este sol
Este sol. E são os dias assim, prolongados de luz, como um perene sorriso rasgado, sem preguiça alguma: o despertar com a primeira claridade da alvorada e aquela vontade de erguer da cama para tudo fazer. Soprar o pó aos esqueletos dos projectos adiados. Viajar entre cidades que comungam do mesmo sol, na correria madruga dos aeroportos antes do embarque. Gastar horas numa esplanada quão produtiva para a sede da garganta como para as conversas a pôr em dia, enquanto a multidão de gente me inunda.
Sair das quatro paredes onde antes pairaram as polutas sombras da solidão. São as janelas declaradamente abertas, pelas quais espreito recebendo a claridade: mais quente, e tanto sol. Maio nascido com toda a força da primavera. Sei que não será muito tarde nem demasiado cedo para ouvir o chilreio dos pardais, para apalpar a terra e senti-la solta para a plantação, o sol tornando leve os sulcos da enxada, verdejando a flora que dele sacia a fome.
Eu então tão livre. Sem embalos da modorra à obrigação das tardes pardas e chuvosas, com o pensamento resignado a memórias e faltas, nenhuma razão para uma saudade
(posso perceber agora que nunca foi, era apenas a fraqueza da solidão)
que, ora a sentia como cómoda, ora exasperava por tão incómoda; uma saudade de alguém que nunca me quis fora da sombra. Nada devo a ti isto que sinto, mas à ausência de ti
(não só, mas também)
e, portanto, estes raios de luz dourados sem ser a luz reflectida nos teus cabelos; este azul do céu sem ter de o perceber pela claridade dos teus olhos. Mirraste no meu coração como um fósforo que se apaga naquele efémero instante, o mesmo instante que demora o inverno a perceber que tem de se vergar à majestosa aurora primaveril a prometer dias maiores e esplêndidos
(ainda que com chuva, essoutra chuva mais clara, e necessária).
Saber que viver é mais do que procrastinar no tédio daquelas tardes lânguidas de sombras, e o desconforto do frio. Agora, com este sol, tudo se transforma em harmonia. Tu deixaste de estar nela.
Nenhum lamento. Viver seguirá, com alegrias e amarguras; este sol é da estação, e o ciclo continua. Quando vier a das sombras novamente, espero que nesse ciclo não haja razão para reclamar lamentos que agora nego – os que já não conseguirás ouvir.

Comentários
Enviar um comentário
O seu comentário não ficará logo visível, será visto por um moderador para evitar publicação directa de comentários abusivos (spam). Obrigado.