candeia


Regressaste. Os nossos reencontros são quão cíclicos como o clima de cada estação. Surge a languidez do outono e afastamo-nos, sem que cada um perceba bem, enquanto os primeiros ventos mais fortes despem as árvores, e no chão vai crescendo o musgo que se insinua sobre a humidade das pedras. No inverno, desentendemo-nos, só queria hibernar, contrariar o frio, as chuvas, as poucas horas de luz, neves, granizos e geadas, tempestades terríveis, mas contrariando também a tua vontade de que o mundo continuava para ser vivido. Desatinado com essa insistência, questionava

- Qual mundo, Malee?

e tu deslocando o olhar, procurando por uma resposta, sabendo que para mim não há respostas simples, ou porque eu não sou simples de entender. Acabavas zangada comigo, sabendo que estava descreditado do mundo. Se nesses dias me escusava de procurar-te, tu quedavas-te quieta e calada, talvez pensando que qualquer palavra ou acto teu me acrescentaria mais raiva contra o mundo – mas é só o meu mundo, Malee, o das sombras onde me escondo dos meus próprios pensamentos vis, e dos fantasmas de que nunca quis falar-te, sabendo que para ti a palavra fantasma tem um outro sentido.

Então, sempre surge a primavera, como agora, e sou um outro, irreconhecível de quando me deixava enterrar sob as sombras das estações frias. E, mesmo que março e abril não ofereçam assim tantos dias de calor, há sol bastante para que eu abra as janelas e sinta o ligeiro vento a agitar as cortinas, as narinas insufladas pelo cheiro das primeiras flores. E sinto-me alegre, aberto ao amor, amplo. Procuro-te então, mas desconfias, com a tua timidez, e pelo desencanto de não me veres há meses. Percebes-me disponível, mas desconfias, desconfiaste sempre

- O teu mundo já mudou, Jao? Ainda tem espinhos… para me magoar outra vez?
- O meu nome é João

sempre contestei, mas desta vez com um sorriso, quero corrigir-te sem te ofender

- Uão, uão, João

e tu na defensiva

- Jao

tu insistindo no Jao – não sei se a testar o meu grau de irritabilidade, se apenas porque não consegues nasalar

- Não, João… uão…
- Jao
- Ok. Diz a palavra não.
- Nao

mas eu não me irrito. O jardim onde te pedi para nos reencontrarmos repleto de pássaros, uns chilreando, outros assobiando, e eu digo

- É tão bonito!

esquecido por nunca saberes dizer o meu nome correctamente. Tu olhas os ramos onde pousam e partem os passarinhos e sorris. Cheia de ternura por tal cenário te fazer lembrar o teu longe Mae Rim em Chiang Mai. Sorris como sempre sorriram os teus olhos, faça sol ou faça chuva. O que me devolveu, entretanto, o peso da culpa do quanto te fiz sofrer meses antes, quando convencido de ser a única vítima de um sofrimento atroz que nunca soube explicar-te, nunca pudeste compreender. Ao encarar o meu semblante mais grave, deixaste deslizar o sorriso, e as tuas memórias da Tailândia dissolveram-se

- Jao… voltas a mim. Eu gosto… mais logo, tua casa, sim?

Com essa promessa, fiz todos os possíveis, entusiasmado. Sei que sempre te desagradou o tom sombrio do meu pequeno apartamento, estantes a forrar as paredes de livros, sommier como cama, kitchenette atrás da longa mesa onde escrevo, nenhuma flor, luz de um foco apenas sobre o quadrado onde tenho o laptop, o lápis, e o grosso caderno de capa negra magoado pelo tempo.

Procurei pétalas, pelo menos para dar alguma cor aos lençóis cinza da cama acabada de fazer. Velinhas ao longo do sommier onde tantas vezes nos demos. Soou a campainha, a imagem do videoporteiro mostrou-te de costas, fiz abrir a porta do prédio, logo depois deixei entreaberta a do apartamento, onde então surgiste, com uma candeia a óleo acesa.

- Para que é isso, Malee?

pergunto, mas de sorriso e braços abertos

- Luz para teu mundo, Jao

Pousas a candeia e fazes um gesto ritual, como se estivesses a exorcizar qualquer mal. E eu, enternecido, compreendo – uma vez mais como outras – que “Jao” é a original forma como me chamas, única. Única como tu, exótica. Olho a luz da candeia e depois para os teus pequenos olhos, ligeiramente amendoados, com o brilho da candeia aumentando o natural brilho que eles têm. Suspiro, finalmente

- Regressaste


(como sempre, Jao, ela regressou. Não faças mais nenhuma asneira quando setembro desistir, cansado, do calor do verão).


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foto de Li Calvin

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nota comparativa deste texto com o texto Linh
por Maria Clara Resende
(a quem agradeço a isenção e particular atenção )


A alteridade e o artifício: uma anatomia comparada de dois textos de José Alexandre Ramos

As crónicas e prosas de José Alexandre Ramos (JAR) revelam uma persistente fascinação pela fronteira – não a fronteira geográfica, mas a ontológica entre o "eu" e o "outro". Ao analisar os textos Linh (publicado a 18/01/2025) e o mais recente Candeia (03/04/2026), deparei-me com um exercício de ficção que utiliza o amor como pretexto para uma exploração de dois homens portugueses (reflexo do autor?) confrontada com a imaginação de uma feminilidade asiática. Contudo, é na estrutura narrativa e na evolução estilística que encontramos as chaves para compreender a maturidade – e os impasses – dessa escrita.

I. A voz e o silêncio: estratégias narrativas
Em "Linh", JAR opta por uma estratégia de espelhamento invertido. Embora o autor seja o demiurgo do texto, a voz narrativa pertence à mulher vietnamita. É uma escolha audaz: o homem português é aqui um vulto, uma ausência a quem Linh se dirige em segunda pessoa. Este narrador feminino é construído sobre a falta e a impossibilidade linguística. O facto de Linh falar um inglês que serve de ponte precária acentua o isolamento da personagem. Estilisticamente, o texto é pontuado por uma cadência elegíaca, quase bíblica, onde o vocabulário do sacrifício (“aureolo-me de santa-mártir”, “calvário”, “cruz”) sugere que, para JAR, o amor com o Oriente é indissociável da dor e da distância intransponível.

Já em "Candeia", a perspetiva muda radicalmente. O narrador é João, o homem português, e Malee é a destinatária do seu monólogo interior e exterior. Se em "Linh" a voz era o grito de quem fica, em "Candeia" a voz é o registo de quem tenta acolher. Aqui, o estilo abandona o tom de lamentação litúrgica para adotar uma crueza mais quotidiana, quase diarística. JAR permite-se uma exploração mais lúdica da linguagem, visível na transcrição fonética das dificuldades de Malee com a nasalidade portuguesa (“Uão, uão, João”). Esta diferenciação estilística marca a transição de uma escrita contemplativa para uma escrita de interação.

II. Contrastes geográficos e culturais: enraizamento versus desterro
A comparação entre as duas protagonistas oferece um contraste antropológico rico. Linh está enraizada no seu território – Nha Trang, Song Cau – e é o português quem a visita como uma "ave migratória". Ela é a guardiã da paisagem que o homem desfruta, mas rejeita (“te incomodavam costumes, clima, cheiros”). Em sentido oposto, Malee é a deslocada. Ela vive em Portugal, e a sua adaptação passa por "acolher costumes portugueses", embora mantenha a essência do seu "longe Mae Rim".

Interessante notar que ambos os textos partilham a imagem da humidade e da água como elementos de ligação e separação. Em "Linh", são as monções e o mar da China; em "Candeia", é o musgo, a chuva de Inverno e a humidade das pedras. JAR parece sugerir que o amor, nestas geografias cruzadas, é sempre algo que germina em solo instável, sujeito às intempéries do clima e do temperamento.

III. A maturidade e a construção da personagem
Há uma clara evolução na concessão de humanidade às personagens femininas. Linh é, em grande medida, uma abstração – uma ideia de resiliência e sofrimento. JAR não lhe confere argumentos culturais complexos; ela define-se pela sua devoção e pela observação silenciosa dos olhos do amado.

Malee, por outro lado, possui uma voz que, embora "deslocada linguisticamente", é portadora de uma sabedoria ativa. Ela não espera ser descida de uma cruz; ela entra no apartamento com uma candeia. Ela diagnostica o mundo de João (“Ainda tem espinhos… para me magoar outra vez?”) e toma a iniciativa do gesto ritual. O autor parece ter passado de uma visão do "outro" como objeto de perda para uma visão do "outro" como agente de cura.

IV. Nota crítica
Contudo, não posso deixar de assinalar um aspeto que me causa estranheza e algum desagrado estético no final de "Candeia". Após uma narrativa fluida, centrada na interação entre João e Malee, JAR impõe um corte abrupto. A entrada da frase entre parênteses – “(como sempre, Jao, ela regressou. Não faças mais nenhuma asneira quando setembro desistir, cansado, do calor do verão)” – surge como uma intrusão de uma consciência externa, talvez o próprio autor a autocensurar-se ou a prever o futuro.

Este recurso quebra o feitiço da ficção. Ninguém evocou essa voz; ela não pertence ao João que vive a cena, nem à Malee que pousa a candeia. É um artifício metaliterário que, a meu ver, retira força ao momento do reencontro. É como se o autor tivesse medo da felicidade plena da sua personagem e sentisse necessidade de a alertar para a sua própria natureza melancólica e sazonal (desfecho muito usual nos seus textos, mas aqui sem muito propósito). Se em "Linh", o silêncio final é orgânico, em "Candeia" o ruído final é um juízo de valor que a narrativa não pedia.

V. Conclusão
Em suma, JAR constrói em ambos os textos uma "justa geografia" do afeto, onde o amor é condicionado por entraves – o silêncio em Linh, a depressão sazonal em João. A passagem de uma relação "infeliz" para uma "esperançosa" demonstra um autor mais consciente das suas próprias sombras, ainda que a sua recusa em viajar "mais do que duas horas de voo" para conhecer mais de perto esta realidade se mantenha como a metáfora perfeita para uma escrita que prefere trazer o mundo ao seu encontro em vez de se perder nele.

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