12 de outubro de 2019

tradução

Roberto Ferri, Il rito


De onde vier a luz, traduz-me. Procura o signo dos léxicos na leitura abundante da minha pele clara. Corrompe o cânon da sua delicadeza, mergulhada no acetinado desespero pela saudade do toque dos teus dedos. Quero ser tua musa e ninfa, perpetuada na mais feliz criação que ajustarás à eloquência de qualquer idioma canção dos povos do mundo. 

Eu sei que sou o teu poema, o teu sonho encaminhado para a desejada realidade exultada em abundância criadora. Cada poro meu é sílaba articulada cuidadosamente, sem precipitação, no movimento da tua língua. Estende-se pelo prado bravo da minha pele o hálito de vida e beleza cedido pelo vapor da tua voz, a dizer-me, a soletrar-me, a erguer-me num hino. 

E fazes-me fonema, ritmo e rima quando me inundas o peito com o beijo da tua caligrafia. Das rosas, éter perfume, da minha carne, concreto desejo de fome. Do teu amor, a simbiose. 

Desnudo-me para ti e perante ti serei completa do mundo que absorves com o olhar inquieto, ávido de curiosidade. Meu corpo nu pronto para que o auscultes, a tua multidão de gente, o teu banho de humor humano. Concedes que me faça deusa e cresça, segura, no altar da tua mente. 

Possa eu, assim, mulher tua, assassina do teu passado, fertilizadora do teu futuro, difundir-me em ti, plena e lírica, para a construção substantiva da epopeia que levas na alma. Haja festa, vinho e fruta, então, e me exalte, em extremo clímax, quando da tua dedicatória final, firmada em meu ventre com o suco da tua virilidade.

15 de setembro de 2019

do sal, poema intermédio a marília

Ibai Acevedo via Isola Mentale²

Sabes, Marília? O meu verdadeiro amor nasceu 

(faz mais anos que tu) 

a sul de uma serra de fraco declive, entre a terra vermelha que apaixona o trigo e a areia quente a receber o estival mar em correntes mediterrâneas lembrando epopeias da Grécia antiga. Esse amor fui eu encontrar há uma trintena de meses, mal sabendo adivinhar o que havia de seguir-se depois. Fiz-me de tonto todo este tempo, e concretizei na minha mente que todas 

(mas todas) 

as mulheres haviam de ser apenas uma, trançadas em corpos e almas difusas e díspares, como esses nevoeiros que assombram os cais que testemunhas a norte. Engano meu: o amor imaculado não se difunde, materializa ou divide, e todas as minha acções e palavras foram tão só a saudade do que não sabia dizer. 

Entende isto, Marília: a luz do sul não tolera sombras, é feita da mesma claridade do éden e embala-me sereno sem necessidade de beijos ou abraços fogosos, nem das quentes refegas dos nocturnos e ineficazes labores do amor granítico, ciumento e possuidor, exaurido de frio. Faz-te compreensiva, que nem eu imaginaria tal enlace, a deixar-me ir numa corrente de palavras moldadas a ouro e encrustadas a diamante – sem chamar quaisquer lugares-comuns, mas eis a inteira verdade. 

A derrota de alguém não é sempre a vitória de outrem, e desta forma ninguém perde o chão nem há-de outro receber o céu de mão beijada. Inaugura-te como eu me rendi, sem tramas nem patranhas. O amor esquece os equívocos, aliás… nesta exultação de tudo, posso crer que os equívocos serão as estrelas mais distantes em tremeliques eternos de longa vida 

(mais que a humana) 

ditada pela mente criadora por milénios até à exemplar extinção dos corpos celestes 

(extinguir-se-á o amor?). 

Logro a felicidade sem permeios, apenas enleado no que os escribas antigos profetizaram, pouco sabendo dos astros e da infinitude dos universos, mas conscientes das marés: 

(agora, neste parágrafo, tudo o que ficaria por dizer, já foi dito antes, anos antes de os teus pais imaginarem sequer conceber-te. Solta o sonho, faz por completar o poema por intermédio. Quiçá uma epopeia não terás em mãos) 

– o sal como a celebração do amor, que não há-de morrer na praia. 

8 de setembro de 2019

selecção natural

Berber Theunissen, via Isola Mentale

Não está aqui mais ninguém. Sentes sempre que a grande necessidade da tua alma é de qualquer mulher que te venha acolher num abraço como se procurasse protecção e se sentisse segura por te saber presente.

Entre a multidão, podes observá-las sem que alguém te conceda ares de um desses grunhos predadores. Desses mesmo, das conquistas e das aventuras de ocasião, transpirando testosterona e ganas de obter troféus. Tu não és assim e assusta-te que o teu amor pelas mulheres seja feito, ao olhar dos outros, dessa condição profana para com o ser que imaginas ter descido à terra infestada de ímpios por misericórdia divina.

Vês como elas se passeiam pela cidade, nos jardins públicos, na embriaguez veraneante dos caminhos à beira-mar, ou estendidas ao sol, mais as que se refrescam em banhos de água doce ou salgada.

Enternece-te vê-las com os seus vestidos estampados a perdurar primaveras. O quanto de encanta adivinhares-lhes as ancas sob o tecido, a maciez do toque e do movimento, a candura subida acima dos joelhos elucidando as curvas e o enchimento das coxas. Nenhuma terá o corpo perfeito e, contudo, todas te parecem perfeitamente naturais e plenas de encanto, engrandecidas e deusas. Oh!, e o delinear dos seus decotes: o quanto que sorris por lhes perceberes os seios como arbustos agitando sob o vento…

Sentes felicidade porque as entendes como uma concreta espécie de anjos criada na tua mente, e nada mais que amor lhes tens. Porém, quando queres descobri-las no olhar, sentes que os seus olhos vão muito além de ti, como se fosses espectro em que ninguém poderá reparar sem dons sobrenaturais.

Vives nestes entretantos, sem definição do que és, rejeitando-te por medo e receios abstractos à tua essência química, emocional e espiritual. Desesperas para que te entendam, mas acabas nulo como as folhas que caem na descida do fim da estação quente. Quando te recolhes, há arrefecimento, e as noites acabam, devagar, por seguirem mais pardas. 

Mesmo assim, rejeitas temer tudo quanto sentes, por te saberes tão livre como as ervas que crescem silvestres nos campos onde incide o sol quente, as bátegas, as geadas e a neve, e tanta resistência por fidelidade à natureza que te quis desta forma.

Vais crendo que permanecerás pela consciência que aqui não está mais ninguém. E se tudo correr um dia mal, terás como consolo as cordas que vens tecendo, cada vez mais densas e tensas, ao redor do teu pescoço. Sabes perfeitamente que o diabo até com uma tranca dispara.

Ficas em paz. Enquanto contares contigo, verás o mundo girar. E, quando um dia deixares de o ver no seu movimento, ficará a dúvida se alguma vez terão entendido que fizeste parte de uma selecção natural, dessente terreno da tua própria natureza metafísica, candente.

Até lá, nada te aflige: são apenas os teus olhos, portas da tua alma, desprovidos de qualquer espécie de acometimento dos lavores do corpo, e dos desejos que te condicionam contrariamente à tua vontade.

És feliz. Não está aqui mais ninguém. Nem tu próprio. Se te sentirem, serão sons de flauta, aroma dos bosques, sabor da terra húmida.


31 de agosto de 2019

projecção



A tua insegurança, meu amor, atira-me para parte incerta. Recebes-me as graças do corpo, volteias-me o coração em passos de tango, infliges o beijo, o olhar profundo, a ternura, carícia e desejo no teu sexo em alarido. Abalas então sem que ainda tivesse tempo de curar a saudade. Libertas-te com a mente em redemoinho, sequioso de vontades que nunca revelaste, entrando no teu interior e eu 

– não percebo se aflita – 

sigo à deriva, nunca sabendo que lugar posso ou poderei ocupar em ti. 

Insistes em dizer-me, floreado e palavroso, que te tens bem seguro, todo resolvido de amor próprio, ainda que agarrado a certos medos que, garantes, serem indicadores da tua sobrevivência. Eu sei que não consigo viver nesta intermitência, mas assumo-a como modo de vida. Consolo o espírito a recordar o teu cheiro no intervalo do meu. Rejeito-te por orgulho ferido e reclamo-te por vaidade de te ter em mim, nos teus regressos sem promessas. A constatar no teu olhar sempre essa inconstância. Então eu, como se rejeitada, a um canto ocupando o lugar incerto, ilha deserta onde a tua barcaça vem aportar como que trazendo provisão. 

Debaixo de água, submergindo corpo e alma, projecto-me para lá do que havia de ser entre o que há de mim e da incógnita de ti. Nem sei já se sou ainda tua mulher, ou se alguma vez fui. Terei encalhado, espectro do que pensei ter sido eu, a minha história, as vivências, as ambições. Encalhada em balsa alheia por me faltar o engenho de navegar e circundar ao largo dos perigos. E, circunstancialmente amada e repelida, vejo-me desenhando sinais de ausência 

– de mim, de ti, de qualquer outra coisa que talvez não entenda – 

e termino. 

Tu virás procurar-me.

19 de julho de 2019

post insomnia

fotograma do filme Few Of Us, por Šarūnas Bartas, 1996 - via Absolution

Soa distante a composição do primeiro comboio do dia sobre a ponte num chilreio de carris. Alguém madrugador na rua espanta o som dos seus próprios passos com um quase lamento 

- Parece que vai chover 

e o cigarro esvai-se nesta vagarosa hora da manhã em que era suposto a tua mão na minha sem provocar aflições no meu peito. Hoje, porém, sinto com desdém que a pousas a procurar o afecto, enquanto se desvia a minha perna esquerda na sombra dos lençóis, a aligeirar a fome do abismo ainda escuro do chão 

- Olha que cais! 

Na vez daquele sorriso, ou do matinal bom dia repetido ao longo de anos, os meus lábios desenham um frio azedume. A perna resvala por fim, em pequeno estrondo sobre o soalho porque o silêncio a esta hora é de tal forma imperioso que podia perceber-se o roçagar de uma pluma varrendo o pó. A tua mão ainda tenteou o volume das minhas nádegas naquele desequilíbrio, não sei se por vã esperança libidinosa, se simples resgate do meu corpo à cama, mas acabo por levantar-me e deixar-te encolhido entre a suplica dos lençóis. 

Não te adiei o amor, sabes que o recuso, poderás apenas não ter percebido há quanto tempo isso vem acontecendo, mas certamente percebes já que sempre hás-de morrer de mim e, hoje, nesta imprecisa hora da manhã, é a minha particular oportunidade de te encenar 

(sem acenos, porém, como é meu apanágio) 

o adeus. Nesse instante, em que deixo sair os sentidos de mim, pude decifrar ainda a tua voz num lamento repetido 

- Parece que vai chover 

e tens razão: há-de chover para me livrares das tuas ocasionais vontades.

6 de julho de 2019

poema-sujo: crónica de uma madrugada

Nicolas Gavino via Absolution


Sentado ainda sobre o que é a clareira da mesa, num espesso assombro de nada, a escassa luz transforma o que fora visível num amontoado volume de espectros. É uma valente merda, isto de ser ir vivendo por viver. Ninguém se importa seja com o que for, a saber: as Mulheres, os Amigos, a Nobre Família. Tudo se some se deixas de ser, e quando não sobra nada mais do que já foste. Vou abraçar a noite por essas ruas e estradas. Quero ir e não voltar. Menos dó. Menos pena. E menos culpa. Não quero outra condição senão virado para dentro de mim, agora que posso, finalmente, mergulhar no mais profundo egoísmo. Não regresso. Só quero que pare de doer, por que insiste isto em doer? 

Estugo as passadas entre o frio da noite, no ar húmido. As solas dos meus sapatos não me isolam os pés desta humidade, alguns metros adiante sinto já os dedos gelados, subindo constante para as pernas, das extremidades para o interior, o tronco começando a estremecer. Não faz caso a razão de qualquer condição do corpo, se é a alma quem vai no comando, no desejo dos contrários, na sede dos castigos 

(amanhã prometo o jejum) 

e a noite foi escolhida para ser reconciliadora. Carne e espírito em evidente simbiose. Não pode o frio vencer, não posso deixar que me derrotem as sombras que me perseguem.


2 de maio de 2019

águas



Onde os caminhos investem
ribeiros de águas que vêm repousar
refrescando
a sólida tarde entre o trigo
eu sigo em espiral
mergulhando
como quem fermenta a terra
com o corpo

trazendo às raízes a adocicada saliva
e seiva.

20 de abril de 2019

taquicardia



Comprometo o músculo cardíaco com a indução do álcool na vã tentativa de contornar por fora a circunstância da solidão. Quis sentir-me como as ovelhas, ufanas no seu trote estival pelo pasto. A liberdade pode ser imensurável quando não sentimos o efémero a acometer-nos por cada momento que passa esvaindo como areia entre os dedos. Abomino o corpo exigindo-lhe a ressurreição, se dizem que cristo é vivo em cada um de nós. 

Vou resgatar gestos pueris com o argumento da falta de juízo. Por favor: não me atormentes com o frio roxo dos lábios em labuta contra a minha falta de erecção. Não se ressuscita os mortos por dolência de desejo. O fio de vida é ténue para essas tão imperiais ambições do corpo.

8 de abril de 2019

ouriço



Vou para onde já não quero ir e fujo para os lugares onde todos podem encontrar-me. Desligo da multidão ao saber-me só e procuro a solidão entre as praças de gente. E os pombos, trombos entre os autocarros que enxameiam as ruas da cidade. As estátuas afiguram-se artroses, os edifícios a largar sombras sem frontarias nem traseiras. Jardins arrabaldes insinuando a secura dos baldios e estes floridos pela peste daninha a rebentar o betão. 

É segunda-feira, modorra farta de um pranto invertido, oh! que dia triste e desproporcionado de fadiga e ócio. Lançai-me antes a ferros para uma masmorra, cave ou qualquer lago inundado de limo. Se nem falar tenho apetite já, vencidas as razões para um, dois, três amigos, sequer esforço para a apoplexia fervorosa das paixões terei ânimo. 

Quero-me de cobertores enjaulado como os velhos. Nada me seduz para exaltar alegrias ou sorrisos esboçados. Acende-me um cigarro e dá-mo na boca como o pão de côdea dura da véspera. Por tanta sede negra esta que tenho, filtra-me o fumo para tão só conseguir inalar e beber do mesmo ouriço e caroço com que ela, 

ela, 

consentiu que lhe corroesse o sangue e enfim deixar de ser entre nós e para sempre longe de mim.

7 de abril de 2019

segunda redenção




Foi capaz de dobrar o espelho, e ficou do lado de lá 

(pensando que para sempre) 

longe de tudo o quanto a assustava na vida aquém espelho. 

Tornei a vê-la, já doente, numa esquina de luz onde dormia a imagem rachada do vidro. Nunca se lembrou que, por ser de vidro, a sua vida ali também se quebraria. Ela veio até mim, trazendo um molho de chaves, e disse: 

- Toma a que achares que vai abrir. 

- Abrir o quê?, indaguei, sem ter esboçado qualquer gesto que adivinhasse a curiosidade que me invadiu naquele momento. 

- Tu o saberás, respondeu-me, serena. 

Ficamos uns instantes a olhar um para o outro. O que me poderia interessar numa chave daquele molho estendido pela mão de uma estranha? Apesar de tudo, a minha curiosidade era cada vez maior pelo que viesse a ser tudo aquilo e porquê eu, porquê ela. Porquê chaves. 

- Escolhes uma?, insistiu. 

- Prefiro as portas já abertas, respondi por fim, muito convicto. 

Murou-me o horizonte com o rosto que aproximou num repente de mim, e os seus lábios entreabriram-se. Mas eram os meus olhos que afastavam a sombra da madrugada e afogando com a realidade a incógnita de um sonho. 

Se tivesse deixado a porta aberta, teria saído. E descoberto fronteiras impossíveis. Teria talvez, para além de tudo – o amor, a religião, o poder, a luxúria, a filosofia, a miséria, a morte – vivido. 

Uma porta fechada é uma solidão escura. 

Às sete horas da manhã, o sino badalou para anunciar existência ao mundo e em particular a este quarto escuro, onde poros rejeitam a parição da aurora. Badalou vezes sem conta o sino ou conta que não quis eu fazer, a sentir que me chamava, e eu sem nada dever à manhã porque deixei de me interessar, a querer-me morto agora, concluindo as horas que faltam para o render da tarde. Não estou, não vou saber de nada e o quarto continuará poroso e negro. 

Sinto o frio na vez das agulhas no antebraço nodoso, o suor a escorrer pelo corpo convulso. Este esconso sacudido pelo bolor onde a ténue luz espreita pelas frinchas que as traças vão deixando. Deixo-me sinceramente ao fogo que me lambe de morte prematura, a ouvir-lhe o murmúrio da crepitação: 

- Consome-te!

30 de março de 2019

derradeiramente eterna

foto de Mariana Pereira (instagram @sousa.msp | @gs_infoccus), gentilmente cedida


Quero esta e outras manhãs para mim. Subir às praças esquecida do que está fora do meu alcance. Vou largar prospectos, folhetos, cartas. Direi avisos, poemas aleatórios, sensibilizar sobre rumores e tempestades. Vou pousar a voz em outras vozes e ousar o ombro, semear cumplicidade, sem acenos. Largar a janela como horizonte, viajar com regressos adiados. Por essas tão polidas escadarias, quero construir vínculos com a multidão. E terei de alinhar-me, ligeira como o vento estendido sobre as pradarias, com o olhar dos gatos atentos na caça doméstica dos insectos. Quero ser pessoa entre pessoas e ângulo demorado quando da sedução faminta dos amantes. Quero ter um gesto sobre os seus rostos, adiando a saudade. Ter as palavras para explicar o que vai correr de feição. Tentarei abrir a boca e engolir cataclismos privados. Suprimir algumas lágrimas que se derramam cruas como leite, tintas e óleo, ter as texturas sob os dedos para dar garantia aos sentidos, ouvir como quem dorme, respirar como se a afogar, mexer a língua entre o borralho. Hei-de conseguir planisfério e abóbada, furos de lebres e torres altas de menagem. Secar os sinos do luto e da labuta. 

Vou, antes disto tudo, perpetuar o presente com a mão estendida, sorriso esquecido sobre equívocos passados e assumir a largura do espírito sem esperar futuro. Sana loucura de ser deusa entre os demais, decidindo que o tempo uma vírgula de ilusão. Vou ao calor do teu corpo e, afastando a resignação, pedindo a tua resposta, derradeiramente eterna, ao questionar: 

- Estás comigo?


24 de março de 2019

véspera

Katia Chausheva via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.



A parede é demasiado áspera para deixar que o queixo
e as mãos lhe sintam a textura
recolhe-se o sol e este covil de letras e tons e sílabas fica mais frio
fica grave quando se esfrega a fronte
e se coloca o cabelo em desalinho
a pele arrepiada por um arrefecimento que não se espera
uma vez que a tarde feita de sol
ufano de uma promessa estival.

Ao fechar os olhos
o amanhã repudiará as palavras pretéritas
e um domingo será erguido de irrequieta solenidade
a saber que
tendo sido a véspera ébria
será a vez de retomar a sobriedade
e o silêncio.

16 de março de 2019

soneto a são gin





Abençoado seja o São Gin
que me entorpece a razão
e me faz esquecer o tino
deste tão covarde coração;

não fosse eu ser de fracas
carnes e inconstante alma,
terias acutilantes facas
mil e uma três vezes a fama

das que sendo inconstantes
me dão saliva na vez do amor
e, ao acordar, de cio penante
que com pressa saciam esta dor.

Pois sendo isto relativo, não vou
esconder penumbra nem frustração
por ter tido o teu corpo um dia.

E perdido resta agora a este que sou,
morto sem acreditar em redenção,
quedar renitente, maldita ignomínia!

17 de fevereiro de 2019

o trigo nas tuas mãos



Deixa-te inebriar pelo calor do toque das minhas mãos que em limpa manhã desejam procurar-te, perde as estribeiras do bom senso, cala a moralidade, contraria o estigma da boa conduta para que recebas o meu corpo em prado dourado pelo sol, trigo nas tuas mãos, o consolo de me teres a colocar a língua sobre os teus mamilos, comigo a afagar o sal da tua pele que vai explodindo de tremores, e te arrepiares na confusão dos dedos e os teus cabelos sobre os meus braços, pescoço, os ombros, tu a escaldar sob os sentidos que te avivo ateando fogo e chuva e depois mais fogo e sol, e toda a manhã numa sinfonia de toque com seda e sede e fome e apetite; as nossas bocas unas despertando e desmaiando na raiz das nossas línguas, um só músculo de desejo e frémito…

Oh meu amor, minha ninfa, minha gata de janeiro!... O que há em ti que toma posse do que sou e descontrola tudo o que o coração comanda e faz o meu corpo de tal condição refém? Eu hei-de em ti vir-me para que te venhas tu a resgatar o desejo em polpa de pêssego; deixa-me sentir o desmanchar da minha carne sobre a tua. O mundo vem, vem-te comigo e com o mundo, a sentir que é vida os corpos e duas almas numa comoção de tudo quanto quero e que me une a ti: vir-me na tua flor para deixarmos de ser apenas eu, apenas tu, e sermos plenitude de um nó de simbiose sempre eterno. Já não há existência sem ti, deixa que me venha e me renasça dentro do teu ventre, inebriante útero que há-de conseguir do vazio deixar-me limpo e, como com um vagido, recomeçar a viver.

16 de fevereiro de 2019

um adeus adiado

Kültür Tava

Adormeci com a tua ausência, ao que se seguiu um corrupio de fragmentos acumulados de tudo o que tenho arrastado como um fardo no par de horas em que 

(a julgar ser verdade )

sonhei durante o fugaz sono. Obviamente não saberei caracterizar os esgares do meu rosto nesse tormento, mas sei o quão vívidos e angustiantes foram os batimentos cardíacos e as sacudidelas do espírito enquanto eu presente nesse palco onírico. Escrevo palco para ser levada à letra. Havia uma espécie de assistência, plateia tão fragmentada quanto os pedaços que me lembro de ter vivido nesse par de horas em que 

(a julgar ser verdade)

dormi. 

Não é minha intenção discorrer sobre o sonho ou as suas camadas pois nem sempre são suficientes as palavras. Posso apenas afirmar que foi contigo com quem estava nessa quase luta emocional em cenário adverso, adensado por sombras mais escuras que o abismo. E essa plateia que nos observava entre os Ah! e os Oh! das bocas, consoante o escarninho e o gozo, o espanto e a dissimulação. O centro da acção era apenas em ti, na oscilação do teu comportamento, ora vilipendioso, ora cheio de charme e sedução, ora em derretida e delicodoce ternura. E eu, incapaz de articular discurso, sobressaltada pelo teu inconstante humor e pela reacção da assistência, apenas gesticulando os braços como naufrago e em convulsão desarticulada. E havia de estar assim o meu rosto 

(a julgar ser verdade)

num consecutivo esgar. 

Quando despertei, era o limbo entre o fim da abóboda da madrugada e o horizonte a leste prenhe de luz, enquanto a cidade nem sequer esboçava qualquer intenção de bocejo. Sacudi o torpor e as imagens do sonho esfregando o rosto e os olhos com as mãos e os dedos, e deixei o corpo aquietar-se na rouquidão do quarto e no ronronar da cama. Os olhos abertos para o tecto branco escuro. Sem pensamento que pudesse incomodar esse assossegar. Cobri de calma o peito, e a taquicardia abrandou, desaparecendo poucos minutos depois. 

Ergui-me da cama, pronta para o afã do dia. O fardo que tenho arrastado também, acompanhando-me à casa de banho, no café com torradas e manteiga, em cada perneira das calças que vesti, no frio da malha contra a pele do peito, fazendo-me arrepiar. E o teu nome, já só signo da tua ausência, a tentar com que sorria, nem que seja por única vez e matinal, tentando convencer-me que tu e eu 

(a julgar ser verdade)

somos ainda um adeus adiado.

10 de fevereiro de 2019

slow motion





Manhã de chuva, árvores gesticulando
no vento. Do lado de dentro,
tique
                \
                /
taque
sobre o silêncio.
Respira-se:

– Estás a adiar as palavras
– Não sei delas
– Desde que não adies as emoções
– Tenho medo.

Expressão desconcertada. Devolvo um poema:

teu olhar revela-me
suaves tentações
teu desejo é como o tímido esquilo
que se esconde do ruído

emoções:
nunca      fujas      delas.

Um abraço.
U m    b r e v e    o l h a r .  
Braços caídos,  porta  aberta:
a esperança recusa qualquer sinal de
a d e u s .

9 de fevereiro de 2019

poema simples para ti

Kültür Tava




oh!
Esses vindouros dias estivais e o apelo do feno
do teu sorriso tecendo a manhã limpa
no estuário do rio entre brisas, canaviais de onde se levantam
as asas e os gorjeios das aves pequenas,

plumas!
Não resistindo a acariciar o meu rosto
os teus cabelos que acordam da almofada
mais a polpa dos teus lábios sobre a minha
pele em solene

bom dia!
Sorriso de azul da janela ensaiando o mar,
e eu despertando sem bocejo, apenas a foz
espreguiçando sob a raiz do sorriso -
sendo tu o léxico e a terra

que mostra ao mundo o poema que és
e tanto desejo escrever.