nada para coisa alguma
- Sabes o que te trago?
- Nas mãos que as tens para nada?
- Fosse esse o caso, não to trazia.
- Fossem mãos.
- Fosse nada.
- Diz lá então, o que é?
- Já não sei.
- Amuaste.
- Trazia-te o que esperavas.
- E já não espero?
- Não.
- Porquê?
- Tens o coração para nada.
Saí para a rua de cigarro aceso nos lábios. Chuva miudinha, automóveis, pessoas, correria. Penso. Abstraído, não dei conta que o cigarro apagara. Cuspi-o. Trazia enfim os lábios para nada. Vida amarga, se lhe perdemos o sentido: temos o nada para coisa alguma.
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foto de Miroslav Tichy
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nota sobre este texto por
Maria Clara Resende
Textos como este impõem-se pela simplicidade e crueza que neles pulsa. Ao revisitar este diálogo - que eu já conhecia de rascunhos antigos e sobre o qual insisti pessoalmente para que fosse recuperado - somos confrontados com uma peça que marca os primeiros textos de grande lucidez de José Alexandre Ramos (JAR). Um exercício quando do despertar de uma consciência literária dos textos que publicou antes, na versão anterior deste blog.
O diálogo - seguido de simples reflexão - apresenta um jogo de espelhos verbal onde a economia de palavras esconde um abismo emocional. O embate entre o "Sabes o que te trago?" e a resposta cáustica "Nas mãos que as tens para nada?" estabelece, de imediato, a tensão de uma intimidade gasta. O que se lê entrelinhas é a tragédia de uma expectativa desnivelada: ela (pressuposta voz interlocutora no feminino) traz o imaterial, enquanto ele (pressuposto narrador no masculino) exige a evidência física.
A importância de recuperar este pequeno texto reside na sua desarmante honestidade. Se compararmos esta peça com textos mais recentes de "a justa geografia", nota-se a evolução nesta "oficina de escrita particular" que o JAR diz ser o seu blog desde há mais de vinte anos. Nos textos atuais, a prosa de JAR é mais elaborada, com metáforas mais densas. Todavia, nestes registos inaugurais, há uma clarividência que a sofisticação metafórica e de estilo posterior não apaga. O blog, durante anos carregando o peso interrogativo de Sá de Miranda "Que farei quando tudo arde?", encontrou em "a justa geografia" um nome muito mais feliz, e próprio do autor, grafado no texto "geografia". O novo título reflete melhor a sua intenção: delimitar o espaço do eu e do outro. Que é o que vemos ensaiado neste texto antigo, sob a "morrinha" da rua.
A imagem final do cigarro apagado é de uma eficácia poética notável: "Trazia enfim os lábios para nada", um desfecho lógico de quem ouviu que tinha "o coração para nada". O autor fez do conceito de vacuidade como perda de sentido: "Vida amarga, se lhe perdemos o sentido: temos o nada para coisa alguma".
O que poderia este texto ser mais? Ele é, em potência, o fragmento de algo maior. Muitos dos textos que JAR publicou e tem vindo a republicar nesta sua oficina podiam ser "pedaços" de um romance que, ao que sei, é algo que o autor sempre tentou e não soube escrever. Contudo, fica o desafio: e se, em vez da estrutura rígida do romance tradicional, ele tentasse uma "manta de retalhos" com muitos dos seus textos? Se estes diálogos, notas e reflexões singulares fossem unidos, creio que se alcançaria uma continuidade. Não duvido que só o seu génio poderia unir esses retalhos para produzir algo maior. A unidade da escrita de José Alexandre Ramos não reside na continuidade linear, mas na soma de todas as partes. A "justa geografia" de uma narrativa longa está bem à vista, suscitando que se aceite finalmente coser estes retalhos que, a meu ver, são muito mais do que isso: são jazidas de algo muito precioso.

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