14 de Dezembro de 2013

embalo



Nas vésperas, a chuva ditou sombras sobre a cidade. Porém, o sábado nascido devolveu-lhe a claridade fria e azul das manhãs solarengas de dezembro.

O vento ergeu-se a esvanecer a humidade das roupas no estendal e declarou oficialmente o óbito e o luto entre as árvores.

Foste alimentar os animais, arredar o musgo da cancela esconsa, e subiste rente o muro da hera para me acordar. Eu já te esperava de café num púcaro e com a chaminé de um cigarro, feito ritual de quem espanta o entorpecimento dos resquícios do sono.

Apetecia-me o verão... – foram os teus bom dias. Eu sorri com um nevoeiro de tabaco a encobrir-me o olhar trocista. A mim agrada-me o sol de dezembro, e a luz do outono, mas também as colinas desmaiadas de chuva miudinha. 

Entramos em casa. Preparei-te torradas com mel que foste debicando devagar. Continuava a ouvir-se o vento do lado de fora, obstinado a transformar as árvores em esqueletos pintados na paisagem, embandeirado na roupa que, entretanto e já o almoço havia sido levantado, secara no estendal.

Abraça-me, que o sábado vai terminando, arranjado pelas mesma horas dos outros dias em que quase esgotamos a ansiedade pelo fim de semana. Ao final de cada dia somos santos de exaustão, convencidos que, virando a sexta-feira, o tempo cristaliza. E afinal, é como o ditado: a vida são realmente dois dias e um já se está acabando.

Passa ligeiramente das cinco e meia da tarde e o crepúsculo está tão tímido. Dezembro não engana, espelha-se inconstante no céu a anunciar a sua irreverência climatérica. E apetece-me este pequeno final de tarde para me deixar dormir, embrulhado na manta da tua ternura, ritual de quem, depois de acordar, deseja sossegar a madrugada de lentidão enquanto o amor acontece.

Não digas nada. Aquece-te junto a mim, que no verão não temos este embalo.

25 de Outubro de 2013

síndrome de bartleby versão 3

desenho de Leandro Lopes

The end of laughter and soft lies
The end of everything that dies
James Douglas Morrison

Não estou capaz de evadir-me para escrever. Passo avesso ao riso, ao pranto, à emoção, à apatia. Como em mim nada é. Se engenho tive um dia, ou se as palavras alguma vez me foram parentes, é absoluta a minha inadequação actual e a orfandade de que possivelmente já sou vítima há muito tempo

(ou desde sempre).

Sou obrigado a concordar com quem eu lhe seja indiferente, ou, remotamente, por motivo sórdido e sem exemplo, com quem sofra a culpa de uma pequena inveja do que já fui capaz: que não vale a pena consumir palavras se não são os actos que lhes fazem jus. Ficarei ridículo a dissertar substantivos sobre não-questões. E assim me quedo a poupar os pormenores quando o que poderia dizer não seria por maior importância.

Vou daqui mudo, a engavetar o pensamento num murmúrio quase inaudível de efemeridade.

Quando – ou se! – outros tempos chegarem, talvez que já nem seja uma esferográfica a discorrer. Provavelmente apenas ver-me-ei a mim mesmo lutando por sobreviver numa areia movediça, de cuja matéria não posso pois agora prever de que será feita

(imagino mas prefiro continuar-me calando).

Fecundo mediocridade e, nesse estado, ainda que fecundado, nenhum ovo alguma vez eclodirá.

Não venham acenar-me: não quero ver nem ouvir vossas bocas postas em “O”. Vou partir de costas voltadas, como se o 

(este)

mundo em nada

(ou alguma vez)

tivesse sido importante para mim.

29 de Setembro de 2013

de ti ou de um qualquer outono como este final de setembro


O outono terá começado e as chuvas primeiras que caíram terão acariciado os milheirais e fustigado as pedras

(as florestas ardidas com o hálito criminoso de agosto).

O crepúsculo tem o som assobiado do melro colorido de nostalgia, as palavras correm a menor velocidade, e os tapetes de folhas estalam sob os pés dos mendigos.

O descanso de uma gaivota no pilar da ponte é uma estátua de brisa espelhada nas águas do rio. As sombras quando anoitece são esses gatos pardos que se perdem vagabundos no colo do pensamento.

Finda setembro e não dei pelos dias que correram. Tudo é matinal em mim quando vindo de ti; e se gosto desta chuva é porque apenas me lavam do rosto as fadigas que teimariam em ficar.

Porém, partir do verão sem ti é negar todo o ano. Não quero que setembro se esgoste sem um beijo meu sobre a manhã de ti. 

De ti, que resolves os humores com o cardinal da primavera como se não houvesse ano para celebrar e passar.

Não é minha vontade contrariar-te.

13 de Agosto de 2013

até logo

foto gentilmente cedida por Inês Borges

para a Inês Borges

Sirvo-me do teu silêncio em suaves goles de vinho, enquanto permito que o teu olhar me invada com carícias de sombra. A noite instalou-se morna rendendo-se ao predicado do teu rosto. Eu escuto o seu sibilar, canção murmurada nas ruas, nos vãos dos prédios, na margem poluta do rio.

Encorajas-me de ombro nu, onde um beijo ilustraria esta vontade tímida de te ter. É, porém, o recorte de mistério nos teus olhos que me faz transpirar, denúncia da minha falta de táctica para te envolver.

Aprendo nesse entreabrir dos lábios como uma carícia te fará sorrir e que palavras te possam provocar. Sorves a noite no mesmo vagar com que esvazio o copo de vinho, e eu de beber aflito contando que os meus movimentos não me traiam, ou que qualquer distração te liberte dessa hipnótica tensão de enganar o tempo.

Atreve-te, argumentas. De fome nos lábios, mordido, aguento-me. As tuas palavras urdem formigueiros em mim sem que a voz se comova. Os meus dedos empolgados, quentes.

Acrescentam-se verbos e substantivos. Todas as canções. As belas epopeias. O primeiro abraço e enfim o encontro.

Vibram as horas uma duas três e tantas vezes numa qualquer torre sineira. A janela aberta para a aragem, os lençóis testemunhando o quanto desta entrega, que afinal o vinho desinibindo. Sobe a pequena luz da alvorada. No teu rosto adormecido ainda o mistério: não sei ao que vieste e o que fui em ti.

Sei que entraste com a madrugada no olhar. E agora saio eu com o sol na alma.

Até logo.

31 de Julho de 2013

esta paixão segundo isto

foto de Alexander Sikov

Escusa-me deste sufoco de me sentir perdido no tempo, como se, de tonto ou doente, colocasse cabeça e boca à banda a tactear o ar num desespero de náufrago. Porque me desvias agora o olhar 

(tu que quando te procurava sempre sorrias aliviando-me o peso das minhas existenciais crises depressivas) 

e me deixas à mercê desta agonia que me sobe no sangue até ao nó da garganta, revoltando o peito em taquicardias, dando aso a que a ansiedade se liberte esparvoada esbardalhando-me os sentidos, o equilíbrio, e então o pânico generalizado orgânica e emocionalmente em tudo o que é em mim, galgando os pensamentos, rosnando-me aos movimentos…? 

Pedi-te que assim não fosse, que aceitasses sem razão as palavras confidentes sem qualquer contrição ou juízo de moral; mas como poderia eu exigir assim da tua vontade? Como posso pedir-te indiferença ao perigo de te deixares também ir sem a expectativa do regresso, a animar ilusões, mesmo que te sintas, à partida, imune e contrariada de tais acidentes emotivos? 

Vou deitar as tardes a dormir para mitigar a cabeça destas incertezas, dos medos, das angústias. Nunca durmo, porém. Deitar as tardes a dormir é um queixume velho meu, arvorado nem sei já em que poema antigo da juventude, e que simplesmente dará o mesmo resultado que o enterrar a avestruz a sua cabeça na areia. Isto é: que fujo, que me aguento cobarde e inerme. 

Engole toda a luz a noite caindo, e essa escuridão que se junta à negritude da alma resume as insónias acumuladas. Sirvo-me do sono apenas quando já o dia rompe vigoroso a despertar os vivos. Que é quando, da fadiga, após a secura da boca e da luta contra a tensão dos músculos e dos nervos, o corpo se rende, como que apanhado numa doença viral, febril, acometido de tremuras e demais convulsões. 

Podes tu tanto poupar-me a estes acometimentos ridículos de que sou provocador e vítima. Salvar-me como heroína de romance oitocentista de tantos e tamanhos tormentos a que a alma apaixonada se dispõe. Que um abraço – vê lá tu, um simples abraço! – embora sem garantias promissoras nem a servir vãs esperanças, apenas apertado de ternura 

(podias mesmo justificá-lo como acto cristão de amor ao próximo… 

… mas salvo de misericórdia, por favor!) 

que um abraço assim talvez me fosse suficiente para que amparado pudesse transformar num suspiro 

(ainda que a insinuar o último exalar do corpo) 

a oportunidade concedida de respirar aliviado, desinfestando a negritude, a desilusão, os soluços da convulsão dos prantos, e voltar 

(sem pieguices) 

a sorrir interiormente. 

Diz-me, impiedosa: é esse abraço que vais continuar a recusar-me?

14 de Junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…

18 de Maio de 2013

em pleno

 

Deslocou-se o tempo no calendário, as tardes crescidas adiando a tristeza dos crepúsculos. Deslocaram-se os dias como se não os tivesse sentido e todos os fins-de-semana entre azáfamas desvaneceram. Veio o sol, choveu, houve mais sol e calor, ventou, já se fez praia, nas moitas o perfume amarelo da giesta, agora vento e outra vez chuva com frio entre as ressas do sol de maio.

Ficámos a ver o tempo passar sem que houvéssemos tido a feição de nos aproximarmos – pelo menos o quanto eu desejaria que nos aproximássemos – nos dias em que a brisa lambia de calor as colinas, e a ternura das nossas mãos dadas bastaria para o concretizar. 

Sou de regredir na memória, quase a diluir-me entre o que podia ser ou não das coisas do passado, sem vocação alguma, no entanto, para alimentar nostalgias. Porém, será a nossa causa coisa já de um passado? – não acredito e tu bem vejo que tal ideia a rejeitas também. 

É o quê, então? Quem somos, e o que adiamos, se fomos concebidos de um para o outro? 

Adoro-te. Encantas-me com o teu rosto recebendo esta maresia, os teus cabelos soltos como borboletas, o som do mar a fazer de chão ao meu desejo. Como quero chegar a ti, tocar-te, devolver-me em ti ao vinco da nossa terra da semente que somos. Como te desejo e não sei o caminho, os gestos. Só sei do medo. De me quebrares em estilhaços com uma rejeição. O que me parece é que ainda não amadureci os teus intentos, ou estarei pateticamente esgotando-os. Vou depreendendo do teu sorriso e da simpatia em me concederes ao teu lado que ainda há em ti a reserva de quereres continuar a guardar o teu espaço. 

Se finda a tarde, fazendo crescer o véu do crepúsculo, soluço de amargura por ver-te em maneiras de partir. É de areia ainda o sal nos meus olhos, a insistir na sede do teu corpo. Afastas-te e finjo descansar a cabeça sobre os braços apoiados nos joelhos. Creio que gritaria, se a vergonha de me veres em lágrimas não fosse tão cruelmente piegas, e a sair do contexto do que sou. 

É pela madrugada que solto o pranto, sempre em silêncio, cismado com os sonhos de vigília no rescaldo das insónias, porque é assim a paixão percorrida no corpo: veneno e mel. Sonho como serás tu toda, de pele e braços, pluma e feno, o teu peito e os teus lábios, marinados em primavera. Já não se vive agora de sonhos, pois não?, com o tempo a atravessar-se assim entre tudo e todos… 

Inseguro, apenas posso contar com a certeza de que ainda me falta a latitude certa para chegar a ti em pleno. Oxalá saiba contradizer o espaço e conter o tempo.

11 de Abril de 2013

orquídeas a tempo de um aniversário passado



para a Anabela Maria

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, como promessas feitas. A primavera tão vagarosa, a instalar-se entre as nuvens e o sol tímido mas, mesmo assim, a instalar-se. Floresceu o tojo já, combinado que foi com o romper da giesta em maio, a desmaiar de amarelo as colinas, de frondosas árvores então à inclinação suave das brisas e um permanente perfume de dias estivais prometidos. Mas as chuvas claras de abril não permitem ainda reconhecer essa festa de cor com que se envaidecem os montes, os prados e, sim, os jardins.

Perguntas-me pelo teu jardim e as orquídeas predilectas, e a promessa mantém-se, na esperança que o sol nos conceda o seu brilho. Entretanto,

(e por que em ti é primavera desde sempre)

levo os meus dedos ao roseiral dos teus lábios enternecidos e adivinho quantas pétalas no jardim do teu corpo. Ou da seara jovem da tua pele, amadurecendo o trigo. Desce a brisa dos teus cabelos, num afago pelos cumes plantados de dois amores-perfeitos

(prefiro dois borbotões de água que acalmam a minha sede, mas também pétalas suaves de amor-perfeito)

e então um prado descendente de curvas perfeitas, o aconchego do colo para sestas revigorantes, eu cavalo galopando à procura de sombra e feno .

Tacteando com os dedos encontro um canteiro de tímidos trevos, súbditos de uma flor que reina a meio caminho, semi-deusa, esperando por escolher o pólen. Ufana porque única, rainha porque procriadora. Eis uma orquídea tão bem definida, delicada no seu toque de seda, palpitante, as pétalas erguidas com sumptuosidade. Inalo o seu perfume: tenro nos lábios, agridoce na carne tumefeita. As falanges dos meus dedos em cuidados de jardineiro. A flor então aberta para os delicodoces prazeres.

Concedo-lhe um beijo como se sol e água para o seu alimento. O meu corpo tenso aflorando a seda escarlate das pétalas, a adensar-se no gineceu. Acontece a manhã, ergue-se e desce a tarde e infiltra-se a noite. E nos teus olhos, sempre o céu.

Este jardim sempre te pertencerá, com ou sem promessas alheias, chova em abril ou neve em dezembro.

Que sejam em ti muitas primaveras, em arranjos de campos de orquídeas, tão selvagens quanto rainhas, veneradas pelos que amas.


10 de Março de 2013

breves, e nada restou



Adeus dissemos
e nada mais de então ficou
Madredeus, «Adeus… e nem voltei»
(Os dias da Madredeus, 1985)


Ficaram breves as fotografias, do espaço entre o que foi de um terno abraço e o que havia de ser um beijo predicado. Fingimos prender esses momentos numa eternidade que restou oca, mas nada mais ficou senão sombras impressas da luz que o papel cruelmente deixará ao juízo nocivo do tempo.

Quis que não tivesse sido assim. Ditaste a lonjura, escrevi esquecimento com ponto de interrogação, e os dedos desenlaçaram-se para espanto das árvores esforçadas em nos devolver a verdura das folhas e a maciez do fruto, apesar deste vento a alarmar as portas, apesar desta chuva enlameando os prados que em março desejaríamos floridos.

Tudo em conjuro como se conjugando o verbo partir

(ou quebrar, ou fugir, ou morrer)

levando de mim o teu rosto trigueiro que me sorria todas as manhãs a melodia dos bons dias. A elas, às manhãs, deixei-as entre o fumo espesso de um cigarro angustiado e esse patético arquétipo luso das brumas, numa esperança de asa de borboleta que tudo pudesse, qualquer dia e idade que fosse, voltar a ser. A sermos.

Mas eis que vais, amor, e eu fico. Ou então sou eu que levanto voo numa liberdade que não pedi, atordoado e nervoso subindo, e tu, o meu sossego e o meu abrigo, queda no chão a afastares-te, acenando-me apenas com os cabelos esfarrapando ao vento.

1 de Março de 2013

gestos da primavera em mim

foto de Georgina Noronha

Deixei que o tempo se esgotasse sem levar de ti um afago que servisse de consolo a estes dias que passarei sem ter a oportunidade de te ver. Tu alimentas-me de sol o rosto apenas com o olhar, neste março que nasce mansinho e tímido, imprudente a concordar com a brisa que se faz ainda de golpes gelados afectando o conforto dos corpos e entorpecendo os movimentos dos membros. Basta-me, por isso, a doçura com que todos os dias me aqueces com os olhos postos em mim a lamber carícias para ficar indiferente aos enganos e desenganos climatéricos, e me sinta estival como se o odor da terra quente de junho agora.

Tudo cresce já em volta, sinalizando a decadência do inverno que, mesmo a dias de nos deixar, insiste em geadas escarninhas, nevões impostores e chuvadas mesquinhas. Mas em março as águas são mais claras sem sombrear o verdecer dos prados e das árvores, e os dias ganhando minutos empurram a penumbra do que ficou lá atrás, despindo as noites de solidões para lhes dar ânimo e agitação. Pode ser que então o afago não resgatado que hoje choro venha a ser a migalha dos abraços vindouros, do desfile de beijos prometidos, do entrelaçar ternurento dos dedos, da volúpia desenfreada dos músculos. 

Até lá deixo-te muda e atarantada com os modos, os sinais e os comportamentos que admito possam embaraçar-te, desprevenida. Aprenderás a não temer ou desconfiar da natureza do que sinto por ti: quando enfim conquistada, notarás no teu coração e no desejo do teu corpo que tudo isto, meu amor, são tão só os gestos da primavera em mim.

11 de Fevereiro de 2013

a dor assombrada de ti

foto de Georgina Noronha


Eu sofrendo por não vires e tu insistindo nesse estupor. O teu olhar a evitar-me por entre nadas, a ocupar os vazios, e estes afinal continuando sem coisa alguma se não são as tristezas que pagam dívidas ou ocupam lugares.

Eu irritado por não saber chegar-te, preocupado com a dor da rejeição. A de sempre. A que me assombra. E tu brincando a um faz de conta de que não é contigo, agilizando as mãos nos objectos a surpreender-me:

- Vês? Não me interessa nada disso

mas interessa-te, que eu bem sei. 

Estarei a um ponto de te desiludir se não for persistente, se me votar derrotado nestes jogos? A mim que me importa, não é? Se a ti não? Por que terá de ser assim? Se é jogo, ou patranha, a que vem essa tristeza no teu olhar desocupado das mãos ágeis a rematar as arestas pardas do vazio? O que levas aí dentro, que comoção te faz agir desta forma?

O vento graniza com o frio a chuva escarninha como se tudo agora zombasse de mim. O palerma!, afirmam as nuvens feias. Eu aqui prestes a cair, ou pronto a saltar. O estúpido!, assinalam os esqueletos das árvores no ar.

Vais ficar. Eu não vou mexer uma palha por isto, vou teimoso com pêlo na venta, agarrado a um orgulho qualquer, ainda que saia daqui esmagado, ferido, com nódoas no corpo porque o tombo, porque quis sentir-me livre, porque haveria de querer voar.

Ter as tuas mãos nas minhas: seria a frio um cenário banal, toda a gente dá as mãos. Em nós, porém, sortiria um alívio, um saciar de ternura. O brotar para todos os gestos que haveria de nos deixar unidos, carne com alma.

Ora teimoso, eu. Eu! Eu teimoso! Como sou parvo. Se és tu quem teima e escarnece, bruta e amorosa, a fingir que nada sou para ti. Que pertenço ao pó que a agilidade das tuas mãos tratará de limpar com afinco:

- Não podes brincar assim com coisas sérias.

Não brinco amor, não brinco. Agora não. Vou amuado com a surpresa do teu olhar despeitado na minha nuca. Até depois sem um aceno. Não me olhes que não vou acenar. Talvez volte, ou esperarei que venhas também. E me livres da dor assombrada de ti. 

Apenas sinto que tenho de sair. Torto e tonto no peito, sujeito a cambalear, ou sujeito a tudo o que possa vir depois que deixe de te ver: vou amargo, salgado de mágoa, tropeçando nas poças da chuva. A lavar o rosto num grito, apequenado pelo desapontamento.

Não sei mais o que dizer. Sim, já saio.

8 de Fevereiro de 2013

poema com anagrama

foto de Georgina Noronha

Sede,
quando o sol inunda e do seu rosto
a luz de um prado sereno;
nos seus lábios a humidade
de sombra e beijo;
folhas,
ramos de esplendor quando os seus cabelos
sacudindo brisas, e o pólen,
e a fragrância do sorriso;
percorrer o mundo nos seus olhos:
eu sonho e tudo claramente infinito
para um inocente desmaio
(que  a sofrer por que a paixão)
do amor assim contido;
em qualquer palavra que declame sua voz
é flauta de incenso
a purificar-me a alma.

Com ternura, ainda ela.

26 de Janeiro de 2013

tu

Doirado, por Paulo Vieira em 1000 imagens


De serenos olhos a tua ternura veio afagar-me de rosas a língua e, descendo as pálpebras numa lentidão de prazer sussurrado, deixaste que aportasse o corpo ao teu estuário, ou foi o mar de ti que fez de mim península.

Encarnamos de veludo e seda, na textura do vinho, na liquidez dos morangos, com os lábios tacteando a sede e a fome pelo interior. São folhas de trevo bravo a polpa dos teus dedos desabrochando pela encosta do meu dorso até aos ombros onde te precipitas numa falésia de falsos desmaios e acidentais gemidos.

Vieste e ainda era a sombra. Desenhaste luz em volta num intenso crepúsculo como se o verão fosse para além do efémero das estações, temperadamente quente, permanentemente animador. Trouxe-te ao acaso e, volvidos os anos, não encontrei nunca outra terra senão o pasto de feno dos teus seios.

Pois que sou cavalo selvagem em ti, perdido, assanhado, faminto desse feno. E em ti estou sempre como que de regresso de longa jornada, sem precisão para calcular nova partida.

Agora as palavras calam-se, o feno cresce. 

Tu.

Eu deixarei de importar se tu não existires.

22 de Janeiro de 2013

crónica anoitecida

Olhares.com


Chove, o que não seria novidade se não estivéssemos propensos a uns dias de sol – ainda que frios, ao rigor de janeiro – depois do que foi o fim-de-semana devastador. A mim, o temporal levou-me as caleiras da casa, encorrilhou umas telhas, e manchou as janelas de ar pardacento como se não houvesse lugar a auroras

(é estranho escrever auroras por que sempre me lembram o levantar dos dias estivais)

e a madrugada se prolongasse carrancuda pelas horas do dia.

Não vou demorar-me no frio e na humidade que têm sido estes dias. Até a legislação, o governo da nação e o estado dos cidadãos me parecem crespos como o mar em dias de temporal. E talvez, segundo previsões em nada meteorológicas, seja coisa a aguentar o ano inteiro… Mas que fazer, senão ir para a rua gritar?

Também não vou gritar. Apetece-me o sono e o conforto da cama

(é estranho escrever cama e conforto quando tanta gente por aí sem uma coisa nem outra)

ainda que venha a luz da manhã despertar para a corrida do trabalho.

Desta vez (só desta. Só desta?) não vou querer saber. Enrolo-me numa espiral térmica, e o mundo fora de mim irá precipitar-se como filme em avanço rápido, tarda nada entardece e a noite outra vez (outra vez um pleonasmo?) a assinalar que tenho de correr os estores da janela.

Será um dia que não se conta. A não ter existido.

A que vem isto, José? A que vem isto e a quem interessa? Repara como desperdiças papel: encarreiras a esferográfica numa espécie de beco sem saída e surgem rabiscos, arabescos, flores infantis, um qualquer desenho pseudo-qualquer-coisa-a-calhar-surrealista-parvo e não sais daí.

É noite. Não percas o tempo. Não o deixes que te engane. Desliga a internet, o facebook. Não te parece que lá esteja alguém e, no entanto, milhares, não é? Ninguém contigo. Tu com ninguém. Parece estúpido, e é. Desliga. Desliga o computador. Assim.

Surge o silêncio. Lê. Anoitece. Deixa que te anoiteça o sono. Talvez amanhã. Alguém. Por um bom dia

(e é estranho escrever bom dia quando não há ninguém que responda).

28 de Dezembro de 2012

doce forno, branda cozedura, pão gentio




Falar-te dos teus lábios e pecar com as tuas mãos
Anabela Maria

Acode ao gomo da minha boca, resgata-a com a saliva e o músculo de polpa da língua. Trinca-a de ternura e fervura, tempera-a de hálito ofegante. Deixa os lábios marinarem num toque leve, como se encontrando-se quisessem apartar-se com a sensação de fogo. Agita-me na voz, gutural e sussurradamente.

Perde o pudor e solta o corpo de forma a escorrer em gotas de mel sobre o meu. Aos poucos, num vagar de carícias, vou ficando em ponto rebuçado abrigado no teu doce forno. Tens o pão pronto a cozer, massa e carne e sangue que nos sacia. Com os dedos revolvo as brasas, e espreguiço o ventre sob o teu, contorcendo-se. Encontro-te. Dissolvo-me.

Vens ao abraço. Vens com cuidado para não se perder o calor. Ficas sorrindo a brincar-me com o olhar, sabendo-me nos olhos o que podia dizer os meus lábios. O quanto blasfemam as minhas mãos a lamber-te os contornos dos seios. Mostras nesse sorriso que ainda o meu toque te desperta o apetite. Entreabres os lábios e murmuras com malícia:

- Cozedura pronta, amor, mas ainda há mais fornalha a servir…



15 de Dezembro de 2012

desce a tarde em dezembro

foto de Susana Oliveira

para a Susana, para a Daniela


Desce a tarde em dezembro. Precipitaram-se as horas e o pardo das nuvens cedeu lugar à iluminação convulsa da cidade. Ruídos longínquos dos cães latindo, o ronronar dos automóveis sobre o asfalto molhado, uma palpitação urbana com a sensação de não haver humanidade no ruído, e por isso silêncio. Beberico um copo de uísque a propósito de um conforto pateta, sacudindo a solidão com o tilintar das pedras de gelo. Não saí, não vieste, não estás, não vou.

Ontem foram os teus olhos, secretamente guardando-me da noite e dos seus avanços imprudentes, enquanto caía a chuva como se um dilúvio, ou algo assim tão imensamente grave e tão profundamente medonho para que razões não me sobrassem de querer diminuir a distância de ti.

E fui dos teus olhos para as tuas mãos calmas, ternas, cuidadoras: um abrigo. Num murmúrio ininteligível de lábios por que o pudor, por que eles que não sabem, por que assim concordamos que seria. Tu ao meu lado com o mundo caducando à volta. Eles aflitos e nós em paz, a desenhar sorrisos com o pulsar do sangue.

Queria fugir dos lugares-comuns, dos clichés líricos, da verborreia bacoca. Queria um verso simples e amplo para dizer de ti. Porém são tão parcas, feias, dúbias, deselegantes e insignificantes as palavras contigo.

Demoras?
Se eu pudesse, escrever-te-ia um poema tão bonito como o último olhar que me lançaste, antes de fazeres aquela curva em marcha lenta.*

Por que, deste lado, é o olhar que já diz tudo. E tu sabes.

* de Teresa Coutinho

3 de Novembro de 2012

imagem depois de ti



A seguir caminho no intermédio da luz taciturna da tarde chuvosa e a noite vindo a descer vagarosa sobre os telhados adiantando a hora do crepúsculo. Abri o cigarro no hálito frio e a tarde encolheu-se fugidia. Soletro a calçada, pedras em granito tão velho, com destino a ti.

Volvidos foram tantos anos, Manuela, que regressar assemelha-se ao aroma de uma velha reserva de vinho bebida em balões que nos enchem as mãos. Tento imaginar se o tempo te foi cruel, cavando rugas sobre o teu rosto, pregueando a pele no pescoço, nas axilas… Se te deu sofrimento de enegrecer a alma, ou caducando a maciez que os teus olhos continham.

(abano a cabeça numa flexão para me desvanecer de tais pensamentos, a cidade pulsa, vibra, vive…)

Se o tempo te deu em esgotada da paciência de filhos, viúva do amargo da rotina.

(… resplandece a cidade: há tantos anos que aqui não vinha, a verificar a harmonia das gaivotas, os prédios grisalhos sob o céu inconstante de chuva e neblinas, o humor acre das vielas e dos becos guardados no mofo das traseiras).

Sinto que ir a ti é como descer no passado com medo de cair no presente. Vou a pestanejar memórias nossas, de sobrolho arregaçado, memórias tão íntimas, flagrantes do que eu e tu somos (ou fomos) feitos. Por cada rosto que se cruza comigo na rua é um vulto pressagiador de ti, a acelerar-me o ritmo cardíaco, alterando a maré da minha saliva, a ansiedade dos dedos. Continuarás com o mesmo semblante de triunfo sobre tudo, o mesmo olhar curioso e atrevido, com o dom de me incendiar os sentidos?

Tudo isto, Manuela, são rastilhos de incertezas, pudor sobre a desfiguração, fragmentos do medo de nada ser como era. A teimar que o tempo não é senhor de fazer estragos, de deixar permanecer o que a memória não quer atraiçoar. E isto é tudo o que tenho quando chego ao prédio tombado na frontaria de uma velhice que não reconheço, tão despegado do futuro, como se nada tivesse havido antes para que pudesse estragar o presente de inesperadas fatalidades. O hálito do varandim com o cheiro a detergente da roupa pendurada sob o plúmbeo do céu parece acertar nisso: não reconheço qualquer peça, o tempo veio aqui desmanchar memórias, que raiva. E porque não recolheste ainda a roupa, Manuela, se a noite entrou de supetão mesmo que a tarde ainda exija o consentimento do burburinho diurno, dos carros, dos rostos que passam, das lojas entranhadas de luz tosca?

É então que carrego no botão oxidado da campainha. Tento lembrar-me do teu rosto sem artifícios do tempo, como se nenhum relógio tivesse funcionado entre a última vez que nos vimos e esta agora que nada me diz particularmente, pelo menos quanto ao que veio depois disso. Qual será, ó receio meu!, a imagem depois de ti? O que te sobrou. O que sobrou de ti em mim e de mim em ti. Tudo o que não pude aproveitar e agarrar, perpetuar. O que de nós vamos enfim conseguir aproveitar, Manuela? Saberei reciclar em mim a imagem depois de ti?

A campainha soou rouca, abriu-se instantes depois a porta que vai ou vem para ou da rua. Subo, sem precipitações, também sem hesitar, porém. Serão apenas alguns degraus, que me lembre. Amparada ao corrimão gasto onde pela primeira vez soubemos beijar-nos, vens a acenar-me, entre a penumbra. Subo ainda mais, renitente

(reticente agora?)

e quando te abeiraste do meu abraço cercando com as mão o meu rosto a indagar o que foi feito de mim, não esperava que te viessem lágrimas aos olhos

(nunca te vi lágrimas, Manuela, agora reparo que não te conheci as lágrimas)

e exclamasses num preconceito de cansaço: meu deus, o que o tempo fez de ti!

29 de Outubro de 2012

em que pensas quando mordes o veludo da romã?



«em que pensas quando mordes o veludo da romã?»
                                                                (Anabela Maria)

No prolongamento do que te aflige esta noite: vieram as horas a inclinar o sol muito antes que a azáfama do dia terminasse parecendo que a madrugada pudesse nascer antes que os vizinhos sossegassem. E eu ausente, parte incerta de ti numa geografia abstracta

(eu com sede),

ausente do copo, do prato, dos talheres, da cadeira e da mesa, depois do sofá, da chávena do café, da ternura da média-luz frente à televisão muda. Ausente de um cigarro partilhado na janela.

Ausente do desfolhar de um livro, da almofada, dos lençóis. Da tua boca, das gargalhadas, do olhar quieto e demorado, do toque. Ausente dos teus dedos em mim como se me descobrisses a primeira vez, de quando te deitas delicada a exalar o hálito das flores enquanto a noite se adensa de nevoeiro

(eu com sede e fome),

e um arrepiar do teu púbis pulsando de hesitação e apelo, e a fonte aberta dos teus mamilos.

E por cada semente, ooooh, por cada semente que mordo da romã: os teus lábios que se aproximam, inflamam, a maciez da pele no caminho da minha saliva, o tremer dos joelhos, o abraço das tuas pernas no meu dorso, tu implorando com gemidos Vem, e eu mergulhando em ti, numa dissolução perfeita de mim no teu mosto, muito devagarinho, a colher o suco carmim e açucarado da tua língua. O teu beijo. O teu rosto gritando sem voz, apenas o olhar implorativo, cativo de súplica

(eu com tanta sede e guloso da fome do teu corpo).

Dentro de ti. Penso-me dentro de ti quando mordo o veludo da romã.

6 de Outubro de 2012

és como o tempo

[... Cláudia Sofia...] por Cláudio Pinto em 1000 imagens

Não me venhas agora com falinhas mansas, Benilde, que nada já consegues mudar. A decisão está tomada, não consegues compreender isso? Não, não implores, que não volto atrás, vou de tal maneira zangado que se torna tudo irreversível, sem remédio ou emenda.

Ouves a chuva? Como a manhã nasceu tão prenha de sol, até parecia que um dia estival se havia erguido do horizonte a prometer enxotar os corpos para as sombras mais frescas. Eis que, porém, se levantou repentinamente um vento zangado, vindo de leste, 

(ou seria uma voz, o mau feitio numa voz irritada, frustrada e desesperadamente rouca de raiva?)

trazendo estas nuvens, esta chuva carregada, deitando por terra planos de passeios à beira mar, ternuras de casais nos jardins, esplanadas nos parques e nas praças, ou de churrascadas no alpendre.

És como o tempo, não é o que se diz? Aprende, pois, que todos nós, sem excepção, sofremos dos mesmos humores climatéricos.

E reflecte, Benilde: ele há tempestades e tormentas, tufões e furacões. Uns mansos, outros furiosos. São tantos e tão diferentes que desconhecemos o quanto uns e outros poderão destruir o que julgáramos seguro, sem dar espaço a reclamações ou lamentos: toda uma vida, planos, concepções do mundo e da forma de estarmos nele.

Que adianta, Benilde? Segue outra via, abriga-te quando tiveres a certeza que o telhado não te deixará defraudada.

Já falinhas mansas não me convencem.

5 de Outubro de 2012

do hálito das folhas caídas e quebradiças

foto de Georgina Noronha

Regresso à inclinação parda do ocaso sob o hálito velho das folhas quebradiças ao largo pelas bermas. Daqui a nada – um, dois meses – as árvores se assemelharão a ossadas erguidas, e nós com ar de espanto a rodopiar sobre um pensamento fugaz

Já é inverno…

sem que tenhamos dado conta das chuvas miudinhas, do nevoeiro denso, da iluminação das ruas e dos autocarros à última hora de ponta. Sem que tenhamos dado conta que ansiar tanto pela sexta-feira, ou pelo fim-de-semana, ou pelo próximo dia de folga é dar muitas voltas ao relógio e então

Já faço anos…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

e isto apenas pensamentos fugazes em momentos que parecemos despertar de algo que não percebemos muito bem o que é e de onde vem, e logo a seguir continuando a ansiar pela sexta-feira, pelo fim-de-semana ou o próximo dia de folga porque trabalhar cansa para, porque temos tão pouco tempo de, porque o patrão é, porque quero estar com, porque… enfim: porque estamos insatisfeitos. Nem todos, sabemo-lo, nem todos, pois.

Vou recolhido em longas leituras. Abstenho-me de ruídos, de luz clara, e quase diria que do próprio ar se não fosse o ar necessário para respirar. Adormeço mais cedo e acordo mais tarde. Abstenho-me de ruídos não: ouço o latir dos cães, o recolher dos melros. Então depois disso, nada mais.

Ou o ruído de: a caneta pelo papel branco é um automóvel solitário pelas ruas de uma cidade deserta, como escrevi algures, mais coisa menos coisa (que importa?). Ou nem há sequer a caneta bufando: será apenas o papel branco, que já não fala e segue bocejando sempre de inutilidade. A sujar-se da penumbra. E quando eu olhar pela janela vou perceber (sem saber o que é e de onde vem)

Vê lá que já é inverno…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

enquanto na rua, logo ali mesmo à porta, a berma a decompor em lama o quebradiço das folhas caídas. 

Regresso? Talvez nunca de cá tivesse saído.

15 de Setembro de 2012

reencontro

fotografia de Rogier Houwen

Hoje é dia da boca do povo, Emília, ou do seu silêncio a contestar com o olhar posto no futuro incerto. Queremos que se mude o rumo deste país, defendem. Tu sabes, já que vês, ao contrário de mim, os noticiários na televisão e as gordas dos jornais. Descemos a avenida, ainda deserta, sob o sol de Setembro que aprendeu nos últimos anos em teimar com o verão, uma vez que é o seu último reduto. De tal forma que nem em Julho ou Agosto consegui manchar a camisola que trago do suor que transpiro agora, abafado, com a fadiga colada ao corpo,

(há quanto tempo não desço esta avenida com uma temperatura assim? Faz-me lembrar os tempos de adolescente em que…),

pesando ainda que o vinho que tomamos durante o almoço em nada ajuda para que o corpo consiga arrefecer minimamente. Dizes:

- Não tenho pachorra para manifestações, Eduardo, já foi o tempo disso, chavões e palavras de ordem, os mais patéticos cartazes, insultos aos políticos, punhos erguidos, cantorias fora de moda, gritos e histerias, diz-me lá

(e eu a notar do quanto esta avenida, aquela praça, estão despidas de árvores; vinte ou vinte e cinco anos atrás havia tanta sombra. Descíamos a avenida, entroncávamos na estação e descíamos uma das ruas para ir saciar a sede junto ao rio, onde procurávamos tremoços, azeitonas e cerveja fresca, lembras?)

- Diz-me por que, se querem tanto mudar, não pegam em armas e fazem um golpe, mas que santo ainda acha que isto vai lá com manifestações? Alguma resultou, Eduardo, consegues dar-me exemplos, ou sou eu que já estou ché-ché?

Sei lá responder-te, Emília, a mim tanto me faz desde que me encontres uma sombra para me aliviar do suor a inundar-me as costas, a sudação das tuas mãos já me repugna, não te agarres, afasta-te por favor, leva-me para um chuveiro e uma penumbra; havia dias, sabes, em que em vez de passear pela cidade

(e como podes saber se isto não era contigo?)

decidíamos ficar em minha casa, quando os meus pais e irmãos lá não estavam, abençoando-nos com a sua ausência. As persianas mal corridas, os lençóis frescos da minha cama, o silêncio da casa acolhendo lentamente a música que colocávamos no aparelho de som, bebidas frescas, tantos sorrisos cúmplices, os nossos corpos

(adorava os domingos contigo, fosse verão ou inverno, promessas de dias inteiros na primavera ou de melancólicas tardes coloridas do outono que vingava o crepúsculo mais cedo)

Calma, estamos a chegar, dizes-me, para aliviar-me do incómodo do sol. Pescas da carteira um molho tilintante de chaves, olho a frontaria  velha e granítica do prédio para onde me levas, as pombas recolhidas na cornija com esperança que o calor não lhes apanhe a tranquilidade, vejo em baixo uma esplanada de plásticos desbotados com cerveja a servir a sede de alguns aventureiros, e continuas com o teu julgamento: Pouquíssima gente, não está por aqui quase ninguém, achas que isto vai encher?, pois sim, foram é todos para a praia, com um sol destes, que é o que o povo gosta, estão todos a borrifar-se nas manifestações!

(A casa onde vivia com os meus pais, Fernanda, sem a família lá dentro, ou seja, a casa dos meus pais vazia como se fosse só nossa, como sempre havíamos de sonhar com uma casa assim, habitada pelo silêncio e por nós; lembro-me de nos despirmos do calor e saboreávamos cada sombra da casa nus, partilhando-nos como se o mundo fosse apenas nós e nosso)

Estás bem?, perguntas-me ao ver-me desesperado com o calor, Olha para o que havia de nos reservar o setembro, ahn?, e eu com o olhar distante no passado. Abres uma porta pesada, um hall de entrada cheirando a coisa velha, uma porta interior à direita, uma outra à esquerda, e em frente uma escadaria em madeira: Vamos, é lá em cima, encorajas-me,

(e como eu adorava o perfume dos teus cabelos loiros, cheiro do feno e da maçã, a maciez dos teus ombros, o rubor dos teus seios, a ternura da carne do corpo tão apelativa como um forno no inverno, tu toda beijos mordiscando-me os sentidos a acenar com gemidos o quanto o amor te dava de felicidade, e tudo aquilo me parecia tão perfeito),

subimos a escadaria rangendo em cada degrau e no primeiro patamar, rodando à esquerda, a porta com a placa em latão anunciando “Emília Prado, Psicóloga”. É aqui, confirmaste, abrindo a porta com outra chave. Há água naquele frigorífico, vai beber antes que caias para o lado,

(nós divertíamo-nos com cocktails inventados, gelo, copos de várias formas, mas a sede saciávamo-la com a pressa das nossas línguas, jovens éramos, e eu questiono-me)

- Porque diabo não paramos nos vinte anos, Emília?

(e não é para a Emília, é para ti que falo, Fernanda, porque diabo não fomos capazes de matar o tempo com os nossos corpos em êxtase, onde foi que tudo se perdeu e para onde, e porquê, afinal?)

Estás doido, o sol fez-te mal à moleirinha!, dizes-me, a abraçar-me pelo pescoço, eu tão peganhento do suor, incomodado, de regresso à tona da realidade, porque não era para ti que falava há pouco, Emília. Insinuo em silêncio para que me tires os braços de cima de mim, estou ainda cheio de calor, Abres-me uma janela por favor?, peço-te. Claro, concedes, e mal abres a janela surge uma brisa leve a arrefecer-me os braços. Chego-me ao parapeito, subo o estore, olho para baixo. Olha!, exclamo, está aqui tanta gente em silêncio!... 

Vens espreitar e ficamos aqui os dois, nesta janela alta, juntando-nos sem surpresa à manifestação a que não querias dar importância. Vejo-te sorrindo, mas hoje não é a ti que vejo, nem a ti te sentirei quando mais tarde me deres o corpo faminto,

(abro parêntesis e digo que és tu, Fernanda, com quem eu hoje quero sonhar, e fazer testemunho de que o nosso amor, apesar de tão imaturo, terá sido o mais belo que alguma vez partilhei),

porque, de vez em quando, tenho necessidade de reencontrar-me com o meu passado, Emília. E devolver-lhe a paz.


21 de Julho de 2012

natureza viva

vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens
para a Anabela Maria


A afogar-me emocionado na flor carmesim do teu corpo: as minhas lágrimas concentradas para o desabafo leitoso da haste que te segura as pétalas, enquanto a luz anuncia o intervalo entre o fresco hálito de uma madrugada marinha e a promessa de uma alvorada ainda por trás das colinas. Os teus dedos mexem como as folhas e a seiva deste caule, a tua língua ladrilhando de orvalho a sua textura de veludo, e num suspiro as pombas esvoaçando alvoroçadas com o brilho da manhã.

Deslumbras-me com os botões a enfeitar os cumes altos e largos do teu peito, bolhões de água viva provocando o fervor das minhas mãos e saciando-me a sede impaciente dos lábios que procuram o seu desabrochar. Tens a cor do musgo nos olhos, penetrada nos meus com brilho e sombra e paixão, e o perfume do tojo e da giesta na tempestade voluta dos teus cabelos a perpetuar a primavera em mim.

E quando as tuas pernas, acariciadas pela flor do trigo, me prometem o pão em delicados movimentos, já eu sou todo fera faminta de carne, farejando o teu sangue, uivando em sucessivos gritos de um qualquer ritual gentio de evocar o solstício, entregue ao vinho pisado, ao mosto, mordendo os figos leitosos. De tão ébrio de ti vou que, desequilibrado de espasmo, perco-me a semear-te no ventre toda a espuma de mim ao mesmo tempo que te entregas e te estilhaças em rebentações contínuas de onda insaciável.

Esvaneceu-se então o crepúsculo, com as asas das pombas desenhando sombras chinesas na janela. Fotografo-te com a memória: tu ainda te contorces numa ternura infantil e tão delicada de carne e pele e cheiro que arredo o efémero do momento e convido-te a retomarmos pela orla do dia o nosso corso de natureza viva.


23 de Abril de 2012

o livro diz luta e diz amizade



o livro é país e é paisagem.
a tua voz carpindo a saudade
com o olhar percorrido na viagem.
é luz e sede de qualquer verdade.

o punho exaltando a coragem
do povo que habita a cidade.
ponte para qualquer margem,
entroncamento e profundidade.

é o pensamento com a voragem
do desejo de abraçar a eternidade.
é sombra, o passado, a imagem

de todas as palavras, a idade
que se conquista na passagem:
o livro diz luta e diz amizade.

14 de Março de 2012

balada para Gabriela

foto de Georgina Noronha

Ergue-me um mundo novo, Gabriela, que eu já vou morrendo neste por ti, a alfinetar desgostos e frustrações nas frinchas que as paredes à minha volta vão abrindo, solícitas, pacientes e acolhedoras dos tremores com que vivo.

Vem um vento, manso e quase morno, desarticulando-te o penteado em suavidade, e eu desperto ronronando como felino, num espreguiçar atento ao movimento perfumado da tua melena. 

Eu, que queria morar nos teus lábios como quem encolhe o rosto numa ternura infantil, amordaçado continuo sobrevivendo nos sonhos onde supostamente me pertences, embora em redoma e inalcançável como os santos a quem se reza por mistério. Desvias o arrepio da tua pele sensível à primavera imberbe da polpa dos meus dedos, tão desnivelada quanto ao que sinto, que me questiono se é na mesma latitude que nos vemos, ou se serás espectral aparência de quem tanto deseja. 

Poderia simplesmente dizer-te o que quantos amantes dizem às suas amadas em afã epistolar. Mas por onde vai o mundo, Gabriela, que enredo possível para que pudesse sentir a tua mão cruzada na minha, como os amantes e suas amadas fazem? Fiquei a duvidar - confesso que duvido sempre - por segundos, mas ainda fui capaz de te chegar com um sorriso atrelado a uma esperança muito pequena e – bem sei, Gabriela – insignificante. Desse sorriso, porém, não te abala a lembrança, encostada que segues sempre na distracção por todos os cenários possíveis da nossa eventual trágico-comédia a roçar o mau gosto do cinema romântico nascido em hollywood. 

E, apesar de tudo, e de tanto isso que fazes e insinuas que me põe a tremer como varas perdidas de insegurança, apesar de estar de costas para a verdade, se me abrisses assim os braços como ao mundo os abres, e devolvesses a luz de um olhar mais cúmplice, poderia então jurar-te, Gabriela, que venceria o mundo por ti.

31 de Dezembro de 2011

a moral, segundo o marido da Adelaide


Adelaide? Já cheguei. Está um frio que não se pode andar na rua. Toma, aqui estão os comprimidos. Agora ouve isto que se passou há pouco comigo: quando entrei na farmácia estava uma senhora, talvez com a tua idade, não sei, hoje olhamos para os rostos das pessoas, pensamos tem idade tal, mas afinal vem a saber-se e são pessoas bem mais jovens que nós; essa senhora na farmácia estava num pranto sibilante, não se lhe ouvia a voz, apenas o ar entre dentes a escapar-se numa convulsão que a pobre não podia mais conter. Queria aviar uma receita e não tinha dinheiro suficiente para pagar os medicamentos de que precisava. O senhor da farmácia dizia não poder fazer nada. E a senhora ali, a soprar as lágrimas, de porta-moedas aberto, com a mão agarrada ao saquinho dos medicamentos, enquanto o homem da farmácia, sem modos, tentava arrancá-lo da mulher. Não posso fiar, minha senhora, dizia o homem, eu apenas trabalho aqui, se lhe deixo levar os medicamentos sem os pagar habilito-me eu a ficar sem o trabalho e tenho filhos a sustentar; vá, quando tiver dinheiro regressa cá.

Sabes como é o meu feito… Se não rosnei ao farmacêutico é porque não nasci com vocação para cão, nem fero sou, como me parecera que ele estava a ser. Nem um pingo de simpatia, percebes? Vai daí que eu perguntei, Olhe lá, e ele olhou, com ar de despeitado, como se já soubesse que o ia afrontar, Então se a senhora precisa dos medicamentos e não tem dinheiro para os levar, não há qualquer forma de resolver isso, e se você diz que só trabalha aqui, chame lá alguém com responsabilidades, o dono da farmácia, o gerente, alguém que possa atravessar-se.

E nisto, um ronco de automóvel vindo da rua fez-me calar e olhar para fora. Era uma mulher que estacionava em frente um destes automóveis topo de gama, todo metalizado e estofos xpto. Outro senhor que estava já de saída tanto se admirou com aquilo que até disse Foda-se que o caralho da velha quase que se estampava contra o carro da frente. Voltei-me para o balcão e insisti, Vá homem, chame lá alguém, e entretanto é a minha vez de ser atendido, por uma rapariga bonita e simpática, e eu sempre na minha, Menina não está aí alguém que possa ajudar esta senhora?

Pois simpática como era, e perante o olhar de reprovação do colega, disse A senhora não pode pagar, não tem dinheiro nenhum?, perguntou, e a senhora não saia daquele silvo, sem largar a saquinha dos remédios de que entretanto o trombudo desistira de tentar reaver. A pobre com o porta-moedas aberto e vazio a doer-lhe na alma, com uma nota de cinco e mais uns trocos sobre o balcão. Queria falar, mas sempre que tentava, era só o silvo, talvez um nada de murmúrio, de quem chora mesmo muito baixinho. Oh menina, disse eu, veja lá o estado da senhora, só tem esse dinheiro que tirou, não está cá o responsável pela farmácia? Está mas não pode atender, se a senhora não tem dinheiro não pode levar os medicamentos, isto aqui não é uma mercearia, comentou o sujeito. Esse sim, deve ter nascido com vocação de fera, uma besta, de tal maneira que se ouvia o ranger dos dentes, como se lhe estivessem a roubar, ou algo assim.

Entra nessa altura na farmácia uma senhora ainda mais velha que eu ou tu, mas muito bem composta de roupa, cabelo arroxeado, a cheirar a pó de arroz antigo, deixando escorregar da dentadura um boa tarde altivo e arrastado. Tinha-se colocado ao lado da mulher que chorava, e quando disso se apercebeu afastou-se muito ligeira para o canto do balcão como se tivesse visto um bicho. Era a tal velha do ronco do carro. O cretino do funcionário foi logo atendê-la, todo servil, devia ser cliente habitual pois sabia-lhe o nome e perguntava Como está os netinhos, e a senhora tem passado bem?, e em que posso ajudar-lhe, dona-não-sei-quantos, não fixei o nome da criatura.

Entretanto, a menina que viera para me atender foi lá dentro chamar uma tal doutora, dona da farmácia, ou lá o que é. Regressou anunciando que a Sôtora vinha já, para esperar um pouco. A senhora que chorava acalmou, tirou um lenço da carteira e assoou-se. Eu pedi os teus comprimidos e a menina voltou novamente para dentro. O outro estava a mostrar uma gama de produtos de beleza, uns cremes quaisquer, para a velha do carro escolher. Ouvia-a a dizer, no mesmo tom arrastado, parecia que não sabia abrir a boca para falar, Ai este não, que horror, tem um cheiro péssimo, veja-me aquele ali, quanto custa? É mais caro, dona não-sei-quantos, setenta de dois euros, Olhe, respondeu a velha, mais vale dar mais do que andar a colocar porcarias na pele, andei a comer bombons no natal e veja a desgraça, tenho o rosto todo cheio de borbulhas.

Ó Adelaide, então uma velha daquelas, lá porque comeu bombons enche-se-lhe a cara de borbulhas, como se fosse uma rapariga com as hormonas a saltarem-lhe no sangue? Está bem que pode ter alguma alergia, mas não é com cremes para a cara que se cura… Demais não se lhe via nada no focinho que não fossem rugas e pó de arroz ou lá o que ela trazia na cara, os lábios sumidos com um risco de baton e os olhos todos sujos dessa coisa do rímel. Haja paciência.

A senhora sem dinheiro suficiente, tendo secado as lágrimas, estava agora inquieta e murmurava, Ai meu Deus se não me dão os remédios do meu menino, ai meu Deus se não me dão os remédios do meu menino. O outro, registando a compra dos cremes da velha, ia olhando de soslaio para a que murmurava, com um ar vigilante, talvez pensasse que a pobre da mulher corresse a fugir sem pagar e ele, coitadinho, ficasse sem emprego. A menina regressa com os teus comprimidos, enfia-os numa saquinha, faz a factura e eu pago. Ao mesmo tempo ia a pagar a velha de cabelo armado e roxo, e nisto ouve-se-lhe um gritinho. Afinal sempre abria a boca. Ficou aflita porque não tinha dinheiro com ela quando o jeitoso lhe informou que não podia pagar com o cartão porque o multibanco estava com avaria. Não se preocupe, dona não-sei-quantos, amanhã ou depois quando cá passar paga, disse ele à velha. Eu então cruzo os braços de protesto e ia a falar quando a menina que me tinha atendido voltava do interior da farmácia

(foi lá dentro a meu rogo, depois de lhe ter pago a minha conta, Veja lá se a senhora doutora vem atender esta senhora, coitada. Esta continuava impaciente e a murmurar a mesma ladainha Ai meus Deus se não me dão os remédios do meu menino).

Estava a dizer o quê, Adelaide? Ah, sim, ia eu a protestar pelo facto da velha poder pagar depois os cremezinhos da cara para as borbulhas, enquanto que a senhora não podia levar os medicamentos que soube depois era para o filho, de onze anitos, vê lá, não te disse que a gente vê caras e julga tens esta idade e afinal são mais novas do que parece? Que triste que isto é… Então a menina tinha voltado com o recado da doutora da merda, a dizer que infelizmente não se podia fiar, que voltasse quando tivesse o dinheiro certo, talvez se levasse apenas um dos medicamentos, isto já era a simpatia da rapariga a falar, mas a senhora desata a chorar desta vez convulsivamente e quase gritando Mas o meu menino tem de ter os dois, um sem o outro não faz nada, oh meu Deus, oh meu Deus, eu recebo pouco, acabei de pagar a conta da luz e só me resta isto, oh meu Deus, oh meu Deus.

Então que vem a ser isto, caramba, exaltei-me eu, se aquele museu pode levar os cremes sem pagar porque não podem fazer o mesmo com esta senhora, então não se está a ver que ela precisa dos medicamentos para o miúdo? O senhor acalme-se, disse o empregado furioso, aquela senhora não pagou mas vai pagar, já é nossa cliente há anos, faz favor de ter respeito. Oh homem, atalhei eu, meta a cliente por um sítio que eu cá sei, e não me fale em respeito que tenho idade para ser seu pai, seu badameco, falta de respeito pelo próximo é que o você tem, então não vê que esta pobre senhora tem mais necessidade do que o mamarracho que você atendeu antes? Minha senhora, virei-me para a mulher que chorava, tenha calma que vai levar os remédios, ó menina, veja-me lá quanto é que isto é. Se o senhor quer pagar isso é consigo, mas advirto-o que não fala assim nesta farmácia, disse o tipo. Cale-se homem, ordenei eu, ou nem sei que faça, e nisto agarrei num boião de batons para o cieiro que ali estava à mão de semear para lhe atirar à tola. A rapariga é que acalmou os ânimos, Vá não é preciso nada disso, Ó António vai para dentro que eu trato do assunto, o senhor quer então pagar? Sim, respondi convicto, esta senhora não sai daqui sem os medicamentos. Muito bem, são sete euros e dez cêntimos.

Olha, fiquei para a minha vida. Afinal a diferença era pouco mais de um euro, com o dinheiro que a senhora tinha, era o que faltava pagar. E o badameco mais a doutorzeca de chacha não podiam fiar um euro à pobre, mas a outra, toda pintada como um palhaço, lá porque conduz uma bomba, já podia pagar setenta euros depois, vê lá tu. Abanei a cabeça em reprovação, e paguei os medicamentos da senhora, sete euros e dez cêntimos. Vá com Deus, minha senhora, e as melhoras do seu menino. Ela ainda quis dar-me o dinheiro que tinha, quase seis euros somando os troquitos, mas não aceitei. A mulher lá saiu da farmácia, entre um choradinho e obrigados constantes, sempre agarrada à saquinha com os medicamentos do filho

(contou-me por alto a história do miúdo, entre soluços, quando eu efectuava o pagamento).

Antes de sair da farmácia, que não tinha mais clientes, virei-me para a rapariga que tão amavelmente me atendeu e disse-lhe Olhe que não é por si, que sei que a menina é gentil, mas pelo seu colega e pela sua patroa, lamento muito, mas já cá não venho mais. Não é caso para tanto, ainda defendeu ela, e eu rematei, É menina, isto não se faz, desculpe o incómodo e por me ter exaltado há pouco, mas vou e não volto, sou um homem de princípios, não gosto de ver as pessoas maltratadas como vi hoje aqui, muito boa tarde e felicidades para si. E saí. Não volto lá, não.

Mas não acaba aqui. E agora não vais acreditar, Adelaide. Dez metros adiante da farmácia tem a paragem do autocarro, antes de virar aqui para a nossa rua, não é? Pois. Vou a passar, ainda remoído de indignação pelo que tinha sucedido, e vejo a senhora dos remédios para o filho. Encostada ao vidro da paragem a fumar. A fumar, repara. Enfim. Ainda olhei para ela, bem nos olhos, ela olhou para mim, e baixou o olhar, continuando a fumar.

Olha, fiquei mais uma vez para a minha vida.

19 de Dezembro de 2011

para um santo natal


Ligaram a televisão num daqueles programas ridículos de variedades, em o que varia são os nomes dos artistas

- Vanessa, Xuxas e Picadelas, Maria Cândida, Os Anfitriões, o Grande Mágico Godofredo, e o conceituado humorista Ferdinando

e aquilo que fazem é sempre a mesma coisa, cantando melodias melosas de amores traídos ou sucedâneos de amor à mãe e ao pai e aos filhos, e às estrelas que há no céu, o mágico atrapalhadíssimo com o monte de lenços que lhe sai da algibeira mais o comediante com piadas soltas sobre personagens da política e da tv, enquanto eu, e outros como eu, estendidos sobre camas articuladas, entubados pelas veias e pelo nariz, com um olhar como que pedindo

- Alguém desliga a televisão?

e no entanto,

- Senhoras e senhores convosco a cantora Vanessa

e salta para o palco inundado de cor e luz uma rapariga com as coxas quase nuas, um enorme decote ao peito, e nisto uma máquina apita, há um corrupio de batas brancas e amarelas, ordens para aqui e acolá, as enfermeiras tontas

- O doente da cama trinta e um

correndo na vã intenção de salvar o velho que agoniza com a cantora Vanessa; e momentos depois um lençol sobre o rosto do velho, as enfermeiras abandonando o burburinho e sossegando os outros doentes

- Vá calma, sosseguem, nada se passou

e nós a vermos passar a maca para cá vazia, para lá com o corpo ainda quente do velho que fez a máquina apitar; de modo que eu, que nunca acreditei em magias, agonizo num impaciência implorativa

- Alguém desliga a televisão?

e no entanto,

- E agora o momento de magia com o Grande Ilusionista Godofredo, o vosso aplauso

eu com tubos enfiados nas veias e no nariz, e uma máquina ajudando-me à respiração, outra calculando a sua vez de apitar, ouvem-se as enfermeiras comentando

- Quase na hora da visita, vejam lá que espectáculo não ia ser

por isso, já não

- Alguém desliga a televisão

mas

- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?

Chega a hora das visitas e lá vêm aos pares os meus familiares, primeiro a minha esposa com uns olhos de quem já não dorme há dias, com o meu filho mais novo a querer sorrir para mim, mas no seu sorriso murcho eu ouço

- Vais morrer, pai?

eu ouço

- Não quero que morras, pai

e a minha mulher especulando as esperanças

- Qual morrer, ninguém vai morrer, que ideia é essa?

apesar de ela também um sorriso apagado, esforçado demais, deixando escapar

- Não morras Manuel

eu ouvindo

- Ainda precisamos de ti Manuel.

É Dezembro, a alguns dias do Natal, alguns doentes cochicham com as enfermeiras qual de nós os cinco da enfermaria poderá ainda passá-lo em casa, atitude misericordiosa no regulamento do hospital para quem está na fase terminal, apesar de se não poder tocar no bacalhau, no bolo-rei, numa rabanada, nem um figo seco sequer

(afinal porquê adiar o termo disto tudo com tais prescrições?),

a televisão

- Não perca a seguir a segunda parte, estão cá as Xuxas e Picadelas, fique na nossa companhia

e eu

- Alguém desliga a televisão

a minha mulher mostrando-se animadíssima

- Hoje vocês têm cá televisão, já viste Manuel, que rico programa

e eu

- Alguém desliga a televisão

ou seja

- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?

a minha mulher sem entender patavina do que eu digo, debruçando-se sobre os meus lábios para ouvir melhor,

- Desligar o quê?

e eu farto, ficai sabendo, eu farto de estar aqui estendido entubado só porque alguém segreda como que fazendo apostas

- Será que o Manuel pode ainda passar o Natal a casa?

rematando

- Será o último que passa, coitado

de modo que eu farto das tubagens enfiadas no nariz, incomodando-me, farto do tubinho que pinga soro e drogas minuto a minuto, hora a hora, teimando com a televisão ligada

- Cá estamos de novo para a segunda parte

e eu fartinho, fartinho de tudo, farto de ver os olhos do meu filho mais novo implorando

- Não morras pai

das visitas de duas horas que ajudam a prolongar este sofrimento pateta, só porque ligado a uma televisão,

perdão,

a uma máquina que espera a sua vez de soar um piii contínuo, alertando as enfermeiras

- O doente da cama vinte e nove, depressa.

As visitas revezam-se, entra a minha filha, mais velha, acompanhada pelo meu genro que julga que eu nunca fui com a cara dele, eu que nunca o tratei mal, eu que sempre o recebi bem lá em casa, eu que nunca coloquei qualquer entrave aos namoros da minha filha, nem ao seu casamento, nem ao aborto que fez antes de casar, mesmo que tivesse algo contra a dizer, que me importa agora isso, para quê o olhar dele desconfiado a pensar

- Ainda não morreste tu?

eu apenas quero a televisão desligada, e a minha mulher

- Vais passar o Natal a casa, Manuel.

Passar o Natal a casa para quê, se eu todo tubos, querem lá ver que me vão enfiar o bacalhau, o bolo-rei, a rabanada, o figo seco pelo tubo dentro, sem necessidade de passar pelo esófago, pelo estômago, tudo pelo tubo que me alimenta de soro e drogas, eu à mesa olhando com as órbitas a saltarem do rosto para o pinheirinho de luzes tresloucadas, com uma melodia pateta, enquanto a máquina não se chega à frente de todos os sons e melodias com o seu piiii constante, deixando toda gente apavorada

- Não entubem mais bacalhau

sem enfermeiras para acudir

- O doente da cama vinte e nove

a minha mulher intrigada

- Desligou-se o quê?

Por isso, livrai-me lá do Natal, deixai-me morrer do cancro que me consome o corpo, do cancro que não dá descanso a estes tubos e a estas máquinas que se tornam orgânicas com cada doente que sustentam, assistindo igualmente ao espectáculo ridículo onde

- E agora palmas para a fadista Maria Cândida

os tubos e as máquinas pedindo

- Alguém desliga a televisão

ou

- Alguém nos desliga deste cancro?

Mas não, eu fartinho, e eles, a minha mulher, o meu filho mais novo, a minha filha mais velha com o meu genro desconfiadíssimo

- Ainda não morreste tu?

(e eu que nunca lhe fiz mal algum)

a insistirem que as máquinas ligadas, que enquanto há vida há esperança, que vamos ter um Santo Natal, depois da missa do galo a televisão ainda vai passar Música no Coração, e o meu coração sem música qualquer, esperando apenas o monocórdico tom piiii constante da máquina teimosa quanto a televisão que ninguém desliga, como se o espectáculo

- Convosco os famosos Anfitriões

fosse o soro com as drogas que me vão agarrando a uma vida que, se nunca teve sentido, qual o sentido dela agora, senhores, vá lá, peço-vos

- Alguém desliga a televisão?

não me olhem com a vossa piedade e o vosso egoísmo, com o vosso medo de perder o marido, o pai, o sogro,

(- Medo eu de perder o meu sogro? Não!)

com o vosso medo de sofrer, abram-me esses olhos e queiram ver, senhores familiares, senhoras enfermeiras, quem sofre sou eu, porquê prolongar-me a vida com estes tubos e estas drogas?, para evitar a vossa dor, querida família?, para evitar a vossa frustração profissional e a falta do vosso código ético, cara equipa médica?, para quê tudo isto, para quê uma televisão ligada, quando eu, e outros como eu, implorando

- Alguém desliga a televisão?

E no entanto,

- Para terminar, senhores telespectadores, é momento de rir com Ferdinando, o rei das anedotas.

Não. Estou farto. Cansei-me. Não quero mais. Os tubos incomodam-me no nariz, mal posso mexer-me, que miséria esta de querer urinar e chamar uma enfermeira para nos enfiar debaixo do cu a aparadeira, ainda bem que os intestinos só gases, ou uma aguadilha que se confunde com a urina, senão que miséria maior, senhores, vá, alguém desligue a merda da televisão e aproveite o jeito para retirar-me os tubos, deixar com que a máquina enfim suspire o seu piii constante, já vão para o telejornal, pode ser que o apresentador

- O doente da cama vinte e nove

Peçam desculpa à minha mulher, digam-lhe que afinal foi tudo desligado, peçam perdão ao meu filho mais novo porque isto toca a todos e agora toca-me a mim, peçam desculpa à minha filha mais velha por não lhe ter dado mais atenção e descansem o meu genro que acha que eu nunca fui com a cara dele, apesar de eu sempre de braços abertos, peçam desculpa aos médicos por não aguentar mais o código ético, e por favor

- Alguém desliga a televisão, me tira esta tubagem e me desliga das máquinas?

Assim, ficamos todos bem, sofre quem tem ainda saúde e forças para sofrer, que eu cá me arranjo, com o lençol tapando-me o rosto, sempre menos incomodativo que os tubos no nariz. Vá lá, façam-me esse favor e não me chamem a mim egoísta. Apenas quero descansar, por isso, uma vez mais imploro, deixai-me morrer e tenhamos todos um Santo Natal.