dúbia
A que chão podes tu pertencer, para te sentires segura, quando finges não saber que há arbustos imitando a magnificência das árvores, e que nenhum pão será cozido com o grão nascido entre o joio? Que em cada flor desmaiada há a possibilidade de um nunca medrado fruto? Por que insistes na tua paciência, esperando mais tu dele do que ele de ti? Que, fora do tempo e espaço que raramente partilham ambos, tudo é equívoco? Por que resistes às evidências e nele continuas acreditando?
Entras no duche e preferes que seja a água fria a fustigar-te o corpo, como se apanhada por uma chuva não prevista. Dizes para ti mesma que ainda tens fé no coração. Qual – o teu ou o dele? O dele só palpita para a intumescência do pénis que ostenta. Pulsa para pensar em ti como carne, um canhão prestes a vir-se sobre as voluptuosas formas que tens. Diz-me, por que o acreditas?
Queres assim? Sacia-te assim? Acaso te consome contrariá-lo por tudo isso representar o contrário de quem és? Por que vais – é por medo de voltares à solidão? A que te referes quando afirmas não suscitares desejo a ninguém, que raramente alguém vai agora reparar em ti? Dizes que as tuas mãos apenas pousam onde sabem que podem dormir e, porém, entregas-te à sua gula e as tuas mãos só sentem o doloroso ardor do ferro dominador, para passares as noites insone.
Acaso observas os seixos redondos e coloridos das praias? Ou já te deixaste enganar pelo brilho do sol sobre as pedras rudes no cume da serra, sem te acautelares com as víboras surpreendidas no seu esconso? Repara como se separa a realidade entre o que queres e os desejos que o alimentam, só a ele.
Ele, que a muitas mulheres enganadas já fez o mesmo que te faz, com os olhos sem ruído e lágrima de crocodilo, os lábios numa cantilena que te inquieta. Arrepiam-se os teus mamilos, encantados como serpentes sem veneno, a sustentar uma fome que ele não tem – porque ele é apenas um viciado predador de carne. Por que lhe serves de pretexto para se gabar de como te subjuga? Por que te rendes? Por que te anulas?
*
A água fria ainda me escorre pelas costas, quase nem a sinto. O espelho, sem embaciamento, devolve-me a imagem de um corpo que eu já não reconheço como meu. Estas curvas que pesam, esta pele que conta esperas e abandonos, este peito que se oferece como um porto a quem só quer deitar âncora por uma noite e partir antes de o sol nascer.
Ouço-te, pareces vir de trás desse vidro, ou de dentro do meu próprio peito, com uma crueza que me faz querer cobrir a nudez. Não por vergonha do meu corpo – é apenas um corpo nu, um corpo de mulher da minha idade – antes pela vergonha de como expões a minha alma. Cada palavra tua magoa-me como estilhaço.
Porém, sinto um aperto na garganta que me impede de gritar, convicta, de que estás enganada. Não tenho certeza desse ferro que me domina, mas reconheço-lhe o ardor – ou o peso – de algo que vem dele por veleidade sua, e que me força a vontade, pois nem sempre quero o que ele quer, e nunca ele diz querer o que eu quero. Sinto-me pequena, talvez por me conheceres melhor do que eu mesma. E acabo por me sentir humilhada. Sim, talvez aos olhos dele eu seja apenas um pretexto carnal.
Não preciso que me fustigues mais com a verdade, que ela já me queima como o sal nas feridas que não vês. Referiste os arbustos e as árvores, mas eu só vejo o deserto onde me perdi por querer, desesperadamente, ver num oásis o meu desejo de protecção, amor e felicidade.
Dizes que me anulo, e talvez tenhas razão, mas como explicar-te o silêncio de uma casa onde o único som é o bater do meu próprio coração, cansado de não ter onde repousar? Sim, eu sei que o pão não nasce do joio, mas tive tanta fome de ser amada que aceitei o falso pão, fingindo que era mel.
Dizes que as minhas mãos pousam onde sabem que podem dormir... e dormem, sim, num sono de derrota, porque acordar é ver as víboras no cume da serra aonde eu insisto subir, descalça e nua. Tu perguntas-me por que me rendo. Eu respondo-te com outra pergunta: existem homens que não pensam na mulher como carne? Onde está o chão que não treme? Quem nunca? Aceitar o mundo, tal como é, será pecado, será anular-me?
Tens razão, a minha fome alimenta-o, e eu seco-me enquanto ele se farta. Não me chames de serpente sem veneno, porque tenho veneno, o que guardo para mim, bebendo-o gota a gota em cada noite insone, enquanto espero que ele me diga para ficar, que sou sua e ele só meu, que somos vida. Entendes isto?
Queres que acorde com essa brusquidão, que aceite isso de um dia para o outro. Ninguém faz assim, ninguém desperta, é uma falácia. Deixa-me apenas secar a água deste corpo que, aos teus olhos, é uma denúncia, mas para mim é apenas a única morada que me resta, mesmo que o senhorio possa ser, afinal, um tirano.
Baixo o olhar. A água no chão é morna, caída com o calor da minha pele. Talvez sejam lágrimas. Não quero olhar mais para o espelho, não quero ouvir-te mais. Ainda sinto o ardor, seja do ferro ou apenas da mão que ele usa para me forçar continuar debaixo de si. E o pior é que amanhã, se ele me chamar, eu talvez esqueça o que me disseste e o que confessei, só para não ter de ouvir o silêncio da solidão outra vez.
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foto de Ibai Acevedo

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