quando tudo de novo cresce


Torna a cair de amores e o acto de apaixonar-se é tão volátil em si. Observa atentamente cada mulher que cruza consigo, uma, duas vezes. À terceira, desfaz-se em ternuras desmesuradas, observando-lhes o cruzar das pernas naquela voluptuosidade que o absorve em ansiosas tremuras.

E depois o ritual cumpre-se entre as chuvas e o sol, como se perdesse a noção de todos os clichés das estações. Pois nada disso lhe interessa, se elas são o céu e o ano, e os relógios parados numa madrugada qualquer. Imagina sempre o feno crescido de maio em seus ventres, castanhas de outubro em seus olhos.

Todo aquele mundo só dele entre elas se completa na exultação dos meses mais quentes, mas sabe que, mesmo nos outros mais plúmbeos e frios, a sua ternura pelas mulheres não se esvai, antes o alimenta de um desejo diferente, uma sensualidade de espera.

Imagina a beijá-las de leve, naquele breve roçar dos lábios sem pudor, e sente sempre como se houvesse um esplendor de novos mundos fecundos entre ele e elas. Se os dias são mais frios, acrescenta ao quadro uma lareira para melhor aconchego, vinho de dois copos, e imagina os braços enovelando-se, roupas deixadas pelo chão, as mamas cheias e duras com a aflição natural das fêmeas, para depois as tomar por baixo do seu frenesi, arrepiado de paixão.

Vê nelas um brilho de ouro e cristal. Cada peito feminino como se fosse o braço da via láctea atravessado na sua cama. E por isso ignora o que o rodeia, nada se torna mais importante ou maior do que elas. Quer servir-se do paladar de fruto que emanam da pele. As melenas soltas são brisas de qualquer latitude, assustando as sombras polutas do seu quarto.

Porém, quando consumado o fogo e os corpos adormecem, apartados e já sem pretextos

(uma e outra vez, como tudo se repete quão são efémeras as suas paixões)

deixa cair a chuva para seu espanto, despertado por um frio agreste que o remete para a ausência, abandonando quem seduziu. Torna a cair de amores pouco depois, porque o acto de apaixonar-se é tão volátil. Se nenhuma outra lhe cruza o olhar, fica a cismar, recriando quadros antigos. Para acreditar que elas nunca saíram, ou que ele jamais partiu delas.

E estará sempre no encalce de qualquer rabo de saia, como quando tudo de novo nele cresce.


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foto de Tatiana Shepeleva

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