saber de coisa alguma e o quarto continuará poroso e negro. Escondo-me em máscaras e tão tolo, por sabê-las que nada escondem de mim, moldadas que são em frágil cristal. Hiberno cada ano, tolhido pelas geadas e ventos frios, entorpecido com a escuridão dos dias de chuva, introvertido na existência sem preocupações futuras, apenas remoendo os acasos que têm feito a minha vida até aqui. 

Então, o teu olhar a dar-me razões. Abri os meus olhos e vislumbrei um aceso findar do dia, feito Noé ao cabo de catastróficas tempestades. Entreabriste os lábios e sussurraste: Vê! Era o pôr do sol, ao fim dos anos, dos dias, das horas. Com o teu olhar. Dás-me o pôr do sol, eu procurarei dar-te o luar, nesta madrugada em que do teu beijo me houver renascido finalmente para reaprender contigo o significado da cumplicidade e da partilha. 

Aqui, neste efeito de luz do pôr do sol que me ofereces, ponto de partida para o último anoitecer, a derradeira madrugada até me ver acolhido no teu regaço, quimera tão minha, meu afecto de sempre, meu amor.

15 de dezembro de 2018

requiem



Ilumino o quarto com os dois abajurs, um em cada mesinha de cabeceira, enquanto o frio lá fora principia a enrijecer os músculos e os ossos, e todo o meu corpo estremece como se de um medo se tratasse. Os automóveis passam disfarçados pelo nevoeiro que avança, todos eles oferecendo um conforto quente, um aconchego, como uma lareira crepitando e dois copos de vinho, adequados ao brilho de uma vela enquanto dois corpos avançam no seu encontro íntimo, e todo o calor do ambiente já é quase só dos corpos e pouco da lareira, nem dos carros que passam, abrindo o nevoeiro que já se adensa, e os faróis sinalizando a máquina a ameaçar nas curvas, quando duas mulheres que passam distraídas se acautelam 

- Cuidado com o carro! 

Estava eu a dizer, o meu quarto iluminado por dois abajurs, a minha cama tão enorme para um velho menino como eu, entregue à lentidão morna, quase fria, deva dizer, da solidão; eu tão pequeno, querendo o afecto da minha mãe 

- Doem-me os ossos 

querendo o afecto da minha mulher 

- Deixei de gostar de ti 

querendo o teu afecto 

- Não deixo o meu homem por nada 

e lá me meto entre os lençóis, abrigo os meus pés no conforto de um saco de água quente que todas as noites a minha velha mãe me coloca na cama como se de um beijo de boas noites se tratasse e, contudo, 

- Doem-me os ossos. 

Vejo a disposição do meu quarto, os móveis quietos presenciando a minha solidão, as roupas que atirei na cadeira, a televisão muda, o telemóvel pousado a vibrar de notificações, como se um velho resmungando de reumatismo 

- Doem-me os ossos 

e lá fora os carros de ares condicionados ligados abrindo o nevoeiro, troçando do frio que se faz no exterior, as duas mulheres passam distraídas e ao verem o farol como uma fera 

- Cuidado com o carro! 

Eu estou como se sobrasse no mundo, deitado na cama, iluminado por dois abajurs, de auscultadores enfiados nas orelhas, de chávena de leite arrefecendo na mesinha ao meu lado esquerdo e tu o pequeno papel com a tua letra lá inscrita na vez de uma fotografia; respiro fundo, ou suspiro, os suspiros que os homens de certa idade vão esquecendo; eu agora regredindo trinta e cinco anos, voltando à ansiedade da adolescência e tu a teimar, a martelar na minha cabeça, 

- Não deixo o meu homem por nada 

e eu sei lá quem o teu homem é, só sei de mim e dos teus olhos; eu sei ver todo o universo nos teus olhos, e um mar de conquistas, com bartolomeus dias, vascos da gama, dom sebastião mais quintos impérios e tudo nos teus longos cabelos; as horas passam, a minha mãe remexendo-se na cama num sussurro de 

- Doem-me os ossos 

e a mim dói-me a alegria por voltar a sentir a paixão que julgava perdida pela idade, com a realidade assinalando 

- Não deixo o meu homem por nada 

a doer-me por voltar a sentir-me feliz e tu indiferente, a suspirar de novo e tu só bocejos, a sonhar de novo e tu caída no sono. Tu, nesse verão já tão distante, a dizer-me no papel 

- As metas de hoje são barreiras ultrapassadas amanhã. 

A minha mulher que me deixou, num semblante cruel e frio, 

- Deixei de gostar de ti 

frio como o nevoeiro lá fora, a minha mulher que se julga agora dentro do automóvel que rompe o nevoeiro, julgando-se toda ela confortável devido aos ares condicionados, enquanto eu, a espreitar o farol surgindo do meio da neblina e a avisar, como duas mulheres distraídas que passam 

- Cuidado com o carro! 

E, no entanto, cá me encontro, suspirando, fingindo o teu retrato na tua letra inscrita num papel, sorvo os primeiros goles de leite e aconchego os pés no beijo de boas-noites que a minha mãe veio repousar na minha cama. Esta música que te traz de corpo inteiro aos meus ouvidos, consigo ver-te finalmente sorrindo em cada acorde, e todo o teu jeito de mulher ingénua, todo o teu corpo como uma dança mágica, imagino os teus cabelos soltos abrindo brisas de maio no meu quarto 

- Não deixo o meu homem por nada 

a recordar o beijo de despedida que te dei na face, a afagar-te o rosto como se fosses uma menina perdida, 

- Até amanhã 

quando perdido segui eu, que deveria ter recebido o beijo e o afago que te dei, de que tanto necessito, e os meus olhos a brotarem lágrimas que se sustiveram, lágrimas não sei se pelo que sinto, lágrimas não sei se por ti ou por mim que sofro por voltar a sentir-me feliz, apaixonado, sem ter que ouvir 

- Deixei de gostar de ti 

mas também sem necessidade alguma de ouvir 

- Não troco o meu homem por nada.

11 de novembro de 2018

entropia



A luz imprecisa e a doçura do sono, no embalo da chuva, o vento ululando com mestria dramática, a lonjura a chorar cristais com outros sons inquietos. As mãos à luz quente do abat-jour em gestos de difusas palavras. Se evocares o ar húmido, terás a encomenda do segredo, e tudo o resto é ferimento. 

Haja ainda quem venha morrer de amor. As manhãs de novembro terão sempre este céu plúmbeo, com o adocicado humor do outono no seu aroma de lenha e caruma a arder. E os livros no lugar da esfera. A música, sempre presente, vem na vez do sol, como quem nasce para todos.

10 de novembro de 2018

transtorno


I’m getting out of here.
Where are you going?
To the other side of morning.
Please don’t chase the clouds, pagodas.

James Douglas Morrison, The Movie


Definir a paisagem além da janela aqui defronte: fotograficamente, são ângulos acentuados por sombras de um quadro de Hopper quase sem cor, ou de cores soturnas – mesmo o branco é um cinza muito pouco definido e sem luz. Movimento praticamente nenhum, excepto ramos de um arbusto que baloiçam sob um vento delicado (não é brisa nem é ventania). Não há céu que se faça destacar do resto da composição. Vários sons, no entanto. Motores de automóvel e motoreta, os vidros da janela emitem alguma vibração quando qualquer veículo mais próximo. Uma ou outra voz, de adulto e criança, sem se ver de quem, adivinha-se que femininas, por agudas e delicadas. Um avião que passa, evocando os estrondos das nuvens em horas de trovoada. E quando tudo isto se suspende, por breves momentos, aquele borburinho de distância indefinida, da rotação do mundo e das coisas que nele estão. Atmosfericamente é um dia cinzento, húmido e frio, embora não caia chuva para já.

Um espectador do outro lado da janela, virado para o interior, não pode afirmar que há grande distinção entre os ambientes de fora e de dentro. Estore levantado e, depois da vidraça, o véu pálido como que sujo de uma cortina feita de renda. Na imediação da luz que transpõe a janela, o contorno de algum mobiliário. Mais no fundo, em contraste com uma parede clara, a silhueta de alguém sentado e debruçado sobre uma mesa, ocupado com um papel branco (ou de um cinza muito pouco definido), escrevendo ou desenhando. Pelo movimento parece que a escrever. Do lado de lá não se conseguirá ouvir o som do lado de cá, mas um sonoplasta poderá conceber: o tique taque de um relógio de parede, o zunir electrónico de qualquer aparelho ligado à corrente, a fricção de um lápis rombo sobre o papel. A respiração normal de quem escreve. Algum suspiro, ou bocejo. Música, talvez, ou um televisor onde diálogos de um filme. Poderá ainda estar mais alguém engolido pela sombra, que fale com quem escreve, ou que emita apenas ruídos domésticos – adulto ou criança.

Aquele que escreve faz um gesto largo para negar o sonoplasta. Não há música, televisor, nem está mais ninguém. Após essa pausa, retoma a escrita e é perceptível o movimento da mão que vai sendo empurrada pelo braço a firmar o lápis contra o papel. Aquele ou aqueles que o lêem (lerão?) decidem: o escritor vai zangado, pela força que faz a escrever. O sonoplasta amplia o som do lápis, cada vez mais rombo, riscando o papel que, pelo ruído, sofre de enorme pressão. E agora, com a energia de conseguir alterar a disposição quieta de outros objectos menos perto de si, o quase estrondo (será altura de o sonoplasta baixar o volume) da ponta de grafite do lápis a quebrar-se, um repentino restolhar sobre o tampo da mesa, o seco tilintar do lápis atirado com força, as mãos de quem escrevia muito nervosas, agitadas, tomando o papel. Percebe-se que é rasgado e amarrotado. Agita-se uma cadeira em gonzos e arrastada. Passos pequenos sobre soalho de madeira. Tosse ligeira e pigarreio. Uma porta a abrir-se e o ruído de fora entra no ambiente com mais presença. Os motores dos carros, e um que tanto faz estremecer a janela, veículo pesado, fazendo a curva ali mesmo. A porta fecha-se, sem estrondo. Alguém passará do lado oposto e a afastar-se, pelo som dos passos sobre o cimento, cada vez mais longe, e ainda se consegue ouvir uma voz grave vociferando por um momento e depois calando-se. Nada se altera na paisagem além da janela aqui defronte. Apenas do lado de dentro se testemunhou um abandono.

Já muito depois, quando a escuridão tiver engolido o que é paisagem diurna e todo o ruído, o estore cerrado e nada para se observar depois da janela, o tique taque do relógio da parede será a única companhia de quem irá regressar sentando-se à mesa, tirando do lixo o papel amarrotado na tentativa de alisá-lo e alinhar os seus pedaços como um puzzle. Embora com menor frequência, os motores na estrada continuarão a ser ouvidos, conseguindo ainda fazer vibrar a janela. A luz fraca de um candeeiro iluminará o que lhe está próximo, mas transformando as paredes em sombras disformes. Um isqueiro acenderá um cigarro. Outros papéis sobre a mesa farão a diferença. Não estão cá neste momento, serão trazidos no regresso. Não vamos precisar do sonoplasta, vamos assumir que nenhum outro ruído poderá ser escutado para além do relógio da parede, a brasa do cigarro consumindo o tabaco, o sopro do fumo, e o som dos papéis manuseados. Num deles, com a luz trémula da lâmpada quase a fundir, poder-se-á ler, grafado em caracteres oficiais de diagnóstico, «perturbação obsessiva compulsiva». Será insone a próxima noite.

5 de novembro de 2018

pouco ou tanto


«Hoje é de um beijo que preciso
Sem discursos, sem porquês»



Sem curta ou longa distância, só a contar com o olhar inquieto de tantos dias vazios, deixando subir o impulso de tudo ter e, sem hesitar, esmagando por sofreguidão nos nossos lábios o que há-de ser de nós. Um beijo de fogo e ternura, ignorando tempo e lugar, naufragar os corpos de afagos, sem acenos, escusando a efemeridade. Pertencer a um amor que de tudo se ausenta, suspenso nessa liquidez das bocas comungando. Ter o espírito infalível às agruras, aos temores, os braços contestando o desequilíbrio, a mente a impugnar a auto-comiseração. Ter o apetite livre do suicídio físico ou moral. 

Estar num beijo, sem entretanto nem porém, para tudo haver o que os corpos por longo tempo desejaram contra a imaterialidade de qualquer razão propensa ao mundo que os condene, que nenhuma má fé possa nunca superar. Mãos no rosto, dedos entre os cabelos, e os olhos frente a frente desistindo de segurar a convulsão de tanta saudade, e a matar, a matar, o pouco ou tanto que somos agora, a mitigar a tristeza de não sabermos, por desconhecer o nada, o que poderá haver afinal depois do amor.


4 de novembro de 2018

côdeas



Poroso como o calcário que se desgasta, de arestas rombas, tudo feito de resignações vulgares. O mundo esboroando o pedaço que falta, na agilidade do vento e das chuvas sem que para tal tenha de soprar sequer uma brisa ou farrapos de uma simples morrinha inconstante, o mundo só por si erode, alia-se ao tempo 

(o mundo e o tempo um só?) 

e numa lentidão de aborrecimento transformam a dureza sólida da pedra em sucessivos e cada vez mais longos mantos de areia, pó do que existiu, do que resistiu, mas, de resignação em resignação, se foi transformando no que era antes de se haver de si. 

A vida assim se transforma 

(alguns argumentam que evolui, ou será o contrário?) 

e, a dado momento, como o pedaço de carcaça de um pão de vésperas esquecidas, esboroado em côdea, essa que do todo é a que vai resistindo 

(ou não desistindo por completo), 

a vida feita e sentida como côdeas do pão em definitivo feito migalhas grotescas, restos ressequidos que os velhos atiram à água verde de um lago para os patos, gansos e cisnes preguiçosos entre o limo, entre as rémiges também esquecidas de vésperas que já lá vão, a boiar, orgulhoso lixo a boiar, e eu 

(a vida, a vida), 

a vida um corpo insólito a boiar à mercê do parco movimento da água nodosa de verde contra a lama das margens, uma angústia por tanta inércia, a vir cobrindo-se pelo colorido de morte das folhas do outono. 

De modo que esqueçam lá isso da idade signo de conquistas, e que as rugas tanta dignidade, como se fosse verdade essa vossa crença de que fica sempre tudo bem, o que interessa é o espírito manter-se jovem. E, afinal, onde esse espírito senão acomodado em sombras e em vãos de esquinas; que é do espírito na frente de um espelho a tomar consciência da decrepitude? Crença no fingimento, e no dizer de lugares-comuns politicamente correctos. O politicamente correcto é por si um côdea, dura e já bolorenta. 

Ponham-se de pé até tombarem definitivamente. Aí reside a dignidade, e também a resignação.

28 de outubro de 2018

confidente

Flor Garduño, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Consegues perdoar o teu amigo e confidente por este quase esquecimento em que 

não 

tenho de recomeçar: não é quase, não é esquecimento. A questão é que nunca te esqueci 

(e como seria isso possível?) 

uma vez que fazes parte de mim e do meu dia a dia, e estás sempre presente no vínculo de uma hesitação, ou quando deixo a mão suspensa de um gesto que fica por realizar, ou de um sonho do qual desperto a maldizer a vida e o mundo e… bem, tu sabes como é. 

O perdão que peço é pela saudade imensa que tenho de ti, pela falta que sinto do teu olhar que sempre que eu 

- Não sei o que se passa comigo 

o teu olhar respondendo 

- Tem juízo 

e saber que não me deixarias cair, por mais asneira eu fizesse, ou actos e palavras que fossem contrários aos conselhos que sempre me deste, a saber das minhas fraquezas, mas profundamente convencida do meu desígnio. 

De maneira que sinto culpa por julgar que me falhas nos meus dias mais sombrios quando desejo não ver ou estar com ninguém e, quando risonho de convencido que o mundo afinal é bom para viver e outras tretas, julgar-te ausente para partilhar contigo também as maravilhas. 

É desse sentimento de perda que me sinto culpado. Por ter decidido, a partir de certa altura, que terás partido num qualquer momento do passado que não sei explicar e de que nunca fui informado, conformando-me gradualmente com o teu desaparecimento. Fiz de conta que me deixaste, as outras mulheres que 

- Tem juízo 

ou seja, nas outras mulheres onde te procuro sem saber, e nenhuma delas à tua altura porque nenhuma capaz de dizer-me com o olhar 

- Tem juízo 

dizem apenas, e cheias de orgulho 

- Preciso tanto de ti 

e com quem poderei eu corresponder a esse sentimento, se é de ti que preciso? 

Fiz de conta que me deixaste e, no entanto, tu aí. Sempre aí estiveste, a mim é que me faltou a coragem para entender e aceitar. Eu é que estou ausente de ti, mesmo sabendo que fazes parte dos meus dias. 

Por estranho e paradoxal que possa parecer a quem nunca soube 

(nunca saberão) 

o quanto nos dávamos um ao outro, penso que me levaste a que eu valorizasse o meu egoísmo como ninho de defesa e arma letal para os que teimam em sorver e depender da minha energia. Sim, e esse egoísmo acabou também por te afectar, ainda que dissesses, insistisses 

- Deixa para lá, que eu cá me arranjo 

e a raiva que isso me dava, como podia eu conceber tal, salvar-me e não levar-te comigo? 

Perdoa-me por te olhar nos olhos e não ver qualquer brilho. Há agora um escuro denso, muito orgânico, pesado, que me impede de ir ao mais fundo, a entender essa coisa da alma. Não lhe chego assim a olhar-te nos olhos que colocas em parte nenhuma, a tua alma acaba por aflorar tão espontaneamente nas coisas mais pequenas, no que sinto e penso no devir com o mundo que me rodeia, e nesta casa, também a tua, onde rimos e chorámos e tanto falámos. Falámos tanto até roçar o indizível. Depois era ora eu no teu ombro ora tu no meu, até que qualquer outro assunto mais mundano nos desviasse da pieguice, para voltarmos a rir. 

Nunca te disse a alegria de ver-te sorrir, o conforto de ouvir a tua voz, a segurança de sentir a tua mão agarrando a minha. Nunca te disse. Seriam necessárias as palavras? A culpa diz que sim, que são necessárias agora, enquanto há tempo. Mas tu não, revejo-te a encolheres os ombros, a encenares uma gargalhada e 

- Tem juízo 

ou 

- Deixa para lá, que eu cá me arranjo 

a fazeres-te de forte, a dar tudo aos outros, como sempre, e ficares com as migalhas. Para quê? Por que não foi diferente; e talvez, se eu 

- Amo-te 

tu também 

- Amo-te 

para ficarmos com a certeza que mais nada era deixado por dizer? 

Perdoa este teu amigo e confidente, que soube das razões das tuas lágrimas, tendo sido eu motivo de muitas delas, que soube dos motivos das tuas maiores alegrias e orgulhos, que soube das opções que tiveste na vida e ainda assim o teu altruísmo falando mais alto para dares sempre aos outros sem nada receber; perdoa este teu amigo e confidente e 

- Mãe! 

perdoa este teu filho que te abandona por egoísmo de não querer sofrer por te ver a seres quem não és, mas jamais se esquece da mulher que foste e que essa demência levou para longe.

27 de outubro de 2018

alfena



Pouco me preocupa o render do equinócio e os dias que se adivinham mais frios. A evidente e rápida inclinação da tarde para noites mais longas tornando os corpos lassos e apelando ao apetite quase verbal do sono. Vou sem ti, nesta disposição, para parte incerta 

(para lado nenhum?) 

enquanto resistem os penúltimos e tardios movimentos estivais na cidade, procurando um copo que me afaste ainda da sombra da solidão que está aí não tarda no meu encalço, presente nos meus gestos inclinados, à laia de caçador furtivo, para finalmente me emboscar quando menos esperar 

(claro que espero, já sei de cor o) 

nessa hora de maior fraqueza que há-de vir, e tomar-me, por inteiro, enjaulado ou empalhado até que o inverno se cumpra e, quando cansado ou morto, começando a soltar-me então, acordando o meu corpo para os hormonais apetites primaveris 

(já sei de cor o ciclo de sombra e luz de que sou feito, como se eu calendário ambulante das estações, apontando a lua ideal das sementeiras e o humor propício às colheitas). 

Para já resisto no meio termo de tudo, longe da cor alfena dos teus olhos, aguardando o aconchego patético da minha hibernação para o que é a vida, sempre adiando decisivas resoluções e com os anos pesando em cima, convencido que o dia há-de chegar finalmente para que tudo se concretize, e eu rejuvenescido, sem encarar os espelhos, ignorando num sacudir de ombros os sinais cada vez mais inequívocos da idade que avança. 

Sigo por esta cidade, despreocupado com o rumo que tomo, sem ti, mas com a memória no manto negro e sedoso dos teus cabelos, a sugerir-me o quente aconchego do teu colo, contra o restolhar das folhas das árvores há muito caindo na sua madura condição, arrastadas sob o vento que se levanta, cada dia mais frio, a arranhar o chão. 

Tu ficarás quieta, sorrindo 

(tu quieta uma pessoa, tu sorrindo uma outra que não tu quando quieta) 

sorrindo ao que tens de anos pela frente, sem te preocupares que uma prega na pele, que uma articulação teimosa ao descer da cama, que um cabelo branco, que o sono rejeitando a vontade de adiar o fim dos dias, 

(tu duas pessoas, a que poderias ser se me esperasses e a que és e hás-de ser ignorando as expectativas de mim), 

tu quieta e impressionada com o que eu possa representar, que talvez a idade afinal nenhum limite, a conjecturares cenários, e os obstáculos sempre em evidência em qualquer e cada um deles, muito embora o amor 

(é o que se diz, o que se ouve falar muitas vezes) 

o amor razão principal e mais forte, e que acontece contra tudo e todos, o amor como o velho louco de la mancha aniquilando monstros de braços estendidos consoante a maré dos ventos. É verdade, o amor acontece, e parece tanto o título lamechas de um filme a que se assiste na tarde de um sábado invernoso, enquanto a chuva fustiga a paisagem para lá da janela tolhida de cinzento. 

Não me preocupa nada que os relógios venham encurtar os dias e que a escuridão avance. Bebo, por enquanto, neste copo balão algo que evite o esfriar das veias e das extremidades dos membros, sentado numa esplanada desarrumada, não totalmente deserta porque ainda o ruído da mesa no canto oposto e sei, sem fazer alarme, que a solidão me assaltou 

(afinal quando menos esperava) 

como demónio escarninho, cruz que vou carregando daqui por diante durante meses, ou 

(sendo a esperança essa que teima em ser a última a finar-se) 

que os bagos de alfena dos teus olhos, mais o misterioso manto negro dos teus longos cabelos me amenize os ombros com promessas de 

(a idade, as pregas da pele, as articulações em gritos, os cabelos esbranquiçando) 

com promessas de ter o sono velado pela tua voz jovem, rouca e quente, a assegurar-me 

- Vai passar. Tu sabes que vai passar.