18/11/09

era novembro e chovia



Era Novembro e chovia. Na pequena aldeia, as principais ruas eram iluminadas por um brilho amarelo e tímido das lâmpadas plantadas de longe a longe. Como se as tivesses tirado do sótão e pendurado nos postes magros

(lembras-te do sótão concerteza, vinham as noites quentes de verão, levavas-me lá acima para ver o céu estrelado e dizias

- Um dia compro-te um telescópio e ficamos os dois aqui a ver as estrelas de perto

mas nunca isso aconteceu, sabias lá o quanto te custaria um telescópico… tinhas sonhos a mais para um homem da tua condição e isso matava-te, matava-te tu saberes tanto e poderes tão pouco).

Uma dessas luzes amarelas e fracas brilhava uns metros depois da casa, conseguíamos vê-la da janela húmida que a mãe corria a fechar-nos ao mundo, com as suas portadas desengonçadas e velhas, quando chovia

- Não quero que ninguém se constipe, não há dinheiro para comer quanto mais para remédios e xaropes

e ainda assim, apesar de todos os seus cuidados, eu acabava por adoecer mal o frio chegasse à aldeia, com febres e delírios, a mobília crescia e diminuía, transformava-se, as vozes falavam-me estrondosas como trovões, mas se me esforçasse um pouco mais a concentrar-me, eras afinal tu que recolhias a casa, deixavas os três porcos que nos restavam no aido, roncos de suíno, chicotadas,

- Eh porco!

ralhando e praguejando com os animais, mas no fundo eras bem capaz de te deitar com eles, no chiqueiro, eras capaz de os confundir com os camaradas que jogavam contigo o dominó ou a sueca, na adega do senhor Manel. Lembro-me da mãe muitas vezes me dizer

- Fica aqui quieta, não abras a porta

e quando julgava eu que me tinham abandonado para sempre, a porta abria-se em soluços, e entravas tu, empurrada pela mãe, o teu cotovelo a desarmá-la, fazias aquele teatro de tentares ficar sóbrio para que eu não reparasse e murmuravas

- Não deixes que a miúda saiba

e a mãe, sem baixar a voz

- Não tivesses bebido

e tu, ainda murmurando

- Fui na maré

e a mãe, elevando cada vez mais a voz

- Um dia afogas-te.

Vinhas cambaleando sobre mim, eu por vezes receava, não que me batesses, a mim nunca o fizeste, mas porque parecias um desses móveis transformado em monstro que aumentava e diminuía consoante as febres e eu fugia-te

(e como te magoava o meu medo, o porquê de te fugir, a tua filha que te fugia).

Só então é que erguias o punho, como se a mãe tivesse culpa do meu medo, do teu delírio e, ainda que desses apenas uma vez, a mãe no outro dia havia de se desculpar às vizinhas com uma queda, um tacho que caíra do armário, para justificar aquela nódoa, aquele olho inchado. Por vezes choravas, dizias que tinhas matado, esventrado, e eu imaginando-te lá por África matando e esventrando porcos, como sempre fizeste desde que me lembro cá em casa. Nunca compreendi que turras eram esses, nunca compreendi os comunistas que nos comiam ao pequeno-almoço, se calhar os comunistas móveis transformados numa febre, nunca compreendi as tuas lágrimas, assim como nunca compreendi que numa dessas noites de Novembro, em que chovia lá fora, e não se viam estrelas, o sótão estava fechado até que fosse verão novamente, e ouvi a mãe gritar

- Ai Meu Deus, Ai Meu Deus

fazendo alarido àquela hora tardíssimo, ela que detestava que falasses alto quando fazia noite, a mãe que te fora buscar porque fazia horas que não saías da soturna adega do senhor Manel, boteco escuro que apesar dos rebuçados coloridos que o dono me oferecia constantemente, me dava arrepios lá entrar. Não fosse ele ser teu companheiro lá em África e me comprar com doces para eu entrar naquele cubículo a tresandar a vinho e a aguardente, fugia dali a sete pernas, porque sabia que mais tarde ou mais cedo tu sairias de lá e quererias ficar a dormir com os porcos

- Eh porco!

E foi numa dessas noites: a mãe encontrou-te estendido na lama dos animais, de bruços, e quando te virou o corpo, viu-te os olhos baços, tão baços quanto a lâmpada amarela que iluminava a rua, e a tua boca aberta

(eu não sei, não vi, ela é que dizia)

lamentando as desgraças que por África dizias ter semeado.

31/10/09

mais um cigarro


(autor desconhecido)


Alguém deve ter-se insurgido contra a ansiedade e a angústia: pelo chão viam-se espalhados vários cilindros esmagados de cigarros que nunca foram acesos, e eu a questionar-me olhando à minha volta sobre quem terá sido o felizardo de tão alegre proeza: matando a fome depois de morta a angústia. Não avistando ninguém pulando de contentamento por ter deixado os grilhões, louvando guinchos à sua liberdade

(na verdade as pessoas que se cruzavam ali comigo naquele sítio semeado de cigarros nunca fumados nem um sorriso de contentamento concediam, todas fechadas como o céu se fechava sobre as nuvens que ameaçam e nunca chove, as pessoas levam as negras nuvens dentro de si, não as deixam à entrada da porta de casa, sentam-se com elas no sofá, analisando as contas da frutaria, do talho, da padaria)

não vendo ninguém, dizia, atirando ipirangas ao desbarato como quem lhe calha a sorte grande, duvidei dos cigarros esmagados, e segui o meu caminho, com as contas da minha vida em nuvens que nunca chovem.

Podia ter dito

- Isto fica por aqui

mas sabia que mais tarde ou mais cedo regressaria àquele ponto em que a esperança ainda maior que todos os tormentos a tentar convencer-me que afinal se alguém tinha tido a coragem de despedir-se e ir embora de si mesmo sem olhar por cima dos ombros, não seria ninguém que fosse ou tivesse mais que eu e portanto a minha esperança também, o meu dia aproximando-se quem sabe, talvez os cigarros atirados no chão um sinal de que consegues, também és capaz

(a quantas pessoas com as nuvens carregadas dentro de si lhes é concedida a sorte grande, diz-me lá, de um momento para o outro toda a gente enriquecendo, vaporizando as contas da frutaria, do talho e da padaria agora sem qualquer significado?)
e no entanto, os meus cigarros ali em cima da mesa, apertadinhos dentro do maço, acendo um e podia ter dito

- Isto fica por aqui

mas ainda que a angústia maior porque as nuvens quase a chover dentro de casa, sobrecarregadas com as sombras dos cantos onde me encolho de lágrimas e cinzas a juntarem-se-lhes

(as pessoas quando nascem tristes e aprendem a vida entristecendo podem morrer vendo as cores de uma alegria eternamente prometida?)

ainda que a ansiedade não desse sinais de se ir embora, eu convencido de signos divinos, de dádivas ao acaso espalhadas na ruas prometendo

- Olha que ainda é possível

de cigarro pendurado nos lábios sem querer saber nada das contas da frutaria, do talho, da padaria

(da farmácia, as pessoas carrancudas ficam que horas olhando as contas da farmácia).

E vendo bem, os céus até são benevolentes com este estado de espírito surgido do nada como acontece aos náufragos ao avistar palhinhas boiando na água

- É a minha salvação

e por isso deixo as nuvens e as sombras entenderem-se como quiserem, se lhes apetecer que chovam, o que vejo são raçadas de sol inundando a varanda como um chamamento e é para lá que vou, dizem que a luz

(as pessoas na rua vão como cegos aos tropeções, caminham dentro de uma escuridão, onde está o interruptor para as fazer felizes um pouquinho, ninguém está a pedir a sorte grande, basta a terminação, qualquer coisa para que se esqueçam das contas, de alguns cigarros poupados, as pessoas juntando-se na harmonia do fim da tarde)

dizem que a luz sinal de esperança, devemos de ir ao seu encontro, abandonar definitivamente a morte e crescer dentro de uma claridade vedada às nuvens negras que nunca chovem

(mas afinal as pessoas mortas sem o saberem?).

De maneira que antes que o sol se vá, é para a varanda que me dirijo na tentativa de sentir qualquer coisa diferente, apartado dos cigarros e do que eles significam

(outras nuvens que nunca chovem, estas definitivamente não chovem).

Na varanda, eu e as pessoas que vieram comigo em harmonia procurando o milagre da luz, vemos o sol a tombar no mar, e as casas tombando também, no sentido contrário, com as sombras dos telhados sobre os outros telhados, alongando as paredes e os espectros das chaminés como se viessem a crescer com a noite e depois da penumbra imposta, nada, desaparecem. O que sobra? Desconsolo, desilusão, desconforto? Frio, obviamente que frio.

Não compreendo como alguém poderá ter espalhado os cigarros pelo chão, não é sinal algum, é tudo mentira, as nuvens aproveitaram a penumbra para virem chover e nada, não pinga nada. Não pinga nada e nem um fósforo se acende para que, no mínimo, pudéssemos compreender as contas da frutaria, do talho, da padaria e da farmácia. O melhor é acender mais um cigarro, dizem

(ou digo eu apenas?)

que a ansiedade e a angústia são como as feras: têm medo do fogo.

28/10/09

não me entendo


Silence..., por Carlos R em 1000 imagens


Sinceramente, não me entendo. Não chego a conclusão alguma sobre isto que sinto. Batalho todas a noites com o travesseiro moído de insónias enquanto a minha mulher dorme a meu lado na sua paz inocente. Observo o seu sono, noite após noite, e encanto-me: a quietude do corpo, o cabelo espalhado, as pernas nuas espreitando dos lençóis numa lascívia ingénua, as mãos repousadas perto do rosto. Os lábios entreabertos como que à procura de um beijo, revelando a doce brancura da dentição. Orelhas pequenas, nariz atrevido, pequeníssimo. É bonita a minha mulher, e isto deveria ser maior que todas as razões para as minhas insónias, às voltas no colchão, sem me entender. Sem chegar ao porquê que isto aconteceu. Viro-me para o outro lado, talvez envergonhado porque o pensamento

- Inês

vai contra tudo o que construí até hoje; o meu filho dorme também o seu sono inocente no quarto ao lado, embarrilado pelos legos, pelos carros em miniatura, livros e puzzles, jogos, dvds e toda essa nova tralha com que os miúdos de hoje se divertem por um dia para no outro quererem outras bugigangas semelhantes. O meu filho

- Pai, queres brincar comigo?

e eu magicando-lhe no rosto outras parecenças que não as da minha mulher, eu magicando

- Inês

enquanto ele espalha um enorme saco de peças para construir um avião, uma nave espacial, brincando afinal sozinho porque eu longe, com uma peça azul na mão e o pensamento num outro espaço, numa realidade que não a minha, o meu pensamento chamando

- Inês

chamando por aquilo que não é, o meu pensamento acovarda-me chorando silencioso sobre o meu próprio ombro, de resto com imensa piedade de mim mesmo, pobre coitado de mim; isto é uma pieguice pegada, um nome, um nome apenas que me desliga do mundo em que vivo

(como se regressasse à adolescência, com as gangas roçadas e fralda solta, procurando a novidade nas raparigas que se aproximavam de mim

- Rita

explorando com a mão a descoberta de um seio imberbe, sonhando molhado com o nome

- Rita

ou seja agora

- Inês)

virado para o lado de lá da cama, virando costas ao corpo repousado da minha mulher, com vergonha, eu com vergonha de pedir

- Queres brincar comigo?

e a peça azul colocada na mão como por acaso, olhando nas feições do meu filho uma outra ascendência, não a da minha mulher, mas a de um nome

- Inês

e no entanto é a vozinha dele que me apela, desembocada numa decepção

- Pai brincas ou não comigo?

e eu virando para o outro lado, sem largar o estranho objecto azul; eu com vergonha do meu filho cujas feições as da minha mulher.

As pernas da minha mulher espreitam do lençol numa inocente lascívia, os lábios entreabertos na procura de um beijo, e se queres um beijo é um beijo que te dou, Inês, beijo-te a boca com a sofreguidão de um aflito, num sufoco de náufrago, porque se me afundo é contigo que afundo tudo, os legos, o lençol que encobre lascivo as pernas da minha mulher, as feições desfiguradas do meu filho

(acordando em sobressalto porque sonhava que o meu filho)

e agora porque me apareceste assim, vinda não sei de onde e para quê, agarra nesta peça azul com que construo o avião para o meu filho e sê tu a ver nele as feições que gostarias que um filho teu

(sonhava que o meu filho sem feições, sem rosto, desconsoladamente decepcionado porque eu de costas voltadas, o meu filho sem perceber

- Pai então já não brincas comigo?)

um filho teu ditado pelos meus genes, mas não é este, este não, vieste para mo destruíres, vieste como um vírus que se instala, ou uma droga que ferve nas minhas veias nestas noites de insónia, com o pensamento às voltas na cama, moendo o travesseiro com o teu nome

- Inês

molhando-me os sonhos com as tuas pernas de pérfida lascívia, a tua boca escancarada sobre o meu rosto arrancando-me os beijos que ainda não soube colocar em ti, colocar-me em ti

- Pai brincas ou não?

e ter um filho cujas feições morrem no azul de uma peça com que adormeço, como o náufrago se agarra a uma coisa qualquer enquanto se deixa ir para o mais profundo do abismo

- Inês

Inês o caralhinho a sete, sabes? Sinto-me tão cansado com esta luta pateta… Chegar-me-ia

(chegar-te-ia)

consumir esta coisa que me amedronta com um simples abraço? Sem que me mordas as orelhas ou afundes os teus dedos dentro das minhas calças

(a fralda de fora, e as gangas roçadas, onde estão as pernas, que é feito dos braços, Rita?)

num abraço longo para me apaziguar, libertador, sentir-me por inteiro e não dividido, um abraço que se impusesse como o derradeiro? Que posso fazer, que devo fazer? A sério que não sei, que não me entendo.

18/10/09

o eterno lugar-comum do efémero

Le sommeil, por SaMY em Olhares


Contigo a contar as horas, e depois das horas os minutos que sobejam no tempo a dilatar-se nos nossos gestos tentando fazê-lo render e tudo porém acontece ao contrário quando dos preliminares

(poemas lidos, dois copos de vinho cúmplices, o tremelique dos olhares quando o silêncio em vez de nós, incendiando-nos de desejo)

ao êxtase, e deste à morna massagem dos corpos com picos de ternura nos sorrisos cúmplices do mesmo silencio já não incendiando, e a janela apagando devagarinho em movimentos de sombra e luz alternadas consoante a passagem do sol rente à altitude dos prédios e das árvores que o vão eclipsando, o sol por sua vez a seguir o ponteiro grande do relógio da natureza guardando-se da noite recolhido para lá do horizonte.

Percebemos então o quão efémeras foram as três horas em que nos demos, um dos copos de vinho tombado na ansiedade da roupa que despimos com o silêncio em chamas, o vinho escorreu a tingir o tapete

(perpetuando o efémero com a sua nódoa cor de rubi?)

e o cheiro adocicado foi-se evaporando à medida que a temperatura dos nossos corpos chamas, com faúlhas disparando dos sentidos, depois brasas e por fim um borralho de ternura a convidar ao sono dos corpos repousados, e com o sono uma leve angústia nascendo em mim pela ansiedade de o tempo ignorar desejos de eternidade, ignorando o desejo que as três horas voltassem ao ponto zero e recomeçassem, as três horas uma continuidade para lá das leis físicas, um nunca acabar enquanto ambas as nossas vontades permitissem repetir.

Não vou voltar a escrever a mesma ladainha de sempre, estou cansado disso, a dizer que com o descer da noite um do outro nos apartamos, é sempre assim: surge a penumbra e o mundo a dizer-me que se acaba, como se o amanhã

(segunda-feira em que cada três dos seus minutos maiores que as nossas três horas de hoje)

não pertencesse ao mesmo ritmo da vida que temos de levar até que outra oportunidade; para quê este fatalismo todo, feito de saudade antecipada, de lágrima ao canto do olho, para quê esta pieguice se amanhã (uma noite de sono faz milagres)

- Bom dia!

e tudo retomando aos seus lugares?

Tenho esta doentia tendência a acreditar que o mundo finda quando o outono traz a noite às sete horas da tarde e os domingos gotas de sangue em vão... Como deves perceber, já não estou a dizer coisa com coisa, que é isso de domingos gotas de sangue, porque me dói saber que o que me resta hoje é apenas o enquanto aqui estás, a ver-te abotoando a blusa, apertando a saia, retocando o batom, remexendo o cabelo enquanto procuras entre as sombras

- Onde estão os meus sapatos?

(eu nu a espreitar debaixo da cama, por trás das cortinas, onde se terão metido os teus sapatos, e isto é ridículo porque sabe-me a eterno estes fugazes momentos de abstracção em que ainda não é afinal a despedida)

e aí está o pé esquerdo, falta o direito, que vens a descobri-lo sob as minhas calças atiradas ao acaso na altura em que nem uma hora havia passado desde que o silêncio se imolou entre os poemas e os dois copos de vinho. Decido-me pelo resto da garrafa ao ver-te piscando o olho a fazer durar a ternura, abres a porta discretamente com medo de despertares os fantasmas dentro de mim, uma nesga de luz que vem de fora sacode a penumbra do que fomos e quando sais depois dela eu finalmente sozinho pendurado no escuro, ainda a tentar fazer voltar os ponteiros dos relógios nos últimos goles do vinho que agora só me amarga a boca.

05/10/09

ciclo II


foto de Susana Ferreira em 1000 imagens


Não faz muito frio ainda, é verdade, mas reparaste já no aroma a vinho novo no ar? Os chorões e os plátanos vão despindo-se aos poucos das suas folhas para de árvores frondosas se transformarem em esqueletos ao vento. Veio este bocadinho de chuva quando o céu se cobriu de algodão de chumbo, a temperar as sombras onde nascem as estações feias

(é como lhes chamas sempre que rompe outubro, mal se nota as nódoas da chuva no cimento dos passeios, nas irregularidades da rua)

e resistes à ideia que o outono se vem instalar, ignorando o recolhimento da azálea desflorada, os assobios melancólicos dos melros, os domingos desocupados, os miúdos em bandos de mochila às costas, a noite descendo na hora em que sais do trabalho, e todos esses sinais que mais cedo ou mais tarde te tomarão, apesar de insistires que não, a resistires.

Resistes de braços caídos e olha que isso não é resistir, é resignares-te ao ciclo que se fechou onde outro se abre. Contrariada pelo modo como entortas os lábios e as sobrancelhas, sabendo que o calendário não te engana. Tens medo das penumbras, do choro lento dos dias e da imposição da noite

(não as noites quentes que deixaram há muito de ter a mesma vida, agora são apenas os pardos gatos farejando os contentores de lixo, a claridade triste da iluminação na rua, as janelas dos prédios corridas de bocejos e sonolências e o trânsito que ao longe de tão colorido

- Não digas isso, por favor

o trânsito compacto com os seus faróis ligados tal qual

- Não o digas

as luzes do trânsito como decorações de natal que pouco falta para lá chegarmos

- Eu pedi-te para que não o dissesses)

e tu choramingando como a chuva aos bocadinhos, embrulhada numa manta no sofá a procurares programas banais na televisão, ou abrindo um livro ao calhas exortando numa impaciência serena a hibernação do riso, a sede dos copos de cocktails, a brisa das árvores e a fresca liberdade de te estenderes sobre a erva jovem.

(Olha lá, mas não sentes o mesmo quando o sol reinando ufano a derreter os corpos, transformando o barro em pó, os corpos suados com a roupa colada à pele, as matas que se imolam, as tardes perdidas a recuperar do sono das noites abafadas e insones, afinal de que te queixas tu?)

Desconcertada atiras-me a manta, os livros, o comando da televisão, a mandares foder-me com as pategadas que escrevo, a dizeres

( - Vai embora, pira-te, chegou ao fim um ciclo, não é? Então que fazes ainda aí especado, não te quero ver mais, adeus)

a dizeres que

que

...

Sei lá já o que dizes: as nódoas da chuva alastraram e a noite trouxe as penumbras que te assustam, carregam para ti os momentos de depressão, os fins de semana encostados ao silêncio, e nada tem de ser assim. Olha-te ao espelho e aceita-te: vive em paz contigo mesma, e verás que os ciclos são circunferências, nada se fecha, tudo se renova constantemente.

22/09/09

malabarista



Observa como me sustenho de braços abertos feito gaivota com cuidados de malabarista de circo sobre o fino rebordo do copo do uísque onde não me importa nada cair, perdido o equilíbrio e as estribeiras. Um passo em frente, braços continuamente abertos, dois passinhos mais, e num soluço ansioso o pé direito resvala e cá estou eu a afogar-me num mar de malte. Que interessa andar na corda bamba entre a incerteza de viver e resvalar no abismo? A esperança? Esse lamaçal esverdeado que te obriga todos os dias a levantar da cama com um sorriso nos lábios fazendo-te ignorar os compromissos que te asfixiam, a vida que levas e que julgaras sempre rejeitar?

Repara como os espelhos não te veneram, estão sempre aquém (ou além) do que pensas quem e como és. Guardamos na memória um restolho de vida que nos apetecia, mas vê lá tu, os dias minguaram sem que déssemos por tal, aliás, como em muitos outros momentos, constatar que as coisas mudam lentamente é um processo da nossa natureza de tempo interior que rejeitamos constantemente: não só as estações alteram, os filhos também crescem quando nos parecia que ainda há dias eram crianças ingénuas

(perdão? quem é ingénuo?)

agarradas ao biberão, choramingando os instintos da fome e da defecação.

Quando sentimos que nos falta alguma coisa (ou que algo se perdeu numa mudança irreversível) é que realmente percebemos que o tempo corre. Que até, afinal, tem qualquer coisa de ser vivo: um útero cósmico que nos resguarda distraídos até à morte, e que então nos poderá mostrar, findas as amarras umbilicais, o que nunca acreditáramos que nos mostravam os espelhos.

Pena é que no interior desse umbigo não sejamos resguardados dos nossos próprios actos e, por isso, quero lá saber se me afogo em sucessivos uísques ou que o mundo não poderá acabar nunca enquanto sobre tempo

- Ainda vais a tempo, pá!

para fazermos qualquer coisa pela nossa vida. Observa: sou uma ave com ares de malabarista desengonçando os braços no rebordo do copo. Quem se interessa uma peva por mim?

13/09/09

papoilas


foto de José Torres em Olhares.com


Lembro-me sim do dia em que choraste por me veres ao colo da mãe, aliás

o dia em que meu filho me perguntou se eu ainda gostava dele, pobre menino, de olhar desesperado

não me lembro, a mãe é que o conta vezes sem fim e a minha memória são das palavras dela, do sorriso distante com que as diz, por isso posso também dizer que me lembro muito bem de ti, não só pelas fotografias, mas pelo que és dentro da casa que habitei estes anos todos, uma casa

quis o pai porque pensou que eu o havia abandonado, e dou às vezes por mim a divagar como uma criança de apenas três anos tinha a sensibilidade de chegar a tanto, se bem que as crianças percebem tudo, pelo menos é o que dizem e eu

uma casa isolada num campo verde onde o sol sobe e desce como se só àquele lugar viesse a trazer a sua infinita luz, afinal era o que é hoje o meu mundo, tudo o que sou, tudo o que devo, a bela casa de pedra com janelas brancas e jardins repletos das cores das flores, o perfume dos dias quentes e o frio dos ventos quando fazia inverno e chovia

eu tão nervosa que nem cheguei a perceber bem porquê, afinal trazia-te a tua irmã ao colo, sei que

essa casa onde habitam as tuas brincadeiras, quando mais crescidos levavas-me a ver o pequeno regato que em Abril se enchia de pequenas colherezinhas que me ensinaste serem os girinos das rãs que faziam a sinfonia dos fins de tarde em que nos entretínhamos a escutar no silêncio e no guinchar do velho baloiço onde que me empurravas para não me sentir triste

eu não sabia bem ao certo se teria sido a melhor decisão, mas longe de mim imaginar que o meu filho se sentisse ameaçado

de modo que as minhas recordações giram em volta da tua pessoa, e por isso posso dizer que me lembro, lembro-me pois, o dia em que eu cheguei no colo da mãe e te escondeste porque me achavas um intruso, alguém que te invadia o espaço, e eu tão inocente quanto as papoilas que cresciam selvagens e belas pelo campo fora e que tu adoravas, tão serena e apaziguadora como os pássaros que voavam sobre nós e se recolhiam num chilreio orquestral no grande choupal que tu tanto gostavas de assistir, agarrada à mãe com medo e com vertigens, com medo dos quartos escuros

mas tudo passou, a maneira como depois acolheste a tua irmã recém chegada com abraços e beijos

tu nunca antes estiveste num quarto escuro, num espaço opaco sem afecto, sim também me lembro, também me lembro, garanto-te que me lembro bem de todas as luzes apagadas e eu sozinha.

o meu filho tinha um bonito coração e uma maneira tão dele de ver e sentir as coisas, um jeito tão dele de amar

Perdoa-me. É injusto dizer-te isto. Tu melhor que eu sabes o que é isso do vazio, da escuridão. Perdoa-me.

amavas a tua irmã mesmo vindo a saber mais tarde que ela não tinha nascido de mim como tu nasceste, que o pai e a mãe a fomos buscar a um orfanato onde era infeliz, onde partilhava a infelicidade parda e solitária com outros meninos como tu, mais velhos, mais novos

Do que me não lembro foi como partiste. Levaram-me para uma pequena casa entre outras pequenas casas, junto de uma ponte que atravessava um rio barrento e recordo-me, agora como se de uma fotografia, de olhar a rua íngreme esperando te ver pela mão da mãe e do pai, enquanto uma senhora de uma certa idade conversava com uma vizinha segredando eu ser sua sobrinha emprestada e eu sem entender nada, apenas esperava

onde isso lá vai, nem sei como tive coragem de dizer à minha filha o segredo da sua existência, segredo mantido durante anos com a cumplicidade do pai e do irmão, para garantir a sua felicidade... como somos ingénuos a lidar com as crianças...

e esperando passaram-se alguns dias até que

até que um dia tive de lhe contar

olhei a rua íngreme onde uma gaivota pegava num pedaço de pão seco com o seu bico amarelo e sorri quando vi o pai a acenar, e logo atrás, muito abatida, a mãe, vestida de um negro que não era vulgar

só não sei qual foi a parte mais dolorosa, desde aí a minha filha não falava tanto, deixava-se ficar sentada agarrada no baloiço tão parado quanto o seu olhar fitando o nada

um negro que me repudiava, que me levava ao quarto escuro e à solidão fria das camas corridas entre quatro paredes onde numa delas repousava uma cruz

eu nunca mais fui a mesma, talvez não tenha sido uma boa mãe, talvez nada do que ela esperasse que eu fosse, ou fizesse. Apenas deixei de ser

sim, eu sei, só me lembrei dessa fila de camas quando quis saber de onde vim há pouco tempo, mas sabes, é como se tudo o que se passou comigo, desde o nascer de um ventre que nunca vi até à tua partida, fosse em mim tão claro como se tivesse consciência e memória de todas as coisas que me revelaram.

deixei de ser quando o meu filho partiu

A mãe vive numa angústia de não ter sido uma boa mãe, mas ela não sabe, ou tenta querer não saber, esquecer-se que sabe, que foi e é a melhor mãe do mundo, não só porque me quis para ela, mas porque te tinha a ti já, e contigo pude conhecer um mundo

quando partiste, meu filho, eu deixei de ser

um mundo que embora à tua medida de criança que nunca deixaste de ser, foi o melhor de todos o mundos. Sim eu lembro-me de que choraste quando eu apareci na tua vida e agora sou eu que choro porque desapareceste tu da minha

com algumas papoilas enfeito a tua morada

e agora só me ouves de um quarto escuro que ainda não entendo e tenho pavor.

diz-me, meu filho, se gostas muito da tua querida mãe...

09/09/09

o livro diz luta e diz amizade




O livro é país e é paisagem.
É a tua boca dizendo saudade.
E o teu olhar percorrido na viagem.
O livro diz luta e diz amizade.

É o povo que habita a cidade.
O punho que ergue a coragem.
O mar de sal na sua imensidade.
O rio aflito a transbordar na margem.

É o pensamento com a voragem
No desejo de abraçar a eternidade.
É a sombra, o passado, a imagem

De todas as palavras, a idade
Que se perde na passagem.
O livro é a procura da verdade.

31/08/09

glosa



As palavras que dizes dançam dentro do sonho
António Ramos Rosa


Deixas as palavras à mercê dos ventos
e dos sons
palavras que na tua boca arrumas
incrédula

palavras que escondes em teu olhar risonho:
mas as palavras (que não dizes)
dançam dentro do sonho.

22/08/09

para lá das tuas mãos


folhas suspensas, por Isis em Olhares.com


à Sónia

Está para lá das tuas mãos e tem o perfume seráfico dos céus míticos. Abres os olhos e o sonho desce das harpas em plumas de Santiago que apanhas imprudente como bolas de sabão. Dizes que te recordam a infância, onde te sentes mais perto de ser feliz. E tudo acontece por um acaso, sem objectivos porque rejeitas as responsabilidades, amando acima de tudo a liberdade – a tua liberdade.

Fazes o teu caminho iluminando-o com a esfera solar que os putos desenham, pintado com a cicatriz de um sorriso e olhos pestanudos em vez das terríveis e infernais ondas de calor que os cientistas tanto falam e ilustram mas que tu ignoras: que sabem lá eles do sol?

Nunca avistaste alienígenas de má fé, esses que insistem em colocar sondas no cu das pessoas, o que vês são anjos. Anjos sem essa cor de hospital tresandando a desinfectante, e nunca alados: os teus anjos têm cabelos coloridos, talvez um ou outro com nariz de palhaço a fazer malabarismos num monociclo, e andam descalços sobre as folhas, a erva e as flores. Não vestem túnicas mas estampados floridos, com a primavera a fazer de mascote, farejando-lhes os pés.

Bebes e não te embriagas. Não do vil álcool que inspira a violência, a malcriadice, a insolência e a vaidade nos homens. Surges ébria de uma imensa alegria de te saberes eternamente menina, que o mundo nunca precisou afinal de relógios e ruas atropeladas de veículos, prédios a debitar lucros fáceis, murmúrios de gentes que sonham um dia vingar-se da vida que levam.

E ébria daquilo que estas pessoas jamais saberão ler-te nos olhos, continuas navegando sem barca nem vela nem remos, sempre na mesma posição estática com que te vêm nunca imaginando as milhas que percorreste e ainda irás percorrer. Continuas assim agarrada com os braços a ti e a teimar que é um jardim que se plantou na tua frente e não esta insone parede branca do hospital.

17/08/09

diluído


voa comigo, por Ramarago em 1000 imagens


há um poema
diluído na água deste verão
suspenso e nocturno
de sabor a álcool com gelo
e dos dedos polpas de carne
e segredo

levo aos lábios a ternura
transpirada do teu pescoço
e esta música líquida refrescando
a madrugada

tropeço com a cabeça na almofada
quente
os teus cabelos são águas
palavras refazendo a atmosfera
de ténues sombras
inquietas

palavras agudas colhidas sem mote
temperando a minha sede
com o orvalho substantivo
da súbita alvorada

escuto o teu corpo
estendido na areia do sono
exalando o perfume natural
da carne e do sangue

a penugem loira e suave
sobre os teus ombros
quebranta o meu olhar pescando
em lentos mergulhos de sonho

o poema que se inventa
do teu ventre
diluído na música que me
acrescenta.

06/08/09

antes só


Auto-retrato, de José Bóia em 1000 imagens


Antes só que mal acompanhado: e assim chegaste ao teu limite. Prestas contas à janela e para com a paisagem abandonada do lado de fora, e ficas em paz interiormente. São os livros que derradeiramente te irão agora levar em ombros. Não te pedem nada, não te exigem formalidades ou cedências de última hora. Não te querem para outra coisa senão que os acarinhes com os dedos sobre as lombadas, que lhes sintas a textura das folhas e o aroma do papel, que os leias como quem desnuda de êxtase o ser amado. Eles estão para ti e não te fecharão qualquer porta.

Tens também a música com que viajas, o copo de whisky para te afastar as sombras, e uma quantidade infinita e patética de tecnologia para dispores em horas de alegria ou, se for o caso de necessidade destiladora da bílis, para te indispores, vociferares, mandar à merda.

Não pertences a ninguém nem a mais nada. Tens-te a ti. Foram-se os amigos? Antes só que mal acompanhado. Aguenta-te. Disseram-te certa vez: “as árvores morrem de pé”. Em terra firme e de pés bem assentes tenta agora permaneceres, até que asas te cresçam nos costados e possas verificar enfim se os mortos habitam o céu.

05/08/09

canto a tua morte




Sobre que lágrima se enaltece a raiva;
sobre que morte se riem as estrelas?
Nada mais resta na seiva nas searas
só o teu olhar frio castigando as ideias.

Não me faças fugir desta alvorada;
é como se este dia que ergues
a mim pertencesse.

Sofrerei sempre a mágoa pela tua face
emanada. Sofrerei sempre como se em ti
morresse.

24/07/09

da janela entardecendo


Paisagem da janela por Maringá em overmundo


Demora-se a tua ausência na rua deserta, nas janelas em frente sem rostos que venham espreitar sequer. Os automóveis passam escuros como objectos incógnitos, e os autocarros seguem vazios com a sua luz branca esbatida a lembrar salas de espera de urgência hospitalar madrugada dentro. Aos poucos a suspirada claridade do crepúsculo vai vestindo a penumbra que sai nascida nos recantos, nas esquinas, nos jardins desertificando. Percebe-se a agitação lenta dos ramos altos das árvores ao vento ameno anunciando um princípio de noite mais frio do usual nesta altura do ano, como se o verão se tivesse distraído ou quisesse esconder-se, a adiar o seu compromisso.

É certo que a noite vindoura será viva e animada em muitos pontos coloridos da cidade imensa e quiçá nesses pontos nem se venha a notar ponta de frio, são microclimas de calor humano que rejeito sempre penetrar, menor é ainda a vontade se não estás. E embora se sinta o cheiro desses verões muito particulares, apesar do vento, nada disso sucede nestas paragens que vão emudecendo com a noite. No mínimo nada acontece ao alcance desta janela onde testemunho os arruamentos entristecidos no latir dos cães que parecem ao ouvido tão distantes uns dos outros como se comunicassem o seu choradinho entre fronteiras intransponíveis.

Não teria dado conta desta melancolia a suspirar o desalento das sombras que crescem devagar não fosse esta tua ausência. E nada a remedeia: inflama-se este sofrimento triste de ir vendo e sentindo o dia fechando-se, guardando-se para a incerteza da próxima alvorada. Cá dentro, sobre estantes e móveis transpirando indiferença, as fotografias são folhas mortas de outono, apenas instantes retidos num passado irremediavelmente perdido. Nem a música ajuda, entoada como se a falar a espectros, como se os seus decibéis não interferissem na mesma dimensão onde estou. E os livros calam-se igualmente: afónicos e sem alma, sem carne, sem cheiro.

Tanta vida adiada quando tudo isto é sem ti, quando habito a tua ausência tão demorada.

04/07/09

variante da síndrome de Bartleby



Resistir à facilidade: é este o trabalho árduo que labuto dia após dia nas faldas da vontade e da vaidade. Não sucumbir à ludibriante tentação, com a mesma euforia religiosa de um crente.

Sopram-me aos ouvidos falinhas e falácias. Estudo-lhes o olhar, redesenho-lhes a ambição: sou espécimen com garantias de produzir. Produzir o lucro fácil, para mentes fáceis.

Monto o cenário possível: eu agradecendo de esferográfica sobre uma mesa de sorriso bonacheirão, diante de uma plateia de amigos e familiares e conhecidos

(grande parte tidos sem paradeiro e de repente ressuscitando),

a transpirar de orgulho bacoco. Agradado com a ninharia. Eu em todos os olhos em todas as mãos, mas a um fio fragilíssimo do esquecimento precoce. Mãos estendidas e sobre o ombro com a tal amizade, sacudindo o veneno de algumas invejas compreensíveis

- Como conseguiu? Qual foi a cunha?

e eu nada, indiferente, ostentando ainda o sorriso que deambula de bonacheirão para inocente. Talvez ingénuo, porventura ignorante.

Não é certamente o meu caminho, se trilho algum me abrirá o acaso e as circunstâncias do mundo para tamanha façanha que transformaria (ou não) toda uma vida futura.

Receio, seja o futuro incerto maligno ou benigno, de perder a minha liberdade individual. Bartleby até que a morte me separe?

29/06/09

beijo



a tua boca na minha:
quem dera fosse todo o verão além da latitude dos sonhos

e por isso ardes-me
e por isso o vento norte nos teus olhos
a exaltar de desejo as cores da chama viva

só as duas bocas unidas:
suspendendo a intenção dos gestos e do corpo
ignorando o tempo na sublimação da saliva

tolhemos as vãs palavras dos sentimentos tontos

porém, a minha na tua boca
é ainda o verão virgem aquém da esfera dos sonhos

25/06/09

cansar de dores o papel




Cansar de dores o papel amarrotado de ninharias e mediocridades. Não fosse a crise e o desgoverno,

(e enfim, para poupar energias e sintetizando)

não fosse o planeta plantado de gumes traiçoeiros com que a humanidade semeia o seu próprio futuro, talvez pudesse eu renascer num sorriso feliz a vender banha da cobra nas palavras e papeis densamente iluminados.

Ou que o verão não desdenhasse na nossa cara o escarninho destino a que nos propomos na negligência: cada dia é angular e decisivo se não forem tomadas em conjunto todas as medidas preventivas e calculadas.

Pois assim de que nos servem as estações do ano se nenhuma agora cumpre o seu compromisso, com os seus humores climatéricos alterados? Que sentido tem desejar bom fim de semana se os patrões, alinhados como tropas de faca e queijo na mão, não o reconhecem? O que são piqueniques no campo se o círculo é de betão? Que nos vale mesmo saber que linhas imaginárias dividem o planeta em lugares de maior ou menor qualidade que vêm a ser os trópicos e os meridianos? Construímos com regozijo a aldeia global e agora pendemos o queixo e os olhos num impressionante esgar de apreensão. Como quem vai para a guerra com o nó na garganta de saber o quanto está já derrotado e condenado.

Cansar de dores o papel ou acumular cerveja no sangue num gesto de indiferença, a fazer de conta que as contas do mundo não são nossas, alguém mais capaz fará tudo por nós. Não fosse a crise e o desgoverno,

(e enfim, para poupar energias e sintetizando)

não fosse o planeta esfaqueado pelo seu próprio punhal traiçoeiro, e toda essa idiotice conspirativa que os humanos ergueram uns contra os outros, talvez pudéssemos ver o futebol e as telenovelas na tv sem nos importamos um corno para com o próximo.


21/06/09

não sei quantos anos ainda




não sei quantos anos ainda…
ou se as varandas se cobrirão de pó
e humidade e insectos e os anos esbatendo-se
sobre a claridade dos dias e as sombras das noites
enquanto as flores já não suspiram para as bocas incrédulas…

sei que um ranger de dentes
e um punho fechado
e tudo quanto te aflige
enquanto a fome for

ainda e só
um homem de cócoras
ou de braços cruzados

sobre a vida
que já não o espera.

03/06/09

rosário



Das tuas mãos tatuando o medo: trouxeste um rosário e dedilhavas cada conta como se a abrir um livro novo. Com os olhos caídos num chão de nadas, um chão de invisíveis, enquanto o noticiário avançava numa cavalgada alarmista. Não era a ti que competia dominar a besta, as ventas furiosas arfando. Por isso pedias contas a um domador e multiplicaste o rosário com o mesmo silêncio do chão onde ainda se encontrava o teu olhar. Os teus lábios febris, ininteligíveis, sem soprarem qualquer som da tua voz ainda que fosse sussurrada. Não vias, mas ouvias os relinchos constantes dos jornalistas. E tu redobrando as contas, os teus dedos como aranhas tecendo o medo. Até que outro som se ouviu, obrigando-te a um alvoroço pavloviano, deixaste o rosário estendido no nada do chão e as tuas pernas retesaram. Levaste o auscultador ao ouvido e o olhar contra uma parede de nadas, uma parede também de invisíveis, apesar dos quadros, das fotografias do teu filho, ele que te diz, do outro lado da linha

- Descansa, eu não embarquei e está tudo bem.

e tu

- Louvado seja o domador! 

30/05/09

encontro II


Beleza romena, por António Amen em 1000 imagens


Pigarreia-me a voz, arranhada e seca. E os gestos acompanham a mesma rouquidão, gagos e disléxicos como quem mete as mãos pelos pés. Cresce às faces o sangue num rubor de glande nervosa, escaldante carmesim a incendiar o pudor, nadando aflito até às lágrimas. Pronunciar neste estado o teu nome ou esboçar-te um tímido olá revelou-se numa tarefa árdua e difícil de concretizar. Não que fosse impossível - a vontade, se não inibida pelo desastre, pode mover montanhas. Mas não foi o caso. Tudo era desastre em mim: o ventre dilatado da cerveja entre os amigos, a barba crescida pela preguiça de contínuos maus despertares, a roupa desleixada e amarrotada. Felizmente não padeço do odor forte de quem transpira um dia de labuta. Senão era a catástrofe.

101 cigarros pigarreiam à porta da comoção, a saliva atropela-se ao engolir, o ritmo do peito dispara sem conhecer meta a atingir, e os dedos das mãos como folhas mortas e humedecidas com o orvalho da exaltação – és como uma manhã nova para mim, espelhada no fresco azul dos teus olhos, na seara de intenso odor a frutos dos teus cabelos, a manhã mais clara e limpa quanto desejaria conhecer. A língua não soube ampliar o acorde das palavras. Era uma papa cheia na minha boca. Os lábios, esses, poderiam oscular, ferver sobre os teus ou diluir-se em tua extensa pele de feno. Porém, som nenhum conseguiriam produzir.

Portanto, nem os lábios, nem os gestos, nem nada em mim que se movimente, salvo a palpitação surda no tórax. Nada pode chamar a tua atenção, que possa tirar de ti sequer um simples olhar. Sou objecto patético na tua presença. E agora que te afastas, sou árvore a viver plantada para todo o sempre com sombras e banquinho de velhotes a colher nostalgias como a chupar do solo a seiva com que se alimenta. Vegetal e ignorado.

Quando o mundo der uma volta completa pode ser que nessa altura sim: bem composto, ex-fumador, recolhido e sedutor. Para passar a ignorar-te eu, como a um arbusto que incomoda as vistas.

11/05/09

pintura




ilustra-me esta noite com as linhas das tuas mãos
delicadamente tatuando sombras sobre o meu corpo
e apagando todas as fronteiras do amor e do prazer
sou eu que finjo o abrir de uma flor
e por cada pétala caída
a madrugada alarga-se no nosso toque acetinado
és tu a bátega apaziguadora que virá a despertar como um orvalho fresco
a aurora que se demorará na cor
selvagens os teus dedos adocicados
pelo mel do pólen
introduzem-se no teu corpo

para que a cópula seja sempre e mais uma tela
pintada pelas mãos e com as tintas
das nossas bocas
adormecidas na manhã do nosso leito.

06/05/09

segue-me a linha do corpo




segue-me a linha do corpo
no arrepio que provoca a brisa do teus lábios
inunda-me o ventre com o ondular dos teus cabelos
e serena repousa o ósculo
no pico extasiado do falo
que te desperta
a fome
de carne doce

engole-me
seduz-me na vertigem da tua língua

os meus sentidos emergem
na graciosidade gesticular
das tuas pernas
que, estremecendo,

procuram a foz de um rio feito de pétalas
e plumas da alvorada.

01/05/09

sábia mão artesã




ciranda as palavras encobertas pelo joio dos sentimentos
e atravessa circular as paredes do mundo
nela há uma planície com borbotões de água límpida
que lembram os olhares quebrantados da pobreza

cintilam as dores calejadas numa letra escorreita de substantivos
e sobram sempre dos poemas pontas soltas de sons
que livres se encadeiam numa melodia intemporal
é esta força graciosa humilde porém sublime

do ardor na terra, no ferro, no vidro, na malha
em toda a manhã que abre os sentidos povoados de ambição.

24/04/09

partida (em memória dos oprimidos do passado e do presente)



não sustento o teu pensamento
com pedras angulares
porque parto daqui sem haver boca
para a fome
nem sede para os olhos
e com a saudade palpitando em cada passo
que não volve o olhar ao passado

parto como outros partiram
no destino que não se vê para lá do salto e da distância
parto como criminoso
como um ladrão
que furtou à pátria o sangue
mas nunca como um cobarde

porque não sustento o teu pensamento
irregular e granítico
porque a minha fome é a tua fartura
e a minha clausura é o teu conforto
eu parto, já com saudade

e aspirando a uma terra onde possa gritar:
- Liberdade!

21/04/09

pré-laboral com bastante tragédia


(daqui)


Vem o vento atordoando a gentileza da manhã e não há vontade alguma de me erguer da cama, fazer a barba, encarar o dia que recomeça, tudo a repetir-se uma e outra vez. A cortina corrida que não anseio abrir faz cair no quarto uma luz cinzenta de objectos perdidos. As pernas por dentro dos lençóis gesticulando impaciências matutinas, os olhos persistindo aninhados na cova das pálpebras, e a boca desenhando um corte esgotado no rosto. 

Um mau acordar com o hálito a enxofre. Porque nada de agradável me espera para lá destes lençóis, depois do banho e da barba feita às cegas, após duas goladas num café de véspera morno e a trinca desconsolada na torrada.

Sou violentamente subtraído da cama à força de pontapés imaginários carregado de raiva contra os empregadores deste país. Despeço-me angustiado dos lençóis amarrotados por tanta luta contra o mundo. O mundo que, durante os quarenta e cinco minutos em que me preparo para o enfrentar, odeio. Visceralmente.

Vou imaginando com azedume os rostos que então se cruzarão comigo, multiplicados de sorrisos, bons dias, quase vénias de meter nojo, falsas simpatias. Nada é perfeito, é sabido e certo, mas estas manhãs assim são actos obscenos contra a integridade psicológica de qualquer um.

Até que, a pouco e pouco, muito devagar sem que possamos dar por isso, eu e os rostos acabamos por nos conciliar, acabamos amavelmente confraternizados no nosso comum objectivo: que o dia acabe! E o humor até deixa espaço e pretextos para piadinhas de circunstância, risadas de toda a ordem.

São os ódios que se querem uns aos outros, cúmplices e solidários.

16/04/09

para o mundo



Não sei se eu tu ou alguém que não tu ou eu assumindo, sentado e pensativo, a pose dos mais sábios ao formularem as leis do universo; por dentro move-se uma corrente concentrada de tudo aguardando a espasmódica sobriedade de um parto quase ético, mas dir-se-á amoral; e a careta

(como de espanto!)

desenha 

(em desdenho)

um quase sorriso ao que se move vivo e pensante – a humanidade! – em espiral imperfeita que alivia numa descarga sem gorar polir os ombros e as mãos; os braços obrigam-se quietos ao abandono até virem estremecendo no êxtase do esperado orgasmo que pare, expele, sem amor à própria criação:

o terno pedaço com que quer acarinhar, caridoso em pleno, o esplendor deste mundo.

10/04/09

o evangelho segundo este poema


fotograma de The Last Temptation Of Christ, de Martin Scorcese



Nascemos.
Jamais seremos indiferença.
Ergue-se um mundo do mundo já erguido
nele as glórias, as vãs glórias
neles as alegrias, as solenes alegrias
neles os amores, emancipados amores
nele o nosso gemido
nele todas as histórias
todas as histerias
todas as dores.
E de um mundo então erguido,
morremos.


As minhas sandálias descobrem nas areias os teus passos da sombra que me persegue. Porquê esta angústia, esta piedade que me lacrimeja os olhos - quando estou entre a multidão porque desespero? Porque me dói onde não tenho qualquer ferida? Por cada talhar do machado na madeira ainda jovem, por cada prego nas entranhas desta carne por saciar, broto uma lágrima que cai lenta e apaixonada no pó que se levanta e rende, húmido e salgado ao medo de ser quem sou, à angústia que me assalta pela noite. De onde vens, porque me persegues se te não vejo? As madrugadas, estendido na minha enxerga, são martírios por te amar e não te conhecer.

Como bebem e comem, gemendo sorrisos no prazer da gula que lhes sucede à fome miserável da alma. Vêm até mim e eu lhes digo que a minha fome e a minha sede não se sacia, nem os meus lábios sabem rasgar o mesmo sorriso. Levam-me a casa de uma mulher e dão-me haxixe, dão-me vinho para que beba do espírito e o espírito queima por dentro todas as fomes do homem que sou. Como bebem e largam risos perante meu olhar petrificado: ali, no ventre daquela mulher, nascem víboras que clamam o meu nome.

Nascemos: jamais seremos indiferença. Eis onde vive o mistério de todas as dores, de todas as crenças: o nascer para a vida, erguendo-se um mundo do mundo já erguido. A palavra que renasce em cada um dos homens que habitam o mundo para quem o amor e o apego à vida é o caminho de que se desviam qual camelo rendido à estreiteza da agulha. Todas as glórias de todas as conquistas, todas as lágrimas de todas as derrotas, todo o amor, amor maior com que me revisitam, toda a dor, dor que me alimenta, e dor de que te sacias: eu sou o filho do homem, duas vezes carne do mundo. Cumpra-se a palavra para que o tomemos reerguido.

Jejuo do que é particularmente terreno. Saio pela noite fria, envolto em meu manto e não carrego a enxerga - esta noite não é para dormir. Encontro na raiz das minhas veias o segredo das insónias quando o tormento exasperado sai de mim como a carga que cai do dorso carregado do camelo. Esvai-se tudo de mim como se o sol repousasse todas as horas por trás das crinas das dunas e sou livre e imenso no ventre de tudo de que se faz o vento.

Vinde até mim, almas perdidas e fustigadas pelo gume da indiferença, vinde ao calor do filho do homem, aquele que jejuou dos prazeres terrenos para encontrar a palavra redentora que vos vem salvar. Vinde até mim, órfãos da riqueza, espoliados da soberba, arrependei-vos da vossa nefasta solidão. Vinde, vós que bebeis perenes das fontes do prazer e não sabeis explicar o azedume das vossas lágrimas; chegai aqui, indomáveis, rebeldes, delfins, insaciados, abram as mãos para receber da palavra e dela comer. Vinde até meus braços, vós que sofreis de dores e tormentos, feridos e esfomeados de toda a natureza, esquecidos e maltratados. Vinde, ó proscritos, e recebei a redenção. Em verdade, de todas a verdades vos digo que estas palavras que vos canto são os versos com que o pai pediu para exultar o mundo.

Estou na paz como estou na brisa que suaviza o rosto do campino ceifando a sua seara. Estou também no trigo de todas as fomes, na carne e no sangue, no dilúvio e na tempestade, e estou também na água de todas as sedes, na aurora e na bonança. Estou na lágrima que rola do espinho cravado na alma do mundo, estou no meu pai que te perfilha, na minha mãe que te acarinha. Estou no mundo erguido pelas minhas mãos.

Que desça sobre a terra toda a incúria salgada da vossa fraqueza e se derrame do meu sangue como um cordeiro que morto foi para saciar a fome aflita. Que se abram os céus após o vão dilúvio, que se encha a colina de sol e de brilho os mares. Sou aquele que ama e se entrega, pois erguido foi este mundo.

Escrita na história e nos passos por sobre a areia que palmilhei está a cumprir-se a profecia:
- e de um mundo então erguido, morremos!

05/04/09

Irene


foto por Pedro Gomes em 1000 imagens


Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da luz abalando a indiferente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do teu velho veneno.

Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela. Uma pequena ave dada à morte, como qualquer folha que perde a seiva e se despede lacónica do ramo onde lhe dava o vento.

Que pena, pensas do ser de penas contadas como rosários sem fim, uma ave branca abalando a tua expectativa de paz interior, porque veio morrer assim este pássaro pequeno quase sobre a palma da tua mão, janela onde te encontras todas as manhãs com o mar e as rugas do céu?

Então olhas-me desesperada pedindo-me calada que te dê as esperadas condolências. Não foste tu que morreste no parapeito, Irene. Não foste tu. Nem ninguém que te mereça comiseração. Apenas um pássaro que não tinha mais onde cair morto. Faz parte do mesmo humor das folhas caídas das árvores, dos insectos esborrachados no pára-brisas de um automóvel.

Vem. Constrói o teu ninho no meu regaço e não te percas a pensar que no teu sangue corre a efemeridade da tua existência. Na parede nascem fungos, e mais estranhas criaturas que não vês passear de madrugada entre as sombras. Vem. Encolhe-te como se fosses menina, inocente e indefesa, e pudesses caber na palma da minha mão, aconchegada dos males do mundo, das doenças, dos hospitais de corredores brancos, infinitos dentro dos pesadelos.

Tens um espelho que tudo te reflecte além do corpo. Não é de vidro nem folha de estanho esse espelho: são as tuas mãos aparando a convulsão do teu rosto frágil. Sabes que todos acabamos por morrer, Irene? Todos. Todos como pássaros ou folhas tombadas.

Oxalá tombes na tua hora sobre o parapeito da janela de deus, olhando-te comiserativo. Também ele é um ser frágil, que olha todas as manhãs o mar e as rugas do céu, acreditando ingénuo que há esperança. Dizem que vence a morte. Cá tenho as minhas dúvidas: se a vencesse, ela nunca existiria. E seria um consolo tão grande, Irene, não seria?

30/03/09

por acabar


desenho de Allan Hart (daqui)



Dormito sobre os livros com a baba rente ao queixo enquanto o gume do vento vai caçando os braços desprevenidos lá fora, com este sol a brindar a tarde e porém o frio outra vez. Sinto que tenho mais sede 

(mais fome, mais desejo)

e não descanso como seria suposto, com os cães cansados de latir, a deformar-me a consistência dos sonhos.

Qualquer coisa entre a vigília e o sono. Qualquer coisa entre a cor e o preto e o branco e o cinza. Entre o cigarro e a cinza.

Tacteio vagamente e vazio as palavras pelos livros dentro e vou como um cego analfabeto

(entre o verde e o musgo, a nadar, a nadar)

um cego que não sabe ler em braille.

O vento lá fora caçoando dos braços desprevenidos e a baba rente ao queixo, mexes-me um braço, afagas-me o peito do ronco alarde e dos livros

(o que eu leio, o que sei que leio)

juntos à face rubra, uma quietude muito atribulada para quem se quer quieto, os teus dedos a limpar-me o queixo, e o queixume, a varrer livros e palavras numa braçada de água

(entre o musgo e o lodo)

o queixume de mim a rogar-te

- Deixa-me dormir, deixa-me dormir…

21/03/09

florescer




- Mamã! Hoje é primavera!

E em verdade é. Os pássaros chilreiam a alvorada de plumas ainda fria, veste-se a paisagem de tojo enquanto espera a flor da giesta adormecida em botão. Respira-se um aroma a terra e pólen e é como se inalasse dias inteiros de sol, relva jovem e a água clara dos regatos.

Os sentidos florescem. Esboça-se um sorriso ao espreguiçar a madrugada para a frescura das manhãs claras, apetece a relva dos parques e as suas árvores verdejando. As mãos deitadas à terra lavrando hortas e jardins. Em cada porção de solo a esperança de rejuvenescer nos rebentos comprometidos com a flor e o fruto.

É a terra também esta poesia jorrada em cor. É deste aroma a sol, desta emoção multicolor a escrita com sangue e húmus.

Mamã! Hoje é primavera! seria em verdade o melhor título para se cantar este emergente novo dia, cumprido o equinócio para a harmonia dos espíritos fecundos.