única


Penso que sabia bem para onde ia, dirigindo o carro, e quis atalhar por ruas para mais rápido chegar a esse destino. Ruas que conhecia e não regressava há anos. Ao fim de alguns metros, parei: lá em cima, um jardim, ladeado pelos bancos onde tantas vezes nos sentámos para falar, para namorar. Estacionei o carro mais adiante. Saí, olhei em frente. Não existiam estes prédios aqui, além era só mato, depois um pequeno pinhal. Lembrei aquela fotografia, da adolescente que foste – hoje digo, meneando a cabeça: eras uma criança!

Também eu o era. Eu era a outra criança que ia para onde querias ir e, nessa fotografia, era a criança, ou o adolescente como tu, que estava por detrás da câmara a eternizar aquele momento: tu sorrindo, olhos semicerrados pela aflição da luz, apanhando o ouro dos teus cabelos com a mão esquerda, a direita sobre a anca tão delicada… Aquele momento, lembras?

ou melhor

este, este momento! Este momento em que me sorris de lábios carnudos, inquieta para que depressa dispare o obturador da câmara, por incomodados estarem os teus olhos com este sol que nos acolheu pela tarde. Já está. Cá estou, diante de ti. Cedido, por convicção, à nossa memória.

Tínhamos uma certa pressa

ou seja

estamos com esta pressa, esta ansiedade. Sinto o teu desejo pela forma como seguras a minha mão, enquanto caminhamos para o nosso esconderijo. Desejo pulsante, consoante apertas e libertas os dedos. Viro o meu rosto para o teu, que não reparas, decidida no caminho que ainda temos de percorrer. Observo-te, embevecido com o teu pequeno nariz levantado, as orelhas também pequenas, e o ondular levezinho do teu cabelo, do qual sinto o perfume fresco, que a brisa aumenta.

Já percorremos o que havia no nosso caminho de mato mais rasteiro, e entramos onde a luz se ameniza, com as sombras dos carvalhos frondosos, dos imensos pinheiros, dos altos eucaliptos. É ali, percebemos, como se fosse novidade

(sempre foi)

e paramos, então, um frente ao outro. Admiro-te, com intensidade no gesto: a tua figura feminina sob o vestido ora solto ora delineando-te o corpo, as pernas torneadas, nuas pouco acima dos joelhos redondos, a altivez dos teus seios espreitando no decote tímido, a avelã do teu olhar, com o morango da tua boca. Os ombros alvos, de uma maciez de pêssego, com a ternura da delicada, clara e eriçada plumagem que fazes descobrir à medida que, afagando-te, te levanto os louros cabelos acima do pescoço. Para beijar, delicadamente, essa alvura.

E, logo de seguida, desenfreados e sôfregos, os lábios de ambos que se esmagam de manifesto prazer, entreabertos a comungar língua e saliva num múltiplo beijo longo, molhado,

o frémito.

Há fetos em volta, muitos. Fazem para nós uma verde cama, natura, onde tu imatura te deitas e me chamas. Enlaças as pernas no meu dorso, com o vestido arregaçado até à anca, revelando o roliço das tuas coxas em que meus dedos se perdem.

Foi assim que te dei, e como te deste a mim, unidos. Eu e tu dois prometidos corpos a ser um só. Enlaçados, sem haver milímetro de espaço entre a nossa pele. Os nossos corpos esclarecendo, saciando-se, aquela nossa fome sempre tão demorada, que mais apetecível era quanto mais a adiávamos…

Hoje, o que penso que ficou de mais singular e belo desse e de outros momentos, como se de uma canção de embalar se tratasse, foi quando e quanto, nessa simbiose, ambos confessávamos em uníssono

- Como te amo!

e sei bem que é por isso que, ainda hoje, se sonhando que nada disto é pretérito, durmo tão bem e acordo como se pudesse ser o mundo de hoje um qualquer paraíso. Um amor assim que por e de ti senti, não podia ser repetido. Por isso o guardo, como à fotografia, após tantos anos volvidos. É que a pureza existe uma única vez.

Sim. A única. Não foste. És, serás a única.

Voltei ao carro, mas perdi o destino que tinha pensado. Não importa, vale sempre a pena perder seja o que for – mesmo o rumo, desde que possa, assim, estar contigo e rever-te.


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foto de Elina Garipova

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