04-07-2009

variante da síndrome de Bartleby



Resistir à facilidade: é este o trabalho árduo que labuto dia após dia nas faldas da vontade e da vaidade. Não sucumbir à ludibriante tentação, com a mesma euforia religiosa de um crente.

Sopram-me aos ouvidos falinhas e falácias. Estudo-lhes o olhar, redesenho-lhes a ambição: sou espécimen com garantias de produzir. Produzir o lucro fácil, para mentes fáceis.

Monto o cenário possível: eu agradecendo de esferográfica sobre uma mesa de sorriso bonacheirão, diante de uma plateia de amigos e familiares e conhecidos

(grande parte tidos sem paradeiro e de repente ressuscitando),

a transpirar de orgulho bacoco. Agradado com a ninharia. Eu em todos os olhos em todas as mãos, mas a um fio fragilíssimo do esquecimento precoce. Mãos estendidas e sobre o ombro com a tal amizade, sacudindo o veneno de algumas invejas compreensíveis

- Como conseguiu? Qual foi a cunha?

e eu nada, indiferente, ostentando ainda o sorriso que deambula de bonacheirão para inocente. Talvez ingénuo, porventura ignorante.

Não é certamente o meu caminho, se trilho algum me abrirá o acaso e as circunstâncias do mundo para tamanha façanha que transformaria (ou não) toda uma vida futura.

Receio, seja o futuro incerto maligno ou benigno, de perder a minha liberdade individual. Bartleby até que a morte me separe?

29-06-2009

beijo



a tua boca na minha:
quem dera fosse todo o verão além da latitude dos sonhos

e por isso ardes-me
e por isso o vento norte nos teus olhos
a exaltar de desejo as cores da chama viva

só as duas bocas unidas:
suspendendo a intenção dos gestos e do corpo
ignorando o tempo na sublimação da saliva

tolhemos as vãs palavras dos sentimentos tontos

porém, a minha na tua boca
é ainda o verão virgem aquém da esfera dos sonhos

25-06-2009

cansar de dores o papel




Cansar de dores o papel amarrotado de ninharias e mediocridades. Não fosse a crise e o desgoverno,

(e enfim, para poupar energias e sintetizando)

não fosse o planeta plantado de gumes traiçoeiros com que a humanidade semeia o seu próprio futuro, talvez pudesse eu renascer num sorriso feliz a vender banha da cobra nas palavras e papeis densamente iluminados.

Ou que o verão não desdenhasse na nossa cara o escarninho destino a que nos propomos na negligência: cada dia é angular e decisivo se não forem tomadas em conjunto todas as medidas preventivas e calculadas.

Pois assim de que nos servem as estações do ano se nenhuma agora cumpre o seu compromisso, com os seus humores climatéricos alterados? Que sentido tem desejar bom fim de semana se os patrões, alinhados como tropas de faca e queijo na mão, não o reconhecem? O que são piqueniques no campo se o círculo é de betão? Que nos vale mesmo saber que linhas imaginárias dividem o planeta em lugares de maior ou menor qualidade que vêm a ser os trópicos e os meridianos? Construímos com regozijo a aldeia global e agora pendemos o queixo e os olhos num impressionante esgar de apreensão. Como quem vai para a guerra com o nó na garganta de saber o quanto está já derrotado e condenado.

Cansar de dores o papel ou acumular cerveja no sangue num gesto de indiferença, a fazer de conta que as contas do mundo não são nossas, alguém mais capaz fará tudo por nós. Não fosse a crise e o desgoverno,

(e enfim, para poupar energias e sintetizando)

não fosse o planeta esfaqueado pelo seu próprio punhal traiçoeiro, e toda essa idiotice conspirativa que os humanos ergueram uns contra os outros, talvez pudéssemos ver o futebol e as telenovelas na tv sem nos importamos um corno para com o próximo.


22-06-2009

Prémio Lemniscata



Honradíssimo pela distinção feita pela Teresa Sá Couto, com este Prémio Lemniscata,

O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.

Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante. Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)

escolho, por minha vez agora, os meus sete eleitos, como pedem as regras. Embora repetindo-me na distinção que fiz noutro blogue (e que a propósito aviso que não tive paciência para continuá-lo), não posso deixar de referir os talentos que conheço na blogosfera e que gostaria que todos conhecessem. Assim, são:

Alice Macedo Campos - a tradução da memória
Dionísio de Oliveira - impulso alegórico
João Ricardo Lopes - dias desiguais
José Eduardo Lopes - estrada de santiago
Miguel Barroso - assimetria do perfeito
Pedro S. Martins - escara voltaica


Obrigado, Teresa!

21-06-2009

não sei quantos anos ainda




não sei quantos anos ainda…
ou se as varandas se cobrirão de pó
e humidade e insectos e os anos esbatendo-se
sobre a claridade dos dias e as sombras das noites
enquanto as flores já não suspiram para as bocas incrédulas…

sei que um ranger de dentes
e um punho fechado
e tudo quanto te aflige
enquanto a fome for

ainda e só
um homem de cócoras
ou de braços cruzados

sobre a vida
que já não o espera.

03-06-2009

rosário



Das tuas mãos tatuando o medo: trouxeste um rosário e dedilhavas cada conta como se a abrir um livro novo. Com os olhos caídos num chão de nadas, um chão de invisíveis, enquanto o noticiário avançava numa cavalgada alarmista. Não era a ti que competia dominar a besta, as ventas furiosas arfando. Por isso pedias contas a um domador e multiplicaste o rosário com o mesmo silêncio do chão onde ainda se encontrava o teu olhar. Os teus lábios febris, ininteligíveis, sem soprarem qualquer som da tua voz ainda que fosse sussurrada. Não vias, mas ouvias os relinchos constantes dos jornalistas. E tu redobrando as contas, os teus dedos como aranhas tecendo o medo. Até que outro som se ouviu, obrigando-te a um alvoroço pavloviano, deixaste o rosário estendido no nada do chão e as tuas pernas retesaram. Levaste o auscultador ao ouvido e o olhar contra uma parede de nadas, uma parede também de invisíveis, apesar dos quadros, das fotografias do teu filho, ele que te diz, do outro lado da linha

- Descansa, eu não embarquei e está tudo bem.

e tu

- Louvado seja o domador! 

30-05-2009

encontro II


Beleza romena, por António Amen em 1000 imagens


Pigarreia-me a voz, arranhada e seca. E os gestos acompanham a mesma rouquidão, gagos e disléxicos como quem mete as mãos pelos pés. Cresce às faces o sangue num rubor de glande nervosa, escaldante carmesim a incendiar o pudor, nadando aflito até às lágrimas. Pronunciar neste estado o teu nome ou esboçar-te um tímido olá revelou-se numa tarefa árdua e difícil de concretizar. Não que fosse impossível - a vontade, se não inibida pelo desastre, pode mover montanhas. Mas não foi o caso. Tudo era desastre em mim: o ventre dilatado da cerveja entre os amigos, a barba crescida pela preguiça de contínuos maus despertares, a roupa desleixada e amarrotada. Felizmente não padeço do odor forte de quem transpira um dia de labuta. Senão era a catástrofe.

101 cigarros pigarreiam à porta da comoção, a saliva atropela-se ao engolir, o ritmo do peito dispara sem conhecer meta a atingir, e os dedos das mãos como folhas mortas e humedecidas com o orvalho da exaltação – és como uma manhã nova para mim, espelhada no fresco azul dos teus olhos, na seara de intenso odor a frutos dos teus cabelos, a manhã mais clara e limpa quanto desejaria conhecer. A língua não soube ampliar o acorde das palavras. Era uma papa cheia na minha boca. Os lábios, esses, poderiam oscular, ferver sobre os teus ou diluir-se em tua extensa pele de feno. Porém, som nenhum conseguiriam produzir.

Portanto, nem os lábios, nem os gestos, nem nada em mim que se movimente, salvo a palpitação surda no tórax. Nada pode chamar a tua atenção, que possa tirar de ti sequer um simples olhar. Sou objecto patético na tua presença. E agora que te afastas, sou árvore a viver plantada para todo o sempre com sombras e banquinho de velhotes a colher nostalgias como a chupar do solo a seiva com que se alimenta. Vegetal e ignorado.

Quando o mundo der uma volta completa pode ser que nessa altura sim: bem composto, ex-fumador, recolhido e sedutor. Para passar a ignorar-te eu, como a um arbusto que incomoda as vistas.

11-05-2009

pintura




ilustra-me esta noite com as linhas das tuas mãos
delicadamente tatuando sombras sobre o meu corpo
e apagando todas as fronteiras do amor e do prazer
sou eu que finjo o abrir de uma flor
e por cada pétala caída
a madrugada alarga-se no nosso toque acetinado
és tu a bátega apaziguadora que virá a despertar como um orvalho fresco
a aurora que se demorará na cor
selvagens os teus dedos adocicados
pelo mel do pólen
introduzem-se no teu corpo

para que a cópula seja sempre e mais uma tela
pintada pelas mãos e com as tintas
das nossas bocas
adormecidas na manhã do nosso leito.

06-05-2009

segue-me a linha do corpo




segue-me a linha do corpo
no arrepio que provoca a brisa do teus lábios
inunda-me o ventre com o ondular dos teus cabelos
e serena repousa o ósculo
no pico extasiado do falo
que te desperta
a fome
de carne doce

engole-me
seduz-me na vertigem da tua língua

os meus sentidos emergem
na graciosidade gesticular
das tuas pernas
que, estremecendo,

procuram a foz de um rio feito de pétalas
e plumas da alvorada.

01-05-2009

sábia mão artesã




ciranda as palavras encobertas pelo joio dos sentimentos
e atravessa circular as paredes do mundo
nela há uma planície com borbotões de água límpida
que lembram os olhares quebrantados da pobreza

cintilam as dores calejadas numa letra escorreita de substantivos
e sobram sempre dos poemas pontas soltas de sons
que livres se encadeiam numa melodia intemporal
é esta força graciosa humilde porém sublime

do ardor na terra, no ferro, no vidro, na malha
em toda a manhã que abre os sentidos povoados de ambição.

24-04-2009

partida (em memória dos oprimidos do passado e do presente)



não sustento o teu pensamento
com pedras angulares
porque parto daqui sem haver boca
para a fome
nem sede para os olhos
e com a saudade palpitando em cada passo
que não volve o olhar ao passado

parto como outros partiram
no destino que não se vê para lá do salto e da distância
parto como criminoso
como um ladrão
que furtou à pátria o sangue
mas nunca como um cobarde

porque não sustento o teu pensamento
irregular e granítico
porque a minha fome é a tua fartura
e a minha clausura é o teu conforto
eu parto, já com saudade

e aspirando a uma terra onde possa gritar:
- Liberdade!

21-04-2009

pré-laboral com bastante tragédia


(daqui)


Vem o vento atordoando a gentileza da manhã e não há vontade alguma de me erguer da cama, fazer a barba, encarar o dia que recomeça, tudo a repetir-se uma e outra vez. A cortina corrida que não anseio abrir faz cair no quarto uma luz cinzenta de objectos perdidos. As pernas por dentro dos lençóis gesticulando impaciências matutinas, os olhos persistindo aninhados na cova das pálpebras, e a boca desenhando um corte esgotado no rosto. 

Um mau acordar com o hálito a enxofre. Porque nada de agradável me espera para lá destes lençóis, depois do banho e da barba feita às cegas, após duas goladas num café de véspera morno e a trinca desconsolada na torrada.

Sou violentamente subtraído da cama à força de pontapés imaginários carregado de raiva contra os empregadores deste país. Despeço-me angustiado dos lençóis amarrotados por tanta luta contra o mundo. O mundo que, durante os quarenta e cinco minutos em que me preparo para o enfrentar, odeio. Visceralmente.

Vou imaginando com azedume os rostos que então se cruzarão comigo, multiplicados de sorrisos, bons dias, quase vénias de meter nojo, falsas simpatias. Nada é perfeito, é sabido e certo, mas estas manhãs assim são actos obscenos contra a integridade psicológica de qualquer um.

Até que, a pouco e pouco, muito devagar sem que possamos dar por isso, eu e os rostos acabamos por nos conciliar, acabamos amavelmente confraternizados no nosso comum objectivo: que o dia acabe! E o humor até deixa espaço e pretextos para piadinhas de circunstância, risadas de toda a ordem.

São os ódios que se querem uns aos outros, cúmplices e solidários.

16-04-2009

para o mundo



Não sei se eu tu ou alguém que não tu ou eu assumindo, sentado e pensativo, a pose dos mais sábios ao formularem as leis do universo; por dentro move-se uma corrente concentrada de tudo aguardando a espasmódica sobriedade de um parto quase ético, mas dir-se-á amoral; e a careta

(como de espanto!)

desenha 

(em desdenho)

um quase sorriso ao que se move vivo e pensante – a humanidade! – em espiral imperfeita que alivia numa descarga sem gorar polir os ombros e as mãos; os braços obrigam-se quietos ao abandono até virem estremecendo no êxtase do esperado orgasmo que pare, expele, sem amor à própria criação:

o terno pedaço com que quer acarinhar, caridoso em pleno, o esplendor deste mundo.

10-04-2009

o evangelho segundo este poema


fotograma de The Last Temptation Of Christ, de Martin Scorcese



Nascemos.
Jamais seremos indiferença.
Ergue-se um mundo do mundo já erguido
nele as glórias, as vãs glórias
neles as alegrias, as solenes alegrias
neles os amores, emancipados amores
nele o nosso gemido
nele todas as histórias
todas as histerias
todas as dores.
E de um mundo então erguido,
morremos.


As minhas sandálias descobrem nas areias os teus passos da sombra que me persegue. Porquê esta angústia, esta piedade que me lacrimeja os olhos - quando estou entre a multidão porque desespero? Porque me dói onde não tenho qualquer ferida? Por cada talhar do machado na madeira ainda jovem, por cada prego nas entranhas desta carne por saciar, broto uma lágrima que cai lenta e apaixonada no pó que se levanta e rende, húmido e salgado ao medo de ser quem sou, à angústia que me assalta pela noite. De onde vens, porque me persegues se te não vejo? As madrugadas, estendido na minha enxerga, são martírios por te amar e não te conhecer.

Como bebem e comem, gemendo sorrisos no prazer da gula que lhes sucede à fome miserável da alma. Vêm até mim e eu lhes digo que a minha fome e a minha sede não se sacia, nem os meus lábios sabem rasgar o mesmo sorriso. Levam-me a casa de uma mulher e dão-me haxixe, dão-me vinho para que beba do espírito e o espírito queima por dentro todas as fomes do homem que sou. Como bebem e largam risos perante meu olhar petrificado: ali, no ventre daquela mulher, nascem víboras que clamam o meu nome.

Nascemos: jamais seremos indiferença. Eis onde vive o mistério de todas as dores, de todas as crenças: o nascer para a vida, erguendo-se um mundo do mundo já erguido. A palavra que renasce em cada um dos homens que habitam o mundo para quem o amor e o apego à vida é o caminho de que se desviam qual camelo rendido à estreiteza da agulha. Todas as glórias de todas as conquistas, todas as lágrimas de todas as derrotas, todo o amor, amor maior com que me revisitam, toda a dor, dor que me alimenta, e dor de que te sacias: eu sou o filho do homem, duas vezes carne do mundo. Cumpra-se a palavra para que o tomemos reerguido.

Jejuo do que é particularmente terreno. Saio pela noite fria, envolto em meu manto e não carrego a enxerga - esta noite não é para dormir. Encontro na raiz das minhas veias o segredo das insónias quando o tormento exasperado sai de mim como a carga que cai do dorso carregado do camelo. Esvai-se tudo de mim como se o sol repousasse todas as horas por trás das crinas das dunas e sou livre e imenso no ventre de tudo de que se faz o vento.

Vinde até mim, almas perdidas e fustigadas pelo gume da indiferença, vinde ao calor do filho do homem, aquele que jejuou dos prazeres terrenos para encontrar a palavra redentora que vos vem salvar. Vinde até mim, órfãos da riqueza, espoliados da soberba, arrependei-vos da vossa nefasta solidão. Vinde, vós que bebeis perenes das fontes do prazer e não sabeis explicar o azedume das vossas lágrimas; chegai aqui, indomáveis, rebeldes, delfins, insaciados, abram as mãos para receber da palavra e dela comer. Vinde até meus braços, vós que sofreis de dores e tormentos, feridos e esfomeados de toda a natureza, esquecidos e maltratados. Vinde, ó proscritos, e recebei a redenção. Em verdade, de todas a verdades vos digo que estas palavras que vos canto são os versos com que o pai pediu para exultar o mundo.

Estou na paz como estou na brisa que suaviza o rosto do campino ceifando a sua seara. Estou também no trigo de todas as fomes, na carne e no sangue, no dilúvio e na tempestade, e estou também na água de todas as sedes, na aurora e na bonança. Estou na lágrima que rola do espinho cravado na alma do mundo, estou no meu pai que te perfilha, na minha mãe que te acarinha. Estou no mundo erguido pelas minhas mãos.

Que desça sobre a terra toda a incúria salgada da vossa fraqueza e se derrame do meu sangue como um cordeiro que morto foi para saciar a fome aflita. Que se abram os céus após o vão dilúvio, que se encha a colina de sol e de brilho os mares. Sou aquele que ama e se entrega, pois erguido foi este mundo.

Escrita na história e nos passos por sobre a areia que palmilhei está a cumprir-se a profecia:
- e de um mundo então erguido, morremos!

05-04-2009

Irene


foto por Pedro Gomes em 1000 imagens


Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da luz abalando a indiferente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do teu velho veneno.

Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela. Uma pequena ave dada à morte, como qualquer folha que perde a seiva e se despede lacónica do ramo onde lhe dava o vento.

Que pena, pensas do ser de penas contadas como rosários sem fim, uma ave branca abalando a tua expectativa de paz interior, porque veio morrer assim este pássaro pequeno quase sobre a palma da tua mão, janela onde te encontras todas as manhãs com o mar e as rugas do céu?

Então olhas-me desesperada pedindo-me calada que te dê as esperadas condolências. Não foste tu que morreste no parapeito, Irene. Não foste tu. Nem ninguém que te mereça comiseração. Apenas um pássaro que não tinha mais onde cair morto. Faz parte do mesmo humor das folhas caídas das árvores, dos insectos esborrachados no pára-brisas de um automóvel.

Vem. Constrói o teu ninho no meu regaço e não te percas a pensar que no teu sangue corre a efemeridade da tua existência. Na parede nascem fungos, e mais estranhas criaturas que não vês passear de madrugada entre as sombras. Vem. Encolhe-te como se fosses menina, inocente e indefesa, e pudesses caber na palma da minha mão, aconchegada dos males do mundo, das doenças, dos hospitais de corredores brancos, infinitos dentro dos pesadelos.

Tens um espelho que tudo te reflecte além do corpo. Não é de vidro nem folha de estanho esse espelho: são as tuas mãos aparando a convulsão do teu rosto frágil. Sabes que todos acabamos por morrer, Irene? Todos. Todos como pássaros ou folhas tombadas.

Oxalá tombes na tua hora sobre o parapeito da janela de deus, olhando-te comiserativo. Também ele é um ser frágil, que olha todas as manhãs o mar e as rugas do céu, acreditando ingénuo que há esperança. Dizem que vence a morte. Cá tenho as minhas dúvidas: se a vencesse, ela nunca existiria. E seria um consolo tão grande, Irene, não seria?

30-03-2009

por acabar


desenho de Allan Hart (daqui)



Dormito sobre os livros com a baba rente ao queixo enquanto o gume do vento vai caçando os braços desprevenidos lá fora, com este sol a brindar a tarde e porém o frio outra vez. Sinto que tenho mais sede 

(mais fome, mais desejo)

e não descanso como seria suposto, com os cães cansados de latir, a deformar-me a consistência dos sonhos.

Qualquer coisa entre a vigília e o sono. Qualquer coisa entre a cor e o preto e o branco e o cinza. Entre o cigarro e a cinza.

Tacteio vagamente e vazio as palavras pelos livros dentro e vou como um cego analfabeto

(entre o verde e o musgo, a nadar, a nadar)

um cego que não sabe ler em braille.

O vento lá fora caçoando dos braços desprevenidos e a baba rente ao queixo, mexes-me um braço, afagas-me o peito do ronco alarde e dos livros

(o que eu leio, o que sei que leio)

juntos à face rubra, uma quietude muito atribulada para quem se quer quieto, os teus dedos a limpar-me o queixo, e o queixume, a varrer livros e palavras numa braçada de água

(entre o musgo e o lodo)

o queixume de mim a rogar-te

- Deixa-me dormir, deixa-me dormir…

21-03-2009

florescer




- Mamã! Hoje é primavera!

E em verdade é. Os pássaros chilreiam a alvorada de plumas ainda fria, veste-se a paisagem de tojo enquanto espera a flor da giesta adormecida em botão. Respira-se um aroma a terra e pólen e é como se inalasse dias inteiros de sol, relva jovem e a água clara dos regatos.

Os sentidos florescem. Esboça-se um sorriso ao espreguiçar a madrugada para a frescura das manhãs claras, apetece a relva dos parques e as suas árvores verdejando. As mãos deitadas à terra lavrando hortas e jardins. Em cada porção de solo a esperança de rejuvenescer nos rebentos comprometidos com a flor e o fruto.

É a terra também esta poesia jorrada em cor. É deste aroma a sol, desta emoção multicolor a escrita com sangue e húmus.

Mamã! Hoje é primavera! seria em verdade o melhor título para se cantar este emergente novo dia, cumprido o equinócio para a harmonia dos espíritos fecundos.

18-03-2009

lugar perdido


foto de Alberto Calheiros em 1000 imagens


É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto que faz doer dentro do meu peito um fogo que consome as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. Há um bocejo, a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida: a questão de saber o que queremos.

Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já tanto quanto eu que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos.

Não é culpa nossa sejas tu tão bela e eu homem tão apaixonado. Não é culpa nossa a ironia do tempo nem as contradições da natureza. O que somos perante o sentimento que nos une? Duas almas tristes, duas bocas frágeis de palavras isentas do beijo que os olhares trocaram proibidos, duas mãos que se não tocarão jamais, que de si nada conhecem senão desejos, dois corpos que nunca se encontrarão, à deriva num espaço frio e cinzento. Não é culpa nossa este amor encarcerado na confusa gargalhada de um deus. Serena tu, que a minha revolta repousa já conformada. Seremos nós culpados pela terra árida onde deitamos este sonho a crescer, mas onde tudo murcha e perece?

Nunca te tive nos braços e já eras minha. Cerravas os olhos devagarinho como se a polpa dos meus dedos te tocasse levemente, todas as manhãs, numa carícia longa e suave, no traço do teu rosto. Nunca te falei de amor e já me amavas recolhida nos teus sorrisos. Não te vi o corpo e já eras deusa minha. Nunca soube quem eras, não sei quem és ou quem serás E sabia como amar-te, como proteger-te. Como dizer-te o azul e o sol.

Sabia-te e mostrava-te, em sonhos de poeta, minha musa, amante, mulher.

16-03-2009

página 161, 5ª linha: o desafio



Seguro o sono entre a testa e a palma da mão direita e deixo-me a visitar outros delírios, desses que estão sempre por ler, à mercê da minha curiosidade ou falta de paciência. Tanta gente a escrever como eu, penso uma vez mais, tanta gente arrumando como pode a sua pequena montra da internet, que isto de se escrever para a gaveta está fora de moda, já não tem sentido...

E sigo as palavras dos outros a entusiasmar-me porque encontro coisas boas, mas também coisas muito más. Uns sítios acarinho, outros tão úteis pelo que dizem e informam, e outros, confesso, que me são indiferentes. Mas estão sempre lá, procurando em mim benevolência ou embirração, fascínio ou gargalhada. Um dia canso-me e mudo-lhes as rotas, como se planasse de avioneta à procura da ilhota que me ofereça o melhor refúgio.

E nisto a Raquel, essa tão delicada voz, desafia-me: abre o livro de cabeceira na página 161 e cita a quinta linha. Eu que nem sequer estou perto do quarto de dormir, pelo que daqui aos livros de cabeceira

(Tolstoi, Raul Brandão, Nuno Júdice)

iria perder-me pelo meio e lá se ia a corrente, certamente quebrada, a fazer desfeitas, pelo que com tantas estantes aqui cheias de livros, basta-me olhar para trás de soslaio a tactear os títulos com olhos de morcego e escolher um. Mas quero que seja uma surpresa para mim, quero saber o que me espera, se sai uma frase-bomba, qualquer coisa assim de que todos se levantarão a aplaudir. Estendo o braço cego para a prateleira mais próxima

(- estão lá os livros do senhor que tu gostas, lembras?, puseste esses livros mais próximos de ti, para mais facilmente lhes chegares

dita-me a consciência a repreender-me, a soprar-me que assim é batota, e eu ripostando

- não é nada, sei lá o que virá

e a consciência, toda cheia de honestidade

- vão desconfiar que é marosca tua, vais ver

e eu encolho os ombros, tiro-a da cabeça por segundos, que não me incomode, isto é apenas um jogo, uma corrente, um passatempo)

agarro uma lombada larga, puxo o livro para fora e ilumino o objecto ao meu olhar:

Que Farei Quando Tudo Arde?, António Lobo Antunes.

Nem de propósito!, exclamo, hesitando se sim se não, mas deixo-me convencer, a consciência atrasou-se desta vez. Já estou abrindo a página 161 e recolho a quinta frase onde o António diz-me (nos):

«brincar às casinhas nos jazigos, prateleiras com naperons, flores de papel, cortinas»

Afinal, nada. Não resultou em nada do que esperava. Apenas uma frase, excluída do contexto. Isto é como os jogos de azar, ora nos sai uma fortuna, ora abalamos miseráveis. Porque a quinta linha de um livro do António assim isolada nunca poderia ser nada de significativo, quando o que se desejaria era a página toda, o capítulo completo, o livro na íntegra citado, enfim.

Podia ter jogado a batota, escolher outro, até acertar no que a expectativa havia criado. Não quis, até acabei por achar graça esta coincidência: o livro que deu origem a este delírio onde escrevo. Que o baptizou. Pena a frase não ter sido a mais feliz. Azar.

Agora o que falta é nomear os meus desafiados. Espero que lhes calhe melhor sorte. À Alice, à Andreia, à Teresa, ao Gonçalo, ao Bruno, ao Jorge e ao João.

Assim. Como se fôssemos todos grandes compinchas de jogo. E não será verdade?

14-03-2009

embrionária primavera


dois corpos uma só alma II, por Filipe Pereira em Olhares


O sol. Veio para retemperar os corpos. Frágeis, os pequenos rebentos despontam nos dedos ainda trémulos das árvores. O dia finda num esplendor de luz, riscando de fogo toda a linha do horizonte. A lua ergue-se vagarosa por entre o crepúsculo, profetizando a madrugada.

Tu. Regressas para me animar o corpo. Frágil, a tua mão tacteia com timidez e nervosa a textura da minha pele. O amor apela-nos, consome-se com maior fúria. Os teus cabelos repousam o feno sobre a seda do lençol, a respiração apazigua o frémito dos músculos.

Eu. Sucedendo-me em êxtase. Frágil o meu peito ainda, sofrido das sombras pardas perseguindo silêncios antigos. O cigarro atira anéis no vazio. Vou resgatar carícias ao teu colo. Nas minhas mãos como nardo o hálito do teu corpo permanece.

Está quente. E não é a primavera ainda.

11-03-2009

asas II


Esta luz que te ilumina, por Carlos Manuel Pereira em 1000 imagens


Então? Que te poderei responder?... Apenas nos lençóis guardamos o amor, e esta penumbra que avança tornando informe a sombra da minha mão e da pena que escreve, enquanto março desperta da tua boca frágil.

Então? Não sei. Talvez espere pela madrugada plena, observando seduzido o despertar dessa tua inocência de sono, e a tua boca tão frágil. Espreito o ocaso como se a janela fosse uma fotografia que me ofereceste: quedo-me a olhar o crepúsculo estilhaçando entre algumas nuvens pouco afeitas a estes enlevos pré-primaveris.

Levanta-se ligeiramente um braço teu e é uma asa aberta no sul do meu corpo planando suave como papel e pluma com que são feitos os poemas aves que desafiam a chuva. Construo um ninho com os teus cabelos de feno para me sentires recolher antes que a tarde finde debaixo do olho da lua.

Então? Que posso dizer mais?... Apenas os lençóis que ainda não reconhecem esta estação do ano que me brinda o teu sono repousado, com a seara jovem dos teus cabelos.

08-03-2009

mulher


Que nos guarda o futuro?, por Ricardo Correia em 1000 imagens


Disseram de ti a costela primeva do mundo mas eu não partilho tal premissa. Se anjos caídos houve, nos tempos em que dos céus caíam as mais belas criaturas, então anjo foste caído da mais celestial sabedoria.

Quis o inferno, por castigo viril, que fosses cristo intemporal para carregares no corpo e na voz muda os pecados do mundo, e foram somando as páginas da história humana todo o sacrifício e velamento da tua vocação para enaltecimento dos varões umbigos de todos os maiores e menores poderes que todos testemunhamos.

E do grito que rasgaste demolidor para a absolvição da culpa e da maldição do sangue, soubeste tomar nas mãos o fruto e a flor como armas de arremesso e quiseste volver o mundo como se do avesso fossem rosas, ouro e a água clara das nascentes: o perfume delicado, a inteligência criadora e a liberdade redentora de um útero cósmico, universal.

Ainda assim, de provas dadas do altruísmo e inspiração divina, quer-te o mundo obstinado que cristo ressuscites e tomes ao ombro a triste cruzada da tua condição de género fraco. Dá-te este mundo as luvas para um combate de igual para igual, porém com o riso escarninho de quem sabe de antemão que nunca tal sucederá.

Ergue-te e toma o pedestal por direito, ser dos milagres, tu que dás varões que o mundo anseia tanto idolatrar. Não és a força bruta com que o macho te domina subvertendo-te. És de todas as eras e chegado é o tempo de haver luz nas páginas da história que se vão escrevendo. Do que a humanidade precisa, para se completar e afirmar, é dessa matéria do amor e da singeleza das coisas simples e belas que carregas em teu seio.

Não só do sexto sentido de onde te vem deus ou deusa, mas de todos os sentidos. Nossa verdadeira mãe – esta sim intemporal.

06-03-2009

tardes infinitas


sonhos felizes, por Sandra Marques em 1000 imagens


Concede-me o sono das tardes infinitas com o véu da morrinha a cobrir-me as pálpebras de sonhos velados, onde me julgo soberano ou perseguido, generoso ou tirano, guerreiro ou poeta. Deixa o quarto mover-se com as sombras que vão resgatando e devolvendo as latitudes e os pontos cardeais.

O gato ronrona amoroso em preguiça, silhueta que forma o meu reflexo sob os cobertores enovelado. Hoje fiz-me para deitar as tardes a dormir: não quero livros, não quero a música, apenas o murmúrio do mundo paredes fora em dissonância com a chuva pequenina a molhar outros tolos que não eu. O mundo lá fora burburinhando humedecido na labuta e na indiferença, cego de verde pela inveja de mim, cá dentro dos quarenta fios.

Quando então acordar,

(o gato alongando a silhueta)

vou metido no pijama a assistir ao nascer do novo dia. Uma alvorada de tal modo resplandecente de cores e sol como jamais houve vista.

02-03-2009

chuvas claras


state of mind, por Paulo Almeida em 1000 imagens


Não sei começar sem ti. O cigarro esvai-se na longa espera e são apenas minutos escassos desde o cilindro branco à beata esmagada entre os flocos de cinza. Estendo os olhos para te procurar com maior perspicácia, recolho o crepúsculo repetido e perco a brancura do papel. Repousa a esferográfica. Vem de dentro da noite um grave silêncio, como se fosse extensão de ti no telefone inútil de tão mudo.

E como uma fotografia vã, esbatida porque o tempo nos relógios, porque as manhãs erguidas e as noites insones, redescubro-te num brilho. Do toque da saliva na polpa dos dedos, na carne do sexo. Queria muito o músculo da tua língua debatendo-se contra a gana do meu desejo.

Não estás cá: são traiçoeiras as ilusões, bicho danado o sonho, o delírio. Quase que sentia as tuas coxas nos meus braços. Quase te cheirava o odor bravo de fêmea aflita. E a boca fremindo, os olhos cegando com a fúria dos dentes, o gemido das vozes. Fico como que sangrando derretido e viscoso dentro da minha roupa interior, afagado pelos lençóis, e a madrugada desnorteando as sombras na parede, vindo a morrer devagarinho com o brilho implume do sol.

Sentado na cama, acordado: não sei começar sem ti. E fico assim, esperando-te no ar límpido das manhãs, com a permuta das chuvas claras de março. À procura sempre desse toque de saliva com que me acariciavas o despertar.

26-02-2009

síndrome de Bartleby




Nas ideias um oco, sobeja o silêncio branco de nada dizer, apenas o princípio de qualquer coisa que nunca chega a ser coisa alguma. E os papéis acumulam-se vomitados sobre o cesto. Tantas frases mal começadas, tantos riscos, letras amontoadas como sucata reciclada. Não será por acaso: os jornais afinal são também assim, verborreias descartáveis. O que se disse ontem já não tem valor hoje. É o que se consome, o imediato. Tudo o resto fica na berma do prato, quiçá alimento para rafeiros magros de solidão. Somos como cães danados à procura de certezas, de perfeição.

Ao acabar o cigarro tudo na mesma: a esferográfica paralisa num A

(e porque será o A uma letra tão importante que paralisa assim a esferográfica, que atrofia as ideias até ao osso?)

encontrando a barreira do eco e da repetição

(estou cansado, estou cansado, estou cansado)

num novelo de desagrado, de impaciência, a desistir de tudo enrolando a bola tosca de papel que salta para o cesto do lixo, levando mais meia dúzia de letras, palavras mal escolhidas, frases por completar.

Cumpra-se a matéria urgente do amor, era o mote. Mas do amor quem daí quer ouvir ou ler o que for? Direi pois o quê? Com todos estes livros por ler e o cesto dos papéis aguentando a frustração de tantos As

(ases?)

que nem para um baralho de cartas do solitário servirão.



*


este texto lido por Raquel Coelho (música: Ani DiFranco)

24-02-2009

tudo contudo sem palavras




Aqui fico demorado na inconstante prisão do álcool com grandes brilhos de vidro, solicitando nas nuvens a compulsiva esperança de liberdade. Passam as horas,

(ouvi hoje alguém dizer, de olhos fechados, que o tempo é um delírio de deus),

e não sei dizer se estou fatigado, se derrubado, se desperto, se morto enfim e sem conhecer o meu corpo acabado e imprestável. Penso que agarrando assim o ar, fechando o punho com firmeza sobre o invisível, possa resgatar alguma vida e foi como fiz: afinal não sou ainda morto, mas toda a cidade, desde o varandim até ao confim do horizonte poluído, é uma enorme barreira que se levanta.

Pego num lápis rombo e discorro: tudo é escrita e tudo contudo sem palavras que o afirmem; tudo se volta e revolta em mim no contrário do que sou e tudo isto é isto que sei e não tenho como dizer senão que a sombra (redundante sombra!), nestas circunstâncias,

(em que é permanente e físico o delírio de deus),

serve-me como leito ao meu sono de ébria frustração.

21-02-2009

feto


(autor da foto desconhecido)


Ascendi ao norte, de encontro ao fresco verde da noite, subindo as serras. Aqui a cor das estrelas é pura, limpa. Trouxe o amor na bagagem, o braço que não me deixa cair nas horas inquietas. E quando senti na velocidade o aroma da terra que me alimenta, mergulhei relaxado no útero da paisagem, deixando para trás a labareda infame de todas as noites de insónia.

Agora que escrevo e me respiro por inteiro, vou à madrugada beber as novas palavras, alargando na íris embriagada de beleza o universo onde me incenso e realizo.

15-02-2009

dentro do sol


foto de José Paulo Andrade em 1000 imagens

É um grave silêncio dentro do sol. Uma janela fechada sobre todos os eventos da cidade. As gruas certificam-me que a cidade vive e cresce. Os automóveis traçam rectas ângulos circunvoluções e não produzem ruído para o lado de cá. A janela é uma sentinela indiscreta e desinteressada se não for a prudência do meu olhar. E de uma curiosidade acrescida, as pessoas como peões de um jogo, circulam também diagonalmente e resgatam identidades à luz clara da memória que se apressa a encontrar imagens que condigam com os perfis. Observar pela janela fechada dentro de um silêncio grave de sol não exulta nada de novo, converge apenas para o ridículo e o sonho, ou pinta na tela dos sentidos uma abstracta realidade.

12-02-2009

aresta


Maria Bratu, por Tiago Martins em 1000 imagens


Incomoda-me que me olhes cercada de medo. Como se eu fosse algum fero animal que te ameaçasse morder apenas porque deverias dizer tudo o que sentes. Eis pois que és tu que pareces o bicho: enfiada, nervosa, trocando as palavras em sucessivos ataques de dislexia. E sem nada dizer, como se todo o tempo em que aí estiveste fosse um equívoco.

Quando então me decido a tocar-te

(levantou-se toda a penugem das partes visíveis do teu corpo)

e a avançar com um roçar dos meus lábios nos teus, deu-te um ar como se morresses, transformada na aresta da mesa onde o meu corpo inclinado desatina, e cai.

- Talvez tudo isto fosse muito lamechas para ti, confessa...


06-02-2009

a minha espera de ti


foto por Kadu (daqui)


Não me interessa se vens ou não. Passaram as horas naquele ponteiro que a estação ergueu como monumento às pessoas que esperam, inquietas, o embarque e o desembarque da vida. Pesa-me o sono da tarde, depois de tanto esperar. Aqui não está nem vem ninguém. Aqui, na planície agreste das minhas mãos. Voaram os estorninhos numa soberania invejável e as nuvens sorriem e já não choram. Vieram espiar-me a minha espera de ti e trazem as tuas cartas carregadas de promessas. Se não estás estendo os meus braços para o vazio e entro. Pelo menos dentro de mim posso contar com o afago do sangue, se as lágrimas já não me servem para mais nada.

05-02-2009

essa palavra é revolta


(autor desconhecido)


Se olhares à tua volta, o que vês? Diz-me lá, com os olhos bem abertos, como quando acordas estremunhada
- B’ dia
numa cama que não a tua e não te lembras de mais nada, não sabes onde estás, como ali
(aqui)
vieste parar, e abres então bem os olhos para as paredes, a janela, os móveis, as roupas espalhadas no chão, enquanto eu te respondo, bem desperto
- Bom dia!
Vá, olha à tua volta como se fosse um desses momentos em que procuras o equilíbrio do espaço físico que não conheces. Que vês tu?
É difícil acreditar, eu sei. Nessa atitude de não quereres saber, em que encolhes os ombros, incrédula, é como se te escondesses entre os lençóis afagando ainda um sono que não terminou de todo, e o pior é isso, sabes, o pior é que andamos assim todos a não querer saber, a despertar por momentos num mundo estranho
- B’ dia
e voltamos, numa cobardia inocente, à paz dos lençóis, deixando para depois o terrível decifrar da situação.
Não quero que fujas, te isoles. Não quero que deixes para depois. Quero que faças parte desta realidade que o subconsciente te ajuda a não dares fé. Esquece tudo o resto. Arregala bem os olhos e vê. De ouvidos bem atentos escuta. Não é o
- Bom dia!
bem desperto que vais ouvir. Não serão paredes ou janelas ou a roupa espalhada no chão, produto de uma noite que já não te lembras como aconteceu, assim, que ainda estás a despertar do sono bem devagarinho. Arregala bem os olhos e quero que acredites, quero que sintas que a realidade sempre foi esta e mais nenhuma. Quero os teus ouvidos acordados para escutares a palavra:


«Essa palavra é revolta

Uma cadeira é uma ponte muito estreita para um mar como este. Levanta-se um vento acima dos cadeados e as nuvens pesam toneladas mesmo para aqueles que nunca pensaram em enforcar-se nos barrotes de um alpendre. Uma cadeira torna perigosa esta cabeça que rapidamente se inflama ao som dos coágulos de sangue que percorrem as paredes em busca de uma palavra. Os impostores não foram desmentidos, as fórmulas continuam a servir e os barcos naufragam até na sombra das areias.
» (*)


Com certeza compreendes agora. E que vás buscar finalmente o porquê de que, agora, quando acordas, estremunhada e balbucias
- B’ dia
já não encontras a voz para te responder, bem desperta,
- Bom dia!



(*) da autoria de Sérgio Pereira, publicado no Jornal de Notícias, em 1994

01-02-2009

das tuas mãos


Morrerei só, por Armindo Dias em 1000 imagens


E então lembrei-me das tuas mãos. Pequenas, acanhadas, a contar um rosário. E no entanto, tão longas para guardarem segredos de toda uma vida. Graciosas estendidas ao sol. Ansiosas quando tocando a transparência do vidro da janela cravejada de chuva. Pequenas mãos onde pulsava a terra e o hálito e o beijo nunca saciado.

O que tacteiam hoje não sei dizer. Remexem a terra das azáleas enquanto a chuva desnorteia a velocidade dos automóveis? Conduzem um filho que te sorri agradecendo amparo? Desenhando a forma de novos amores em sucessivos êxtases que jamais conhecerei? Quantos cadernos encheram de riscos e traços os esquissos de uma tela? Medram no calor dos trópicos ou fenecem enrugadas numa agrura qualquer da tua vida?

Não são saudades. E deixou há muito de ser amor. Apenas a memória vaga das tuas mãos que alimentavam os meus cabelos, adormecendo as tardes quando me encontravas perdido e embriagado numa valeta qualquer.

Queria muito que as tuas mãos deixassem de ser as tuas. Para ser as de alguém que me desse só mais esta oportunidade.

30-01-2009

poesia


Cristina, por Tiago Martins em 1000 imagens


- O que é a poesia, então?, perguntou-me, com o olhar curioso de quem bebe a sabedoria nos meus lábios.

Poesia? É uma flor. A árvore crescida na vasta planície. Uma pedra perdida na calçada. É o teu rosto ruborizado com a delicadeza dos sentimentos. Poesia é o pranto das distâncias em forma de silêncio. É o fruto maduro e apetecido. É a boca do sexo que me apela. É a madeira jovem e adocicada. É a penugem do teu pescoço longo. Deitar as tardes a dormir. Reciclar as madrugadas. É beber a fonte da alvorada. E a chuva que embala. E o sol. Poesia é o sol quando dizem que nasce para todos.

Poesia é a língua do cão que te aquece num afago. É o voo livre das aves pequenas. É o mar borbulhando de cores. E a maresia que te entontece. Com o marulho na negridão, à noite. Nunca como a lua que apenas mostra uma face. Poesia é um rosto multiplicado a mil.

É toda a música que te enternece. Poesia é tudo o que queres, e sentes. E tudo o mais que não disse, e é.

29-01-2009

no oco da boca


por Pedro Gomes em 1000 imagens


- Ensina-me a escrever,

pediste, como se quisesses aprender a falar pela primeira vez, tal era a tua vontade de pegar nas palavras e redescobri-las, saber que outros sentidos escondem, o que despertam nos outros, e o que é, afinal, esta coisa do escrever, e a língua que não só toma o sabor mas dá a outros diferentes paladares, como num beijo.

Não sei ensinar-te, querida, não sei ensinar-te. Apenas saberei indicar-te que, no oco da boca, tomamos os desejos e então dizemo-los, tão só como quando os lábios se abrem como jazidas multicolores e brilhantes, e que com as mãos se lapida o que a terra nos oferece.

- Não te posso ensinar o talento, ele está no teu interior. Busca-o, trá-lo à luz dos nossos dias.

28-01-2009

não há como


(daqui)

- Queria escrever um poema de amor

Não o escrevas, poeta. Virá a mágoa numa maré de corpos que entre si lutam por um pedaço de metal. Abre as mãos e recolhe o trigo das searas. Constrói o pão. Tempera-o com o sal do teu suor, a suavidade das tuas lágrimas. Dá-nos de comer, a nós, infame espécie. Todos os poemas são profanados, e não há como o novo pão para que o papel retorne à sua qualidade vegetal. Quando souberes que todo o papel é virgem da ignomínia, então tenta. Bastará uma palavra para florir um novo prado onde os corpos caídos se esqueçam do vil metal e te adore como a deus. Mas aí, poeta, aí não permitas que tudo recomece: imola-te, para exemplo da maior e absoluta humildade.

26-01-2009

sede de


3ª Foto do dia 24.08.2008, por Luís Mendonça em 1000 imagens


Vencida pelo meu sorriso, desnudou o peito desarmando o seu pudor. Cruzou os braços sobre si numa timidez diluída na expectativa. Afastei-lhe os braços

(e não as pernas que também nuas, entretanto).

Beijei demorado as auréolas e o volume redondo de ambos os seios. Pousei a cabeça numa atitude sôfrega de fome. Foi apaixonadamente que coloquei a boca sobre um dos mamilos túrgidos, ofegantes.

Era do seu leite de afectos que queria beber, ficar saciado.

24-01-2009

textura



Sombras, por João Mota da Costa em 1000 imagens


Encostado à parede finjo olhar de perto a pequena silhueta tecida na sombra e as formas dos objectos na sua quietude de nada. Na esquina da mesa sou sobressaltado pela impaciência de uma centopeia tacteando a textura da humidade. Não lhe tenho medo, apenas uma aversão infantil por tão delicada e delirante agitação, pela sua forma repugnante. Imagino-a nos meus lábios, transpiro, tenho nojo, arrepios, as patas multiplicadas, levantando-se em sucessivas ondas. Grito, atropelo as mãos no meu rosto, fujo da parede onde um exército de outros bichos semelhantes se prepara para sentir no meu rosto a textura da sombra. E deste nojo, desta aversão inventada pela minha imaginação, um velho jornal é a arma letal para a infeliz centopeia, viscosamente derretida no canto da mesa. Enxoto os seus restos para o lixo, ainda com o mesmo nojo.

Indisposto, sento-me na cadeira. Foi então que te vi, com o rosto lavado em lágrimas: havia esmagado um beijo teu.

19-01-2009

inclinação




Do que eu recordo é a água agitada do Douro, e as pedras centenárias inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

sob as sombras das nuvens que profetizavam chuvas. E o pé calcando a beira viscosa das águas que vão e vêm na maré, conduzindo a rodopios de ninja, desequilibrando o corpo numa esfera de vertigem; e no instante da queda, era o mesmo abismo visto do cimo da ponte entre braços de ferro e tremeliques amaricados.

Verde. É a cor de que recordo depois da espuma e dos buracos antigos vomitando os despojos das cidades. E peixes grandes que não agarraria debaixo do braço de tão compridos eram.

Então perdido num quase deserto de águas escuras ao vento inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

senti emergir-me nos braços fortes de não sei quem com as vozes em gritaria de uns quantos que pareciam preparar-se para outros golpes de ninja, desequilibrando o corpo numa esfera de tragédia; não tanto, mas quase quanto em noites de São João a ver o fogo derretido sobre os braços de ferro, e o alvoroço de histerias amaricadas.

Azul, veio depois essa cor. Era o céu que entretanto se limpara, guiando o milagre para cima das mesmas pedras centenárias inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

e do que eu recordo é o sufoco dos olhares poisados em mim como se eu um peixe grande que não se agarra debaixo do braço por tão comprido, as vozes aglomeraram-se e tudo tão denso, tudo tão inclinado como as águas com o vento que a última recordação foi o meu corpo agitado e o resto sem cor, esvaindo-se num sufoco negro de nuvens fugidas profetizando chuvas para outras tragédias urbanas.

15-01-2009

betão


(daqui)


Quando está assim o dia em que tudo chove - mesmo as gruas no seu movimento preguiçoso que choram dos seus braços abertos no ar, ou como os automóveis que borrifam as bermas com a sua agonia de chegar rápido a todo o lugar, ou ainda as bandeiras das roupas esquecidas desesperadamente nas cordas sacudidas da sua condição de aves ao vento, e mais ainda essas árvores que se esforçam por explodir de verde e dar outra coloração às praças com as gotas de água despregadas dos seus ramos como se sacodem os cães e os gatos -, quando está assim o dia em que tudo chove, dizia, reparo como cinzenta é a cidade que cresce para cá das nossas expectativas.

O bruto feio cinzento do betão. Chove dentro todos os dias na cidade, agora tenho a certeza.

13-01-2009

azeviche


[autor desconhecido]

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
Nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.


Eugénio de Andrade em As Mãos e Os Frutos, musicado por Fausto


*

A toada de Fausto entrou no ambiente e trouxe vinho para tomarmos, e foi quando pegavas no copo que reparei no pequeno sinal sobre o teu anelar, como se fosse a pedra de um anel. Uma pequena pedra de azeviche. Estranho nunca ter reparado, afinal é tão pouco vulgar um sinal negro na falange, substituindo a ausência de uma jóia. Talvez porque só te toque os lábios e te devolva o sorriso com os olhos; talvez porque as tuas pernas torneadas me encham as palmas das mãos, ou o teu peito me desmanche a carne para outros sentidos. Ou talvez a humidade no teu baixo-ventre (outra pedra de azeviche aninhada no teu colo), que me fascina quando se abre num apelo carmesim. Não sei. Os teus dedos tragados na fome dos suspiros eram só um toque de pluma sobre a carne, animal e cega.

Não era costume olhar os teus dedos, e hoje foi pelo vinho que tomávamos, trazido no acorde e na voz de Fausto, que te redescobri como pedra preciosa.

11-01-2009

esgotamento


(daqui)

O que me parece é que a cabeça se escaqueira. Assim, de um minuto para o outro, como quem atravessa a ombreira de uma porta e na transição algo se transforma. No caso, em cacos. Pedacinhos pequenos, minúsculos. A trabalheira que me dá reunir tudo, tacteando com os dedos por baixo dos móveis para não esquecer um único caco! E a paciência de relojoeiro que é preciso ter ao reconstruir tamanho e monstruoso puzzle.

Hesito sempre por onde começar: se pelos olhos (fico desorientado), se pela memória (entro num segundo puzzle). Por vezes os pedaços não encaixam, não têm a geometria certa para o sítio onde acho que devem pertencer. E então martelo até ficarem entalados.

Dias depois, é certo, abro a porta do frigorífico procurando pela escova dos dentes e troco o nome às pessoas. Dou as almôndegas do jantar ao gato e vou pescar para o aquário borbulhando o reflexo dos meus olhos apáticos. Aguento-me assim algum tempo e depois, zás!, lá está tudo escaqueirado no chão novamente.

Outras vezes, felizmente não poucas, encontro a equação perfeita e equilibrada e os cacos encaixam tão bem como quem calceta uma rua. Leio livros de uma assentada, reconheço as marcas dos automóveis, ouço com enorme interesse as notícias. Sorrio, rio, converso, sou cordial, sou simpático e deixo os peixes do aquário em paz

(o gato fica algo mais triste, desconsolado, a plantar no ar pontos de interrogação).

E vou andando assim, com as pessoas atrás de mim seduzindo-me com blisters de comprimidos brancos ou mais coloridos, saquetas de pó e água efervescente. Não quero… se ao menos fosse qualquer cola especial, para que os cacos se segurassem por mais tempo… É que o que me parece mesmo é que a cabeça se escaqueira...

10-01-2009

sílaba


Do you miss me?, de Tiago Martins em 1000 imagens


Sílaba a sílaba construo a palavra, e sou eu, com as mãos em sobressalto lentamente afagando o meu corpo. A terra é o equilíbrio para os sentidos desentendidos, os teus dedos um pássaro que voa sem tino sobre o colo da minha memória. Deixo as horas abaterem-se contra o muro e mil pedaços se formarão no horizonte. Dos escombros se abrirá caminho

(lentamente)

até onde o chão verdejará e as feridas dos meus pés fecharão. A tarde morre como nascem as manhãs: vestida de crepúsculo, tendo a velar-lhe o corpo morno o ruidoso fustigar do vento e o gume do frio

(é janeiro).

Por cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram desta praça isolando-me numa solidão de ruídos em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Dizes-me que depois de mim não há nada; posso afirmar-te, porém, que em nada sempre estive para ti. Então, para que não haja secretos adeus, deixa-me respirar o azul que desponta e, por derradeira vez, afasta-me dessa tua nuvem parda.

Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios. Não me toques: lê-me, se me queres conhecer, e dar prazer. Agora chove pedacinhos de céu e de chumbo para abreviar a corrente branca e mortífera do frio, e chove dos teus olhos pedacinhos de ti, flocos do que te desespera e te contradiz ou o que refuta o teu sorriso.

Continuaria, e a negar, mas tudo nos seus lugares. Ao contrário do que imaginava os objectos não tossem nem sentem frio ou ardem de febre. Entardece e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa numa fotografia que a memória desperta imprime no descer da noite. E todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da madrugada que vieste ver tranquila, para pisar o chão do meu pensamento.

14-11-2008

partículas


Leituras, por Pedro Moreira em 1000 imagens


Não volto por te achar ausente, ou porque esse cliché gasto da saudade me tenha batido à porta. Não tenho portas na minha morada há muito tempo – se a foste bater erraste no endereço.

As coisas sempre vão mudando, sabes disso, não sabes? Se os ponteiros de um relógio pararam não quer dizer que tenha o tempo suspendido por uma ilógica razão cósmica à mercê das nossas vontades mais mesquinhas. Apenas porque aconteceu ter-se esgotado a energia de uma pilha, ou uma corda que desandou.

Os relojoeiros encontram também pó nas engrenagens desses aparelhos. Pequenas partículas que impedem as rodas dentadas de prosseguirem a sua função coronária. E pode ser uma boa razão; talvez a melhor razão. A mais razoável, passo o pleonasmo. Pó na engrenagem. Partículas minúsculas que nunca vemos mas suficientes para que tudo pareça continuar igual, inalterável. Que nada tenha evoluído, nenhum passo dado, nenhuma atitude tomada.

Porém, tudo continua funcionando, os vazios cobrem-se de espaços, os silêncios inundados de ouvidos; e depois já não somos nada do que tencionáramos ser, ou pelo menos nunca iguais ao que já fomos. Tudo transfigurado: olhamos o relógio, os ponteiros exactamente na mesma posição

(dias, semanas, meses, anos?)

sorrisos eternos, lágrimas cristalizadas, e não existiriam razões para dúvidas, não haveria argumentos para recear as mudanças que as estações do ano nos obrigam. E quando enfim nos damos conta dessa falácia, entendemos de garfo suspendido a meio de uma refeição que afinal o sol se deitou para a noite o fertilizar com novos amanhãs, e num instante os dias foram completando ciclos repetidos embora sentidos em movimentos de moribundo.

Pó na engrenagem. Volto cá para o sacudir, como quem renova a vida de um livro com um sopro dos lábios, ou restaura a cor com a palma da mão a um quadro escondido no sótão. Não vim pela ausência sentida, nem por essa saudade trauteada. Apenas para que te desses conta que os ponteiros podem agitar-se novamente, qual músculo cardíaco reanimado por pequenas mãos frágeis. Aliás, que a fragilidade é um equívoco, os ponteiros sempre prosseguiram o seu caminho, a sua sombra é que fugiu na escuridão. Ficas então a saber a partir de agora. Como tudo o resto já sabe.

É a sabedoria que nos regela de arrepios e receios.

08-09-2008

pós laboral sem tragédia, em fragmentos de um acto


(daqui - se é que é realmente importante)


Algum rumor, um burburinho de fundo como quando

- João, fazes os bifes enquanto ponho a mesa?

subimos ao topo de um prédio e espreitamos a cidade viva, lá em baixo, numa palete miniaturizada.

- Agacha-te

Não. Não é bem assim, é um som abafado. Aqui deitado na banheira com a água cobrindo-me os ouvidos e o rosto, deixando apenas o nariz de fora a respirar devagar e o prédio vibrando por baixo à esquerda e à direita

- Sarinha o jantar está pronto!

e nisto uma mosca entra na casa de banho, atraída pela luz. Sigo-a com o olhar imaginando fuzilá-la, tal o meu ódio e nojo misturados por estas criaturas voadoras que tanto me irritam

- Ah puta!

(O vizinho do lado esquerdo começa cedo a festarola com a namorada, chama-lhe bastantes nomes feios

ou será que a chama pelo nome?

e ela geme e grita com um prazer desmedido, como se…)

- Sarinha não volto a chamar, desliga a televisão e vem sentar-te à mesa!

E a mosca zunindo, zunindo, até vir pousar-se no topo do meu joelho direito, esfregando as patas dianteiras

- Anda puta!

e eu, transformando o meu braço num camaleão guloso à cautela, espalmo a mão sobre o joelho e rebento-lhe o corpo numa investida forte, estridente. A água move-se, rugindo no interior aos meus ouvidos, este rumor abafado a dar conta da casa vazia e silenciosa em contraste com as dos vizinhos

- Os bifes já estão!

(… como se cada injúria fossem flores, nardos ou orquídeas, jóias, enfim, chocolates, bombons)

Olho o corpo da mosca esmagada flutuando na água, dá-me nojo

- Não gosto de bife!

os meus dedos em pinça, o prédio irremediavelmente deixado na condução da água, suspenso, pesco a mosca morta

- Ahhh, já está puta!

e atiro-a pela sanita, descarregando a água com vertigens de vómitos do nojo imenso que me dão estas criaturas voadoras.

Não regressarei, obviamente, à água conspurcada pelas entranhas minúsculas do bicho. Retiro a tampa do ralo da banheira, abro o chuveiro, ensaboando as mãos e o joelho freneticamente

- Não comeces Sarinha, é para comer tudo o que tens no prato

e deixo que a água renovada e quente me embrulhe numa concha reconfortante.

Ora eu que estava para contar não sei o quê… Esqueci-me. Detesto mesmo as moscas. Enxaguo-me. Que farei de jantar? Bife, talvez, sem quaisquer apontamentos óbvios e previsíveis.

Gostava de ter uma puta assim. Ah, isso é que era…

25-08-2008

a vez



Afundei. Deixei-me a afundar na esperança preguiçosa de ver melhores dias. Convencido com uma certeza indiferente de que alguém certamente viria para abrir-me as janelas, sacudir-me da poeira, trazendo as algibeiras transbordando esperança. Fui de livro em livro procurar o nunca achado e regressei de todas as vezes com as mão negras de nada, as mãos como pedra. Vi esvoaçar sorrisos, soavam harmoniosas vozes e gargalhadas deslocando-se da esquerda para a direita conforme passava o autocarro onde devia seguir dentro, e que perdia toda a vez que aflito tentava embarcar. E as vozes, e as gargalhadas, deixavam o tom harmonioso para um esgalhar confuso de troça e dó.

Ouvia os dias erguendo-se com esplendor, duas ou três melodias a agarrar-me os ombros

- Vem daí

e eu

- Não quero, não vou

convencidíssimo que não chegara ainda a vez de, que não havia dado o tempo suficiente para, que seria preciso aguardar mais. E depois isto e outra vez aquilo diluindo as hipóteses até que o sono me resgatasse num bocejo e a cabeça rodopiando sem eira nem beira. Noite após noite, aconchegado na minha redoma de parvalheira, a dialogar comigo mesmo, a afastar os medos com a febre das alucinações.

Agora parece-me tudo sempre e cada vez mais adiante. Os dias perderam-se, deixaram cair o esplendor, os livros foram-se calando em revoadas de folhas aninhadas no vento, e eu ensurdecendo deles, cegando das palavras. As vozes vão e vêm, como num pesadelo, ora trocistas, ora piedosas

- Anda comigo

e eu

- Não quero, não vou

apontando para as algibeiras com escárnio

- Nem sequer trazes esperança aí

com as janelas cerradas, ou talvez uma parede no lugar onde elas jamais existiram. Eu carregado pelas noites numa redoma de insónias.

Gostaria muito de ter podido saltar para aquele autocarro. Fazer parte do coro. Os meus gritos, porém, já ninguém se interessa ou esforça por ouvi-los. Ninguém os percebe. Observo a luz lá em cima a diminuir e qualquer dia

(qualquer noite)

não poderei alcançar-lhe. Estreita-se o buraco onde continuo a afundar. Onde perdi alguma coisa que, por não saber o que será, imagino que possa ser o mínimo para finalmente vir a ser tudo o que se supõe querer e ter.

Se existirão homens e mulheres de braços fortes para me puxar para fora não sei, não faço a mínima ideia. De qualquer forma perdi. Sinto que perdi. Sem querer fazer dramas, apenas dando aos ombros como quem se volta resignado.

Acho que perdi a vez de ser feliz.

10-08-2008

não há porque ter título


(autor desconhecido)


Não estamos em casa, e o telefone trina durante uns vinte segundos. É um esquisito, e tem a mania do poliglotismo. O frigorífico estremece como que um arrepio, marcando a sua superioridade em relação aos restantes habitantes da cozinha. A máquina de lavar roupa abre-se num ó meio amuado, tem todos os tecidos promiscuamente compactos, que lhe pesam como dores de cabeça. O micro-ondas está adormecido numa paciência branca, refastelando-se de frescura. Haverá a hora em que padecerá de sufocante calor, colocando na torneira um olhar de inveja.

Os móveis de madeira sussurram espalhados pela casa. Não se ouvem as suas queixas matinais, de gavetas arrastadas e portas chiando. Sussurram porque gostam do silêncio. Televisores, rádios e demais família são os mais impacientes: é como se lhes ouvisse um tamborilar de dedos sobre uma mesa, ou um pezinho irrequieto sobre o chão: é um formigueiro que lhes dá nos leds dos seus stand by.

Mas quem guarda tudo isto com ar de respeito imposto é a imponente porta, mais a tagarela da fechadura, sua companhia de uma vida inteira.

07-08-2008

ramos


Why the dark, before the dawn?, por Paulo Bizarro em 1000 imagens

para José Gonçalves Ramos (1927-1993), meu Pai


Sempre fui bom ouvinte, sabes disso, apesar de nem sempre mostrar muita paciência, mas sem nunca te ter contestado. E se não te contestava era porque o que dizias parecia sair da minha boca, como se as palavras descendessem também no código genético. E depois veio aquele dia em que da tua boca não saíram mais palavras, que é o mesmo que dizer deixei de ouvir a minha voz na tua garganta. É verdade, eu não precisava de falar, tu discursavas e eu cá por dentro a confirmar as ideias que tínhamos em comum sem termos discutido sobre elas, e muitas das vezes limando o bico de uma dúvida, de um gene meio parvalhão a fazer ruído. Passaram quinze anos desde que tomei o teu lugar, ou seja, desde que a minha voz se produz agora na minha garganta e não na tua. Que já não existe. A tua garganta já não existe, Pai. Nem o teu sorriso, nem as mãos que eu admirava tanto. E depois o que então ficou por dizer, não que houvesse algo de novo a dizer um ao outro (eu ficava calado, os genes disseram tudo desde a minha concepção), mas porque a minha vida foi acontecendo sem ti. Há quem diga que os filhos são o prolongamento dos progenitores, e talvez seja isso. Eu via-me como a flor e o fruto, e a ti como a raiz e o caule que me amparava. Engraçado, o nosso nome, ramos. Eu cresci de um dos teus ramos, agora apenas a flor ou o fruto amadurecendo com o tempo, cortado sem sabedoria, aguentando o caule mas a raiz perdeu-se, extinguiu-se na terra. E ainda que eu sirva para os outros que me amam, para mim já não é a mesma coisa, como se a jarra ou a fruteira onde me colocaram me prendesse sempre ao mesmo lugar, sem lograr alcançar o topo, o mais alto, aquilo a que sempre aspiraste.

Passam os anos, e contudo cada vez dói mais a tua ausência. Talvez por ter a consciência que o adulto em que me tornei precisaria muito mais do pai que o adolescente que fui. E agora só tenho a voz interior, a palmilhar caminhos acautelado com os desvios. E isto é ser filho para sempre.

Que se lixe que seja um cliché, pai, mas ainda que tenhas deixado de existir como raiz e caule, existes cá dentro de mim e só morrerás quando eu me for também, calado, acertando no nada as dúvidas que, tenho a certeza, havias de esclarecer com a minha voz dentro da tua garganta.

E amo-te: só por isso choro. Pai.

03-08-2008

que o silêncio fale por nós

morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora



para o meu mais querido amigo



É tão difícil falar sobre esta dor. Vale o silêncio nestas circunstâncias tantas vezes quantos são os grãos de areia que cabem num punhado a esvaírem-se entre os dedos. Não será mais do que isso: o silêncio esvai-se de nós com a lenta passagem do tempo até que o pudor deixe de existir ou peça grandes cuidados. Até que possamos compreender um pouco mais sobre isso da morte, e sobre o amor, e sobre a amizade. Aquela amizade que sabemos ser para sempre, que não tem floreados nem cerimónias. Onde apenas e ainda o pudor. O pudor de dizer que te amo para que os espíritos se sintam quentes, reconfortados o melhor possível dentro da ternura, da generosidade. Mais do que existe entre o sangue de irmãos, compreendes? Não interessa o que se diga, o que se pensa, o que está estabelecido. É somente importante o que se sente, o que existe verdadeiramente.

Assim, só temos que esperar que o silêncio cumpra o seu papel de curandeiro, e de nos mantermos unidos, a partilhar não só as dores agudas com que a vida nos acutila, mas também as alegrias, o que conquistamos de bom.

Deixa seguir o cadáver que já não te é nada, já não nos pertence, pouco ou nada significa. Os nossos mortos aprendemos a viver com eles cá dentro. Continuam vivos enquanto vivemos, porque o amor imenso é assim, transporta-nos todas as pessoas queridas que desejamos continuar a ver como se tudo fosse eterno. E por isso entendes o egoísmo de tão nobres sentimentos. O cadáver é apenas o pó, condição do que vive para dar lugar. Não os espantemos, não nos espantemos. Levamos os nossos mortos bem vivos dentro de nós até que surja a nossa partida, pois «morte certa, hora incerta». Que é quando realmente tudo se acaba, ou pelo menos soubemos que afinal estivemos vivos.

A tua gargalhada também é a minha gargalhada, como as lágrimas são também de ambos. Não temas: sofro sempre contigo, o que te dói, dói-me. Apenas o silêncio: deixemos que entre e se instale para que te diga, entre o pudor, o quanto te amo.

28-07-2008

aparência


(daqui)


Acontece então que já não é como tinha escrito. As palavras desintegram-se num dado momento, perdem-se as letras desamparadas na lima das tuas unhas, no retoque do teu batom, na pestana pescada do canto do olho, e tudo vem sucedendo em catadupa. São fotografias antigas as memórias que se querem repor, são de passados incolores as palavras "Lembras-te de...", e quedamo-nos mudos numa latitude paralela de tudo quanto ocupamos, de umbigo voltado para fora, a reclamar o espaço vazio das cadeiras. E nessa ocasião, as letras perdidas reencontram-se, perfilam-se como jogadores para o retrato do plantel, chega-te mais para lá, vem um pouco para a frente, dois passinhos para a esquerda, e ei-las já alinhadas formando as novas palavras que ditam o quanto crescemos, mas principalmente marcando a diferença sobre o que fomos, e que não voltaremos a ser jamais. Porque é sabido, (e eu segredo-te ao ouvido, para que ninguém se aperceba, para que possamos manter no mínimo a aparência), esta história nunca se repetirá.

27-07-2008

flor de narciso




para António Lobo Antunes



Venho visitar o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a fresca água da velha fonte; e acontece que me seguem os instrumentos de escrita e leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado mas marcado por gerações de escribas e leitores dos serões onde a poluição ainda não conhecia o comprimento das ondas hertzianas. Sento-me no banco tosco e vou adaptando a minha fisionomia à procura de uma posição confortável. Um carreiro de formigas atravessa na frente dos meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar. Estendo a vista para o pomar em frente, reconheço umas árvores e outras não. A erva alta, rebelde. O sol deslizando para trás de uma colina. Fico por longos momentos brincado com a caneta entre os dedos. Logo faz-se noite e o papel ainda branco. Após uma pausa, que não sei dizer ter sido breve nem longa, escrevo o meu nome, de letra enviesada, à mercê dos relevos do tampo da mesa. O meu nome e mais nada. Levanto-me, estico as pernas, espreguiço os dedos. O meu nome à luz parda do entardecer. E com tanta coisa de que poderia ter dissertado. Ali, o meu nome, agora riscos até a noite engolir a brancura do papel. Não faz luar nesta latitude, e o meu nome existe, ali, depois de abandonar o local, para assistir, do outro lado, o romper de um novo dia. O meu nome. Eu. E uma flor de narciso ao lado, no tampo irregular da mesa onde escribas e leitores mais antigos.