tiro ao alvo


está o homem de vestes solenes
a ver o que sucede
onde são largados os pombos
levemente atordoados
pela claridade

o homem de vestes solenes
assiste atento
o tiro ao alvo

ressoa o estrondo da pólvora
e sibila o vento
na velocidade do projéctil
as manchas de sangue
expulsas no ar
tingem a azul paz celeste
num revoar de plumas carmesim

solta-se o raminho de oliveira
– observa o homem de vestes solenes
e o sol a mudar de posição
quando o atirador solta o queixo
muito devagar da espingarda

o grito dolente e mudo
arrancado da laringe
que outrora rolava
cai em flecha
naquele pedaço de terra
que se diz ainda sagrada
para tornar a morte nobre
e fazer do atirador um deus

o homem de vestes solenes
fecha os olhos
o crepúsculo estanca o brilho
sobram os movimentos
lentos e passivos
de quem apenas viu


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imagem gerada por IA - Gemini
conceptual/natureza morta, chiaroscuro, 
close-up com ângulo zenital, spotlight
saturação profunda com foque bokeh

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