não exageres
Não exageres: o sol foi tragado pela sombra, corrente de oeste, negras nuvens ameaçando chuva, e as cortinas nas janelas ondeando. O teu gesto sobre a solidão. Esperas pelo trovão, após inusitada faísca aflitiva. Mas os cães farejam outra coisa. Os gatos na tua cama, enrodilhados, resumem a sua indiferença. Há ainda a loiça deixada após o almoço de peixe. Que comoção funda te consome o pensamento? Afinal, há ainda sol, mesmo que aligeirado. Colocas a cabeça fora da janela e conferes: apenas o poente, desnivelado daquela corrente. Não sossegam as cortinas. Nem os cães latindo por outra coisa. E ainda não despertam os gatos. Que esperas? Não exageres. Só porque é fria a solidão? Esquentas a tua sopa, um jantar descongelado de há dias. Sopras, dás a colher à língua, e dizes que bom que é uma sopa, indiferente ao calor, e a quem vai aos restaurantes para vespertino repasto. A tv anunciando o que já tão bem sabes do mundo. O mundo que não sabe de ti, nem cabe em ti. Só em ruas desertas por onde, na última madrugada, insististe caminhar. Qual foi a vantagem em teres deitado manhã e tarde a dormir? Ainda que as cortinas continuem agitando-se, há sol bastante para um crepúsculo de verão. Não exageres: as nuvens atravessaram, só continua a corrente de oeste, esfriando a noite que virá e inundará o teu quarto, com tantas janelas abertas. Que mais poderias ter? Estás longe da multidão e da verve que sempre te inspirou. Dorme. Sabes que há-de surgir sempre um outro dia. Mesmo quando desistires de testemunhar como o sol se põe, e como a madrugada diz mais do que qualquer multidão. Queres morrer e fazes por isso nada, cobarde da dor. Se isso não te afligisse, os teus gatos despertariam exigindo ração, ronronando sobre o teu cadáver, sobre o teu drama. O consolo está em que o tempo não se sustem de qualquer fantasia ou condição tua: continua. Noite alta, darás a ração aos gatos e talvez os soltes para a predação doméstica no jardim. E ficarás consolado, com a tv sem som, brilho por toda a madrugada, a beber água gelada por uma garrafa de plástico. Portanto, não exageres.
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foto de Sergey Borisov

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