aerogramas
prólogo
A historiografia da Guerra Colonial fixou-se, por imperativo de justiça e memória, no luto e no trauma: o embarque lacrimoso e de lenços brancos em Alcântara, o medo da mata densa de África e o regresso dos corpos – vivos ou mortos – estropiados pela violência. Contudo, entre as frentes de combate e as zonas de paz administrativa, existia um estranho silêncio. Alguns jovens, arrancados à estreiteza da metrópole e à asfixia do regime do estado novo, encontraram em certos sectores do ultramar abundância e liberdade desconhecidas. Para esses, a guerra não foi o fim, mas o pretexto para um novo e cruel começo. Talvez seja necessário dar também voz a esse desterro voluntário e sonhado, onde a pátria e o amor foram sacrificados ao deslumbramento de uma promessa de fortuna, erguidas ambas sobre a distância.
Húbris e Némesis (*)
> Marília, adeus! Já sou soldado em guerra de outrem, segura-me no beijo e dilata a tua saudade para o bater do meu corpo na nossa santa terra ou naquelas matas do ultramar.
> Manuel, dei-te o meu corpo em sacrifício e prazer para que as saudades em ti sejam tantas e que não temas, nem à morte te dês para esse cruel e último sopro. Aqui fico, esperando-te nua, sonhando-te em lágrimas.
> Marília, desembarquei do Niassa após tantos meses sobre imenso mar. Sê prudente e feliz, que eu vou com medo de à terra não poder voltar!
> Voltarás, meu amor, não fiques com esse desassossego. Dá-me a felicidade que espero com o teu regresso. Rezo muito para que a mim tornes cedo.
meses de silêncio
> De boa saúde gozo, espero que também vós na metrópole. Nesta foto mostro como cá vivo agora. Mulher e nosso filho, casa, fazenda. Tanto que consegui fazer da guerra a fortuna que na foto exibo.
> O que é isso agora, meu querido Manuel? Que foto é aquela que enviaste aos teus pais? Por que não me escreveste durante tantos meses, sabendo-me aflita? Conta a mentira que tenhas mais cruel, mas faz por sossegar este coração que ainda te ama.
> Marília, as voltas de que é capaz o mundo! Para cá vim com medo, mas agora só cá quero fazer a minha vida. A foto diz do meu futuro. Sempre quis fosses feliz, não estando eu. Não morri, e perdi o medo. Deu-me a vida esta sorte, sou feliz, e à terra já não regresso.
> Se a vida te deu tal sorte, agora eu já não espero outra coisa senão martírio por má fortuna. Aqui fico em fosso fundo onde nada tenho, para onde nada levo. Sejas feliz então como queres.
> Marília, esquece o tivemos, não morri aqui mas morto está quem eu fui aí. Percebi que o mundo é muito grande. Espero que sejas feliz também.
> Manuel, adeus. Já sou carne para os bichos do cemitério. Não fui à guerra mas sinto como se dela tivesse regressado, espoliada. Espero a cova, que devia já estar aberta.
epílogo
(*) Húbris e Némesis: na tragédia grega, Húbris designa a arrogância ou o excesso de confiança que leva o indivíduo a desafiar os deuses ou a ordem moral; Némesis é a retribuição divina e implacável que restaura o equilíbrio, punindo o transgressor.
Anos mais tarde, o pó da História soterrou as promessas de fortuna. Com o desmoronar do império e o advento das independências, o mundo com que Manuel se deslumbrou ruiu em pouco tempo. O homem que preteriu a sua terra foi nela cuspido pelo destino, sem a casa, sem a fortuna e sem a família que a guerra lhe dera. No cais de Alcântara, entre os milhares de retornados que traziam o vazio nas mãos, Manuel procurou, num instinto tardio e inútil, o rasto de uma Marília que já não existia. Compreendeu, então, que a sua maior derrota não fora só a perda dos bens e entes queridos em África, mas o facto de ter regressado a um país onde já não tinha ninguém que o esperasse – nem viva, nem morta.
(*) Húbris e Némesis: na tragédia grega, Húbris designa a arrogância ou o excesso de confiança que leva o indivíduo a desafiar os deuses ou a ordem moral; Némesis é a retribuição divina e implacável que restaura o equilíbrio, punindo o transgressor.
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(foto de autor desconhecido)

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