20 de abril de 2019

taquicardia



Comprometo o músculo cardíaco com a indução do álcool na vã tentativa de contornar por fora a circunstância da solidão. Quis sentir-me como as ovelhas, ufanas no seu trote estival pelo pasto. A liberdade pode ser imensurável quando não sentimos o efémero a acometer-nos por cada momento que passa esvaindo como areia entre os dedos. Abomino o corpo exigindo-lhe a ressurreição, se dizem que cristo é vivo em cada um de nós. 

Vou resgatar gestos pueris com o argumento da falta de juízo. Por favor: não me atormentes com o frio roxo dos lábios em labuta contra a minha falta de erecção. Não se ressuscita os mortos por dolência de desejo. O fio de vida é ténue para essas tão imperiais ambições do corpo.

8 de abril de 2019

ouriço



Vou para onde já não quero ir e fujo para os lugares onde todos podem encontrar-me. Desligo da multidão ao saber-me só e procuro a solidão entre as praças de gente. E os pombos, trombos entre os autocarros que enxameiam as ruas da cidade. As estátuas afiguram-se artroses, os edifícios a largar sombras sem frontarias nem traseiras. Jardins arrabaldes insinuando a secura dos baldios e estes floridos pela peste daninha a rebentar o betão. 

É segunda-feira, modorra farta de um pranto invertido, oh! que dia triste e desproporcionado de fadiga e ócio. Lançai-me antes a ferros para uma masmorra, cave ou qualquer lago inundado de limo. Se nem falar tenho apetite já, vencidas as razões para um, dois, três amigos, sequer esforço para a apoplexia fervorosa das paixões terei ânimo. 

Quero-me de cobertores enjaulado como os velhos. Nada me seduz para exaltar alegrias ou sorrisos esboçados. Acende-me um cigarro e dá-mo na boca como o pão de côdea dura da véspera. Por tanta sede negra esta que tenho, filtra-me o fumo para tão só conseguir inalar e beber do mesmo ouriço e caroço com que ela, 

ela, 

consentiu que lhe corroesse o sangue e enfim deixar de ser entre nós e para sempre longe de mim.

7 de abril de 2019

segunda redenção




Foi capaz de dobrar o espelho, e ficou do lado de lá 

(pensando que para sempre) 

longe de tudo o quanto a assustava na vida aquém espelho. 

Tornei a vê-la, já doente, numa esquina de luz onde dormia a imagem rachada do vidro. Nunca se lembrou que, por ser de vidro, a sua vida ali também se quebraria. Ela veio até mim, trazendo um molho de chaves, e disse: 

- Toma a que achares que vai abrir. 

- Abrir o quê?, indaguei, sem ter esboçado qualquer gesto que adivinhasse a curiosidade que me invadiu naquele momento. 

- Tu o saberás, respondeu-me, serena. 

Ficamos uns instantes a olhar um para o outro. O que me poderia interessar numa chave daquele molho estendido pela mão de uma estranha? Apesar de tudo, a minha curiosidade era cada vez maior pelo que viesse a ser tudo aquilo e porquê eu, porquê ela. Porquê chaves. 

- Escolhes uma?, insistiu. 

- Prefiro as portas já abertas, respondi por fim, muito convicto. 

Murou-me o horizonte com o rosto que aproximou num repente de mim, e os seus lábios entreabriram-se. Mas eram os meus olhos que afastavam a sombra da madrugada e afogando com a realidade a incógnita de um sonho. 

Se tivesse deixado a porta aberta, teria saído. E descoberto fronteiras impossíveis. Teria talvez, para além de tudo – o amor, a religião, o poder, a luxúria, a filosofia, a miséria, a morte – vivido. 

Uma porta fechada é uma solidão escura. 

Às sete horas da manhã, o sino badalou para anunciar existência ao mundo e em particular a este quarto escuro, onde poros rejeitam a parição da aurora. Badalou vezes sem conta o sino ou conta que não quis eu fazer, a sentir que me chamava, e eu sem nada dever à manhã porque deixei de me interessar, a querer-me morto agora, concluindo as horas que faltam para o render da tarde. Não estou, não vou saber de nada e o quarto continuará poroso e negro. 

Sinto o frio na vez das agulhas no antebraço nodoso, o suor a escorrer pelo corpo convulso. Este esconso sacudido pelo bolor onde a ténue luz espreita pelas frinchas que as traças vão deixando. Deixo-me sinceramente ao fogo que me lambe de morte prematura, a ouvir-lhe o murmúrio da crepitação: 

- Consome-te!

30 de março de 2019

derradeiramente eterna

foto de Mariana Pereira (instagram @sousa.msp | @gs_infoccus), gentilmente cedida


Quero esta e outras manhãs para mim. Subir às praças esquecida do que está fora do meu alcance. Vou largar prospectos, folhetos, cartas. Direi avisos, poemas aleatórios, sensibilizar sobre rumores e tempestades. Vou pousar a voz em outras vozes e ousar o ombro, semear cumplicidade, sem acenos. Largar a janela como horizonte, viajar com regressos adiados. Por essas tão polidas escadarias, quero construir vínculos com a multidão. E terei de alinhar-me, ligeira como o vento estendido sobre as pradarias, com o olhar dos gatos atentos na caça doméstica dos insectos. Quero ser pessoa entre pessoas e ângulo demorado quando da sedução faminta dos amantes. Quero ter um gesto sobre os seus rostos, adiando a saudade. Ter as palavras para explicar o que vai correr de feição. Tentarei abrir a boca e engolir cataclismos privados. Suprimir algumas lágrimas que se derramam cruas como leite, tintas e óleo, ter as texturas sob os dedos para dar garantia aos sentidos, ouvir como quem dorme, respirar como se a afogar, mexer a língua entre o borralho. Hei-de conseguir planisfério e abóbada, furos de lebres e torres altas de menagem. Secar os sinos do luto e da labuta. 

Vou, antes disto tudo, perpetuar o presente com a mão estendida, sorriso esquecido sobre equívocos passados e assumir a largura do espírito sem esperar futuro. Sana loucura de ser deusa entre os demais, decidindo que o tempo uma vírgula de ilusão. Vou ao calor do teu corpo e, afastando a resignação, pedindo a tua resposta, derradeiramente eterna, ao questionar: 

- Estás comigo?


24 de março de 2019

véspera

Katia Chausheva via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.



A parede é demasiado áspera para deixar que o queixo
e as mãos lhe sintam a textura
recolhe-se o sol e este covil de letras e tons e sílabas fica mais frio
fica grave quando se esfrega a fronte
e se coloca o cabelo em desalinho
a pele arrepiada por um arrefecimento que não se espera
uma vez que a tarde feita de sol
ufano de uma promessa estival.

Ao fechar os olhos
o amanhã repudiará as palavras pretéritas
e um domingo será erguido de irrequieta solenidade
a saber que
tendo sido a véspera ébria
será a vez de retomar a sobriedade
e o silêncio.

16 de março de 2019

soneto a são gin





Abençoado seja o São Gin
que me entorpece a razão
e me faz esquecer o tino
deste tão covarde coração;

não fosse eu ser de fracas
carnes e inconstante alma,
terias acutilantes facas
mil e uma três vezes a fama

das que sendo inconstantes
me dão saliva na vez do amor
e, ao acordar, de cio penante
que com pressa saciam esta dor.

Pois sendo isto relativo, não vou
esconder penumbra nem frustração
por ter tido o teu corpo um dia.

E perdido resta agora a este que sou,
morto sem acreditar em redenção,
quedar renitente, maldita ignomínia!

17 de fevereiro de 2019

o trigo nas tuas mãos



Deixa-te inebriar pelo calor do toque das minhas mãos que em limpa manhã desejam procurar-te, perde as estribeiras do bom senso, cala a moralidade, contraria o estigma da boa conduta para que recebas o meu corpo em prado dourado pelo sol, trigo nas tuas mãos, o consolo de me teres a colocar a língua sobre os teus mamilos, comigo a afagar o sal da tua pele que vai explodindo de tremores, e te arrepiares na confusão dos dedos e os teus cabelos sobre os meus braços, pescoço, os ombros, tu a escaldar sob os sentidos que te avivo ateando fogo e chuva e depois mais fogo e sol, e toda a manhã numa sinfonia de toque com seda e sede e fome e apetite; as nossas bocas unas despertando e desmaiando na raiz das nossas línguas, um só músculo de desejo e frémito…

Oh meu amor, minha ninfa, minha gata de janeiro!... O que há em ti que toma posse do que sou e descontrola tudo o que o coração comanda e faz o meu corpo de tal condição refém? Eu hei-de em ti vir-me para que te venhas tu a resgatar o desejo em polpa de pêssego; deixa-me sentir o desmanchar da minha carne sobre a tua. O mundo vem, vem-te comigo e com o mundo, a sentir que é vida os corpos e duas almas numa comoção de tudo quanto quero e que me une a ti: vir-me na tua flor para deixarmos de ser apenas eu, apenas tu, e sermos plenitude de um nó de simbiose sempre eterno. Já não há existência sem ti, deixa que me venha e me renasça dentro do teu ventre, inebriante útero que há-de conseguir do vazio deixar-me limpo e, como com um vagido, recomeçar a viver.

16 de fevereiro de 2019

um adeus adiado

Kültür Tava

Adormeci com a tua ausência, ao que se seguiu um corrupio de fragmentos acumulados de tudo o que tenho arrastado como um fardo no par de horas em que 

(a julgar ser verdade )

sonhei durante o fugaz sono. Obviamente não saberei caracterizar os esgares do meu rosto nesse tormento, mas sei o quão vívidos e angustiantes foram os batimentos cardíacos e as sacudidelas do espírito enquanto eu presente nesse palco onírico. Escrevo palco para ser levada à letra. Havia uma espécie de assistência, plateia tão fragmentada quanto os pedaços que me lembro de ter vivido nesse par de horas em que 

(a julgar ser verdade)

dormi. 

Não é minha intenção discorrer sobre o sonho ou as suas camadas pois nem sempre são suficientes as palavras. Posso apenas afirmar que foi contigo com quem estava nessa quase luta emocional em cenário adverso, adensado por sombras mais escuras que o abismo. E essa plateia que nos observava entre os Ah! e os Oh! das bocas, consoante o escarninho e o gozo, o espanto e a dissimulação. O centro da acção era apenas em ti, na oscilação do teu comportamento, ora vilipendioso, ora cheio de charme e sedução, ora em derretida e delicodoce ternura. E eu, incapaz de articular discurso, sobressaltada pelo teu inconstante humor e pela reacção da assistência, apenas gesticulando os braços como naufrago e em convulsão desarticulada. E havia de estar assim o meu rosto 

(a julgar ser verdade)

num consecutivo esgar. 

Quando despertei, era o limbo entre o fim da abóboda da madrugada e o horizonte a leste prenhe de luz, enquanto a cidade nem sequer esboçava qualquer intenção de bocejo. Sacudi o torpor e as imagens do sonho esfregando o rosto e os olhos com as mãos e os dedos, e deixei o corpo aquietar-se na rouquidão do quarto e no ronronar da cama. Os olhos abertos para o tecto branco escuro. Sem pensamento que pudesse incomodar esse assossegar. Cobri de calma o peito, e a taquicardia abrandou, desaparecendo poucos minutos depois. 

Ergui-me da cama, pronta para o afã do dia. O fardo que tenho arrastado também, acompanhando-me à casa de banho, no café com torradas e manteiga, em cada perneira das calças que vesti, no frio da malha contra a pele do peito, fazendo-me arrepiar. E o teu nome, já só signo da tua ausência, a tentar com que sorria, nem que seja por única vez e matinal, tentando convencer-me que tu e eu 

(a julgar ser verdade)

somos ainda um adeus adiado.

10 de fevereiro de 2019

slow motion





Manhã de chuva, árvores gesticulando
no vento. Do lado de dentro,
tique
                \
                /
taque
sobre o silêncio.
Respira-se:

– Estás a adiar as palavras
– Não sei delas
– Desde que não adies as emoções
– Tenho medo.

Expressão desconcertada. Devolvo um poema:

teu olhar revela-me
suaves tentações
teu desejo é como o tímido esquilo
que se esconde do ruído

emoções:
nunca      fujas      delas.

Um abraço.
U m    b r e v e    o l h a r .  
Braços caídos,  porta  aberta:
a esperança recusa qualquer sinal de
a d e u s .

9 de fevereiro de 2019

poema simples para ti

Kültür Tava




oh!
Esses vindouros dias estivais e o apelo do feno
do teu sorriso tecendo a manhã limpa
no estuário do rio entre brisas, canaviais de onde se levantam
as asas e os gorjeios das aves pequenas,

plumas!
Não resistindo a acariciar o meu rosto
os teus cabelos que acordam da almofada
mais a polpa dos teus lábios sobre a minha
pele em solene

bom dia!
Sorriso de azul da janela ensaiando o mar,
e eu despertando sem bocejo, apenas a foz
espreguiçando sob a raiz do sorriso -
sendo tu o léxico e a terra

que mostra ao mundo o poema que és
e tanto desejo escrever.

13 de janeiro de 2019

escreve! ou: o poema do mau despertar



Disse-te dos meus rascunhos pueris. Das palavras encontradas ao acaso e plantadas em beco. Disse-te que o mundo andou de pernas para o ar no ano que passou e nada disto diverte, se diverge. Tenho no que anseio a sua contradição, ambiciono envolto de nulidade. Há pontos de mim a anos luz uns dos outros. Divirjo, eis: entre o que fui, acorrentado a outroras, e este que agora não sabe, se enche de medo. O medo é pura diversão. Divergente. Abstração? Demência. 

Não. 

Saber construir um poema é saber erguer pontes sobre o poente. 

Não sei escrever um poema. No rascunho, tento versejar como quem se dá a novos ares. Porém, esta mão canhota: é ela quem empurra as palavras corridas umas na frente das anteriores, projectando parágrafos complicados, sintaxes complexas, semânticas a roçar o surreal. Dedo podre para a simplificação. E depois 

os adjetivos sempre presentes, a anunciar o substantivo circunstancial 

depois não é assim que quero, não assim que queria, tudo desapontado: escreve! De tudo quanto eu poderia fazer, nada faço. Calo-me entendendo uma ordem. Se não segue livre em linha recta, coloca-lhe uma barreira, desníveis, qualquer desafio. Calo-me por indeterminado tempo, a repetir fórmulas muito antigas. Poderá surgir a oportunidade de… até que… 

Até que supere esse ano inteiro para viver.

5 de janeiro de 2019

poema da redenção


«I'm lost in your crystal mask»
The Gift, Laura
 Digital Atmosphere, 1998


O sino badala para anunciar o mundo a este quarto escuro, onde poros rejeitam a parição da aurora e o meio-dia esclarecedor. Badala vezes sem conta ou conta que não quero eu fazer, a sentir que me chama, me apela, e eu sem nada dever à manhã ou à tarde porque deixei de me interessar, finjo-me de morto, a concluir as horas que faltam para o render do dia. Não estou, não procuro saber de coisa alguma e o quarto continuará poroso e negro. Escondo-me em máscaras e tão tolo, por sabê-las que nada escondem de mim, moldadas que são em frágil cristal. Hiberno cada ano, tolhido pelas geadas e ventos frios, entorpecido com a escuridão dos dias de chuva, introvertido na existência sem preocupações futuras, apenas remoendo os acasos que têm feito a minha vida até aqui. 

Então, o teu olhar a dar-me razões. Abri os meus olhos e vislumbrei um aceso findar do dia, feito Noé ao cabo de catastróficas tempestades. Entreabriste os lábios e sussurraste: Vê! Era o pôr do sol, ao fim dos anos, dos dias, das horas. Com o teu olhar. Dás-me o pôr do sol, eu procurarei dar-te o luar, nesta madrugada em que do teu beijo me houver renascido finalmente para reaprender contigo o significado da cumplicidade e da partilha. 

Aqui, neste efeito de luz do pôr do sol que me ofereces, ponto de partida para o último anoitecer, a derradeira madrugada até me ver acolhido no teu regaço, quimera tão minha, meu afecto de sempre, meu amor.

15 de dezembro de 2018

requiem



Ilumino o quarto com os dois abajurs, um em cada mesinha de cabeceira, enquanto o frio lá fora principia a enrijecer os músculos e os ossos, e todo o meu corpo estremece como se de um medo se tratasse. Os automóveis passam disfarçados pelo nevoeiro que avança, todos eles oferecendo um conforto quente, um aconchego, como uma lareira crepitando e dois copos de vinho, adequados ao brilho de uma vela enquanto dois corpos avançam no seu encontro íntimo, e todo o calor do ambiente já é quase só dos corpos e pouco da lareira, nem dos carros que passam, abrindo o nevoeiro que já se adensa, e os faróis sinalizando a máquina a ameaçar nas curvas, quando duas mulheres que passam distraídas se acautelam 

- Cuidado com o carro! 

Estava eu a dizer, o meu quarto iluminado por dois abajurs, a minha cama tão enorme para um velho menino como eu, entregue à lentidão morna, quase fria, deva dizer, da solidão; eu tão pequeno, querendo o afecto da minha mãe 

- Doem-me os ossos 

querendo o afecto da minha mulher 

- Deixei de gostar de ti 

querendo o teu afecto 

- Não deixo o meu homem por nada 

e lá me meto entre os lençóis, abrigo os meus pés no conforto de um saco de água quente que todas as noites a minha velha mãe me coloca na cama como se de um beijo de boas noites se tratasse e, contudo, 

- Doem-me os ossos. 

Vejo a disposição do meu quarto, os móveis quietos presenciando a minha solidão, as roupas que atirei na cadeira, a televisão muda, o telemóvel pousado a vibrar de notificações, como se um velho resmungando de reumatismo 

- Doem-me os ossos 

e lá fora os carros de ares condicionados ligados abrindo o nevoeiro, troçando do frio que se faz no exterior, as duas mulheres passam distraídas e ao verem o farol como uma fera 

- Cuidado com o carro! 

Eu estou como se sobrasse no mundo, deitado na cama, iluminado por dois abajurs, de auscultadores enfiados nas orelhas, de chávena de leite arrefecendo na mesinha ao meu lado esquerdo e tu o pequeno papel com a tua letra lá inscrita na vez de uma fotografia; respiro fundo, ou suspiro, os suspiros que os homens de certa idade vão esquecendo; eu agora regredindo trinta e cinco anos, voltando à ansiedade da adolescência e tu a teimar, a martelar na minha cabeça, 

- Não deixo o meu homem por nada 

e eu sei lá quem o teu homem é, só sei de mim e dos teus olhos; eu sei ver todo o universo nos teus olhos, e um mar de conquistas, com bartolomeus dias, vascos da gama, dom sebastião mais quintos impérios e tudo nos teus longos cabelos; as horas passam, a minha mãe remexendo-se na cama num sussurro de 

- Doem-me os ossos 

e a mim dói-me a alegria por voltar a sentir a paixão que julgava perdida pela idade, com a realidade assinalando 

- Não deixo o meu homem por nada 

a doer-me por voltar a sentir-me feliz e tu indiferente, a suspirar de novo e tu só bocejos, a sonhar de novo e tu caída no sono. Tu, nesse verão já tão distante, a dizer-me no papel 

- As metas de hoje são barreiras ultrapassadas amanhã. 

A minha mulher que me deixou, num semblante cruel e frio, 

- Deixei de gostar de ti 

frio como o nevoeiro lá fora, a minha mulher que se julga agora dentro do automóvel que rompe o nevoeiro, julgando-se toda ela confortável devido aos ares condicionados, enquanto eu, a espreitar o farol surgindo do meio da neblina e a avisar, como duas mulheres distraídas que passam 

- Cuidado com o carro! 

E, no entanto, cá me encontro, suspirando, fingindo o teu retrato na tua letra inscrita num papel, sorvo os primeiros goles de leite e aconchego os pés no beijo de boas-noites que a minha mãe veio repousar na minha cama. Esta música que te traz de corpo inteiro aos meus ouvidos, consigo ver-te finalmente sorrindo em cada acorde, e todo o teu jeito de mulher ingénua, todo o teu corpo como uma dança mágica, imagino os teus cabelos soltos abrindo brisas de maio no meu quarto 

- Não deixo o meu homem por nada 

a recordar o beijo de despedida que te dei na face, a afagar-te o rosto como se fosses uma menina perdida, 

- Até amanhã 

quando perdido segui eu, que deveria ter recebido o beijo e o afago que te dei, de que tanto necessito, e os meus olhos a brotarem lágrimas que se sustiveram, lágrimas não sei se pelo que sinto, lágrimas não sei se por ti ou por mim que sofro por voltar a sentir-me feliz, apaixonado, sem ter que ouvir 

- Deixei de gostar de ti 

mas também sem necessidade alguma de ouvir 

- Não troco o meu homem por nada.

18 de novembro de 2018

ponto final




Eis então chegados a uma bifurcação onde sabemos que os passos de cada um confirmam o inevitável e adiado ponto final. Fomos sempre assombrados por esta ameaça que o futuro teria a imagem de cada um de costas voltadas, seguindo caminhos opostos, e sem outro aceno que não o derradeiro. E depois de tanto sonho, 

(os pés assentes no chão, a resignação, não aceitar que fosse possível) 

depois do lirismo dramático com que fomos tecendo o novelo, saímos de cena sem apoteose ou velador requiem. 

As palavras foram o mote para o encantamento, mas deixaram sempre a desejar. Gastas como no poema do Eugénio 

(O passado é inútil como um trapo. / E já te disse: as palavras estão gastas.), 

assombrando, sílaba a sílaba, letra a letra, o afã inútil de havermos concebido que eu e tu essa almejada 

(e finalmente revelada impossível) 

simbiose. 

Virá o inverno e a então consoladora certeza que cada final encerra um ciclo para outro se iniciar na luz do solstício. Nesse tempo, que será a viril tarde fecundando a mais longa noite para a madrugada em esperança de perfeitos amanhãs, o nosso nome será apenas sombra de memória, sem outro significado senão a pedra que desviámos do nosso caminho.

11 de novembro de 2018

entropia



A luz imprecisa e a doçura do sono, no embalo da chuva, o vento ululando com mestria dramática, a lonjura a chorar cristais com outros sons inquietos. As mãos à luz quente do abat-jour em gestos de difusas palavras. Se evocares o ar húmido, terás a encomenda do segredo, e tudo o resto é ferimento. 

Haja ainda quem venha morrer de amor. As manhãs de novembro terão sempre este céu plúmbeo, com o adocicado humor do outono no seu aroma de lenha e caruma a arder. E os livros no lugar da esfera. A música, sempre presente, vem na vez do sol, como quem nasce para todos.

10 de novembro de 2018

transtorno


I’m getting out of here.
Where are you going?
To the other side of morning.
Please don’t chase the clouds, pagodas.

James Douglas Morrison, The Movie


Definir a paisagem além da janela aqui defronte: fotograficamente, são ângulos acentuados por sombras de um quadro de Hopper quase sem cor, ou de cores soturnas – mesmo o branco é um cinza muito pouco definido e sem luz. Movimento praticamente nenhum, excepto ramos de um arbusto que baloiçam sob um vento delicado (não é brisa nem é ventania). Não há céu que se faça destacar do resto da composição. Vários sons, no entanto. Motores de automóvel e motoreta, os vidros da janela emitem alguma vibração quando qualquer veículo mais próximo. Uma ou outra voz, de adulto e criança, sem se ver de quem, adivinha-se que femininas, por agudas e delicadas. Um avião que passa, evocando os estrondos das nuvens em horas de trovoada. E quando tudo isto se suspende, por breves momentos, aquele borburinho de distância indefinida, da rotação do mundo e das coisas que nele estão. Atmosfericamente é um dia cinzento, húmido e frio, embora não caia chuva para já.

Um espectador do outro lado da janela, virado para o interior, não pode afirmar que há grande distinção entre os ambientes de fora e de dentro. Estore levantado e, depois da vidraça, o véu pálido como que sujo de uma cortina feita de renda. Na imediação da luz que transpõe a janela, o contorno de algum mobiliário. Mais no fundo, em contraste com uma parede clara, a silhueta de alguém sentado e debruçado sobre uma mesa, ocupado com um papel branco (ou de um cinza muito pouco definido), escrevendo ou desenhando. Pelo movimento parece que a escrever. Do lado de lá não se conseguirá ouvir o som do lado de cá, mas um sonoplasta poderá conceber: o tique taque de um relógio de parede, o zunir electrónico de qualquer aparelho ligado à corrente, a fricção de um lápis rombo sobre o papel. A respiração normal de quem escreve. Algum suspiro, ou bocejo. Música, talvez, ou um televisor onde diálogos de um filme. Poderá ainda estar mais alguém engolido pela sombra, que fale com quem escreve, ou que emita apenas ruídos domésticos – adulto ou criança.

Aquele que escreve faz um gesto largo para negar o sonoplasta. Não há música, televisor, nem está mais ninguém. Após essa pausa, retoma a escrita e é perceptível o movimento da mão que vai sendo empurrada pelo braço a firmar o lápis contra o papel. Aquele ou aqueles que o lêem (lerão?) decidem: o escritor vai zangado, pela força que faz a escrever. O sonoplasta amplia o som do lápis, cada vez mais rombo, riscando o papel que, pelo ruído, sofre de enorme pressão. E agora, com a energia de conseguir alterar a disposição quieta de outros objectos menos perto de si, o quase estrondo (será altura de o sonoplasta baixar o volume) da ponta de grafite do lápis a quebrar-se, um repentino restolhar sobre o tampo da mesa, o seco tilintar do lápis atirado com força, as mãos de quem escrevia muito nervosas, agitadas, tomando o papel. Percebe-se que é rasgado e amarrotado. Agita-se uma cadeira em gonzos e arrastada. Passos pequenos sobre soalho de madeira. Tosse ligeira e pigarreio. Uma porta a abrir-se e o ruído de fora entra no ambiente com mais presença. Os motores dos carros, e um que tanto faz estremecer a janela, veículo pesado, fazendo a curva ali mesmo. A porta fecha-se, sem estrondo. Alguém passará do lado oposto e a afastar-se, pelo som dos passos sobre o cimento, cada vez mais longe, e ainda se consegue ouvir uma voz grave vociferando por um momento e depois calando-se. Nada se altera na paisagem além da janela aqui defronte. Apenas do lado de dentro se testemunhou um abandono.

Já muito depois, quando a escuridão tiver engolido o que é paisagem diurna e todo o ruído, o estore cerrado e nada para se observar depois da janela, o tique taque do relógio da parede será a única companhia de quem irá regressar sentando-se à mesa, tirando do lixo o papel amarrotado na tentativa de alisá-lo e alinhar os seus pedaços como um puzzle. Embora com menor frequência, os motores na estrada continuarão a ser ouvidos, conseguindo ainda fazer vibrar a janela. A luz fraca de um candeeiro iluminará o que lhe está próximo, mas transformando as paredes em sombras disformes. Um isqueiro acenderá um cigarro. Outros papéis sobre a mesa farão a diferença. Não estão cá neste momento, serão trazidos no regresso. Não vamos precisar do sonoplasta, vamos assumir que nenhum outro ruído poderá ser escutado para além do relógio da parede, a brasa do cigarro consumindo o tabaco, o sopro do fumo, e o som dos papéis manuseados. Num deles, com a luz trémula da lâmpada quase a fundir, poder-se-á ler, grafado em caracteres oficiais de diagnóstico, «perturbação obsessiva compulsiva». Será insone a próxima noite.

5 de novembro de 2018

pouco ou tanto


«Hoje é de um beijo que preciso
Sem discursos, sem porquês»



Sem curta ou longa distância, só a contar com o olhar inquieto de tantos dias vazios, deixando subir o impulso de tudo ter e, sem hesitar, esmagando por sofreguidão nos nossos lábios o que há-de ser de nós. Um beijo de fogo e ternura, ignorando tempo e lugar, naufragar os corpos de afagos, sem acenos, escusando a efemeridade. Pertencer a um amor que de tudo se ausenta, suspenso nessa liquidez das bocas comungando. Ter o espírito infalível às agruras, aos temores, os braços contestando o desequilíbrio, a mente a impugnar a auto-comiseração. Ter o apetite livre do suicídio físico ou moral. 

Estar num beijo, sem entretanto nem porém, para tudo haver o que os corpos por longo tempo desejaram contra a imaterialidade de qualquer razão propensa ao mundo que os condene, que nenhuma má fé possa nunca superar. Mãos no rosto, dedos entre os cabelos, e os olhos frente a frente desistindo de segurar a convulsão de tanta saudade, e a matar, a matar, o pouco ou tanto que somos agora, a mitigar a tristeza de não sabermos, por desconhecer o nada, o que poderá haver afinal depois do amor.