o delírio de deus
Não é viagem
sobre o meu rosto
ou pela tua voz,
o nosso sopro
não é.
Não é miragem,
não é o medo
sangue ou nervo,
não é.
Não é suspiro
velar um corpo,
depois do expiro,
não é.
Nem sou eu.
A viver como pétalas que se agarram
por desespero ao pedicelo.
Que a terra girando faz a vida breve
e mais breve quem jovem morre cedo.
Também não é angústia, sequer sombra
de fria nuvem, a chuva num novelo.
Não serei eu.
Assento meus pés em duro chão
que nunca tremeu,
nem treme, nem cede.
Colho dos teus seios
a única razão
que me faz alegre,
infante brincalhão,
náufrago de sede.
Não devo ser eu.
No meu sangue corre vida.
Mil vezes louco,
híbrido de energia.
No abismo não,
dele agora fujo
- nunca serei eu.
Uma lágrima no teu rosto:
mar alheio em planície deserta.
Por que choram os rostos?
Para aliviar a dor dos corpos?
Será o rosto uma porta,
confuso corredor,
ou janela nunca aberta?
Por que chora o teu rosto?
Quero beijá-lo.
como se beijam os rostos
dos mortos.
Para tocar os espíritos,
beijamos seus corpos.
Beijamos a lágrima.
Tudo é lágrima, frio orvalho.
Sentimento, criação.
Espírito. Tarde.
O rosto é a tarde
delírio de todos
sem desejo que arde.
Não sou eu
quem sonha,
quem atormenta
e se faz atormentar.
Não sou eu,
sequer sonho qualquer
dos meus. A sonhar
por todos
não seremos apenas loucos
do delírio de deus?
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(foto de autor desconhecido)

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