vinho e brasa
tenho as pálpebras incomodadas pela preguiça
um arder de sono sem fogo borralho com o propósito de desmanchar a carne
que se livra devagar dos seus óleos
o braço exposto ao sol do meio-dia
remexendo o borralho e a mão
uma barbatana que se resigna ao pretérito
à desistência como o peixe
que se deixou morrer por asfixia
e agora vai ardendo num sacrifício
para intento do deus da fome
que ruge em nós subitamente vaidoso
com anéis e coroa de gula
enquanto o peixe vai inchando de calor
dando ar dessa peculiar angústia
dos cadáveres insurrectos por último capricho
depois da magia que os fez viver
– sentes-lhe o cheiro?
é a saliva como sede secando sob o sol
de dentes dilatados
atrás dos lábios que entumecem pela raiz
a deglutição
e os pomposos e morosos dedos
num trilho de roer e sobreviver
(pudesse o urso branco salivar assim
na sua absurda solidão branca
por contraste com a fome
que entristece aqueles fiordes)
este meu corpo de besta de fome e vinho
entediado pela moleza de quem se sente burro
sabendo que o arrefecimento faz mais sono
– aqui o calor imobiliza o sangue
e lá vem o crepúsculo ainda só em mágicos dedos
colorando os céus de um quase nevoeiro
com aroma a terra e a brasa
_
imagem gerada por IA - Gemini
simulação para resolução 6144 x 4096
película 35mm, Adobe RGB, luz 5500K
grão analógico (ISO 800), depth of field f/2.8

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