farta
Dizem-te
(e estou farta que te digam, estou farta dessa indiferença quando te dizem)
que não podes estar assim, que afinal hoje é o dia do teu aniversário. E tu não sabes
(e estou igualmente farta de continuares a não saber nada, não teres sabido distinguir em toda a tua vida quem te quis bem e quem te quer mal)
não sabes dizer
Vai-te foder, vai para o caralho
Não sabes
(estou farta)
como estoirar uma bomba nas mãos, segurar sem tremeres uma lâmina sobre os pulsos
(confesso, estou farta)
não sabes como fazer o nó da forca ou não ter nojo ao que saberá o veneno para as pragas. Dizem que és um homem
(e eu tão farta de ti, do que dizem de ti, do que pensas tu de ti, tão farta estou do que és)
e que tens de erguer a cabeça, ter fé e sei-lá-mais-quantos lugares-comuns
(bardamerda aos lugares-comuns, estou farta)
Olhas tudo e todos e não sabes, não sabes mesmo nada de quem e do que te rodeia. Fumas o teu cigarro, continuas bebendo gin tónico e – que te adianta essa sobra pastosa na boca, o ronco do corpo a tremer no dia seguinte? A sério? A sério. Que estou farta por só te aguentares como um fraco.

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