marketing


Tens a receita para o que te preparará para melhor enfrentares o medo, como se fosse a última refeição do condenado. E enumeras:

- 1 dose de solidão
- ½ dose de resignação
- 1 copo volumoso
- q/b de pedras de gelo ao acaso
- 1 porção legítima de uísque (a máxima, pretendes)
- 1 charro forte

Vais à casa de banho – apenas uma rotina do corpo, e urinas. Percebes que ninguém está em casa para ver-te ali sentada. Apetece-te a cama, contradizendo o teu acto premeditado. Rejeitas essa possibilidade: deitares-te e vendo tv, quase sem som, para adormeceres puxando o lençol; e quando acordasses, nada estaria resolvido.

Afastas essa tentação. Não queres adiar por preguiça e modorra. Queres o fim, para que não haja esse amanhã amargo, acordando-te ressacada. Nesse momento, o telefone toca. Atendes:

– Boa tarde, o meu nome é Mónica e estou a ligar pela empresa X que lhe dá os melhores serviços
– Nunca ouvi falar de tal empresa
– Pois, mas os nossos serviços
– Desculpe, onde obteve o meu contacto?
– Foi pela nossa base de dados de marketing
– Compreendo isso, mas estou a meio de me suicidar, entende?, pelo que me interrompeu
– Ah, desculpe! Boa tarde, então

e desligas.

Pensas: onde está o entendimento das pessoas, o que lhes resta de empatia? Programação perante um ecrã que resolve, por resumo cordial, a resposta perante o inusitado? Por isso, consegues sorrir com desdém e, ainda por isso, mais sentes que a tua solução urge.

Bebes de um trago o uísque forte, e aspiras o fumo do charro como se de oxigénio precisasses. Esperas que a receita faça efeito. Percebes isso quando os ruídos na rua se vão diluindo, e que os teus pensamentos são já delírios. A corda laçada espera por ti, a alguns centímetros da mesa.

Então, decides subir a cadeira e passas o inseguro e improvisado degrau entre uma e outra. A corda roça-se na tua nuca. Enlaças-lha no teu pescoço. Insinuas com um pé como que a descer à cadeira, consciente de que esse degrau fora uma ilusão que criaste. E estendes o corpo: o pé resvala, como previas, e ficas pendurada por um garrote que te suspende a vida do corpo por segundos até deixares de ser.

O telefone voltou a tocar, insistentemente. Nunca pudeste saber se seria outra chamada de marketing.


_
foto de Anton Rouk

Comentários