anatomia íntima
O tempo é um equívoco, e o futuro é-o ainda mais, pela suspeita de ilusão – quantas são as expectativas que pode criar. Não sei se os teus lábios geram apenas palavras concebidas pela tua voz, ou se querem afirmar-se com um beijo sobre os meus. Considerando o equívoco e a ilusão, sou inequívoco no que realmente desejo: as palavras gastam-se, sobretudo quando mal proferidas; e eu prefiro a acção.
Não sei onde deixar quietas as minhas mãos. Se defensivas no escuro dos bolsos, se apreensíveis em tortura, quando enlaçadas com a convulsão branca dos nós nos dedos ansiosos, ou se ainda, por contrição, juntas para rezar por melhor sorte na vida – o que seria um equívoco do que sou.
Ficando com as mãos nessa incógnita, nem me esforço por inquirir o meu pénis, mesmo nos momentos aflitivos de alívio da bexiga. É ele uma península de mim, que se alarga com sonolências de gato. Sempre lhe conferi atributos de felino doméstico: parece ronronar, espreguiça-se e volve à sonolência. Deseja não ser incomodado. Evoca uma quase blasfémia se o contrario na sua quietude, à semelhança de um deus muito caprichoso. Prefiro não o incomodar enquanto dorme, ou simula dormir.
Mas sei o quanto lhe faz falta a tua vulva – como se fosse saudade. Sente-lhe a falta como a de um chocolate quente que se deseja tanto em pleno inverno – altura em que lhe é difícil dar-se a ver, acatado que fica com o frio. Fora isso, faz-lhe sede só de imaginar a tua púbis, e fica saciado quando em sonhos lhe faço lembrar o quente da tua boca do corpo, apelativa de desejo.
Faz-lhe fome pensar nela
(púbis, vulva, vagina – apenas palavreado anatómico, tudo para ele se resume ao que há entre as tuas coxas)
e fica excitado só imaginando que eu a mordo. Dá-lhe saudade ao evocá-la. Fico enfastiado com isso, como se a tua vulva fosse um corpo diferente do teu, do corpo onde também tens pernas, braços, peito, cabeça. E olhos, os olhos principalmente, únicos competentes da tua anatomia para saberem o quanto eu sinto a falta de ti.
Estou assim, com metade do cigarro queimado e o copo ainda cheio
(nem sempre me apetece beber)
e tenho consciência do equívoco presente. Curioso sentir que estar assim me pareça mais recalcado do que remoer uma memória do passado, e do que a pior incógnita que o futuro possa propor. Sinal de que, ao contrário do que dizem, nem sempre um homem pensa só com a cabeça de baixo.
Até porque o meu pénis se ofende perante isso: quando o procuro, ao rever fotos tuas, ele nem sequer mexe; recusa-se. E eu acabo resignado, embora ressentido. O coração queria os teus lábios em acção, e é por aí que vou, adormecendo para sonhar. Talvez a nossa anatomia íntima se encontre nessa circunstância; e ambas as minhas cabeças acordem, sossegadas, sem pensar no equívoco do tempo, adiando expectativas, mas sem nunca adiar a saudade.
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foto de Jan René Simonsen

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