o último verão (cold stream running nearby)
Envelheci, espero que compreendas. E compreendas que tudo o que fiz foi uma tentativa de combater esta velhice que me invadiu. Não a queria, só queria a fúria dos vinte, a ponderação dos trinta, algo da coerência dos quarenta. Bem sabes. Mas insisto, compreendes? Eu ser irreverente como nunca fui aos vinte? E ser ponderado, muito cheio de questões que apenas aflorei, desinteressado, aos trinta? Ainda tentar ser aquele maduro coerente, percorrer as noites e o divertimento, sem nunca me divertir e nunca conseguir coerência aos quarenta? Qualquer dessas tentativas resultou neste cansaço que te confesso.
Quem ainda posso ser para ti, perto dos sessenta? Um irreverente, um filósofo, um bon vivant que te seduziu? Se, agora, mal torço o joelho ou o tornozelo, ui; se mal sinto o coração desenfreado e dores na barriga, ai? Que pretendes entre os uis e os ais que me consomem?
Amámo-nos, num território que não era de nenhum, sem cabana à beira-mar ou uma little wooden cabin nestled in a quiet valley among old pines and oaks, with a clear, cold stream running nearby.
Talvez preferisses esse romantismo bacoco fora do conceito, que lês nos livros carregados de cenários que não conheces. E de relações amorosas que nunca experimentaste, porque argumentas que o teu casamento é violento, físico e verbal, afrontando o teu ideal de estar ao lado de um príncipe encantado.
Se temos a amarra circunstancial desses melodramas – eu casado, tu também casada, ambos com filhos de outrem –, como queres que me defina? Como um cavaleiro salvador? Aos cinquenta e muitos, não sei assumir esse papel de salvador. Sei lá combater dragões que guardam donzelas
(achas-te como donzela guardada?)
e sei lá o que fazer se somos apanhados desprevenidos, a não ser agachar-me e assumir a culpa, com o indicador apontando-te como cúmplice.
Terá de ser assim tão dramático? Por mim, não. Espero que compreendas. Sinto-me velho por não conseguir ser mais do que simples amante. Sim, tombaria a cabeça entre as mãos, confessando-me culpado por ter querido em ti um amor maior. E sim, teria de te denunciar como cúmplice desse crime. Desse modo, obviamente covarde, nunca o corajoso cavaleiro.
Mas tu não queres nada disso. Continuas vivendo essa little wooden cabin nestled in a quiet valley among old pines and oaks, with a clear, cold stream running nearby.
Ainda assim, compreendes? O quanto a nossa imaginação nos corrompeu, que já não tem mais validade, a não ser na tua cabeça? Somos culpados por amarmo-nos muito, é certo, não o nego. Mas só podemos ter, agora, a oportunidade de nos convencermos de que este é o nosso último verão.
Portanto, aproveita: mergulha no rio para que eu te encontre nua e possamos consumir o que nos resta. Depois disso, verás: fizemos amor num apartamento minúsculo, apertado, que nos emprestaram, e para que a tua imaginação pudesse fluir. Compreendes agora por que nunca fui bom amante na cama? Não compreendi o teu delírio, e desisti sempre do meu: não era a minha cama, sequer a tua.
Hoje, tens mesmo de compreender. Tens de aceitar: eu nunca te pertenci, e longe de mim que pudesses pensar se algum dia me pertenceste.
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little wooden cabin nestled in a quiet valley among old pines and oaks, with a clear, cold stream running nearby: uma pequena cabana de madeira, aninhada num vale tranquilo entre velhos pinheiros e carvalhos, com um riacho de águas límpidas e frias correndo nas proximidades
foto de Tristan BM

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