não amar uma pedra
Agora não – já não combina comigo esse teu desejo. Foram-se estes dias e neles se foram os últimos e quaisquer restos das arestas e das sombras, de tudo quanto houve entre nós. Que podia assemelhar-se a qualquer coisa como comungado amor, união, cumplicidade – porém, nunca em ti tais tentativas conseguiram ser signo de tamanha nobreza.
Reparei. Bastou que reparasse o sem senão e o sem porquê, desfeitas as ilusões, de quanto de prepotência, egoísmo e raiva faiscavam os olhos no teu rosto. O teu belo rosto tão naturalmente contrariado pelo que podia revelar e logrou. Pois que o veneno correndo nas tuas veias é tanto que mesmo a própria natureza, descontente do seu engenho, repudia qualquer beleza sustentada por tanto mal. Sem coragem já de contrariar.
As lendas e as mitologias recorreram a seres bizarros para traduzir esse mal. E deram-lhes nomes e adjectivos vários que, por serem tantos, se multiplicaram as palavras para as poder aqui referir. Para mim, não usando qualquer parábola, tudo isso se resume ao significado de ti. Tu és, como qualquer um desses príncipes das trevas, um mero adjectivo apenas para predicar, jogando com a verdade, toda a mentira que trazem.
Muito pronto conseguiste as lágrimas dos meus olhos para depois as beberes, sedento, como se fossem da mais pura nascente. Nos beijos, então, deixavas em mim o calcário para me petrificar; e do suor dos corpos onde o meu quis dar tudo, expelias pelos poros o ácido para me corromper. Muito pronto foste para tal. Sempre, e mais ainda quando, destilado o veneno da tua língua, me deixavas contrariada e furiosa, para teu gáudio e troféu. Que era quando mais gozavas.
Levantada do sono lavrado a pesadelos de tudo quanto estive contigo, e desta vez sem que uma breve lágrima conseguisse sacudir os meus olhos – apenas uma ramela que se lava esfregando o rosto com o orvalho da manhã – , pude observar que todos os meus desânimos. Afinal, apenas resultado de eu ter amado uma pedra.
E hoje, acordada desses vis pesadelos, afastando a escuridão das tuas asas negras, sei olhar o caminho em frente, e seguir para longe de ti, consertando os erros que ainda possa encontrar. Porque, é sabido, não se pode amar uma pedra, enganado pela sua beleza exterior: nem a mais perfeita, nem a mais colorida.
Não te enganes: a beleza exterior em ti é apenas uma máscara imperfeita. A pedra que és é de uma aspereza bicuda, perdida ao acaso, entre tanto basalto, de uma esquecida ilha onde nem as gaivotas resolvem repousar.
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foto de Dmitriy Arabadzhi

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