pesadelo doméstico
Pica ela a cebola, fingindo que o jantar é o único rito que sustenta a família. Ele ensaia a fuga no olhar, mas estaca, hipnotizado pelo ritmo da faca. Ela, pretensiosamente abstraída, golpeia o vegetal e o tempo. O ambiente é um cárcere de vapores; nenhum deles encontra o trinco. Ele inspira o silêncio; ela suspira o cansaço. A lâmina, cega de hábito, fere o dedo em duas fendas vivas. Ela quer a raiz do medo; ele quer o vácuo de uma frincha, a claridade de uma porta que não range. Atónita, entre o sangue e o sumo da cebola, ela balbucia o seu credo:
«Sou capaz de tudo,
ou talvez de quase nada:
ler-te o silêncio mudo,
nesta cozinha gelada.
Levar os filhos ao leito,
dar-lhes o sonho e a história,
enquanto escondo no peito
o que resta da memória.
Fomos um dia contínuos,
partilhámos livros e palcos,
hoje somos apenas declínios,
entre lençóis e sobressaltos.
Sei que há pouco sexo e muita conta,
um inventário de desamor por fazer;
o que em ti se cala, em mim se monta,
e há coisas que não chego a saber.
Dizes que outras te escutam o passo,
no que eu não posso ou não quero dar;
enquanto te perdes no cansaço,
eu fico cá, a aprender a esperar.
Duas sombras que já não se tocam,
será este o nosso fado?
Se as palavras tanto se equivocam,
mintamos também pelo que é sentido:
poderá o que em nós ainda resta
reerguer o que foi destruído?
Permites que o elo se refaça,
do zero, sem defesa ou baluarte;
que o amor, por fim, nos aconteça,
antes que a vida de nós se aparte?»
Ele não partiu. O entendimento foi o seu único refúgio. Afinal, as almofadas estavam apenas húmidas de um terror nocturno, e os lençóis, enrodilhados, testemunhavam a luta contra o invisível. Despertar de um abismo assim exige uma coragem mansa. E embora o corpo demore a reconhecer o caminho, uniram-se na penumbra, com a urgência de quem sobrevive a um naufrágio. Horas depois, o riso dos filhos foi o baptismo daquela casa. Nada retornou ao que era; tudo se inaugurou. Foi assim que ela o sentiu: um reencontro quotidiano, onde o amor não é um destino, mas uma decisão.
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(foto de autor desconhecido)

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