vizinhos

Vizinha, quanto te desejo ao ver-te, debruçada sobre a varandinha do rés-do-chão, sacudindo o pó dos panos quando limpas e arejas a tua casa: o calor do peito despido de pudor, os ombros dando ao pano mais energia do que a necessária, e tudo no teu torso estremecendo, bailando, inclinado na pequena varanda. Esse doméstico labor já tarde, vizinha, com o teu corpo que tanto arde. E bem percebo o jogo, o brilho de fogo dos teus olhos cada vez mais vivo à medida que o dia avança para o lânguido entardecer. Esses olhos que me procuram, libidinosamente aguardando dares conta do esconderijo de onde os meus te espiam.
Vizinho, laborasses mais do que espiar-me e com isso fantasiares, saberias o quanto me canso. Se me descuido na varanda sacudindo o pó, debruçada e cheia de calor, ostentando mais do que o decote do avental pode segurar, não é por qualquer sugestão minha. Antes aflição, vizinho, pois o que me resta de tempo livre é tão pouco que corro, ofegante, entre os meus afazeres antes de voltar para a perfumaria onde trabalho e onde tenho de tolerar os olhos de outros homens – que fico a pensar se lá vão para escolher um perfume ou se sob pretexto para observar um desfile de mulheres bonitas, bem e sensualmente vestidas: o que exige o meu patrão, esse outro par de olhos que nos despe… embora eu saiba bem de que espécie se trata e que ainda tem algum discernimento de não passar disso.
Vizinha, mas dares-te a esse jeito de todos os homens te colocarem os olhos, com essas vontades…
Vizinho, vontade de cobrição, podes dizê-lo.
Vizinha, sim, admito, todas as vontades que qualquer homem tem ao ver-te, ora sacudindo o pó da tua varandinha com o peito meio desnudado, ora no perfil de vendedora de perfumes que atrai os clientes a entrarem na loja… Que outra coisa esperavas, se assim te ofereces?
Vizinho, eu não me ofereço, seja qual for a circunstância. Fui contratada para bem parecer e, cumprindo essa parte, garanto o sustento desta casa. Imagina-te, vizinho, de sol a sol, teres de erguer muros, mondar a ceifa, calcetar uma rua. Não despias o teu tronco, como se sabe que fazem todos os trolhas, jardineiros e mondadores da terra, e os calceteiros? Que o calor do corpo é tanto que custa suportar a mais leve camisola? E, repara, seria isso tão-só uma escolha tua, ter camisola vestida ou não, nos dias em que o sol queima…
Vizinha, não me vejo nesse papel. Trabalho num escritório, com ar condicionado, não preciso de vestir ou despir, a temperatura com que trabalho é sempre adequada.
Vizinho, sorte a tua. E a minha, que também não ergo paredes, nem mondo, nem calceto as ruas. Eu não pude escolher, pelo que me visto com esse ar sensual porque, segundo me disseram, ajuda a vender.
Vizinha, então e quando estás na tua limpeza? Que razões tens para me deixar, ou a qualquer outro que te mire, em tão fogoso desejo…? Não terás outro traje para limpares a casa e sacudires os panos do pó debruçada sobre a tua varandinha?
Vizinho, eu já te vi, uma vez por outra, a regar o relvado que cerca o logradouro da tua casa. Nos dias mais quentes, estás só com uns calções, nada mais. Por que razão hei-de eu, para limpar a minha casa, depois de um dia de muito calor como o de hoje, vestir uma farda que se ocupasse de deter algumas partes do meu corpo?
Vizinha, é por isso que digo: não estarás a pedi-las? Como podemos saber se essa forma de teres a casa limpa não é um pretexto para estares a pedir atenção? Como não hás-de estar a seduzir, sendo tu uma mulher que vive só nessa casa? Quanto de estafante há para limpar? E, já agora, a casa limpa, tu suada após essa tarefa… é de um banho que mais te apetece, com toda a certeza…
Vizinho, com toda a certeza, é verdade…
Vizinha, pois bem, lá está. E depois do banho? A casa limpa, a solidão… Não te apetece companhia? Não estarás tu a preparar tudo para receberes quem quiseres? A casa limpa e tu limpa, ambas cheirosas, frescas. Tudo perfeito, não é? Vais negar que não desejarias que eu te batesse à porta, levando uma doçura, um vinho fresco, ou outra coisa qualquer?
Vizinho, quando não estou assim tão atinada para a limpeza, chegada a casa após tantas horas de pé na perfumaria, abro uma garrafa de bom vinho… e até venho com o copo na mão até à varanda, relaxando assim, a ver o sol a descer…
Vizinha, em tal nunca reparei.
Vizinho, talvez não, acredito. Como também acredito que nunca terás reparado na tua mulher, essa que vive contigo, seja esposa ou não…. Aliás, não só nela: vive convosco uma jovem, penso que filha de ambos. Que idade terá a miúda? Quinze, dezassete anos?
Vizinha, é a minha filha e faz dezoito no mês que vem.
Vizinho, ora então, pouco me engano.
Vizinha, mas a que vem agora referires a minha mulher e a minha filha?
Vizinho, vem a propósito de que elas também limpam. E, vizinho, como eu, limpam sempre que necessário, faça frio ou calor. Mas terás reparado alguma vez que ambas, nos dias quentes, também não pensam muito na forma como executam essa tarefa? — e olha que a vossa casa é muito maior do que o meu simples apartamento de rés-do-chão…
Vizinha, trabalhei arduamente para conseguir esta casa assim, durante anos. Também já habitei em apartamentos como o teu…
Vizinho, acredito, acredito.
Vizinha, ainda não percebi: que tem que ver a minha mulher e a minha filha fazerem limpezas?
Vizinho, pois que elas, como estava a dizer, também não se preocupam muito com o traje com que executam essa tarefa… Isto é: se a roupa que vestem exibe ou não partes do seu corpo. Aliás, lembrei-me agora de que, no ano passado, num dos dias mais quentes, como hoje, elas regavam a relva em vez de ti. E, às tantas, a tua filha em roupa interior de rendinha, como as meninas gostam, a receber a água da mangueira que a tua mulher lhe sacudia. Esta não ousou tanto, mas por se ter molhado bastante, nem precisava de se despir, pois percebi que, sob a t-shirt e os calções que vestia, nenhuma roupa interior estaria a usar.
Vizinha, tem uma boa tarde.
Vizinho, não sejas apressado. Deixa-me só terminar. Imaginas quantos homens vivem aqui neste prédio de quatro andares bem em frente da tua casa? Apartamentos direito e esquerdo? Uns tantos… Homens de família, a maior parte, um professor em idade de reforma, um polícia que se separou há meses… E um padre. Bem vês, vizinho, quantos destes puderam ver aquele alegre espetáculo em tua casa, de duas mulheres, mãe e filha, livrando-se do calor após dura tarefa de limpeza. A pergunta que te faço, para terminar, é: estariam essas duas mulheres da tua família a tentar seduzir qualquer um dos homens que vivem aqui? Estiveram elas a pedir, segundo os teus argumentos, quem lhes fosse bater à porta com uma doçura e uma garrafa de vinho fresco?
Vizinha, tenho de ir lavar o carro.
Vizinho, vai lá. E que tenhas um bom descanso depois.
Comentários
Enviar um comentário
O seu comentário não ficará logo visível, será visto por um moderador para evitar publicação directa de comentários abusivos (spam). Obrigado.