hoje


Hoje só posso dizer que, afinal, não sei escrever. Vieste numa correria de ave desconcertada a cacarejar qualquer coisa sobre uma ideia genial para um poema, uma crónica, ou o que eu quisesse, segundo a tua própria expressão, suspensa num sorriso escancarado. Tua boca e lábios foram seguindo, vagarosamente, os meus gestos até os músculos do teu rosto esmorecerem. Não achas boa ideia, perguntaste, numa clara desilusão ao indagares sobre o meu silêncio e a minha indiferença perante a tua estridente alegria e ideia. Sentei-me num movimento cansado, apoiei desanimado o rosto entre as mãos, citei António Lobo Antunes como quem resmunga

Interessam as palavras, as ideias… toda a gente tem ideias

e dei-te o mesmo valor que dou à secretária, às estantes, ao papel, e restantes objectos que perfilam assimetricamente nesta sala. Os livros sempre os considerei como coisas vivas, qualquer vida vegetal; não se mexem, não se emocionam, mas crescem de cada vez que os leio uma e outra vez. Ainda assim, e perante o meu rosto mudo apoiado nas mãos, estão como qualquer planta que precisa de cuidado, podar umas folhas velhas, mexer a terra, regar… Mas há dias em que nada parece ter qualquer importância. Nem mesmo quando vens de sorriso escancarado, de ideias brilhantes a querer salvar o meu dia. Eu só me encho de ternura por ti quando compreendes que a tua saída em silêncio e em respeito pelo meu estado de espírito é a melhor atitude. É que hoje só tenho a dizer que, afinal, não sei escrever. Volta, por favor, quando deres conta de um rebento na terra mais viçoso. Quem sabe não nasça então uma flor com que possas adornar os teus cabelos. Talvez venha a escrever sobre isso.

Comentários