contrariedade do senão


Apontaste-me o caminho com a precisão de quem sabe onde dói, para logo a seguir me retirares o chão. No teu indicador, pude discernir tanto a resolução de uma despedida como a promessa de uma esperança. E, sem senão, acabei por perceber em ti um amor caído, esmagado por essa tua negação peculiar – de que sempre tive consciência. Acontece que sempre vivi de esperança, subentendendo pretensiosamente as entrelinhas que te contradizem.

A minha ânsia não conhece o verbo desistir. Continuo aqui, viva, a tentar morder e contrariar a tua negação – barreira que decidiste impor só para atrasar a minha intenção de te convencer do nosso inequívoco amor.

Ensimesmada, continuo-me em ti. Volvi a escarnecer fundo sobre todos os teus intentos de fugir de mim. Sei que acabarão inúteis, vazios.

Poupa-me a esse teu falso escarninho. Em vez disso, considera a misericórdia, se é que a conheces. Porque a maldição que lanças acaba sempre por me fazer retornar a ti, cravando-me na tua pele como um carimbo indelével.

Senão, hão de julgar-te como um homem sem amor, infame, gélido, preocupado apenas em resguardar-se num ninho estéril. Esse lugar cinzento onde a tua única perícia é a de chocar, sem fêmea cúmplice, cada um dos teus ovos – como qualquer senão descartável e infértil.

Redime-te, esquece o senão. Eu a ti e tu a mim pertencemos. Vais continuando a fugir?


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foto: Atelier Lawrence

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