25 de Abril Sempre


Maio maduro Maio, quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou
Raiava o sol já no Sul
E uma falua vinha lá de Istambul
Sempre depois da sesta chamando as flores
Era o dia da festa Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava ao longe a varar
Maio com meu amigo quem dera já
Sempre no mês do trigo se cantará
Que importa a fúria do mar?
Que a voz não te esmoreça vamos lutar
Numa rua comprida El-rei pastor
Vende o soro da vida que mata a dor
Anda ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça a turba rompeu

José Afonso
Cantigas do Maio, 1971

Gritar Abril é dizer Maio maduro Maio,
e a canção, sem referir no refrão,
tinha o que Abril trazia na mão.
Hoje o grito é outro, é eco de ensaio,
e dúbio o amigo a quem dera já,
quando se esconde o sol e falua não há.

Vem de Istambul outro vento que sopra,
esse oriente cego, de armas erguidas,
paz consumida em vidas perdidas,
e a fúria do mar é a nossa própria.
Vamos lutar, como José cantou
contra este ruído que a turba deixou.

Em terra do cravo, seco chão se dividiu,
três frentes competindo o seu lugar:
um centro que hesita no verbo cuidar,
um ontem que quer o que se destruiu,
e a voz estridente, punho cerrado,
aspirando a um futuro sem passado.

Abril perecendo ou Maio por nascer?
A turba que rompe já não é a mesma,
anda o sonho em passo de lesma,
entre o medo de ir e o medo de ser.
Mas é Abril que devemos cantar,
sem que a fúria do tempo nos faça calar.

O cravo não seja só flor de lapela
neste país em três dividido;
se o verso é traído, o sentido perdido,
façamos grito da nossa sentinela.
Maio nascerá, e contra quem o desdiz,
Abril será sempre a sua raiz.

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