num poema
Hás tu diluído no calor desta madrugada, em plena praia sem ninguém. Percebo que a suave penugem da minha nuca seduz o teu olhar, pescando em lentos mergulhos de ternura num poema que invento. Derramo-me sobre ti, aceitando o teu contorno, vestindo a tua pele com o meu abraço de vento e maresia, enquanto o gin tónico nos refresca em pequenos goles. Sinto o gelo do copo e o calor dos teus olhos; o travo ácido que te desperta e a doçura que se demora na tua boca.
Há estrelas na abóboda limpa, o marulho na escuridão, temperando a tua sede com o orvalho dos beijos com que te molho a pele, alvorada antecipada na ponta da língua.
Tomba o copo sobre a areia e levas aos lábios a noite transpirada no meu pescoço. Os teus dedos curiosos insinuam-se pelo segredo do meu corpo, provocando-me um arrepio ardente, onde cada toque teu redefine as minhas linhas e incendeia todo o meu corpo, como o som de um piano líquido refrescando a madrugada, pianíssimo de sal e mar nocturno, onde os meus dedos também te dedilham as costas, arrancando os mais graves acordes à nossa urgência.
Tropeças com a cabeça na almofada quente da areia; e os meus cabelos são água que te submerge e te liberta, envolvendo o teu rosto em sopro e mistério, ondas espumadas de frescura, mimetizando o ritmo do mar que nos envolve. Avanço e recuo sobre o teu peito, e vejo a lua reflectida no fundo dos teus olhos.
O meu corpo estendido sobre o teu como duna, exalando o perfume natural da carne e do sangue. Sinto como pulsas, e entrego-me como o estuário que procuras para cresceres em mim. Recebo-te inteira, entre abismo e vertigem, e fecho os braços sobre a tua audácia, prendendo-te no desejo que te tenho como península.
Somos cada nota do piano que nos acrescenta, até que seja dia e a luz nos surpreenda, fundidos no mesmo acorde, pianíssimo.
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foto de Marc Delécluse


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